Hoje convidaram-me oficialmente para coordenar um projecto, que irá ser apresentado proximamente aos seus beneficiadores e se for adiante, irá ser transformador de uma cultura que encaminha os doentes para os hospitais, sobejamente sobrecarregados.
Falar em serviços de saúde, é alargar uma resposta clínica, que vai além do Hospital ou do Centro de Saúde. É retirar os hospitais dos doentes (disse correcto), de forma a priorizar o seu tratamento em fase de agudização, ou de gestão de doenças crónicas, no local onde se encontram, nomeadamente nas residências de idosos, fomentando uma visão multidisciplinar e de articulação de cuidados de saúde, com intuito de melhorar a qualidade de vida de doentes na sua fase final.
É previsível que se criem inúmeras barreiras, para aquele que seria o objectivo ideal de todo o projecto, uma mudança de mentalidade perante a necessária limitação de cuidados. Mas para ter uma ambição mais moderada, será fundamental, capacitar as instituições ERPI de protocolos de actuação, vias preferenciais de contacto e de partilha de decisões clínicas que beneficiem o doente, sem recurso a obstinação terapêutica, encarniçamento diagnóstico que em nada beneficiam o doente e no conforto de cuidar e paliar.
E por isso me lembro sempre da alegoria da semente de trigo, sobretudo naquela que pode ser a perspectiva de sucesso de tantos projectos piloto. Dessas sementes de trigo deitadas à terra, em que algumas caem em terreno árido e que irão morrer, mas outras terão a sorte de cair em terreno bom, propício ao crescimento, e se bem cuidadas, regadas, nutridas, acabaram por dar flor e fruto.
Veremos como correrá, aquela que tem as bases para ser uma ideia revolucionária, de recentrar o cuidado do doente idoso frágil, naquilo que é verdadeiramente diferenciador, a sua qualidade de vida, ainda que possa parecer um pouco encurtada, mas será definitivamente mais dignificante.
