quarta-feira, setembro 30, 2026

Amor que protege

Os nossos filhos são o nosso maior amor. Por eles, daríamos tudo o que somos e tudo o que temos, num piscar de olhos, sem olhar a consequências, movidos pelo desejo de os ver sempre felizes. No entanto, a verdade mais dura da maternidade é perceber que não se pode viver a vida deles.

Quando os vemos sofrer, a primeira reação é querer carregar essa dor no lugar deles. Mas o caminho de cada filho pertence-lhe só a ele. Não podes substituir o que o teu filho vive, o que ele escolhe fazer ou o que sente. Tentar fazer isso seria tirar-lhe a oportunidade de crescer.

Ele terá momentos de felicidade única, sucesso e superação, mas também enfrentará a desilusão, a queda e o desânimo. Ambos os lados são necessários para moldar quem ele deve ser e não há forma alguma de antecipar ou prever cada queda ou sofrimento. O teu papel não é evitar que ele caia, mas sim ser a disponibilidade constante, o porto seguro para onde ele sabe que pode sempre voltar quando o mundo lá fora falhar.

Cada vez mais me convenço de que os nossos filhos nunca são nossos. Eles vêm através de nós, mas não nos pertencem. Amamo-los incondicionalmente, seríamos capazes de dar a vida por eles sem hesitar, mas nunca conseguiremos ser substitutos na história que só eles têm o direito e o dever de escrever.

Aguenta firme. O teu amor não falha quando ele sofre. O teu amor triunfa quando, mesmo no sofrimento, ele sabe que não está sozinho.

Recorda cada dia:

O meu amor protege, mas não substitui o caminho dele.

Dar espaço para ele cair é dar-lhe a oportunidade de aprender a levantar-se.

Eu não posso viver a vida dele, mas posso ser o seu porto de abrigo.

Amar incondicionalmente é aceitar que ele não me pertence, mas que terá sempre o meu apoio.

Hoje, escolho confiar no processo de descoberta e crescimento dele e não me esquecer de cuidar também de mim.


Espero em vão

Há uma voz de sempre,
Que chama por mim.
Para que eu lembre,
Que a noite tem fim.

Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Em nome de um sonho,
Em nome de ti.

Procuro à noite,
Um sinal de ti.
Espero à noite,
Por quem não esqueci.

Eu peço à noite,
Um sinal de ti.
Quem eu não esqueci...

Por sinais perdidos,
Espero em vão.
Por tempos antigos,
Por uma canção.

Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Por quem já não volta,
Por quem eu perdi.

Procuro à noite,
Um sinal de ti.
Espero à noite,
Por quem não esqueci.

Eu peço à noite,
Um sinal de ti.
Quem eu não esqueci...

...

Por quem não esqueci
Sétima Legião ‧ 1989

segunda-feira, setembro 28, 2026

Elogios

Recorrentemente ouço pessoas a elogiar a forma de ser e estar dos meus filhos, sobretudo do mais velho. Um jovem, que reconheço ter uma personalidade gentil e de elevado sentido de compromisso pelas causas que abraça.

É um sentimento estranho vê-lo a ser gabado e costumo dizer em jeito de gracejo, que desconheço a filiação genética de tais atributos, que ao pai não sairá de certo.

E como resposta, hoje ouvi uma expressão que me desarmou.


"Quando a raíz é forte, a árvore só pode dar bons frutos".


De facto a semente cai à terra sem manual de instruções, e o jardineiro, na sua humilde ignorância, passa os dias a questionar se o solo que oferece é suficiente. Olho para as minhas próprias imperfeições, as arestas por limar, as falhas de que sinto culpa e, por um mecanismo de defesa, sacudo de mim a possibilidade de ser parte do milagre.

Mas o mundo assiste, atento, ao crescimento da árvore. Vê o jovem que se ergue com a gentileza desenhada nos gestos e o compromisso firme gravado em si.

E quando o mundo o elogia, o coração estranha, porque a proximidade esconde o sagrado, o quotidiano cega-me para a beleza da obra que ajudei a erguer.

