sexta-feira, outubro 02, 2026

Tau

Toda a vida procurei encontrar o meu caminho para a felicidade. Na minha infância tive a sorte de ter nascido no mesmo dia do meu melhor amigo, o meu irmão gémeo e quando comecei a ter noção do mundo que me rodeava, desenvolveram-se dentro de mim as questões da metafísica que na adolescência dominam a nossa existência e sobre as quais tantas vezes conversava.

Foi nesta altura do meu crescimento que convivi com alguns colegas de escola, seminaristas de uma ordem de Combonianos, e um deles, com quem conversava muito sobre a existência de Deus e da sua criação, ofertou-me uma espécie de cruz que vim a saber designar-se de Tau.

Comecei a usá-lo diariamente, a par de um crucifixo em prata oferecido pelos meus padrinhos, ainda em criança muito pequena, junto com a inicial do meu nome. Havia algo de místico, que imaginava superior, que me protegia e amparava e que me mantinha nessa felicidade inocente quase infantil.

E foi durante a adolescência que tive um desses momentos modificadores de vida. Um dia por tédio ou aborrecimento e com total desconhecimento do que viria a significar esta atitude, subi a enorme escadaria da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis no dia da efeméride deste Santo, e senti um calor enorme interior, ao ouvir as palavras que iriam regular a minha vida a partir de então... "Mais vale dar do que receber, amar que ser amado" e percebi que o Tau era o símbolo desta forma de cristianismo. Se já sentia a força da sua protecção, agora encontrava a força da sua direcção.

E usei-o sempre, todos os dias sem excepção, num envelhecer conjunto da madeira e da carne.

Quando conheci a mulher que viria a ser minha esposa e pela força que sentia vir de um pedaço simbólico, decidi oferecer-lhe o Tau, para que passasse a ser protecção e graça no seu dia a dia. Não como amuleto ou talismã, mas como uma presença viva de um Cristo simples, humilde e de entrega feliz na vida.

E assim foi durante anos, até que em 2022, o meu mundo espiritual ruiu e fez desabar toda a estrutura que construíra. Ficava em ruínas a ideia de felicidade que sempre me alimentou, dessa ingenuidade virginal que me guiava. O Tau também tinha desaparecido do peito e das nossas vidas, como um simbolismo desse abandono do poder de uma espiritualidade superior a cada um de nós e que dava força a uma união.

Também eu mudei. Tive que mudar para me adaptar a uma nova realidade, mas não para melhor. Fiquei mais ligado ao que era da carne e menos ao que era do espírito e com essa mudança veio o sentimento de uma desilusão própria. E sei que desiludi. Do outrora simples e humilde Sebastião da Graça pouco resta, dominado pelo sem vergonha e magoado Rodrigo Pais.

Tentei procurar respostas na solidão, perceber onde se encontrava o caminho na escuridão, tentei ver a pequena luz que sabia que não se extinguira, mas que brilhava com uma força menor, tão pequena que passava quase despercebida. Até perceber que a resposta já se encontrava em mim... "Mais vale dar do que receber, amar que ser amado".

Amar é viver para o outro, dar-mo-nos naquilo em que somos melhores, sem esperar moeda de troca ou retorno e com este sentimento recuperei um pouco da felicidade que pensava perdida ou esquecida. Ser o que sempre tentei ser, a melhor pessoa possível e fazer depender apenas de mim, a procura dessa felicidade na entrega simples, humilde e genuína.

Do Tau original, não sei paradeiro. Ficou perdido no passado, como prova de que não é uma peça que tem valor, mas o seu significado, a impressão da sua força que fica marcada na nossa alma e coração.

E há uns dias voltei a usar um Tau, que mais tarde adquiri, para me fazer recordar diariamente que só sou verdadeiramente feliz se me entregar verdadeiramente ao próximo, sem esperar recompensa ou gratidão, mas para sentir que a minha vida tem um propósito e um fim.

"Pregue o Evangelho em todo o tempo. Se necessário, use palavras."
São Francisco de Assis

E como tenho falhado... nos pensamentos,  nos actos, nas palavras e nas omissões.

