Ando com uma sensação de vazio, um eco persistente que ressoa nas paredes de uma mente que já não sabe o que procurar.
O relógio na parede já não dita as horas, limita-se a arrastar o tempo num compasso monocórdico, tão cinzento quanto a luz que me entra pela janela. Os dias sucedem-se uns aos outros, réplicas exatas de uma rotina sem relevo, como se precisassem de um estímulo qualquer, de um sobressalto grandioso que me arrancasse desta vida amorfa.
A sonolência, que outrora era apenas um cansaço passageiro e habitualmente pesado, transbordou e ganhou essa dimensão ainda maior, de um manto denso que me submerge e anestesia os sentidos. Flutuo num estado quase vegetativo de existência, onde os pensamentos se movem devagar, como peixe cego em água estagnada.
Não há dor profunda, mas sim uma ausência dela, num limbo onde o mundo exterior acontece lá fora, do outro lado do vidro, enquanto eu permaneço imóvel no meu interior.
Olho para as minhas próprias mãos e não lhes reconheço a urgência que outrora me acariciavam e me davam consolo. Sinto falta de energia, falta de vida, daquela eletricidade simples que faz o sangue pulsar e dá um propósito ao mais pequeno dos gestos.
Sou uma sombra que habita o meu próprio corpo, à espera que um sopro de vento ou uma faísca imprevista quebre este vazio e me devolva o direito de voltar a acordar.

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