É preciso o olhar alheio, condensado numa frase, para desarmar as defesas do sangue. A raiz não é apenas a genética, é a presença constante e disponível, o exemplo invisível, o afeto dado nos dias cinzentos e a firmeza nos momentos de tempestade. O fruto não nasce bom por mero acaso ou capricho do vento, é o resultado silencioso de uma seiva que corre subterrânea, alimentada por um amor que, mesmo sem saber, soube ser fundação.


Olhar para o meu filho é aceitar a árvore que dá bons frutos, porque a raíz, desde o primeiro dia, sustentou o mundo para que ele pudesse florescer.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Paz por ser humano

Ontem vi uma frase, publicada por uma colega, daquelas expressões que me faz pensar na forma de estar no mundo. Estava em inglês e traduzida seria:

"Num mundo onde há a obsessão em se ser extraordinário, há uma paz profunda em se ser só bom ser humano."


Vemo-nos a correr diariamente uma maratona invisível, competindo por pódios feitos de ouro, aplausos digitais e títulos que mal cabem na alma. Exige-se a cada um de nós o brilho que cega, o feito que espanta, o rasto luminoso dos cometas. No entanto, esquecemo-nos de que os cometas passam, mas a terra que pisamos permanece. Num mundo obcecado em se ser extraordinário, há uma paz profunda em se ser só bom ser humano.

Uma paz que não nasce da resignação ou do fracasso, mas que brota da sabedoria de quem escolheu desarmar-se, de um sossego de quem percebeu que a vida não é um palco, mas um chão partilhado. Enquanto a obsessão pelo extraordinário constrói monumentos de solidão, a simplicidade de ser humano cria pontes de uma beleza silenciosa de gestos que o mundo não filma, o amparo a quem tropeça, a escuta atenta de um desabafo, o respeito pelo tempo do outro e pelo nosso próprio ritmo.

Ser "só" um bom ser humano é a maior das grandezas. Significa trocar a ansiedade de ser o melhor pela serenidade de ser abrigo. E quando abdicamos do peso de ter de impressionar o mundo, o peito alivia, o quotidiano desacelera e o olhar ganha uma cor mais nítida. Descobrimos, finalmente, que a felicidade não mora no topo da montanha mais alta, mas no calor da fogueira que acendemos para quem caminha ao nosso lado na planície.

Só ser humano

quarta-feira, setembro 02, 2026

Pêndulo do Ser

Basta ver-te por breves momentos e a minha mente fica nesse turbilhão de pensamentos, do conflito entre a contenção e a entrega, entre o claustro do silêncio e o palco da palavra nua.

Ontem fiquei a pensar nessa máscara de virtude que coloco, de uma moralidade cinzenta na contenção, uma espécie de santidade artificial que visto como um casaco pesado em dias de inverno.

Durante anos, recolher-me numa introversão exagerada foi o meu escudo, o silêncio não era apenas ausência de som, era um tribunal privado onde cada desejo, antes de se fazer carne ou palavra, era julgado, condenado e sepultado na masmorra da timidez. Essa reclusão do "eu" tinha o seu próprio conforto de quem nada expõe, nada arrisca ver profanado. E durante tanto tempo sentia que a introversão levada ao extremo me asfixiava, me transformava a mente num cemitério de impulsos vivos, onde a aparência social servia de lápide a uma identidade que reclamava o direito de respirar.

E agora, sinto que a ruptura da barreira de contenção surge com a força devastadora de uma represa que cede. A exposição excessiva neste súbito atrevimento que rasga as linhas da escrita, quase que assume os contornos de uma heresia. Será tamanha desinibição o prenúncio de um surto ou os primeiros sintomas de uma demência frontotemporal? O medo de perder o controlo, de ver o juízo libertar-se das amarras daquilo que é socialmente aceitável, expor o desejo, confessar a nudez do corpo que se procura na solidão e partilhar o clímax nascido de uma "ilusão deliciosa" é um ato de profanação do sagrado espaço íntimo. Torna-se um pecado de excesso, onde o exibicionismo ameaça transformar a catarse em vulgaridade.

