domingo, julho 19, 2026

50 anos

Ontem, o tempo presente testemunhou o passado de meio século de um amor indomável. Os meus pais celebraram cinquenta anos de matrimónio que nunca se vestiu com a ilusão da perfeição. Entre aquelas quatro paredes do casamento, a história escreveu-se com os traços severos do mau humor do meu pai, a persistência irritante da minha mãe e os silêncios pesados, quase fúnebres, que por vezes assolavam a casa. Mas ultrapassaram sempre as diferenças e permanecem unidos meia centena de anos depois.

Na minha memória e dos meus dois irmãos, ficou gravada um momento, tal cicatriz numa infância assustada por uma tempestade maior. Recordo ainda hoje, uma discussão tão séria que ameaçou romper o mundo que conhecíamos. Lembro-me da presença de dois tios que surgiram tais conselheiros de paz no meio do caos. Nunca soubemos o motivo, mas como os problemas de vida em casal não são exclusivos de ninguém, assumi mais tarde que pudesse ter sido alguma infidelidade ou talvez apenas o peso da vida em comum.

Para celebrar esta união que desafiou as probabilidades, recusámos a opulência e as festas de arromba, algo que a minha mãe sempre rejeitou e numa cumplicidade fraterna de três irmãos, planeámos um segredo uma fuga de casa. Partimos todos, rumo a Braga para um fim de semana intimista. Ali, no recolhimento de uma eucaristia vespertina e à volta da mesa de um jantar digno da sua história, o amor manifestou-se na sua forma mais pura. Houve lágrimas de emoção, abraços de gratidão e uma grandiosidade humilde que uniu as doze almas da nossa linhagem, os noivos, os filhos, as noras e os netos.

O momento mais alto, contudo, foi desenhado pelo próprio destino. Naquela tarde, o Evangelho ecoou as parábolas do trigo, da semente de mostarda e do fermento (Mt 13: 24-46). E, num instante de revelação, percebemos que a vida dos meus pais era a tradução viva daquelas palavras escritas há milénios. O amor deles foi trigo fértil que cresceu corajoso no meio do joio das adversidades, foi o grão minúsculo de mostarda que germinou até se erguer como uma árvore frondosa, capaz de dar abrigo a quem ama e foi o fermento que levedou as três partes de farinha, para se transformar no pão sagrado que nos alimenta, educa e sustenta todos os dias.

Viver este aniversário foi como olhar para o espelho da minha própria existência. Muitas vezes o amor parece uma chama moribunda, esquecida e negligenciada sob o manto cinzento da rotina. O desânimo do quotidiano surge como uma neblina densa que teima em ocultar o sol, mas que sabemos na verdade que nunca deixa de existir. A força dos cinquenta anos recordou-me que o amor não é a ausência de tempestades, mas a vontade inabalável de não fugir e de continuar a caminhar juntos por entre as tribulações diárias e ontem, sem que nada estivesse escrito, todos nós renovámos secretamente os nossos próprios votos de fidelidade à vida e ao futuro.

As crises e as rotinas podem ocultar a luz por algum tempo, mas a verdadeira essência do amor reside na coragem de esperar pelo amanhecer.

Amar é construir todos os dias algo novo, com as mesmas mãos.

sábado, julho 18, 2026

Arrogância

O mundo político está como o mundo das relações pessoais, habitado por deuses de gesso. Se outrora a condição humana se definia pela sua bela e trágica imperfeição, hoje assistimos ao nascimento de uma nova espécie, o homem imaculado e de uma perfeição isenta de responsabilização. Cruzamo-nos diariamente com estas divindades modernas nos palcos da política e nos corredores da vida quotidiana, seres dotados de uma infalibilidade assustadora, cujas línguas esqueceram o sabor amargo, mas curativo, da palavra "errei".

