sexta-feira, junho 26, 2026

Estagnado

Há dias em que o tempo parece voar. Outros em que a cadência das horas se perde e tudo parece inanimado.

O tempo não é como uma linha reta, mas antes uma maré invisível que ora nos arrasta na sua corrente furiosa, ora recua, deixando-nos encalhados num areal de minutos imóveis.

É comum termos a noção de que a vida corre depressa, e há, de facto, dias em que o mundo gira com uma vertigem tal que as horas, os dias e meses parecem evaporar-se entre os dedos.

Mas depois, sem aviso, a engrenagem do relógio cala-se e o contar contínuo habitual das horas perde-se, e tudo ao redor assume uma quietude estranha, onde o próprio ar parece pesado e desprovido de vida.

Nestes últimos dias, tenho visto o tempo estagnar bem diante dos meus olhos. Não passa, assiste-me. Cada jornada transforma-se num deserto interminável que, na minha mente, ganha as proporções de longos meses. Os dias prolongam-se num labirinto infinito de pequenos afazeres, tarefas miúdas e automáticas que drenam a energia mas não preenchem a alma. É uma rotina de baixa rentabilidade interior, onde o esforço é tremendo e o fruto é quase nenhum. Sinto um peso físico e invisível ancorado ao meu peito, um fardo que desacelera o mundo exterior e me força a uma lentificação profunda em tudo o que sou. Cada gesto exige uma deliberação imensa, cada pensamento arrasta-se como se nadasse contra a corrente.

Estou suspenso no âmago de uma pausa forçada, à espera que o tempo recomece.

quarta-feira, junho 24, 2026

Sonolência

Ando com uma sensação de vazio, um eco persistente que ressoa nas paredes de uma mente que já não sabe o que procurar.

O relógio na parede já não dita as horas, limita-se a arrastar o tempo num compasso monocórdico, tão cinzento quanto a luz que me entra pela janela. Os dias sucedem-se uns aos outros, réplicas exatas de uma rotina sem relevo, como se precisassem de um estímulo qualquer, de um sobressalto grandioso que me arrancasse desta vida amorfa.

A sonolência, que outrora era apenas um cansaço passageiro e habitualmente pesado, transbordou e ganhou essa dimensão ainda maior, de um manto denso que me submerge e anestesia os sentidos. Flutuo num estado quase vegetativo de existência, onde os pensamentos se movem devagar, como peixe cego em água estagnada.

Não há dor profunda, mas sim uma ausência dela, num limbo onde o mundo exterior acontece lá fora, do outro lado do vidro, enquanto eu permaneço imóvel no meu interior.

Olho para as minhas próprias mãos e não lhes reconheço a urgência que outrora me acariciavam e me davam consolo. Sinto falta de energia, falta de vida, daquela eletricidade simples que faz o sangue pulsar e dá um propósito ao mais pequeno dos gestos.

Sou uma sombra que habita o meu próprio corpo, à espera que um sopro de vento ou uma faísca imprevista quebre este vazio e me devolva o direito de voltar a acordar.


segunda-feira, junho 22, 2026

Liberto-te de mim

Passei os últimos dias a pensar sobre a constante inconstância dos meus actos. No vai e vem de sentimentos e de palavras que confudem.

Nem sei bem como começar, como se a escrita outrora fluente, estivesse agora bloqueada. Mas sei que preciso de assumir o que o silêncio tem tentado esconder. Há dias em que a culpa pesa tanto que nos faltam as metáforas certas. Mas hoje, olhando para o vazio que ficou entre nós, e com uma frase que li, percebi finalmente com uma maior clareza.

"Como posso culpar o vento pela destruição que fez, se fui eu que abri a porta?"

Era eu quem te devia ter protegido, o teu coração, a tua paz do vento suave onde vivias e que desarranjava o teu cabelo. Em vez disso, deixei o vendaval do meu caos entrar e desabar o que tinhas de mais bonito. Foste tu quem sofreu o impacto de uma tempestade que nunca te pertenceu. E a verdade, nua e crua, é apenas esta, "pessoas confusas magoam pessoas incríveis."

Tu foste, e és, incrível em cada detalhe, na tua paciência, na tua sapiência e na tua luz. Eu sou apenas a confusão, o labirinto que não se sabe decifrar. Desculpa por não ter sabido fechar a porta a tempo. Desculpa por ter permitido que o meu barulho interno silenciasse o teu afeto.

Por saber o quanto te mago-o, percebo que o meu último ato de cuidado é afastar-me. Não te posso prender ao meu processo de cura, nem pedir-te que entendas como eu me organizo por dentro. Mereces que alguém seja abrigo, não tempestade. Liberto-te de mim, do meu desalinho e de qualquer obrigação de desculpar.

Fica bem, segue o teu trilho e guarda apenas o que de bom deixei como força para fazeres o teu próprio caminho.

Adeus

sexta-feira, junho 19, 2026

Opções que doem

A minha vida resume-se a uma sucessão ininterrupta de encruzilhadas, em que sou confrontado com a necessidade de fazer opções constantes no trilho que percorro. São os pequenos e grandes veredictos diários que desenham o caminho do que sou, moldando a cada momento o chão que piso. Entre os dias que de facto vivo no eco melancólico daquilo que nunca chegou a ser meu, vejo-me forçado a uma postura de combate perante os abismos que a existência me impõe.

Quase sempre, a escolha mais sensata é aquela que me abraça com a promessa de segurança e certezas vazias, ainda que tantas vezes me saiba a tão pouco. Fico ali, ancorado ao que já é meu por direito e pela rotina, mas secretamente sou assombrado pelo sonho de tudo aquilo que poderíamos ter sido. É essa incerteza que me seduz na penumbra, esse sussurro persistente de que o mundo pode guardar algo maior para mim, mais vívido e intenso, logo ali adiante.

Venho a perceber, nas lutas interiores da minha caminhada, que o amor não é um porto de abrigo onde simplesmente se deitam âncoras, é sim, o próprio mar, uma travessia implacável que exige um esforço diário, com suor da alma. Amar é uma construção contínua, nunca um dado adquirido e no instante em que assumo o amor como garantido, ele começa a desvanecer-se, resvalando para as mãos de quem me alimenta com miragens e ilusões.

Foi no diálogo, mas também no silêncio desta clareza que tomei uma das decisões mais difíceis da minha jornada. Descobri que a fidelidade não é um automatismo social, mas sim uma escolha dolorosa, profundamente íntima. Manter-me firme exige uma disciplina que magoa. É a dor crua de sufocar um desejo ardente, um vislumbre de prazer que me promete consolar daquela solidão que, paradoxalmente, tantas vezes se faz sentir na vida em comum.

No entanto, para salvaguardar o que me é verdadeiramente sagrado, e para não trair a versão de mim mesmo que ainda teima em acreditar na eternidade do amor, escolho a resistência. Terei de silenciar estas pulsões que me dominam, para manter vivo o que é eterno.

Terei de ser forte.

quinta-feira, junho 18, 2026

Saramago

Passaram 16 anos desde a morte de Saramago.  Pessoalmente não é um autor que me diga muito, pela sua forma muito confusa de escrever, nesse jeito de virar o português do avesso e revelar de forma absurda o que ele esconde, tornando-o profundo.

José Saramago é, por si só, um labirinto sintático desafiante, uma floresta densa onde a pontuação tradicional se dissolve e as palavras parecem tropeçar umas nas outras.

No entanto alvíssaras sejam dadas a algumas citações que marcaram e marcam, e que são de uma profundidade complexa que revela muito do ser de cada um.


"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."

"É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós."

"Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo."

"Se tens coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne e sangra todo o dia."


De facto, entrar na essência humana exige reconhecer que carregamos no peito um mistério sem dicionário, uma força silenciosa e sem pronúncia que define a nossa verdadeira identidade. Para decifrar este enigma interior e alcançar a plenitude dessa essência, somos obrigados a romper com o casulo do ego e a distanciarmo-nos das nossas próprias certezas, se tivermos coragem. Esta jornada de autodescoberta e emancipação não suporta a ansiedade dos passos precipitados nem a inércia dos dias vazios, exigindo de cada um de nós o equilíbrio perfeito de quem caminha com firmeza na urgência da vida. É neste percurso, feito de avanços e recuos no tempo, que a nossa vulnerabilidade se manifesta e se torna o nosso maior triunfo, uma sensibilidade exposta que recusa a rigidez de coração daqueles que se decidiram endurecer perante o mundo, mas que como o meu, se fizeram de carne, vivo, autêntico e profundamente humano que sangra todo o dia.
Saramago... um escritor que me tocou de forma muito improvável.