A moral fixa-se, portanto, nesta encruzilhada da alma. Se a introversão exagerada nos desumaniza pela repressão, transformando-nos em espectadores apáticos da nossa própria existência, a exposição sem filtros ameaça dissolver as fronteiras do pudor, deixando-nos vulneráveis ao escrutínio e ao julgamento alheio. A masturbação mental e física na solidão, quando transposta para palavras oferecidas ao "leitor assíduo", deixa de ser um segredo interior pacificador para se tornar numa provocação pública, num convite a um voyeurismo partilhado.

Talvez a verdadeira moralidade não resida na escolha de um dos extremos, mas na coragem de conseguir habitar na tensão entre ambos. Escrever em linhas tortas é, afinal, o preço que se paga para resgatar a verdade do meu ser, algures entre o silêncio que me protege e o grito que me liberta.

🔞
Risco de desilusão

Vivo entre a máscara da virtude e a vertigem de um abismo.

terça-feira, setembro 01, 2026

Dura lex, sed lex... para galinhas

Dia 1 de Setembro. Não se esqueçam de declarar o vosso património de galinhas poedeiras, não vá cair sobre vós a desgraça de ter que pagar uma coima, por tão gravíssima falta de zelo.

Este tipo de leis é mais uma prova da decadência social do mundo actual e de mentes menores, mais pequenas do que a das galinhas. Não é algo novo, e este fenómeno actual de proliferação legislativa inútil, prova que a história, que por esquecida se tornar, se volta a repetir. Já na Roma antiga, Tácito cunhou a famosa expressão "Corruptissima republica plurimae leges", que significa "Quanto mais corrupta é a república, mais leis ela tem", sobre a relação entre o excesso de legislação e a degradação ética de uma sociedade. Um Estado que precisa de regular minuciosamente cada comportamento dos seus cidadãos é um Estado onde a moralidade intrínseca e o civismo falharam. A proliferação de leis inúteis que não geram ordem, são um pretexto para abusos de poder e excesso de burocracia.

Quanto mais leis e restrições existem, mais pobres se tornam as pessoas, mais ricos se tornam os políticos e mais ladrões e bandidos aparecem, na fuga engenhosa a tanta restrição, penalização ou comissão.

A substituição da moralidade pela legalidade mostra essa disfunção da sociedade, da ética outrora intrínseca e onde actualmente é a corrupção que impera. Quando a moral pessoal e o respeito mútuo desaparecem, o Estado tenta preencher esse vazio com decretos e as pessoas passam a agir não por convicção do que é certo ou errado, mas apenas para evitar penalizações legais, o que gera em alguns indivíduos uma vontade de deixarem de se guiar pela consciência e limitarem-se a procurar lacunas na lei.

O mais ridículo desta dinâmica e que demonstra a sua inutilidade e futilidade, está num Estado que cria leis porque não confia nos seus cidadãos e onde os cidadãos, por sua vez, perdem o respeito pelas leis ao percebê-las como arbitrárias ou excessivas, esquecendo todos, que o Estado são os próprios cidadãos.

"O desconhecimento da lei que não perdoa ninguém", torna-se comum, numa criminalização do quotidiano, pois num excesso de normas, torna-se impossível que o cidadão comum, tantas vezes sem acesso adequado à informação, conheça todas as regras, transformando virtualmente qualquer pessoa num infrator em potencial.

E pergunta-se. De onde vem o aproveitamento político do excesso legislativo? Uma enorme quantidade de leis sem substrato sobrecarrega o sistema judicial, gerando impunidade para os crimes verdadeiramente graves, onde a corrupção e o abuso de poder se tornam normais, pela lentidão ou ineficiência prática dos longos processos de averiguação ou penalização, que acaba em muitos casos por não chegar em tempo útil.

Pobre de quem vive com o rendimento de uma dúzia de galinhas.

domingo, agosto 30, 2026

Resistência

O fim do dia de ontem, acabou por se transformar numa dessas agradáveis surpresas, que por inesperadas enchem de brilho, cor e som a vida.