O mundo transformou-se num imenso tribunal onde o réu é sempre o outro. Se há um colapso na pólis da educação, justiça ou saúde, ou uma fenda numa relação afetiva, a culpa nunca reside no sujeito que agiu ou omitiu. Aponta-se, antes, o dedo à engrenagem falível da tecnologia, ao ruído invisível da comunicação, ou a um qualquer alinhamento cósmico de fatores externos desestabilizadores. Erguem-se altares à própria soberba, onde a desculpa esfarrapada substituiu a contrição e o cinismo ocupou o lugar da retidão. Blindados pelo orgulho, os indivíduos constroem a sua personalidade sobre o pedestal da arrogância, confundindo a teimosia em assumir o erro com uma falsa demonstração de força.

Esquecem-se, contudo, de que a verdadeira grandeza reside na planície da humildade. Retirar as devidas ilações de um fracasso e aceitar o peso das próprias decisões não é um ato de fraqueza, mas sim o manifesto mais puro de coragem intelectual e moral. Ao expulsarmos a falha do horizonte humano, condenamo-nos a uma perfeição estéril e de fachada e sem o reconhecimento da nossa própria fragilidade, a sabedoria definha, os laços humanos tornam-se transações teatrais e a política esvazia-se de ética. Resta-nos a urgência de redescobrir a beleza de sermos seres que erram, de sermos somente humanos, sob pena de ficarmos sufocados pelo fumo desta nossa própria e insustentável vaidade.

Errar é ser humano, reconhecer o erro é demonstrar carácter, agora persistir no erro é uma escolha ignorante.

sexta-feira, julho 17, 2026

Já chorei por...

As lágrimas são o idioma mais honesto da nossa alma. São autênticas palavras que não precisam de tradução nem de filtros, surgindo sempre que o peito se torna pequeno demais para guardar tudo o que sentimos. Olhando para trás, percebo que a minha história também se escreve com a água que me correu pelos olhos.

Já chorei porque me magoaram, sentindo o peso frio da injustiça na pele.

Já chorei porque magoei, carregando o arrependimento amargo de ter falhado com quem me estendia a mão.

Já chorei porque me humilharam, no silêncio de um canto onde o mundo parecia desabar.

Já chorei porque fui orgulhoso e não pedi desculpa, aprisionado numa fortaleza que eu mesmo construí.

Já chorei porque me senti ofendido, deixando a ferida arder antes de cicatrizar.

Já chorei porque me senti grato, quando o peito transbordou de um amor tão grande que não coube em palavras.

Cada uma dessas gotas cumpriu o seu papel. Chorar é esse mecanismo de libertação de uma raiva, angústia ou felicidade acumulada. Longe de ser um sinal de fraqueza, o choro é o transbordo da nossa humanidade, é o filtro que limpa o olhar, ajudando o corpo e a alma a descomprimir e a restabelecer uma nova serenidade.

Por isso, nunca escondas as tuas lágrimas nem te envergonhes do teu desabafo, deixa que elas lavem o que passou e preparem o solo do teu coração para o que há de vir. Depois da tempestade que desagua dos olhos, a alma ergue-se sempre mais leve, mais forte e pronta para recomeçar com uma paz renovada.

O teu choro de hoje é apenas o ensaio para o teu sorriso mais bonito de amanhã.

quinta-feira, julho 16, 2026

Salva-te a ti mesmo

Nas discussões vivas de quem luta para manter acesa a chama de uma relação em que o conceito de amor parece mutar a cada momento, surgem alturas em que percebemos que é impossível tentar resgatar quem não quer ser salvo. Como se o mar não escutasse os apelos de quem escolhe afundar-se, por mais que lancemos a corda. Gastar a nossa energia na tentativa hercúlea de mudar o outro é como desenhar na areia enquanto a maré sobe, um esforço em vão que apenas nos consome e esvazia.