Revolta

Pela minha forma de ser, nesse desejo de ser aceite e apreciado por todos, alimentando uma necessidade de elogio constante, vejo-me recorrentemente a tentar ser o mais prestável possível. Desmultiplico-me em tarefas, abdico de momentos em família e de descanso, para dizer sempre sim a qualquer pedido que seja feito. E dada a minha profissão e a proximidade a um grupo de religiosos, em contacto com um dos locais onde presto serviços, sou frequentemente utilizado como médico pessoal de uma classe inteira que se julga privilegiada.

Ora, recentemente e por necessidade de organização de uma pequena festa familiar de celebração de 50 anos de matrimónio dos meus pais, solicitei de forma humilde e envergonhada, ajuda a um destes clérigos, que recorrentemente me pede ajuda. A resposta, foi um tanto, muito, surpreendente. "Procure nesta página de internet, o contacto que precisa". Que rica e preciosa ajuda. Que forma delicada e interessada em ajudar.

Pergunto-me se é correto, continuar a ser sempre o profissional, a pessoa disponível, para depois, num pedido de uma ajuda tão simples, ser encaminhado, para um caminho tão despersonalizado de apoio.

Puta que pariu.

A revolta que sinto, é mais interior, própria minha do que contra terceiros, por ser esse indivíduo que não diz não, quando intimamente o desejava fazer, alimentado uma visão de eterno disponível e até submisso, aos caprichos individuais de cada um.

Tento mudar, ser diferente, mas com receio de ser considerado arrogante, ingrato ou simplesmente mal educado. Gostava de, nestes ambientes socialmente mais conservadores, um dia ter a coragem de mandar alguns destes à merdinha, de onde no seu pedestal parecem habitar, tais enviados divinos se sentem, mas de coração podre.

Hei-de mudar... um dia.

quarta-feira, junho 17, 2026

Pulsões inefáveis

Há sensações que se explicam pela mecânica do corpo, mas o que sinto por ti escapa a qualquer lógica. É uma força que me puxa na tua direção, uma corrente elétrica que me domina os dias e me rouba o controlo dos pensamentos. Quando te vejo, não é apenas o meu corpo que se move e se agita com a urgência de te tocar, é a minha mente inteira que se rende à tua ideia, desenhando cenários de intimidade de dois corpos, onde deixamos de ser o que o mundo espera de nós.

Desejo-te como quem deseja um segredo partilhado no escuro, o fruto proibido de uma cumplicidade que só nós entendemos. Quero-te como minha amante, a personificação de uma fantasia que arde sob a pele e que não pede licença para existir. É um magnetismo bruto, carnal e absoluto, que me enche desse tesão duro, difícil de ignorar e que me consome por dentro e dita cada batimento do meu coração.

Esta atração que carrega o peso do proibido, a vertigem perigosa de cruzar uma linha sem retorno, de uma tensão constante em saber que não te posso ter à vista de todos, que cada olhar trocado é um desvio e cada pensamento contigo é uma traição às regras que nos cercam. Mas é precisamente esse perigo, o sabor clandestino do que está trancado no escuro, que torna o desejo ainda mais violento e possuidor. A proibição não trava o meu corpo, pelo contrário, incendeia-o.

Fisicamente, a tua imagem transforma-se numa reação inevitável, explícita e repetida. A urgência de ti manifesta-se de forma constante e desarmante, com ereções frequentes que denunciam o quanto me controlas, mesmo no silêncio dos meus pensamentos. O meu corpo endurece-se e reclama-te, respondendo ao teu perfume ou à simples memória das tuas curvas. É uma necessidade visceral de quebrar a barreira da pele, um desejo avassalador de estar dentro de ti, de me fundir no teu calor e de te possuir num espaço que seja só nosso, longe de qualquer julgamento.

Tentei encontrar palavras para descrever a exata medida desta atracção, a forma como a tua presença me destabiliza e como a promessa da tua pele me persegue. Mas a verdade é que esta urgência física e mental que me prende a ti, é de uma dimensão inefável. Não cabe em definições, não se traduz em frases e não se justifica perante ninguém. É um sentimento demasiado vasto e profundo para ser nomeado, que simplesmente vive em mim, avassalador, esperando pelo momento em que o teu corpo finalmente responda ao meu.



segunda-feira, junho 15, 2026

Velhice

Estou mesmo velho.

Com falta de algumas peças dentárias, que me nego a ir recolocar, retirando de mim alguma artificialidade.

Com o envelhecer da pele, do cabelo e barba, num ganhar progressivamente maior de manchas brancas no loiro dos meus pêlos.

Por um escroto descaído, como se fosse possível dar autênticas joelhadas em mim próprio, que só se resolve quando fico com essa excitação de ter comigo o prazer de uma mulher, como se as peles em excesso se deslocassem para um outro lugar, dando crescimento ao corpo.

Pela necessidade crescente de descanso após noites de trabalho, como se a sesta fizesse parte de uma rotina.

Para complicar mais a situação de uma decadência visual inevitável, a única manifestação física de alguma juventude, vem desse acne juvenil, que teima em não me abandonar.

Mais uns degraus para a velhice...

domingo, junho 14, 2026

Miudezas

Perante a imensidão de tudo, que sentido toma todas as nossas dúvidas, perguntas e incertezas?

Contemplar tudo o que me rodeia, olhar à noite e ver o céu que me esmaga, de uma dimensão implacável mas, no entanto calma e serena. Olhar para cima e saber, com uma certeza que me gela e fascina, que aquela imensidão negra salpicada de luzes antigas não quer saber de mim. O Universo estende-se num tempo que não consigo medir, desenhando maravilhas numa tela infinita onde cada estrela é um milagre e cada galáxia um sopro. E eu aqui, tão dramaticamente finito, tão ridiculamente pequeno.

É estranho como passamos os dias a erguer monumentos de ansiedade, a carregar o peso do mundo nos ombros, a chorar as perdas como se o cosmos e a dimensão de uma espiritualidade divina estivesse de luto connosco. Ou noutros momentos a celebrar as nossas pequenas vitórias como se os astros aplaudissem de pé tamanha insignificância.

Agigantamos os nossos medos como se fossem maiores, os nossos desejos como se fosse insaciáveis e os nossos pequenos dramas quotidianos como se fossem únicos. Criamos autênticas tempestades em copos de água e esquecemo-nos de que o próprio oceano onde flutuamos é apenas uma gota invisível na imensidão de tudo.

Tudo o que me tira a serenidade necessária de viver em paz, seja pela pressa do mundo, o receio de falhar, o orgulho ferido de arriscar e perder, ou o simples anseio pelo amanhã, tudo isto, não mais é do que miudezas, dessa poeira cósmica suspensa num raio de sol, como dizia Carl Sagan. Desperdiçamos tanta vida a tentar dar uma dimensão eterna àquilo que é efémero e reconhecer esta pequenez, não deve trazer amargura, mas sim um alívio.

Se sou um sopro num tempo sem fim, então os meus erros também o são. Se os meus problemas são minúsculos perante a grande criação divina, posso finalmente respirar tranquilamente, por essa beleza libertadora em aceitar que sou pequeno, que me livra da obrigação de ser gigante, um santo e me devolve o direito de ser...

...apenas humano.

sexta-feira, junho 12, 2026

Vida adiada

A caminhada da vida não exige de nós uma velocidade vertiginosa dos ventos, mas a calma firme dos passos seguros. Não tenhamos pressa, mas tenhamos rumo, pois a pressa costuma cegar os olhos para as belezas do caminho e para as lições dos tropeços. Há uma sabedoria oculta no tempo de maturação de todas as coisas. Compreender que demorar é diferente de se perder, traz a paz necessária para acalmar um coração ansioso. Tal como o rio que serpenteia longamente entre as montanhas e que não está perdido, está apenas a desenhar o seu próprio leito antes de se entregar à imensidão desconhecida do oceano. Cada curva e cada pausa têm o seu propósito, contanto que a direção final permaneça clara na mente de quem faz a caminhada.