Depois das devidas sonecas de uma saída de urgência e a pedido insistente das crianças, lá fomos, mais uma vez, à feira de São Mateus. Entre jantar bifanas e cachorros, as tão habituais voltinhas nas diversões, onde se deixa uma renda, e farturas, esse bocado de massa de farinha coberto de uma tonelada de açúcar e canela, ficámos para assistir ao concerto dos Resistência.

E deixaram-nos amarrados até ao final, num momento musical que mostra que a música portuguesa, com autores e músicos que resistem às tendências actuais de auto tone e remasterizações e só com voz e acústica se consegue recriar e dignificar clássicos. Estes artistas de idade de impor respeito e de um corpo a exigir pausa, mas de uma mente resistente ao envelhecimento, fizeram-me recordar o que um espectáculo musical deve ser, envolvente, animador e de elevação.

A música e as letras, têm essa capacidade de transmitir mensagens, que pelo seu impacto visual e auditivo, conseguem transformar o dia pacato e banal, num dia fantástico e preenchido.

Talvez seja só um dos demais sinais de que estou mesmo a ficar velho, mas também eu resisto a esse fado.

Para os cépticos desta ideia, tentei criar uma rapsódia com ideias chave das músicas, que criam esse impacto mental e de motivação no interior de cada um de nós. Vamos lá a esta reflexão dentro da reflexão, desta vez com alguma apropriação de ideias (os créditos aos devidos autores)...


Caminhamos pela vida como quem atravessa uma praça cheia de desconhecidos, carregando dores secretas e a estranha certeza de que o nosso fado é único. No entanto, se pararmos por um instante e erguermos os olhos, percebemos a grande ilusão da solidão. Não sou um caso isolado, não sou o único a olhar o céu, a ver os sonhos partirem, à espera que algo aconteça. Todos nós partilhamos a mesma calçada invisível, a deserdar as nossas próprias frustrações, a despejar a raiva, a viver as emoções, a desejar o que não se teve, agarrado às tentações. É o ciclo humano, a eterna teimosia em ouvir vozes alheias, tropeçando nos mesmos erros de sempre, a ouvir os conselhos dos outros e sempre a cair nos buracos, a desejar agarrar o que não se tem.

Mas o movimento é o único antídoto contra o mofo do tempo. E eu não quero estar parado, fico velho. Vou marchar até ao fim, isolado nesta marcha solitária, com esse preço alto em escolher o próprio rumo, em recusar as amarras que a sociedade nos tenta impor a cada esquina. Quando decidimos não vestir nenhuma farda espiritual ou ideológica, o mundo estranha em ser desalinhado. Por tudo o que sempre lutei em ser sincero, por tanto que arrisquei, ainda espero. Avançamos sob o julgamento dos outros, mas com a cabeça erguida, cientes de que ninguém sabe para onde vamos, ninguém manda em quem somos.

Essa liberdade de ser autêntico exige uma resistência diária, uma recusa em ser propriedade de bandeiras, linhagens ou dogmas. Mais do que a um país, que a uma família ou geração, mais do que a um passado, que a uma história ou tradição, tu pertences a ti, não és de ninguém. Mais do que a um patrão, a uma rotina ou profissão, mais do que a um partido, que a uma equipa ou religião, tu pertences a ti, não és de ninguém.

Essa soberania da alma é o verdadeiro ponto de partida. Só quando nos resgatamos a nós mesmos é que conseguimos vislumbrar o horizonte com clareza. Sei que tudo parece ser um sonho que não pertence a mais ninguém. Mas esse destino luminoso, não se compra nem se herda, constrói-se no âmago da mente, se souberes acreditar que sonhar é só viver e viver, imaginar. A imaginação é o rascunho da realidade, que nos dá forças para enfrentar as tempestades temporárias, com a certeza de que quando as nuvens partirem, o céu azul ficará, e quando as trevas abrirem, vais ver, o Sol brilhará. 

Por isso, não cedas à inércia. Vais conquistar um lugar, um lugar ao Sol sempre teu. A jornada é tua e de mais ninguém, exigindo cada gota do teu esforço diário. Não pares de lutar, agarra o dia ao nascer. Há uma batalha a travar que só tu podes vencer. 

Resiste. Só tu podes vencer!