Com o tempo e a permanência, percebemos que as pessoas só conseguem oferecer aquilo que carregam no peito. Exigir amor de quem está deserto, compreensão de quem só se escuta a si próprio ou compaixão de quem vive na amargura, é uma ilusão que alimenta o desespero. Mendigamos tanto por atenção, por afeto ou carinho e tomamos percepção de que tudo isso já habita dentro de nós. Pedimos lá fora, esperamos dos outros essa atenção e esquecemo-nos, contudo, de nos oferecer a nós próprios esse mesmo cuidado. Anulamo-nos na urgência de ser o cais dos outros, ignorando que o nosso próprio barco está à deriva, abdicamos de nós, vestindo a capa de heróis de histórias que não são nossas.

Depositar no outro a responsabilidade da nossa cura é caminhar de olhos vendados para o sofrimento. A mudança que procuramos não virá do exterior, mas sim do romper das amarras que nos prendem a quem e ao que nos desgasta.

É preciso erguer os olhos e escolher o nosso rumo. Procurar estar rodeado de quem vibra na mesma frequência de luz, de quem nos desafia a crescer e de quem nos inspira a ser a nossa melhor versão. Quando escolhemos caminhar ao lado de quem nos eleva, o fardo fica mais leve e o horizonte ganha um novo brilho. No processo é preciso não esquecer de nos salvarmos a nós próprios também. Tudo o resto é só caminho.

terça-feira, julho 14, 2026

Vaidade

Viver não devia ser uma arena de exibição constante das minhas capacidades e tenho cada vez mais a noção de que passo os dias a tentar mostrar ao mundo que sou capaz, que tenho valor, que alcancei o sucesso, num esforço contínuo para obter uma estranha e desnecessária validação externa. Construí uma imagem pública detalhada para o mundo e esqueci-me da minha realidade interior. Apesar de ter a noção de que a esta dinâmica assenta em premissas erradas, custa-me aceitar que o verdadeiro crescimento pessoal não precisa de audiência nem de aplausos.

Torna-se difícil mudar esta mentalidade, ainda que saiba que seria uma alteração transformadora.

Terei que ser mais forte que a minha vaidade, o meu egocentrismo narcisista e adoptar uma postura de focus on improving not proving (soa bem melhor em inglês e foi a expressão que deu o mote). Esta escolha altera o rumo da nossa energia diária e em vez de gastar recursos a criar justificações para os outros, investimos o tempo na nossa própria evolução. Deixamos de querer parecer bons para nos focarmos em ser genuinamente melhores. É um processo silencioso, íntimo e muito mais recompensador.

A necessidade de provar algo aos outros revela a nossa própria insegurança, pois quem tem a certeza do seu caminho não precisa de apresentar provas a ninguém. A obsessão pelo mediatismo e pelo reconhecimento gera apenas ansiedade crónica e por outro lado, a procura pela melhoria pessoal, discreta e contínua traz uma paz interior profunda. Aprendemos a olhar para os erros como informação e não como falhas morais, onde cada tropeção passa a ser apenas uma lição útil.

Esta transição exige uma honestidade humilde e profunda connosco próprios. Significa aceitar as nossas limitações atuais sem qualquer sentimento de culpa, mas também celebrar os pequenos progressos diários, mesmo que ninguém os veja. A evolução pessoal é uma maratona solitária, não um sprint para as redes ou vida social e o único termo de comparação válido é aquilo que fomos no dia anterior. No final, percebemos que a vida se torna muito mais leve, deixamos cair o peso das expectativas alheias, libertamo-nos da obrigação de impressionar quem está à nossa volta e o nosso foco principal passa a ser o desenvolvimento e a aprendizagem, onde o resultado surge de forma natural. Já não precisamos de provar nada, porque o nosso próprio ser já é a maior evidência do nosso trabalho.