É na beleza simples dos dias comuns, quando os frutos ainda não são visíveis e a sua colheita parece distante, que se constrói-se o verdadeiro caráter. Se ainda não dá para sermos exemplo pelo resultado, que sejamos exemplo pelo esforço. A dedicação diária é a força invisível cheia de luz que rompe na escuridão. É no suor do trabalho, na repetição sistemática de gestos bondosos e na escolha de continuar, mesmo quando quase ninguém está a olhar, que o caminho que nos está destinado se molda. Dia após dia de rotinas e num momento, tudo muda. A colheita que parece súbita é, na verdade, o culminar de mil madrugadas de espera. A grande transformação nunca acontece por acaso, ela é o estalar inevitável de uma estrutura pacientemente edificada.

Por isso, desfaça-se das ilusões de que o futuro trará uma versão mágica de si mesmo para resolver o presente. Chega de esperar por quem já você é. A força que procura, a coragem que deseja e a sabedoria de que necessita não estão guardadas num amanhã distante, mas já presentes no seu peito, agora. O gigante que aguarda o momento ideal para despertar já habita na sua essência, por isso, assuma a responsabilidade pela sua própria história, calce os sapatos da determinação e avance com a certeza de que o rumo certo já está traçado sob os seus pés.

Chega de esperar por quem já você é.

quinta-feira, junho 11, 2026

Semente

Ao refletir sobre projectos profissionais que se avizinham e recordar o processo alegórico da semente de trigo, decidi explorar esse mecanismo de crescimento interior de uma semente que deitada na incerteza da terra, decide germinar no seio de cada um de nós.

O destino de um projeto assemelha-se ao ciclo silencioso do trigo deitado à terra. Lançar uma ideia ao mundo é um ato de fé, onde o semeador abre a mão e aceita a soberania do solo. Cada semente carrega em si a promessa do fruto, mas o seu sucesso nunca depende apenas da força do seu próprio germe.

Há grãos que caem no terreno árido da pressa, da indiferença ou da falta de recursos. Nessas fendas de pedra, o destino parece traçado para a morte. No entanto, é precisamente na dureza desse chão que se manifesta a resiliência mais pura. Algumas sementes, teimosas por natureza, recusam-se a secar de imediato. Elas gastam a sua pouca energia a procurar fendas invisíveis na rocha, estendendo raízes milimétricas em busca da humidade escondida. Nos projectos pessoais e de trabalho, esta resiliência é a capacidade de sobreviver à escassez, de adaptar a estratégia e de resistir ao inverno da vida. É o esforço silencioso de quem, mesmo sem condições ideais, luta para manter a ideia viva dentro de si até que o tempo mude.

Por outro lado, as sementes que correm a feliz sorte de encontrar o solo generoso enfrentam um desafio diferente, mas igualmente exigente. A terra boa é apenas o prólogo. O sucesso maduro nasce do suor da gestão diária. É aqui que entra o papel do cuidador, que não se limita a esperar a colheita, mas assume a responsabilidade do cultivo. Gerir é a arte de regar com disciplina, garantindo que não falte água, mas também que as raízes não apodreçam pelo excesso. É nutrir o solo com o conhecimento certo, podar as ervas daninhas que desviam o foco e proteger a cultura das pragas imprevistas. Sem este esforço estruturado e estratégico, até o melhor terreno desperdiça o seu potencial.

Só quando a resiliência no deserto se alia à excelência da gestão no solo fértil é que o milagre se cumpre por completo. A semente rompe a sua própria casca, eleva-se contra a gravidade em direção à luz e transforma-se. O que começou como um grão solitário escondido no escuro, destinado a morrer no esquecimento do subsolo, acaba, ao sol, por dar flor, dobrar-se em fruto e alimentar o mundo.

"Uma sementinha de trigo, caiu no chão e brotou..."

Projecto

Hoje convidaram-me oficialmente para coordenar um projecto, que irá ser apresentado proximamente aos seus beneficiadores e se for adiante, irá ser transformador de uma cultura que encaminha os doentes para os hospitais, sobejamente sobrecarregados.

Falar em serviços de saúde, é alargar uma resposta clínica, que vai além do Hospital ou do Centro de Saúde. É retirar os hospitais dos doentes (disse correcto), de forma a priorizar o seu tratamento em fase de agudização, ou de gestão de doenças crónicas, no local onde se encontram, nomeadamente nas residências de idosos, fomentando uma visão multidisciplinar e de articulação de cuidados de saúde, com intuito de melhorar a qualidade de vida de doentes na sua fase final.

É previsível que se criem inúmeras barreiras, para aquele que seria o objectivo ideal de todo o projecto, uma mudança de mentalidade perante a necessária limitação de cuidados. Mas para ter uma ambição mais moderada, será fundamental, capacitar as instituições ERPI de protocolos de actuação, vias preferenciais de contacto e de partilha de decisões clínicas que beneficiem o doente, sem recurso a obstinação terapêutica, encarniçamento diagnóstico que em nada beneficiam o doente e no conforto de cuidar e paliar.

E por isso me lembro sempre da alegoria da semente de trigo, sobretudo naquela que pode ser a perspectiva de sucesso de tantos projectos piloto. Dessas sementes de trigo deitadas à terra, em que algumas caem em terreno árido e que irão morrer, mas outras terão a sorte de cair em terreno bom, propício ao crescimento, e se bem cuidadas, regadas, nutridas, acabaram por dar flor e fruto.

Veremos como correrá, aquela que tem as bases para ser uma ideia revolucionária, de recentrar o cuidado do doente idoso frágil, naquilo que é verdadeiramente diferenciador, a sua qualidade de vida, ainda que possa parecer um pouco encurtada, mas será definitivamente mais dignificante.

Cada vez mais centro as minhas acções no Cuidar. Mas não tenho perfil de líder, para influenciar os outros na minha visão.

terça-feira, junho 09, 2026

No tempo certo

No teatro da vida, o enredo e todo o cenário envolvente parece pintar-se, tantas vezes, de um tom cinzento, onde as exigências do trabalho e as dores do coração se misturam numa tempestade que nos desgasta espiritualmente a alma. Nos dias longos, em que o cansaço pesa e as respostas parecem distantes, é preciso respirar calmamente e lembrar que o tempo tem uma sabedoria e um tempo próprio. Embora no hoje tudo pareça confuso e injusto, algures no caminho, no momento e no tempo certo, entenderemos todos os porquês de cada tropeço e de cada espera agonizante. A jornada atual não é um ponto final, mas sim uma preparação silenciosa para algo maior.

Esta fase negativa não define quem és, mas funciona como um espelho que revela a tua verdadeira essência de luta e resiliência. É no silêncio do isolamento que começas a mapear os teus limites, a reconhecer os teus valores inegociáveis e a perceber que a tua paz não pode depender de aprovações externas. No momento certo, no tempo certo, verás que este isolamento foi o solo fértil onde a tua nova versão ganhou raízes.

Nessa travessia, nem sempre precisamos de grandes eventos para recuperar a esperança, pois às vezes os milagres, tantas vezes imperceptíveis, são só pessoas boas, com corações gentis, que surgem para iluminar a nossa escuridão sem pedir nada em troca. São essas almas raras que nos devolvem a fé no amanhã, e nos oferecem abrigo quando nos sentimos incompreendidos pelo mundo. Afinal, quem te quer entender verdadeiramente, entenderá, mesmo que não digas sequer uma palavra, sabendo ler o silêncio dos teus lábios, do teu olhar e acolher a tua dor com pura empatia.
Não te desgastes a tentar provar o teu valor a quem não o consegue olhar, apesar de o ver, nem exijas uma atenção que deveria ser simplesmente espontânea. As melhores atitudes falam por si, ecoando através do respeito que nasce naturalmente e da consideração que não precisa de ser lembrada. O autoconhecimento transforma a forma como consomes a energia do mundo. Ao compreenderes o teu valor, deixas de mendigar espaço ou reconhecimento em lugares que já não te servem.

Agarra-te a essa verdade, mantém a tua integridade e confia que esta fase menos boa vai passar, deixando-te mais forte, mais sábia e pronta para os dias de sol que inevitavelmente irão voltar.
Esta crise atual é, na verdade, o teu despertar para uma vida com maior significado, onde a tua bússola interna passa a guiar cada passo teu com plena consciência e dignidade.

segunda-feira, junho 08, 2026

Assim... Bonita

No sossego retemperador do meu leito, onde o tempo parece prender a respiração, sou eu quem sente no peito esse canto carregado de simbologia. Ao ouvir a "Bonita" com a voz grave de Pedro Barroso, não escuto apenas uma canção, sinto a minha própria carne e alma transformadas num manifesto de um romantismo doloroso, que a pressa do mundo insiste em esmagar.

