sexta-feira, março 13, 2026

Dignidade em fim de vida

Ser médico é mais do que uma profissão terminantemente técnica, em que é necessário, muitas vezes, um equilíbrio dessa linha ténue entre a biologia e a biografia, sobretudo ao cuidar de idosos com múltiplas patologias.

Num cenário de doença crónica avançada, o hospital, lares de idosos ou unidade de cuidados continuados, deixam de ser apenas lugares de cura ou convalescença, para se tornarem num espaço de definição de prioridades humanas.
A luta ética surge quando a medicina técnica, capaz de prolongar o funcionamento dos órgãos, entra em conflito com a dignidade da pessoa humana. O dilema não é sobre desistir, mas sobre reconhecer o momento em que a intervenção agressiva deixa de ser um benefício e passa a ser uma obstinação terapêutica, uma agressão à dignidade e ao direito a uma boa morte.
Quando a cura já não é o objetivo clínico, o "sucesso" médico deve ser redefinido. Como costumo dizer nestes casos, a morte não é um insucesso. O sucesso passa a ser o controlo rigoroso dos sintomas, o alívio da dispneia e a preservação da lucidez e do conforto.
Cada decisão, seja iniciar um antibiótico, colocar uma sonda nasogástrica ou uma hospitalização, deve ser filtrada pela pergunta: "Isto acrescenta vida aos dias ou apenas dias a uma vida em sofrimento?"
Tantas são as vezes em que o doente já não pode decidir e a família, ausente ou abstinente na tomada de decisão, faz recair sobre o médico, com toda a carga de responsabilidade, a tarefa de mediar a angústia da família, da equipa alargada de prestação dos cuidados, ajudando-os a passar do "façam tudo para o manter vivo" para o "façam tudo para que ele não sofra". É um processo de luto antecipado onde a comunicação é o fármaco mais importante.
Decidir não reanimar, limitar cuidados mais ou menos invasivos ou ter atitudes mais conservadoras, não é uma omissão de auxílio, mas sim um ato de respeito pela finitude. É aceitar que a morte é um processo natural e não uma falha técnica.
Cuidar de quem envelhece exige a coragem de saber quando recuar na técnica para avançar na humanidade. É um exercício diário de humildade perante a vulnerabilidade alheia e a nossa própria impotência.

Comunicar à equipa de forma clara os princípios de dignidade humana e os objectivos dos cuidados, é garantir que todos compreendem que limitar não significa abandonar. Fazer entender que decisão tomada, não é fruto de uma escolha subjetiva, mas consequência do prognóstico clínico, da falta de reversibilidade da doença, da futilidade terapêutica nas situações de falência multiorgânica ou ausência de resposta a tratamentos, sobretudo no corpo tão excessivamente massacrado do idoso, onde qualquer forma de intervenção mais agressiva causaria apenas dano desnecessário e prolongamento do sofrimento, sem benefício na qualidade de vida.
E por isso é peremptório que a tomada de decisão seja partilhada com a equipa multidisciplinar (enfermeiros, auxiliares, direcção técnica). Sobretudo por aqueles, que passam mais tempo à cabeceira do doente e que detetam sinais precoces de sofrimento ou desejos expressos pelo doente que podem validar a decisão de limitar cuidados.
Decisão partilhada que passa pela comunicação e diálogo em equipa, em pequenos momentos, para alinhar objetivos, garantindo que todos transmitem a mesma informação à família, evitando mensagens contraditórias que geram desconfiança. Momentos onde se pode redefinir o plano de cuidados, abordando não no que não vai ser feito ou realizado, mas com foco no que será reforçado para garantir a dignidade do doente, como o controlo de sintomas centrados no conforto. Acções que podem ser realizadas de forma autónoma, criando-se, se necessário, protocolos bem definidos, seja para lidar com dor, dispneia e sofrimento. Deixar claro que foco agora é a paz e não a luta.
É fundamental perceber que numa equipa, cada um tem a sua visão, resultado de crenças e experiências pessoais. E reconhecer que a limitação de cuidados pode gerar sentimentos de impotência ou falha moral em alguns profissionais, tentando estar receptivo, sem julgamento ou sentimento de culpa, às dúvidas ou angústias sobre a decisão tomada, de forma a manter um controlo emocional de decisões que poderiam levar-nos a um esgotamento pessoal, de culpa ou responsabilização ou no seu antípoda de sensação sobre-humana de tomada de decisão divina, mantendo a fundamental humildade de reconhecer a cada momento o melhor para cada doente.
Tenho em mim um cemitério enorme de doentes.
De decisões sobre vida ou morte.

quinta-feira, março 12, 2026

(Re)conheSER

E num olhar, num encontro frio e inesperado, ficaste a conhecer um pouco mais de mim, dos dilemas diários e do confronto entre a moral e o imoral que me domina.

