Faz pouco mais de um ano que fechei a porta a oito anos de uma vida. Não foi apenas uma demissão, foi o encerramento de um ciclo onde o "eu" e o "nós" se fundiram numa construção que ia muito além de paredes e contratos. Durante quase uma década, vi e ajudei a erguer o que chamávamos de casa. Vi uma equipa que, perante a adversidade, se tornava rocha, coesa, íntegra, inabalável. Ali, o suor não era apenas esforço físico, era o cimento de um sonho partilhado que sentíamos como família, ao ponto de ali encontrar algumas, poucas, pessoas que senti minhas e que ainda hoje recordo com saudade e carinho.
Dizem que as instituições são feitas de pessoas, mas a verdade é que elas são feitas de entrega. E eu entreguei muito de mim, ao ponto de, ao sair, sentir que perdi muito do que fui. Por isso, dói recordar como esse refúgio se transfigurou, aos poucos, num terreno tóxico, onde o oxigénio da camaradagem foi substituído pelo peso da desconfiança.
Recentemente, chegaram-me ecos do que esse lugar se tornou. Dizem-me que hoje é um espaço impessoal, sem vida, sem aquele brilho nos olhos de quem ali entra. Ao ouvir isto, ocorreu-me uma imagem forte. A de um corpo físico que permanece de pé, mas cuja alma espiritual partiu.
A palavra "desanimado" significa, na sua génese, "sem anima", sem alma. É estranho e melancólico pensar que a minha saída, e talvez a de outros que ali colocaram o coração, tenha sido o símbolo desse abandono, desse desânimo. Como se, ao retirarmos a nossa essência e os nossos valores, tivéssemos levado connosco o sopro vital que mantinha aquela estrutura viva.
Hoje compreendo que as casas não são as paredes, mas o espírito de quem as habita. Quando a toxicidade expulsa a integridade, o que sobra é apenas uma carcaça mecânica, funcional mas vazia. Saí para salvar a minha própria alma, mas não deixa de haver um luto em saber que o corpo que ajudei a criar agora apenas deambula, sem rumo e sem o calor que um dia o fez ser um lar.
Às vezes, é preciso deixar um corpo para trás para que a alma possa, noutro lugar, voltar a respirar.

1 comentário:
A decisão de sair custa menos quando percebemos que a empresa ou o projeto já não são os mesmos. O que ficou para trás já não é aquilo que antes fazia querer ficar.
Enviar um comentário