Eu não olho para o passado de uma pertença que nunca foi minha, mas vivo intensamente a tua ausência, nessa melancolia sagrada da forma como a tua beleza me ecoa no pensamento e em que cada sílaba do teu nome é um altar que ergo a ti. Para mim, as notas que saem das cordas de uma guitarra, não são música, mas sim o vento frio que agita as cortinas do meu quarto vazio, onde o teu perfume teima em não morrer. É a minha dor de existir num mundo que não te pode conter.

Sinto em mim o lirismo absoluto dos poetas antigos. A tua presença, o efeito avassalador que tens sobre a minha condição de homem, é uma força da natureza. Se fosse como um deles, diria, com todas as letras que só eles, na sua profícua forma de expressar o sentimento humano e da miserável existência de um amor impossível, que foste a tempestade que me arrastou a razão e me deixou o coração em ruínas vivas, que não te sei amar com moderação e que te amo com a fúria dos mares revoltados e, ao mesmo tempo, com a fragilidade de uma folha de outono que cai.

A voz de Barroso rasga o véu do meu quotidiano e arrasta-me para o abismo daquilo que sinto por ti. Uma forma de existência que prefere a agonia da eterna saudade à anestesia do esquecimento. Viver sob o teu feitiço é aceitar caminhar para sempre pelo crepúsculo.


Quando a música cessa, fico a sós com o meu desalento, percebendo que a maior beleza reside na coragem de chorar por ti. O teu efeito em mim é esta cicatriz aberta, um monumento eterno à dor mais bela da minha vida, a de ter sido homem o suficiente para te desejar até se extinguir o mundo.

Mudam-se os tempos...

Renascer é a arte de esculpir o presente sem negar a matéria-prima do passado.

"Mudam-se os tempos, muda-se o ser, muda-se a confiança". Ecoa dentro de todos nós esta pequena parte de um soneto de Camões, mudança essa que nos acompanha na caminhada de vida. Contudo, quem fomos recusa-se a desaparecer por completo. As nossas vivências antigas, sobretudo as feridas mais profundas, estão impressas na pele do nosso ser. Não se apaga a substância do que somos feitos e cabe perguntar. Será sequer útil esquecer o passado que nos moldou? O ontem não será o combustível indispensável para a transformação? Aprendemos com o que nos abraçou, mas aprendemos ainda mais com o que nos feriu. Olhar o passado de frente, com clareza, é a única forma de decifrar o presente e escolher o amanhã.

A nossa grande busca é a liberdade de sermos autênticos, únicos, imunes ao que não nos traz felicidade. Mas a realidade do quotidiano impõe-se. Como conciliar esse desejo com as asperezas da vida real e com a exigência de partilhar a existência com os outros? Mudar e evoluir não significa esquecer ou eliminar a dor, mas sim compreendê-la à luz da maturidade. Significa olhar os problemas nos olhos, acolhê-los na nossa história e impedir que eles governem os nossos passos. Ignorar o sofrimento é empurrá-lo para a penumbra do inconsciente, onde se transformará num casulo de repressões que ditará as nossas escolhas sem percebermos. Trazer essas sombras para a luz e desarmá-las é um processo doloroso, mas vital.

Esta mudança transformadora não acontece num dia ou numa semana. É uma travessia lenta, oscilante, marcada por tempestades emocionais, incertezas e momentos em que o desânimo nos faz querer desistir. Mudar exige um esforço imenso, caminha muitas vezes ao lado da ingratidão e da sensação de impotência. Nesses dias, valem-nos os portos de abrigo da memória e as pessoas que se tornam o nosso cais, aquelas que nos escutam com o coração e nos oferecem uma presença silenciosa e cúmplice ao longo de uma vida inteira.

Vivemos numa insatisfação perene. Eu sinto-o em mim, e sei que este sentimento é universal. Olhamos para aqueles que parecem possuir o mundo, os que usam máscaras de opulência, fama e poder e esquecemos que, por trás do brilho, há frequentemente um abismo de desilusão e perda de sentido. É desse espelho que nasce a verdadeira empatia, a capacidade de intuir a dor alheia, mesmo quando ela se esconde atrás de uma cortina de aparente felicidade.

Compreendo perfeitamente que desatar este nó psicoemocional, atado por anos de dores antigas, críticas alheias e expectativas impostas, seja uma tarefa aparentemente impossível. Carregar o peso de não se sentir compreendido pelos seus magoa profundamente. Mas a grande viragem acontece quando aceitamos que o passado nos pertence, sim, mas já não nos governa. 

A nossa história faz parte de nós, mas o peso que ela exerce sobre o nosso peito é, finalmente, uma escolha nossa.

domingo, junho 07, 2026

O psicoterapeuta

Tenho-me encontrado recorrentemente a ser terapeuta de uma psicóloga com quem trabalho, tal pregador de missa a padre, que com palavras motivacionais, tenta dar propósito a objectivos profissionais pouco claros e que vejo terem impacto num bem-estar pessoal. Perante o desespero em lágrimas de uma insatisfação profissional e com ideação que a determinado momento me parecia de um vazio de vida, vi-me obrigado a intervir, com receio de algum desfecho mais dramático.

E têm-me saído expressões, recursos e ferramentas que desconhecia ter, em estados que não têm muito de diferente do lema popular: "faz o que digo, não o que faço".

Num momento de fim de um "retiro" programado em família (marido e filha), para retemperar energias, escrevi o seguinte:


"Estimada R...,

Escrevo no limiar de um silêncio que está a terminar. Nuns dias de paz, que espero terem sido de resgate de energia para os dias em que a luta se voltará a instalar.

Sei que os seus dias se converteram numa engrenagem impiedosa, onde o trabalho e a existência pesam como chumbo sobre os ombros. Evoco, contudo, a sua memória para que, no meio do ruído, seja a quietude destes momentos de descanso e serenidade, lugar nascente de toda a sua força. É nesse reduto intocado que deve colher a energia para os dias de combate.

Não me refiro, bem sabe, a uma contenda erguida sobre a violência flagrante ou no desgaste surdo da mente. Falo antes de uma revolução íntima, guiada pela lucidez do discernimento. Que no epicentro da agitação diária, quando o mundo exterior conspirar para o seu desalento, saiba desacelerar o passo e descobrir aí os trilhos da autocompreensão e da empatia profunda, num olhar generoso que perdoa as suas próprias falhas e decifra o enigma do outro.

Permita-se a que uma claridade discreta guie os seus passos na penumbra. A felicidade que persegue não se extinguiu, permanece apenas resguardada, invisível mas soberana, à espera que a resgate do quotidiano.

Mantenha o olhar fixo no horizonte dos seus propósitos e objectivos. No tabuleiro de xadrez do destino e da vida, a dor é efêmera, pois basta o triunfo de uma batalha, para apagar de uma só vez, a memória de todas as derrotas passadas.

Que a paz seja o seu escudo, refúgio e alento."




sexta-feira, junho 05, 2026

Força do hábito

Estar sempre disponível acaba com o valor da presença e com o tempo, há distâncias que se criam com pessoas demasiado presentes.

Olho para ela e pergunto-me em que momento a descoberta deu lugar ao hábito. Sabemo-nos de cor, conheço o ritmo da sua respiração antes de adormecer, o tom de voz com que reclama dos dias longos, o modo como pousa a chávena de café e há um sossego imenso nisso. Mas esse sossego, às vezes, assemelha-se ao silêncio de uma casa onde já nada muda.

O fascínio vive daquilo que não se consegue prever. Lembro-me do início, daquela penumbra onde cada palavra dela era um mistério por desvendar, um segredo que me exigia atenção e cuidado e perceber que o encanto não nasce do que o outro esconde por maldade, mas da distância natural que se esconde entre duas almas. Era essa distância que me mantinha desperto, numa urgência clara no desconhecido, no desejo, que afinal não quer controlo, quer a busca.