Todos temos um caminho percorrido, que conhecemos como "a nossa história", que não é feita apenas de vitórias, de conquistas e momentos felizes, mas de uma trama complexa onde cada fio tem o seu propósito. Onde as desilusões e os momentos de maior luta e tristeza, nos trazem aprendizagem e oportunidades de mudança e crescimento.
E é nestes momentos de maior provação, que devemos gratidão pelas pessoas e pelos desafios que a vida e o destino nos dá.
Muitas vezes, olhamos para os obstáculos como pausas indesejadas, mas são eles que testam a nossa resiliência. As pessoas que cruzam o nosso caminho, as que ficam e as que partem, funcionam como espelhos, que revelam partes de nós que, no isolamento do conforto, permaneceriam ocultas. A gratidão aqui não é um cliché, é a aceitação de que cada encontro e cada perda foram lições necessárias.

É um ciclo de (Re)conheSER.
Conhecer o nosso ser interior e profundo, surge como um ideal de evolução, que não se limita a uma aquisição de novas competências, mas sim um regresso à nossa essência. Cada recomeço é uma oportunidade de retirar as camadas que já não nos servem e de nos aproximarmos de quem realmente somos. Não estamos apenas a conhecer o mundo, estamos a aprender a ser de forma mais autêntica através das experiências.
A jornada não termina no autoconhecimento. O verdadeiro crescimento manifesta-se na capacidade de transformar o que aprendemos em serviço. Ao continuarmos a aprender e a crescer, tornamo-nos mais aptos a contribuir para o todo. É um ciclo contínuo: recebemos da vida através dos desafios e devolvemos ao mundo através da nossa evolução e entrega.
E continuamos, um passo de cada vez, honrando o passado para construir um presente com mais significado.
Acredito que o tempo, por si só, nos levará à cura. Cura o que decidimos olhar com verdade, aceitar o que ficou reservado para cada um de nós. 
Crescer não é fazer mais, é SER mais, mais autênticos, mais inteiros, mais livres, mais em paz.

segunda-feira, março 09, 2026

Dá-me um abraço

Sob o pálido luar da existência, o abraço não é um simples gesto, mas um enlace sagrado, uma comunhão onde a matéria se submete ao império do espírito. É o instante sublime em que dois seres, exaustos das tormentas do mundo, se recolhem num santuário de carne e osso, onde as batidas do coração ditam o ritmo de uma melodia que só as almas podem ouvir, em que dois batimentos cardíacos se alinham sem precisarem de dizer uma única palavra. É muito mais do que um gesto físico. É o ponto onde a anatomia se funde com o invisível, transformando-se numa verdadeira ponte entre dois corpos e duas almas.

Nesse encaixe, o mundo lá fora silencia. Quando os braços se fecham, cria-se um casulo de segurança onde a paz e a tranquilidade deixam de ser conceitos abstratos para se tornarem sensações táteis. Ocorre uma transfusão de vitalidade. Onde antes reinava o desânimo, o toque restaura. Onde havia sombras, o calor do outro acende uma centelha que recarrega o ser por inteiro. É a paz que chega como uma brisa suave após a tempestade, uma serenidade que suspende o tempo e permite que o amor, em toda a sua melancólica beleza, floresça no silêncio de dois corpos que se fundem. Nessa troca silenciosa, o cansaço de um é absorvido pela força do outro, e o amor flui como uma corrente elétrica que restaura o espírito. 

É um "estou aqui" que reverbera no peito, capaz de desarmar as defesas mais rígidas e suavizar as dores mais agudas.

Num abraço sincero, as almas despem-se de máscaras e o que resta é a essência, a ligação pura, o calor humano e a certeza de que, naquele instante, somos um porto seguro para alguém, onde a alma, finalmente, se reconhece em outra e descobre que não está sozinha nesta vasta e tempestuosa jornada.

Queria morar num abraço teu

terça-feira, março 03, 2026

Inseguro

As palavras ganham eco, nesse imenso vazio que é a minha mente. Ideias redundantes, que não me abandonam e me deixam sequestro de estados de overthinking, do qual não me consigo emancipar.

Porque sou tão inseguro? Porque no meio de alguma ideia de extroversão, me sinto logo de seguida inapropriado, desadequado, que me destrói? Não é uma ideia recente. Já aqui expus em tempos a minha visão da dismorfia que me acompanha. E voltei a sentir essa sensação de subjugação.