Tenho que assumir de novo o controlo.

quarta-feira, setembro 30, 2026

Amor que protege

Os nossos filhos são o nosso maior amor. Por eles, daríamos tudo o que somos e tudo o que temos, num piscar de olhos, sem olhar a consequências, movidos pelo desejo de os ver sempre felizes. No entanto, a verdade mais dura da maternidade é perceber que não se pode viver a vida deles.

Quando os vemos sofrer, a primeira reação é querer carregar essa dor no lugar deles. Mas o caminho de cada filho pertence-lhe só a ele. Não podes substituir o que o teu filho vive, o que ele escolhe fazer ou o que sente. Tentar fazer isso seria tirar-lhe a oportunidade de crescer.

Ele terá momentos de felicidade única, sucesso e superação, mas também enfrentará a desilusão, a queda e o desânimo. Ambos os lados são necessários para moldar quem ele deve ser e não há forma alguma de antecipar ou prever cada queda ou sofrimento. O teu papel não é evitar que ele caia, mas sim ser a disponibilidade constante, o porto seguro para onde ele sabe que pode sempre voltar quando o mundo lá fora falhar.

Cada vez mais me convenço de que os nossos filhos nunca são nossos. Eles vêm através de nós, mas não nos pertencem. Amamo-los incondicionalmente, seríamos capazes de dar a vida por eles sem hesitar, mas nunca conseguiremos ser substitutos na história que só eles têm o direito e o dever de escrever.

Aguenta firme. O teu amor não falha quando ele sofre. O teu amor triunfa quando, mesmo no sofrimento, ele sabe que não está sozinho.

Recorda cada dia:

O meu amor protege, mas não substitui o caminho dele.

Dar espaço para ele cair é dar-lhe a oportunidade de aprender a levantar-se.

Eu não posso viver a vida dele, mas posso ser o seu porto de abrigo.

Amar incondicionalmente é aceitar que ele não me pertence, mas que terá sempre o meu apoio.

Hoje, escolho confiar no processo de descoberta e crescimento dele e não me esquecer de cuidar também de mim.


Espero em vão

Há uma voz de sempre,
Que chama por mim.
Para que eu lembre,
Que a noite tem fim.

Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Em nome de um sonho,
Em nome de ti.

Procuro à noite,
Um sinal de ti.
Espero à noite,
Por quem não esqueci.

Eu peço à noite,
Um sinal de ti.
Quem eu não esqueci...

Por sinais perdidos,
Espero em vão.
Por tempos antigos,
Por uma canção.

Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Por quem já não volta,
Por quem eu perdi.

Procuro à noite,
Um sinal de ti.
Espero à noite,
Por quem não esqueci.

Eu peço à noite,
Um sinal de ti.
Quem eu não esqueci...

...

Por quem não esqueci
Sétima Legião ‧ 1989

segunda-feira, setembro 28, 2026

Elogios

Recorrentemente ouço pessoas a elogiar a forma de ser e estar dos meus filhos, sobretudo do mais velho. Um jovem, que reconheço ter uma personalidade gentil e de elevado sentido de compromisso pelas causas que abraça.

É um sentimento estranho vê-lo a ser gabado e costumo dizer em jeito de gracejo, que desconheço a filiação genética de tais atributos, que ao pai não sairá de certo.

E como resposta, hoje ouvi uma expressão que me desarmou.


"Quando a raíz é forte, a árvore só pode dar bons frutos".


De facto a semente cai à terra sem manual de instruções, e o jardineiro, na sua humilde ignorância, passa os dias a questionar se o solo que oferece é suficiente. Olho para as minhas próprias imperfeições, as arestas por limar, as falhas de que sinto culpa e, por um mecanismo de defesa, sacudo de mim a possibilidade de ser parte do milagre.

Mas o mundo assiste, atento, ao crescimento da árvore. Vê o jovem que se ergue com a gentileza desenhada nos gestos e o compromisso firme gravado em si.