Hoje, a repetição dos dias baniu o inesperado e tornámo-nos reféns de um convívio sem tréguas. E é aí que a verdade se impõe, despida e nítida. Estar sempre disponível acaba com o valor da presençaQuando o acesso é total, o encanto da revelação desaparece, se o outro está sempre ali, deixamos de notar a sua chegada.

A minha presença tornou-se para ela algo garantido, essencial, sim, mas invisível. E a presença dela, para mim, corre o mesmo risco de se tornar apenas um elemento do quotidiano. O excesso de convivência desgasta o valor do olhar e para que o afeto permaneça vivo, é preciso dar espaço à saudade. O amor duradouro enfraquece quando perde a capacidade de surpreender, a menos que saiba valorizar o momento do reencontro. E só há reencontro para quem se permite, por vezes, afastar.

Quero ser surpreendido todos os dias por ti

quinta-feira, junho 04, 2026

Estritamente necessário

Disseram-me, com a leveza de quem observa de fora, que tenho capacidade de organização, já outrora, em outros locais, reconhecida. Elogiam-me a destreza de não estender gestos ou o tempo além do estritamente necessário. Mas nesta profissão que escolhi, ou melhor, que me escolheu, a precisão do relógio é uma faca de dois gumes. Olho para as mãos que pedem ajuda, para a quantidade de doentes, para os rostos que esperam por mim, e a dúvida instala-se, fria. Na medicina, onde começa e acaba o necessário?

Se o necessário for apenas o que dita a cura biológica, o corte cirúrgico preciso ou a dosagem exata de um fármaco, então a organização é a minha maior virtude. Seria o mecânico perfeito de uma engrenagem viva. Mas o corpo humano não é uma máquina isolada, vem sempre acompanhado de uma biografia, de um medo primordial, de um silêncio que grita por socorro.

Propõem-me que faça o essencial, que corte o supérfluo. E aceito a premissa, pelo que eu entendo como supérfluo e acessório. O supérfluo é, por definição, tudo o que não acrescenta valor, o que não faz o outro ficar melhor, o que não cura nem pacifica a dor. É o ruído burocrático, o exame redundante, a pressão de um sistema cego. Tudo isto, a organização deve purgar.

Mas há um perigo latente em confundir pressa com eficácia. Aquilo que o cronograma institucional rotula como "excesso", como os dois minutos a mais para escutar o luto de quem fica, o toque no ombro de quem recebe um diagnóstico definitivo, a explicação repetida na linguagem de quem não entende de ciência, mas entende de dor, não é supérfluo. Se esses minutos acalmam o acelerado batimento cardíaco da angústia, eles curam. E se curam, tornam-se sagradamente necessários.

Não quero que a minha capacidade de organização seja uma armadura que me afaste da cabeceira do doente. Quero que ela seja a ferramenta que me liberta do que é estéril, para que me sobre tempo para o que é humano. Não estender além do necessário deve significar, afinal, não perder um único segundo com o que não alivia o sofrimento. Porque, no final do dia, a única contabilidade que importa na nossa profissão é a da dignidade que fomos capazes de devolver a quem sofre. E...

...a dignidade nunca aceita contagem decrescente.

quarta-feira, junho 03, 2026

Status quo

Há momentos na trajetória profissional em que o cansaço deixa de ser apenas físico e passa a ocupar todos os espaços da alma. Na hora em que o despertador toca ao mesmo tempo o peito aperta, desenha-se um diagnóstico invisível, a utilidade e a felicidade, que antes caminhavam juntas no quotidiano laboral, divorciaram-se.

Na perspetiva psicossocial, o trabalho não é apenas o cumprimento de tarefas em troca de um salário, ele constitui uma parte central da nossa identidade, da nossa validação social e do nosso sentimento de pertença e realização. Quando o ambiente institucional se torna rígido, cinzento ou indiferente ao valor humano, a dimensão profissional começa a murchar e o mais doloroso nesse processo é o apagamento da própria autoimagem. Imersos numa rotina que já não reconhecemos, passamos a duvidar das nossas capacidades, esquecendo o impacto positivo que a nossa presença gera nos outros. Nas raras vezes é preciso que alguém de fora nos recorde que as borboletas não vêem as próprias asas, mas todo o mundo vê a beleza delas, e que connosco é igual. A beleza do nosso empenho, a delicadeza do nosso trato e a força da nossa competência continuam intactas, ainda que o espelho do local onde trabalhamos esteja demasiado partido para refletir o melhor que somos. Como se a sombra obscura desse local que outrora nos dizia tanto e nos tornava felizes, cobrisse agora a luz que possuímos, consumindo-nos por completo.

Permanecer num lugar onde o sofrimento psicológico superou a realização profissional é insistir num ciclo de desgaste sem saída. A psicologia social ensina-nos que o meio molda o indivíduo, e insistir na permanência em contextos tóxicos ou estagnados, na esperança de que as coisas mudem por milagre, é uma armadilha emocional. Afinal, uma pessoa não se pode curar no mesmo ambiente que a fez adoecer. Nenhuma terapia, resiliência ou esforço pessoal é capaz de florescer num solo que secou, onde as marcas de uma vida saudável, tentam a todo o custo ser apagadas por quem alimenta o status quo. A saúde mental e a dignidade profissional exigem que se reconheça o limite das forças e a necessidade urgente de novos ares, novos rostos e novos desafios. Partir, portanto, deixa de ser um ato de desistência ou de derrota e passa a ser o maior gesto de preservação do próprio ser. Quando olhamos para a nossa própria história com generosidade, percebemos que o amor também é saber quando partir. Esse desapego corajoso não se aplica apenas às relações afetivas, mas também aos ciclos profissionais. Encerrar um capítulo e procurar outro local de trabalho é, acima de tudo, um ato de amor próprio, uma escolha consciente de resgatar o direito de se sentir útil, feliz e, finalmente, inteira. Que este passo seja o renascer de uma primavera interior, onde cada novo horizonte traga a certeza de que a felicidade nunca se perdeu, apenas esperava pelo momento certo de voltar a guiar os nossos passos rumo ao lugar que onde se merece habitar.

"Encerrar um capítulo é acima de tudo um acto de amor próprio"
Rodrigo Pais, médico e... psicólogo

terça-feira, junho 02, 2026

Gratidão

Há momentos que surgem do inesperado e que na sua profunda simplicidade, vêm dar sentido ao que por momentos, de maior desgaste, parece ter sido perdido.

Há uns dias atrás, estava parado à espera que o meu filho acabasse de arrumar a tralha musical que carrega, sempre que é solicitado para animar mais uma cerimónia religiosa, eis que do nada um homem sensivelmente da minha idade me aborda. Como a memória que tenho é muito visual, não identifiquei o sujeito. E como me é habitual, mesmo não identificando de imediato uma qualquer pessoa, sorrio para não parecer desagradável, pensando desta feita que estava a olhar para um ex colega de escola.

"- É o Dr Rodrigo, não é?
- Sim sou.
- Talvez não esteja a ver quem sou, mas há pouco mais de um ano, salvou-me. Estou-lhe grato, devo-lhe a minha vida."

Confesso que demorei uns eternos 5 segundos a associar a pessoa a algum evento tão dramático e marcante.
E num momento de inicial surpresa, que rapidamente me emocionou, lembrei-me do jovem doente, entrado na Sala de Emergência por febre, confusão e agitação ao qual fiz de imediato uma punção lombar, sem perder um segundo e que rapidamente iniciou tratamento para aquilo que se viria a confirmar-se como uma meningite meningococcica.

Acabo por desvalorizar recorrentemente o que faço. Assumo como o necessário e natural na minha profissão, aquilo que é lógico e automático perante cada quadro clínico. Mas são estes momentos de uma gratidão pelo que nos é devido fazer, que são recompensa pelo que fazemos, mesmo em ambientes degradados, confusos e de uma dinâmica complexa que nos desgasta.

É pela vida renovada, de situações que ao atrasar diagnóstico e tratamento, poderiam ter um impacto enorme na vida e qualidade de vida de doentes, sobretudo jovens e autónomos, com uma vida longa pela frente, que me fazem acreditar no dom que recebi. E talvez, as pessoas que trabalham diariamente comigo estejam certas, não sei, ao me dizer recorrentemente até se tornar cansativo que a minha presença modifica tudo e todos ao meu redor.