Porque fui abandonado, não há muito tempo? Ainda ontem me dizias como era o marido perfeito, um exemplo de pai. Dedicado, organizado, que te libertava de tantos afazeres, como nunca imaginaste que seria possível. E talvez, tenha sido tudo isto que te fez deixar de me desejar. Correndo o risco de parecer algo misógino, talvez esta vertente muito feminina em mim, de gestão familiar, de deixar tudo organizado, de ter brio e ser aprimorado nos afazeres domésticos, a rondar o exageradamente romântico nas palavras e nas acções, te fez ver-me mais como uma companheira de casa e menos como um amante ardente, que te dá prazer à carne.

E me fez, como tantas vezes nesse passado esquecido, sentir-me ignorado pelos imensos defeitos que tenho, que me deixam incapaz de me olhar com uma paixão própria e que me fazem assumir essa atitude de autocrítica, mais complacente do que a complacência de quem olha e em silêncio diz tudo.

Como seria bom alcançar esse estado de eudaimonia, objectivo inalcançável, mas propósito final.


"Perdoar é o reflexo de se amar o suficiente para seguir em frente."

segunda-feira, março 02, 2026

Duas caras

 A vida é um continuum de aprendizagem. Um "só sei que nada sei", constante. E é junto dos mais novos, que tantas vezes recebemos dos ensinamentos mais profundos que nos fazem mudar, na maioria das vezes, de atitudes.


Somos feitos de duas "matérias" distintas, que no entanto têm traços comuns entre si. Essa que é a que os outros vêem de nós, baseada nos traços que vamos deixando, mas sobretudo criada pela expectativa do que podemos ser. E a outra que é a visão que nós próprios temos de nós. Esta que, se calhar, ninguém chega mesmo a conhecer, ou só mesmo essas raras pessoas que olhando-nos nos olhos, conseguem perceber o nosso verdadeiro eu, esse íntimo de uma obscuridade luminosa do qual somos feitos.

Por isso é importante estarmos receptivos a ser tolerantes, empáticos perante os outros, pois não sabemos do sofrimento, da angústia, das desilusões pelas quais passaram, que os moldaram em introvertidos, por vezes até desagradáveis, ou nessa estranha forma de ser tão expansiva que esconde.


É nesta batalha entre o eu próprio e o eu social, que nos encontramos. Nessa necessidade de frenar impulsos, que em muito revelariam os nossos desejos mais profundos, por vezes tão obscenos que chocariam os mais incautos. Vive-se preso a limites auto impostos, a valores em que se acredita serem importantes, para não destruir por completo as raízes nas quais fomos criados e educados.


Falo de novo de amores e desamores... num momento em que pensava estar "curado" dessa doença que alimenta, mas também destrói. Numa altura em que tinha de novo assumido a certeza de que "tudo está escrito", de que nada aconteceu por acaso. Que a determinado momento das nossas vidas dissemos SIM a quem nos estava destinado para a vida. E, ainda acredito. Não fosse esse desejo que nos deixa toldados e nos consome a razão e que se torna num pecado saboroso de luxuria e sensação calorosa.

Há, sem dúvidas, pessoas muito especiais, fantásticas, de uma presença e espiritualidade única que nos deixam completamente sem norte. Pelo seu jeito, pela sua forma e sobretudo pelo seu conteúdo.

Mas, não podemos ter a ambição de sermos "donos" de tudo o que é bom. A cada um de nós um pedaço, sem necessidade de ao querer tudo, tudo perder. E a forma mais digna de mostrar afecto, torna-se então, nessa liberdade que nos traz felicidade. Felicidade que tem que ser uma conquista diária, trabalhada arduamente, mesmo que para isso se tenha que abdicar de muito, que ao outro parecendo pouco, é tanto.

Sonhava hoje, sobre esses princípios de relacionamento. Da paixão que vem das qualidades que observamos no outro e do amor, que fica das imperfeições que compreendemos e aceitamos. Que assumimos diariamente como desafios, numa tolerância, num respeito mútuo, em que vemos partilhar e mudar o nosso eu íntimo ao outro, como se os dois fossemos um. Não há perda de identidade no processo. Há uma mudança natural, assumindo-se essa atitude de resiliência que nos faz ficar, superar adversidades e sair mais forte da experiência.


