sábado, abril 25, 2026

O mito

Há uma estranha liturgia no regresso à casa onde o sangue se fez ciência. Entre as paredes do hospital, onde outrora aprendi a gramática dos corpos e que me tornou Internista, nasceu um mito que não pedi, mas que agora me veste como uma bata pesada e invisível. Dizem numa espécie de contágio verbal, tal pandemia de crença, que a minha presença possui a virtude alquímica de transmutar o chumbo da desordem no ouro da lucidez.

Olham-me como se eu fosse o eixo em torno do qual o turbilhão da urgência decide, subitamente, abrandar. Pedem-me a ordem, reclamam o arejamento do ar pesado, como se o estetoscópio ao meu pescoço fosse um cetro capaz de ordenar às marés de sofrimento que recuem. É um incentivo tingido de egoísmo. Querem que eu seja o farol para poderem descansar da escuridão.

Alimentam este folclore urbano de um superpoder que eu, na intimidade, desconheço possuir. Não sou um milagreiro. Sou, quando muito, um tradutor de ruídos. Mas a percepção alheia é uma força geométrica. Já nos inúmeros locais onde já trabalhei, onde muitos viam um abismo, tentava com uma forma muito própria de exercer e estar, fazer ver um mapa, transformando a equipa numa cúmplice silenciosa desta construção. Dizem que transmito uma calma contagiante, esse domínio sereno sobre o imponderável que parece apaziguar o metal e a carne.

Contudo, o que a lenda não conta é o preço da fundação. Erguer uma ordem no meio da tormenta degrada quem a constrói. Há um desgaste molecular em ser o ponto de fuga de tantos olhares ansiosos. É uma responsabilidade que pesa, que consome o oxigénio interno, exigindo uma energia que vou buscar aos poços cada vez mais profundos de mim mesmo.

A ironia final, o segredo que o mito não revela, é que eu não domino o caos para o destruir. Eu domino-o porque ele é meu irmão. É no centro da tempestade, onde o tempo se fragmenta e a vida se decide em segundos, que eu finalmente me encontro.

O mito diz que eu organizo o mundo. A verdade...

...é que é no caos que eu me reconheço inteiro.

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