Obrigado por fazerem do meu dia a dia uma bênção, por ser médico

segunda-feira, junho 01, 2026

Perfeição não existe

Na minha vida profissional já vivi algumas mudanças. Na profissão que tenho, ainda é pouco frequente a mudança. O trocar de local de trabalho, num certo hábito de se permanecer onde se fez formação e aí continuar. Sem lutas decorrentes da mudança, sem aventurarismos, e numa postura de resignação e conformação no adquirido.

Ainda que mais recentemente, já vai havendo quem troque a confusão segura de um serviço público, pela indefinição tranquila de um privado. Mas como, gosto de ser diferente e talvez mais autónomo nas decisões laborais, já conheci, ao longo de 20 anos de profissão médica, tanto o público em vários locais, como o privado, onde permaneci 8 anos.
E cheguei a uma conclusão. Não há locais perfeitos de trabalho. Todos têm os seus pontos positivos, que nos fazem querer permanecer, como os negativos que nos fazem querer ter ou ser mudança. Mas com a certeza que no momento de uma troca de locais, se vai com um espírito aberto, de receptividade que anima, mas que com o tempo, com os obstáculos criados, sobretudo pelos agentes da inércia, nada habituados a ondas transformadoras, virá a rotina do desânimo.
Com a convivência no reconhecimento dos vários trabalhos, lá vamos criando as balizas e as linhas vermelhas, de forma a sentirmos pertença a  um local e a uma tolerância saudável que nos faz seguir, evitando o confronto ao menor dos sinais, sem nunca nos conformar-mos de todo às rotinas, ao "deixa andar" que entorpece, mantendo alerta a vontade e o desígnio próprio.
E por isso, fez já mais de um ano, que voltei a um local onde vivi momentos bons e outros nada bons, com uma certeza de que, sou eu, na minha autonomia, que defino a liberdade de exercer a minha profissão, numa forma muito própria de entrega.
E é preciso um equilíbrio entre o querer mudar e o permanecer (não só na profissão)... porque a perfeição não existe.

domingo, maio 31, 2026

Aparências

Ter percepção da verdadeira realidade é uma maldição, um fardo invisível que me condena a assistir ao teatro do mundo com uma dolorosa lucidez. Entender os jogos da vida, observar as mentiras dissimuladas das pessoas e compreender os padrões falsos de uma sociedade erguida sobre aparências e ainda assim descobrir que, para sobreviver, é preciso muitas vezes calar a verdade e parecer idiota perante os outros.

A realidade crua é pesada demais para que a maioria consiga suportá-la sem desabar, e é essa fragilidade que faz com que tantos sintam a necessidade desesperada de viver com ilusões, alimentando-se de sonhos suaves e mentiras confortáveis que servem de anestesia contra o vazio e chamam a esse viver ilusório e alienado, felicidade, aprisionando-se de livre vontade na forma mais profunda de escravidão que existe, que é a dependência absoluta de se verem compreendidos e aceites pelos outros a qualquer custo.

E por tudo isto, sinto vergonha de mim mesmo, uma culpa amarga por não ter sabido jogar o jogo da encenação social, especialmente no momento em que entendi que a vida não passa de um grande baile de máscaras e eu, desarmado, cometi o erro fatal de aparecer com o meu rosto real.

A vida é um baile de máscaras, onde perante a sociedade, cada um encena um papel diferente da realidade que é.

sábado, maio 30, 2026

Raízes

O relacionamento humano move-se e evolui no intervalo entre a vertigem do instante e a segurança da permanência. A imaginação que orienta a vontade do encontro entre o homem e a mulher, faz-se numa dualidade dominada de traços de luz e de sombra, onde o desejo de liberdade frequentemente colide com a necessidade absoluta de pertença.

Há uma pulsão sexual enorme no encontro ocasional, no magnetismo que atrai dois corpos sem o peso do passado ou a promessa de um futuro. É um prazer fugaz de uma fogueira que arde rápido, alimentada apenas pelo oxigénio da novidade. Um jogo de espelhos desvirtuados onde cada um mostra apenas a sua melhor versão, livre das amarras do insosso quotidiano.

Contudo, quando desprovido de entrega genuína, esse desejo de estar, pode mascarar dinâmicas mais cinzentas. Há encontros casuais que nascem, não da liberdade, mas da vulnerabilidade mútua ou da assimetria de intenções. O espetáculo da sedução transforma-se, então, num teatro de desenganos silenciosos. A mulher que se entrega na esperança secreta de vir a ser a escolha definitiva, e o homem que calcula cada gesto, oferecendo apenas a quota necessária de afeto para aceder ao sexo crú que deseja. É o desencontro disfarçado de intimidade, onde dois comprometidos na ilusão de descomprometimento, dançam à beira de um abismo de solidão partilhada.

Amar verdadeiramente exige uma transição dolorosa, mas vital. A passagem da contemplação da flor para o cultivo da raíz. Apaixonar-se pela superficialidade, pelo perfume, pelas cores vibrantes da primavera e pelo entusiasmo inicial, é condenar-se à desilusão quando o outono inevitavelmente chega. A flor é efemeridade. A raíz é sustentação. Um relacionamento duradouro não se alimenta do que é vistoso, mas daquilo que se esconde debaixo da terra, na densidade dos sentimentos partilhados, nas tempestades superadas em conjunto e no silêncio confortável de quem já não precisa de impressionar.

Essa profundidade, porém, assusta. Num mundo moldado por superficialidades e convenções sociais, o excesso de sinceridade age como um elemento perturbador. Quem está habituado às máscaras da falsidade e aos elogios vazios recua perante a verdade nua de um olhar ou de uma palavra honesta. A transparência radical exige coragem, pois expõe as nossas próprias fragilidades, os nossos desejos, as nossas parafilias. As palavras desprovidas de filtro, tornam-se nesse instrumento cruel que pode ofender e geram um conflito interior entre a honestidade do pensamento e a obscenidade pornográfica do conteúdo.
Por isso, tantas vezes, a maior e mais violenta batalha não se trava nas discussões abertas, mas no território invisível da mente. Por trás de um rosto que aparenta serenidade, de um sorriso socialmente perfeito ou de uma postura inabalável, pode esconder-se um turbilhão de dúvidas, saudades e conflitos não resolvidos. Conciliar o que o mundo exige de nós com o que o coração verdadeiramente grita é a arte mais difícil da caminhada humana. No final, resta-nos escolher se queremos viver na superfície do que passa, ou mergulhar na raiz do que permanece.

Raízes fortes darão as flores mais belas e os frutos mais honestos

quinta-feira, maio 28, 2026

Que saúde esta

Que saúde é esta, que impede que pessoas à porta de um serviço aberto, não sejam admitidas, porque não fizeram um telefonema antecipado para uma linha telefónica que tarda em dar resposta e nada orienta, numa distância de quem está confortavelmente sentado atrás de um ecrã. 

A que ponto chegámos no estado de uma saúde que se pretendia acessível, universal e tendencialmente gratuita e que agora impõe limites ao acesso, privando de toda a dignidade as pessoas que necessitam de ajuda. Talvez não seja só o reflexo de um sector social, mas de toda a podridão que consome este pequeno país plantado à beira mar. Estaremos a ficar tão ocidentalizados, com desejo de transformar o que de melhor tínhamos, num reflexo do que é pouco oferecido em outros países, que de evoluídos só têm tecnologia, mas que entretanto perderam a alma que os definia? 

Foi como se recuássemos mais de 50 anos a um tempo onde a saúde não era para todos, só para os poucos que podiam usufruir monetariamente dela, onde o nascer e o morrer se faziam em casa, longe do ideal de cuidados que o mundo, cada vez mais técnico, mas pelo visto cada vez mais desumano, hoje oferece.

Que triste fado, nascer hoje português, lançado ao mundo num momento onde a sorte de estar no local e na hora certa determina a felicidade de ver luz, com a atenção que se impõe nos dias de hoje.

Que triste fado, morrer hoje português, com as assimetrias impostas pela falta de investimento crónico, deixando os serviços em gestão corrente, despojados de tudo o que é essencial, mas com uma curiosa obrigação de ser suporte em tudo em que os privados não têm interesse em oferecer. Essa Medicina pública que ficou com a despesa, deixando o que é lucro para a gestão privada.

Refundar o Serviço Nacional de Saúde, é no fundo, criar as condições reais e compensatórias para os profissionais se fixarem, mas com o investimento para manter excelência nos cuidados, porque de outra forma, ou a casa cai, porque ninguém fez a sua manutenção, ou cai porque ficou deserta.