E quando o mundo o elogia, o coração estranha, porque a proximidade esconde o sagrado, o quotidiano cega-me para a beleza da obra que ajudei a erguer.

É preciso o olhar alheio, condensado numa frase, para desarmar as defesas do sangue. A raiz não é apenas a genética, é a presença constante e disponível, o exemplo invisível, o afeto dado nos dias cinzentos e a firmeza nos momentos de tempestade. O fruto não nasce bom por mero acaso ou capricho do vento, é o resultado silencioso de uma seiva que corre subterrânea, alimentada por um amor que, mesmo sem saber, soube ser fundação.


Olhar para o meu filho é aceitar a árvore que dá bons frutos, porque a raíz, desde o primeiro dia, sustentou o mundo para que ele pudesse florescer.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Paz por ser humano

Ontem vi uma frase, publicada por uma colega, daquelas expressões que me faz pensar na forma de estar no mundo. Estava em inglês e traduzida seria:

"Num mundo onde há a obsessão em se ser extraordinário, há uma paz profunda em se ser só bom ser humano."


Vemo-nos a correr diariamente uma maratona invisível, competindo por pódios feitos de ouro, aplausos digitais e títulos que mal cabem na alma. Exige-se a cada um de nós o brilho que cega, o feito que espanta, o rasto luminoso dos cometas. No entanto, esquecemo-nos de que os cometas passam, mas a terra que pisamos permanece. Num mundo obcecado em se ser extraordinário, há uma paz profunda em se ser só bom ser humano.

Uma paz que não nasce da resignação ou do fracasso, mas que brota da sabedoria de quem escolheu desarmar-se, de um sossego de quem percebeu que a vida não é um palco, mas um chão partilhado. Enquanto a obsessão pelo extraordinário constrói monumentos de solidão, a simplicidade de ser humano cria pontes de uma beleza silenciosa de gestos que o mundo não filma, o amparo a quem tropeça, a escuta atenta de um desabafo, o respeito pelo tempo do outro e pelo nosso próprio ritmo.

Ser "só" um bom ser humano é a maior das grandezas. Significa trocar a ansiedade de ser o melhor pela serenidade de ser abrigo. E quando abdicamos do peso de ter de impressionar o mundo, o peito alivia, o quotidiano desacelera e o olhar ganha uma cor mais nítida. Descobrimos, finalmente, que a felicidade não mora no topo da montanha mais alta, mas no calor da fogueira que acendemos para quem caminha ao nosso lado na planície.

Só ser humano

quarta-feira, setembro 02, 2026

Pêndulo do Ser

Basta ver-te por breves momentos e a minha mente fica nesse turbilhão de pensamentos, do conflito entre a contenção e a entrega, entre o claustro do silêncio e o palco da palavra nua.

Ontem fiquei a pensar nessa máscara de virtude que coloco, de uma moralidade cinzenta na contenção, uma espécie de santidade artificial que visto como um casaco pesado em dias de inverno.

Durante anos, recolher-me numa introversão exagerada foi o meu escudo, o silêncio não era apenas ausência de som, era um tribunal privado onde cada desejo, antes de se fazer carne ou palavra, era julgado, condenado e sepultado na masmorra da timidez. Essa reclusão do "eu" tinha o seu próprio conforto de quem nada expõe, nada arrisca ver profanado. E durante tanto tempo sentia que a introversão levada ao extremo me asfixiava, me transformava a mente num cemitério de impulsos vivos, onde a aparência social servia de lápide a uma identidade que reclamava o direito de respirar.

E agora, sinto que a ruptura da barreira de contenção surge com a força devastadora de uma represa que cede. A exposição excessiva neste súbito atrevimento que rasga as linhas da escrita, quase que assume os contornos de uma heresia. Será tamanha desinibição o prenúncio de um surto ou os primeiros sintomas de uma demência frontotemporal? O medo de perder o controlo, de ver o juízo libertar-se das amarras daquilo que é socialmente aceitável, expor o desejo, confessar a nudez do corpo que se procura na solidão e partilhar o clímax nascido de uma "ilusão deliciosa" é um ato de profanação do sagrado espaço íntimo. Torna-se um pecado de excesso, onde o exibicionismo ameaça transformar a catarse em vulgaridade.