Terei que ser mais forte que a minha vaidade.

segunda-feira, julho 13, 2026

Demanda

Não é muito frequente abordar aqui assuntos que revelam as minhas convicções ou crenças. Mas pontualmente lá vou abordando timidamente estes assuntos, com um ou outro post, misturando nesta amalgama que é o blog, o profano e o sagrado. Também será assim na vida do ser individual que é cada um de nós.

Ultimamente tem-se tornado mais notório, também fruto da maior exposição mediática e de conteúdos partilhados, grupos a tentar justificar ou apregoar serem os verdadeiros defensores da fé, numa forma mais ou menos ritualizada e padronizada de ser a verdade. E questiono-me frequentemente, onde está a verdadeira verdade? Onde reside, na deturpação corrupta da carne, o que é verdadeiro do espírito? Podia discutir um caso qualquer em particular, mas este problema é extensível a tantos casos em geral. As pessoas, no seu seguidismo cego e de quem repousa numa ilusória paz de mente de quem vive sem questionar seja o que for, acabam por assumir uma postura agressiva, autoritária e extemista de vivência social, de quem se assume como defensor verdadeiro de uma causa, ideia ou dogma. E extende-se a todas as lateralidades da vida em sociedade, como quem diz da direita à esquerda, ou para não ofender os mais "ofendíveis" da esquerda à direita, como se a primazia da razão residisse também na ordenação verbal das palavras.

A vida do mundo assume esse ambiente cíclico de rotação natural do confronto eterno entre razão e paixão, onde o racional é questionado, pela dimensão absorvente da paixão, do que é moldado pelo que sentimos ser mais forte. Entre um wookismo e um conservadorismo exagerados, que ganham cada vez mais seguidores, como autênticos soldados que se perfilados nas fileiras de um conflito anunciado, reside a verdade oculta e que deve ser objectivo de busca. Uma busca constante de aperfeiçoamento pessoal e não da resignação de quem se cansa de procurar e assume só seguir o que é enfiado pelo grupo. E esta demanda aplica-se a todo o universo onde cada um de nós está inserido, político, laboral, social, relacional e espiritual (do que vai além do estritamente religioso).

E para não me alongar e tornar tudo de novo muito confuso, direcciono a reflexão de hoje para essa dimensão da religiosidade em que eu acredito. E esta é a minha verdade, que aos olhos de outros pode ser sujeita a uma qualquer observação de conteúdo semelhante à reflexão de hoje e entendida como errada.

Acredito que Deus se fez Homem, simples, que nasceu Judeu submisso e não Romano dominador, que escolheu andar no meio dos pobres e pecadores e não no meio dos fariseus detentores de poder e riqueza, que pregou tanto em sinagogas como no meio do campo ou no mar, com palavras simples e acessíveis e não com rituais de linguagem complexa. E foram os homens de uma dimensão reduzida que na intenção de se assumirem grandiosos, transformaram o que era de uma simplicidade deslumbrante numa confusão rebuscada de opulência insignificante.

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Mt 5, 1-12

domingo, julho 12, 2026

Atrevido

Nos últimos dias tenho manifestado aqui o meu lado mais atrevido, numa desinibição e exposição pouco habitual. Como se as pulsões interiores de desejos que se reprimem na necessidade de uma aparência social, ganhassem uma força maior de expressão através da escrita. Estarei a iniciar um surto psicótico ou a ficar com demência, dessa frontotemporal, que liberta o juízo das amarras do criticável? Mas o que não bate certo é essa memória infinita, que não me larga, mesmo nos pormenores que guardo e que me desgastam nos debates internos de teimar em entender mensagens subliminares onde provavelmente não existe qualquer conteúdo real.

E tu, leitor assíduo das linhas tortas que aqui vagueiam em jeito de escrita linear, aprecias o conteúdo mais livre e desinibido, ou o filtro poético dos debates de uma consciência perturbada?

As entradas neste blog são em grande parte de servidores norte-americanos. Será que o Sr Trump me lê? Explicaria muita coisa. Vamos ver se ele me dá os conselhos que demando.

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