Talvez o interesse outrora escondido, agora declarado, seja acabar com o acessível, universal e tendencialmente gratuito...


Peregrino na solidão

Quantas vezes sentimos que caminhamos sozinhos, peregrinos de um deserto próprio, avançando sob o peso de passos que mais ninguém ampara. É uma solidão que não se mede apenas pela ausência de quem deveria ser suporte, mas pela penúria de afetos, pela escassez de um abrigo onde a alma possa pousar e de sentir simplesmente contemplada, nessa forma necessária de aconchego. Sentimo-nos desguarnecidos nas trincheiras da existência, vulneráveis aos flagelos visíveis e invisíveis do mundo, seja na crueza do trabalho ou na intimidade violada do lar, onde a dor muitas vezes não nasce do golpe ou acção violenta, mas do silêncio cúmplice daqueles que se omitem.

Sobre os nossos ombros, parece desabar o veredito do mundo, a urgência de decidir, o fardo de executar e, no mais amargo dos cenários, a hercúlea tarefa de retificar os caminhos tortuosos que os outros traçaram.
Habitamos um tempo estranho, um teatro de sombras onde o aplauso é direcionado ao artifício e à máscara. A ribalta social alimenta-se de quimeras, gerando uma ilusão coletiva que hipnotiza as multidões, enquanto a nudez da honestidade e a pureza da palavra sincera são recebidas como afronta, recebendo em troca o escárnio e a hostilidade. Neste cenário de espelhos disformes, preservar a integridade torna-se um ato de resistência quase heroico. É ela que resguarda a nossa essência mais profunda, aquela capaz de tecer gestos desinteressados de generosidade, sem a premissa do ganho ou a vaidade do reconhecimento. São atos que, pela sua desconcertante simplicidade, operam prodígios onde a razão antevia o insucesso.

E talvez a Fé resida precisamente nesse vislumbre, a capacidade de contemplar a colheita do impossível antes mesmo de lançar a semente à terra. Como se o pulsar solitário de um único ser contivesse em si o sopro primordial capaz de reconfigurar todo o universo.
Não se ensina ninguém a ter respeito por nós. A forma como o outro te trata diz mais sobre ele do que sobre ti.

terça-feira, maio 26, 2026

Preguiça

Têm sido recorrentes os dias em que sinto uma vontade enorme de não fazer nada. Nada. Ficar só num estado vegetativo, a contemplar o vazio de pensamento. Talvez seja pelo cansaço acumulado. Pelas noites recorrentes de sono pouco profundo, de um constante sobressalto que não me deixa desligar totalmente da consciência e do estado de alerta.

No entanto, é mesmo nos momentos de maior exaustão, que numa luta inconsciente, se liga e liberta o modo automático de trabalho, alimentado pelos traços obsessivos de ver tudo organizado. É quando, mesmo num estado de quase esgotamento físico e emocional, lido com as tarefas domésticas, de cozinha, de acompanhamento escolar e de um sem número de pequenas situações que me consomem ainda mais. E não há sonecas que me valem para tamanha empreitada. É como se o meu dia normal tivesse essas 36h diárias e ali cabe, metodicamente, tudo o que fazer.

Pergunto-me de onde vem essa estranha energia, que no idealizado pela mente só me empurra para o leito do descanso tranquilo, mas que na realidade, me arranca do estado amorfo e me obriga a ser útil, prático e eficaz.
Digo em jeito de graça, que na morte terei tempo para o descanso, mas de facto, sinto-me a morrer lentamente no interior, com perdas de memória, actos falhados e uma certa desinibição pré-frontal que não era de mim.
Um dia... descansarei

Metamorfose

Durante anos, vivi no centro de uma tempestade que eu próprio alimentava. A minha mente era um mar revolto, açoitado por ventos, angústia e dúvidas perpétuas. Procurava respostas como quem procura um náufrago na noite escura, gritando contra as ondas, agitando as águas com desespero, mergulhando cegamente num turbilhão que eu mesmo criava. Quanto mais forçava o olhar através da espuma e das correntes, mais a verdade se diluía. Tudo era ruído, distorção e cansaço.


Um dia decidi sentar-me à margem de mim mesmo. Fechei os olhos e recusei-me a lutar. No início, a turbulência ainda insistia, trazendo à superfície detritos de pensamentos inacabados e medos antigos. Mas permaneci imóvel. Respirei o silêncio. Lentamente, o vento interior começou a amainar e as ondas perderam força. A agitação deu lugar a uma quietude quase esquecida.
Quando voltei a olhar para dentro, a metamorfose tinha acontecido. A água, antes turva e violenta, transformara-se num espelho perfeito e cristalino. Sem esforço, sem preces e sem fúria, as respostas que tanto perseguia emergiram do fundo, nítidas e intactas. Percebi, finalmente, que a clareza nunca esteve no destino que eu procurava, mas sim na coragem de deixar o meu próprio mar acalmar.
A verdade vê-se nas águas calmas e cristalinas

segunda-feira, maio 25, 2026

Homo erectus

Há uma nova definição para o conceito retirado da história do desenvolvimento humano.

O macho, ao ver o corpo nú da fêmea desta espécie humanóide, viu a necessidade de se levantar do chão e ficar com as mãos livres para agarrar os peitos sedentos, as ancas cheias, ficando erecto, dessa consistência pétrea, trabalhada a partir da carne.

Assim me vejo a andar continuamente, erecto pelo desejo de apertar com força para junto de mim o corpo ansioso de toque, de abraço, de ser acarinhado nas mais profundas entranhas do ser. De passar as mãos, em toda a sua liberdade pela pele suave e explorar gentilmente o prazer de uma mulher, nessa mistura entre erecção e toque, que a transporta para uma dimensão orgásmica.



domingo, maio 24, 2026

Relacionamentos gravitacionais

Há um cansaço silencioso que move os astros, uma fadiga feita de distância e de uma insistência antiga. No imensidão negra do cosmos, a Lua desenha a mesma curva há milénios, presa a um centro que nunca alcança, mas do qual jamais se liberta. Ela orbita a Terra com a fidelidade cega dos perdidamente apaixonados, gastando a sua luz reflectida num chão que mal repara na sua dança. A Lua não se cansa de insistir na proximidade.

A Terra, porém, carrega o peso desse olhar constante como um fardo invisível. Entediada da sombra que a persegue, exausta da maré que a puxa e do eterno retorno da mesma companheira, a Terra desvia os olhos. Não há nela espaço para a Lua. O seu peito de rocha e oceano arde por outra coisa. Cansada da Lua, a Terra corre desesperadamente atrás do Sol. Procura a luz que a queima, a gravidade que a governa de longe, o centro dourado que dita os seus dias mas que nunca se deixará tocar. É uma fuga concêntrica, uma perseguição eterna onde quem é amado ignora, e quem ama definha na busca do intangível.

Este bailado celeste é o espelho mais nítido da nossa própria insatisfação. Vivemos enredados na mesma geometria trágica dos afectos. Há sempre alguém que nos gravita, que nos oferece a constância dos dias, o conforto do abraço que já conhecemos de cor, a presença segura que se tornou paisagem. E nós, injustos e míopes na nossa humanidade, cansamo-nos dessa proximidade sem mistério. Olhamos para quem está connosco e vemos apenas o hábito, a rotina que apaga o brilho.
De olhos postos no horizonte, preferimos a vertigem do que está longe. Desperdiçamos a vida a orbitar sóis particulares, pessoas, sonhos ou passados que se esquivam de nós, que nos mantêm à distância exacta de uma miragem. Queremos o que incendeia, o que é difícil, o que se posiciona além das nossas forças. Alimentamo-nos da melancolia de não conseguir alcançar, como se o valor do amor estivesse na impossibilidade de o possuir.
Procuramos o Sol que nos ignora enquanto pisamos, distraídos, o solo da Lua que nos guarda. Condenamo-nos a uma eterna saudade do que não temos, incapazes de ver que a beleza mais rara não está na luz que nos cega ao longe, mas na paciência de quem aceita partilhar connosco a mesma escuridão.
O amor não se mede na intensidade da luz mas na proximidade do abraço diário

sábado, maio 23, 2026

Como um rio

Que sejamos como um rio, que corre incansavelmente e que derruba barreiras, pacientemente, pela força do tempo.