A moral fixa-se, portanto, nesta encruzilhada da alma. Se a introversão exagerada nos desumaniza pela repressão, transformando-nos em espectadores apáticos da nossa própria existência, a exposição sem filtros ameaça dissolver as fronteiras do pudor, deixando-nos vulneráveis ao escrutínio e ao julgamento alheio. A masturbação mental e física na solidão, quando transposta para palavras oferecidas ao "leitor assíduo", deixa de ser um segredo interior pacificador para se tornar numa provocação pública, num convite a um voyeurismo partilhado.

Talvez a verdadeira moralidade não resida na escolha de um dos extremos, mas na coragem de conseguir habitar na tensão entre ambos. Escrever em linhas tortas é, afinal, o preço que se paga para resgatar a verdade do meu ser, algures entre o silêncio que me protege e o grito que me liberta.

🔞
Risco de desilusão

Vivo entre a máscara da virtude e a vertigem de um abismo.

terça-feira, setembro 01, 2026

Dura lex, sed lex... para galinhas

Dia 1 de Setembro. Não se esqueçam de declarar o vosso património de galinhas poedeiras, não vá cair sobre vós a desgraça de ter que pagar uma coima, por tão gravíssima falta de zelo.

Este tipo de leis é mais uma prova da decadência social do mundo actual e de mentes menores, mais pequenas do que a das galinhas. Não é algo novo, e este fenómeno actual de proliferação legislativa inútil, prova que a história, que por esquecida se tornar, se volta a repetir. Já na Roma antiga, Tácito cunhou a famosa expressão "Corruptissima republica plurimae leges", que significa "Quanto mais corrupta é a república, mais leis ela tem", sobre a relação entre o excesso de legislação e a degradação ética de uma sociedade. Um Estado que precisa de regular minuciosamente cada comportamento dos seus cidadãos é um Estado onde a moralidade intrínseca e o civismo falharam. A proliferação de leis inúteis que não geram ordem, são um pretexto para abusos de poder e excesso de burocracia.

Quanto mais leis e restrições existem, mais pobres se tornam as pessoas, mais ricos se tornam os políticos e mais ladrões e bandidos aparecem, na fuga engenhosa a tanta restrição, penalização ou comissão.

A substituição da moralidade pela legalidade mostra essa disfunção da sociedade, da ética outrora intrínseca e onde actualmente é a corrupção que impera. Quando a moral pessoal e o respeito mútuo desaparecem, o Estado tenta preencher esse vazio com decretos e as pessoas passam a agir não por convicção do que é certo ou errado, mas apenas para evitar penalizações legais, o que gera em alguns indivíduos uma vontade de deixarem de se guiar pela consciência e limitarem-se a procurar lacunas na lei.

O mais ridículo desta dinâmica e que demonstra a sua inutilidade e futilidade, está num Estado que cria leis porque não confia nos seus cidadãos e onde os cidadãos, por sua vez, perdem o respeito pelas leis ao percebê-las como arbitrárias ou excessivas, esquecendo todos, que o Estado são os próprios cidadãos.

"O desconhecimento da lei que não perdoa ninguém", torna-se comum, numa criminalização do quotidiano, pois num excesso de normas, torna-se impossível que o cidadão comum, tantas vezes sem acesso adequado à informação, conheça todas as regras, transformando virtualmente qualquer pessoa num infrator em potencial.

E pergunta-se. De onde vem o aproveitamento político do excesso legislativo? Uma enorme quantidade de leis sem substrato sobrecarrega o sistema judicial, gerando impunidade para os crimes verdadeiramente graves, onde a corrupção e o abuso de poder se tornam normais, pela lentidão ou ineficiência prática dos longos processos de averiguação ou penalização, que acaba em muitos casos por não chegar em tempo útil.

Pobre de quem vive com o rendimento de uma dúzia de galinhas.