Ontem, o tempo presente testemunhou o passado de meio século de um amor indomável. Os meus pais celebraram cinquenta anos de matrimónio que nunca se vestiu com a ilusão da perfeição. Entre aquelas quatro paredes do casamento, a história escreveu-se com os traços severos do mau humor do meu pai, a persistência irritante da minha mãe e os silêncios pesados, quase fúnebres, que por vezes assolavam a casa. Mas ultrapassaram sempre as diferenças e permanecem unidos meia centena de anos depois.
Na minha memória e dos meus dois irmãos, ficou gravada um momento, tal cicatriz numa infância assustada por uma tempestade maior. Recordo ainda hoje, uma discussão tão séria que ameaçou romper o mundo que conhecíamos. Lembro-me da presença de dois tios que surgiram tais conselheiros de paz no meio do caos. Nunca soubemos o motivo, mas como os problemas de vida em casal não são exclusivos de ninguém, assumi mais tarde que pudesse ter sido alguma infidelidade ou talvez apenas o peso da vida em comum.
Para celebrar esta união que desafiou as probabilidades, recusámos a opulência e as festas de arromba, algo que a minha mãe sempre rejeitou e numa cumplicidade fraterna de três irmãos, planeámos um segredo uma fuga de casa. Partimos todos, rumo a Braga para um fim de semana intimista. Ali, no recolhimento de uma eucaristia vespertina e à volta da mesa de um jantar digno da sua história, o amor manifestou-se na sua forma mais pura. Houve lágrimas de emoção, abraços de gratidão e uma grandiosidade humilde que uniu as doze almas da nossa linhagem, os noivos, os filhos, as noras e os netos.
O momento mais alto, contudo, foi desenhado pelo próprio destino. Naquela tarde, o Evangelho ecoou as parábolas do trigo, da semente de mostarda e do fermento (Mt 13: 24-46). E, num instante de revelação, percebemos que a vida dos meus pais era a tradução viva daquelas palavras escritas há milénios. O amor deles foi trigo fértil que cresceu corajoso no meio do joio das adversidades, foi o grão minúsculo de mostarda que germinou até se erguer como uma árvore frondosa, capaz de dar abrigo a quem ama e foi o fermento que levedou as três partes de farinha, para se transformar no pão sagrado que nos alimenta, educa e sustenta todos os dias.
Viver este aniversário foi como olhar para o espelho da minha própria existência. Muitas vezes o amor parece uma chama moribunda, esquecida e negligenciada sob o manto cinzento da rotina. O desânimo do quotidiano surge como uma neblina densa que teima em ocultar o sol, mas que sabemos na verdade que nunca deixa de existir. A força dos cinquenta anos recordou-me que o amor não é a ausência de tempestades, mas a vontade inabalável de não fugir e de continuar a caminhar juntos por entre as tribulações diárias e ontem, sem que nada estivesse escrito, todos nós renovámos secretamente os nossos próprios votos de fidelidade à vida e ao futuro.
As crises e as rotinas podem ocultar a luz por algum tempo, mas a verdadeira essência do amor reside na coragem de esperar pelo amanhecer.

1 comentário:
Não colquei links para reflexões prévias, pois teria que me parafrasear em cada uma das palavras de hoje.
Há realmente pequenos momentos na nossa vida, que têm um impacto interior profundo que nos marca e define os passos e caminho futuro.
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