domingo, julho 26, 2026

Palavras de promessas

Hoje vi um provérbio italiano, que me fez refletir sobre aquilo que tantas vezes sou, entre a diferença do que as palavras facilmente dizem, e o que as acções ditam.

Entre aquilo que uma pessoa promete e o que realmente coloca em prática existe um mar inteiro que ainda precisa ser atravessado.

Há uma honestidade singular neste provérbio, um reparo que não condena, mas também não se deixa iludir. Não há cinismo nesta sentença, mas uma sabedoria simples de uma constatação de que o espaço entre a intenção declarada e a acção concreta é imenso, por vezes insondável.

A escolha do próprio mar como metáfora não é um acaso. Prometer é permanecer imóvel na margem, num terreno seguro onde a intenção habita, um ponto de partida que não encontra resistência, não exige sacrifício e não cobra preço algum. No reino das palavras mortas que não geram acções, o tempo é infinito e os obstáculos não existem, tudo é leve, belo e sem custo. Mas atravessar o mar é outra história. Exige navegação real, esforço físico, risco genuíno e um compromisso irrevogável com o destino. A acção concreta lida com o peso real da vida, enfrenta as horas contadas do dia, a energia finita do corpo, as tempestades imprevistas e a dolorosa necessidade de renunciar a mil caminhos para que apenas um se cumpra.

É essa assimetria fundamental que explica por que a promessa se multiplica com tanta facilidade, enquanto o gesto concreto se recolhe.

Contudo, o mundo acostumou-se a julgar mais pelos olhos do que pelas mãos. Encanta-se com a postura na margem, com a beleza do discurso e com a ilusão das aparências, esquecendo-se de olhar para a imensidão da água do mar. Aprender a distinguir quem apenas fala de quem efetivamente constrói a travessia é uma das formas mais profundas de sabedoria e de distinção do que é real do ilusório. Afinal, as intenções do olhar desenham o mapa, mas são apenas as mãos salgadas pelo mar que se cumprem no trabalho árduo de chegar à outra margem.


"Ó mar salgado, quanto do teu sal.
São lágrimas de..."
Fernando Pessoa, in Mar Salgado

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