Como a água flui sem cessar, contornando ou desgastando os obstáculos que se atravessam no seu caminho, também a vida de cada um exige uma postura de resiliência silenciosa, onde a pressa do acontecer no imediato, dá lugar à persistência do ver a mudança transformadora paciente. Não é a violência do impacto instantâneo que molda a realidade, mas sim a insistência do agir contínuo ao longo dos anos, capaz de esculpir vales profundos nas dificuldades de montanhas e serras outrora monumentais. Seguir este curso de água límpida e transparente, significa aceitar o ritmo natural do tempo, compreendendo que as mudanças mais claras e significativas ocorrem de forma progressiva e muitas vezes invisíveis a curto prazo e que irão desaguar nessa imensidão que é o mar de oportunidades sem fim.

Ao adotarmos a sabedoria do rio, reconhecemos que cada pequeno esforço diário se acumula até romper as barreiras mais rígidas, guiando-nos com confiança e serenidade em direção à imensidão do nosso próprio destino.

"Água mole em pedra dura tanto bate até que fura"
ditado popular

sexta-feira, maio 22, 2026

Redoma que anestesia

Hoje a propósito de uma doente, que após ter sido sujeita a um aperto demasiado intenso, aquando um abraço que deveria ser de aconchego e conforto, ter ficado com dor nas costelas flutuantes, vi-me a transportar para o domínio da (des)construção da personalidade, essa dor que fica após o carinho que se dá em demasia.

O afeto que abriga em demasia pode, sem querer, sufocar o espaço onde a pessoa, como ser indivual, precisa de respirar e expandir.
O excesso de zelo no que se dá, ou recebe do outro, assemelha-se a uma redoma de vidro, que protege do vento, mas impede o voo. Quando o carinho se torna absoluto e constante, ele magoa. Não pela dor do impacto, mas pela subtil anestesia que provoca nos nossos sentidos. O conforto absoluto amacia as arestas da nossa determinação e adormece as aptidões que guardamos em estado latente. Na ausência de atrito, a engrenagem do crescimento pessoal simplesmente paralisa.
O verdadeiro motor da evolução humana raramente se encontra na calmaria. O que nos faz verdadeiramente crescer e lapidar o nosso potencial, é, porventura, o choque frio da desilusão e a aridez da falta de suporte emocional nas guerras interiores que lutamos. Quando o solo firme do amparo desaparece, o ser humano é obrigado a reinventar-se. É nesse processo de adaptação contínua que o mundo interior se reorganiza. A dor do desengano quebra as velhas estruturas e força o nascimento de uma nova força, mais resiliente e autêntica.
Esta perspetiva não anula a importância do amor. O afeto e o suporte diários continuam a ser o alimento essencial para a nossa integridade psicológica. No entanto, o carinho deve funcionar como um porto de abrigo, nunca como uma prisão dourada. Para que o desenvolvimento pessoal aconteça, é indispensável a existência de uma liberdade rebelde e saudável.
É este espírito de contestação e autonomia que permite a autodeterminação pessoal e individual. Sem o direito a falhar sozinho, a discordar e a enfrentar o vazio da própria solidão, não há azo à maturidade. O crescimento interior exige essa dose de audácia, a coragem de largar as mãos que nos seguram para descobrir que, afinal, sempre soubemos caminhar.
Já agora... vale a pena pensar nisto.

segunda-feira, maio 18, 2026

Tesão

Difícil é o caminho que nos leva à felicidade e integridade. Não que queira ser esse tipo de santo de pau oco, mas tenho tentado controlar aqueles que possam ser comportamentos desviantes.

Acordado, lá vou conseguindo assumir o controlo das minha pulsões. Mas durante a noite sou invadido por completo nos meus sonhos. Acordo às vezes para ver se partes, mas tantas são aquelas em que ficas por mais uns momentos e em todo o tesão que sinto, me acaricio a pensar-te junto de mim. Outras vezes partilho com quem está e sempre esteve junto de mim e nesse cenário montado de uma erecção férrea, damos azo a uma entrega simulada, que alivia sem asfixiar.

Tem sido mais frequente, agora que tenho expressado menos o que me passa pela cabeça de forma descomplexada, com esse filtro que recoloquei e que me devolveu o pudor que outrora perdera.

A porta que no passado se abriu, fez de mim essa pessoa que vê excitação em se mostrar excitado, cheio de tesão, duro por uma ideia de ter consigo um corpo proibido, em estar hirto dentro de.. sentir-te molhada e com desejo de mim.

Fica essa ideia, depravada por ser errada. Não que não seja consentida ou aceite, mas com toda a carga de uma entrega que por não ser total no afecto puro, se torna imoral e desonesta na nobreza que deve ser uma relação.

"Firme e hirto que nem uma barra de ferro"
Professor Alexandrino

domingo, maio 17, 2026

Monsieur cuisine

Há já longos anos, descobri em mim um talento natural para a arte da cozinha. Há dias, e também noites, em que desperto com a urgência de moldar algo inteiramente novo entre os tacho e panelas. Algo que eleve o palato a experiências sensoriais distantes dos sabores triviais do quotidiano.

Naturalmente, a realidade nem sempre acompanha a imaginação. Há dias em que a criação surge com o sabor de um manjar divino, embora embrulhada numa estética rude e artesanal. Noutros momentos, o prato exibe a beleza de uma autêntica obra de arte, mas esconde um paladar áspero e inacabado. Tudo isto nasce do desejo puro de esculpir pequenos grandes momentos à mesa.

Na ânsia de partilhar este legado e numa tentiva de me aliviar as tarefas, já dei por mim a orientar pequenos ateliês gastronómicos para as crianças da casa.

No fim de cada jornada, contudo, resta-me sempre uma dúvida subtil, se as palavras de elogio e o incentivo deste meu pequeno júri são o reflexo de uma admiração honesta, ou apenas um pretexto astuto para que eu continue entregue ao terno dever de preparar as refeições diárias da família.

Como diria o Chef Guestau, "Qualquer um pode cozinhar"


"Nem todos podem se tornar um grande artista, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar."

 Anton Ego
Crítico culinário, em o filme Ratatouille

sábado, maio 16, 2026

Olhar sincero

Gosto de pessoas que tenham verdade no olhar. E quão raro e precioso é encontrar um olhar que não precisa de máscara que esconda essas pequenas janelas, autênticas vitrines do coração e que tantas vezes denunciam o que a alma tenta ocultar. Um olhar sincero que descansa, que não mente, que não finge. Quando alguém nos olha com verdade, há um mergulho de breve eternidade onde a segurança se instala.

Gosto de pessoas que falam com o coração e que agem com respeito, que não usam as palavras para ferir ou manipular, mas para construir pontes. Falar com o coração é a poesia da empatia, onde a comunicação se torna cura interior. A simplicidade de quem age com respeito transforma o ambiente, provando que a verdadeira educação e a nobreza não se ensinam, sentem-se.

Gosto de pessoas simples, mas de alma bonita. Pessoas que não precisam de diminuir ninguém para brilhar. Não a beleza que seduz os olhos, física, mas essa beleza da alma que encanta o coração. A verdadeira força não brilha na escuridão alheia, ela ilumina a própria trajetória. Pessoas de alma leve têm o dom de fazer o nosso coração sorrir, espalhando leveza, como se a sua simples presença fosse um bálsamo de vida.

Gosto de pessoas que ficam quando é difícil, de quem escuta sem julgar, de quem tem presença, não só palavras vãs. No fim, quando a tempestade aperta, a presença física e emocional é o que nos sustenta. Escutar sem julgar é o maior acto de amor e respeito que alguém pode nos oferecer. Pessoas que ficam não são aquelas que nos dizem o que queremos ouvir, mas aquelas que, no silêncio, nos fazem sentir acompanhados.

Porque no fim, o que realmente importa é a energia boa que deixamos nos outros, desse conjunto de vibrações, que são âncoras de paz. Elas não drenam, elas somam. A verdadeira marca que deixamos não é material, é a sensação de conforto, de esperança e de carinho que fica no coração de quem cruzou o nosso caminho.

É preciso ter na nossa vida as pessoas certas e sermos nós próprios uma dessas pessoas também. Cultivar relações saudáveis, baseadas na sinceridade e no respeito mútuo, não é um luxo, é uma necessidade para a saúde da alma.