Não sou um Dr do amor. Nunca fui. E disto, apesar dos anos passarem, pareço perceber cada vez menos. Aprendizagem feita, com as alegrias e com as tristezas que em todas as histórias nos fazem perceber do difícil que é viver em paz, sereno, alienado ao que nos rodeia. Como seria bom viver nessa escuridão da solidão, nesse viciante desejo de não sofrer por se partilhar, mas com a sensação de que o isolamento total não nos teria trazido dos momentos mais felizes e luminosos da nossa vida, ainda que alguns deles tenham sido tão efémeros, mas de uma intensidade, capazes de nos transformar. Momentos capazes de transformar segundos, dias, anos em algo único, aos quais voltaríamos, sem hesitar.


"Sofremos muito com o pouco que nos falta e desfrutamos pouco do muito que temos".

Shakespeare

domingo, fevereiro 22, 2026

30 dinheiros

Não me é muito habitual que um sonho me marque tanto.

Em criança, era-me recorrente sonhar com queda de um terceiro andar onde vivia, e como se de um looping se tratasse, subia de novo as escadas para voltar a saltar. Sem dano, sem consequências. Só o salto. Nunca tentei perceber o porquê deste sonho, mas ainda hoje me recordo dos seus pormenores.

Esta noite, num pequeno intervalo de descanso, de mais uma noite de trabalho, voltei a ter um sonho que me despertou e que ainda agora, de olhos bem abertos, me atormenta.
No meio de uma confusão de sentimentos, que me pareciam bastante reais, de uma experiência de flirt a uma figura feminina, eis que vejo uma figura de aspecto tenebroso, que me coloca uma moeda de prata na mão.
A moeda pesava na palma da minha mão. Um disco de prata fria que parecia sugar o calor da pele. O brilho não era lunar ou puro. Tinha um reflexo baço, como se guardasse dentro de si o fumo de um abismo. Diante de mim, a figura desvaneceu-se nas sombras, mas o seu sorriso permaneceu gravado no ar, como um sorriso de quem conhece o preço exato da integridade humana.
Era o pagamento. O metal reluzente era o selo de uma traição que ainda ecoa na minha consciência. Ao fechar os dedos sobre a prata, senti o magnetismo do pecado, a promessa de poder, o conforto da recompensa, o sussurro sedutor de que "todos têm um preço". Era a tentação personificada, um convite para abandonar a luz e abraçar a conveniência das trevas.

No entanto, no centro do meu peito, sinto um nó apertado. O dilema de uma chama que me queima o espírito. De um lado, a prata oferece a ilusão de um caminho fácil. Do outro, a retidão exige o sacrifício desse brilho maldito.
Sinto em mim, a encruzilhada do limiar entre o homem que eu era e a sombra que o demónio quer que eu me torne. A moeda não é apenas dinheiro, mas o peso da minha própria alma em julgamento.
Em todo o caso, sonho ou mensagem, mais vale não brincar com o fogo, do inferno.

"...prostrou-se com o rosto em terra e orou: "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres"."
Mateus 26:39

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Politicamente (In)Correcto

Encontramo-nos em tempos de vida social, onde impera o politicamente correcto. Onde qualquer palavra ou gesto ofende.
Aqui vai algo encontrado algures e copiado.
Ainda que possa passar uma imagem preconceituosa de mim. Mas torna-se viciosamente irritante, tanta correcção.


"Antigamete na escola e na vida

Havia os ... ‘burros’ ... ‘gordos’ ... ‘caixa de óculos’ ... ‘sem sal’ ... ‘pretos’ ... ‘chineses’ ... ‘indianos’ ... ‘artolas’ ... ‘maricas’ ... etc.

Os ‘burros’ chumbavam! 

Não se tornavam doutores como hoje em dia.

Mas a fasquia era definida pelo marrão da turma!

Não era nivelada por baixo como agora. 

Somos todos iguais ... diz-se!!

Antes não parecia que fossemos!

Mas o ‘gordo’ também tinha notas brutais e ninguém sabia como! 

Talvez porque não jogasse à bola!

O ‘caixa de óculos’ tinha um sentido de humor inigualável mas não fazia corridas pois tinha medo de cair!

O ‘preto’ jogava à bola como ninguém e fazia umas fintas inimagináveis! Tinha um físico fora do comum!

O ‘chinês’ tinha vindo de outra escola, sabia à brava inglês, e tinha histórias que não lembravam a ninguém.

Cada um tinha um «defeito», até uma alcunha!

Mas tinha ou lutava por ter também outras qualidades.

Hoje não...!!

Dizem que somos todos iguais. 

Agora, tudo ou é bullying ... ou racismo ... ou xenofobia ... ou opressão ... ou assédio ... ou violência ... ou o caralho...! 

Antigamente, quando se era mesmo racista, levava-se um "chapadão" na tromba e aprendia-se logo que o ‘preto’ era como todos os outros, um de nós!

Apenas tinha cor diferente. 

E não era bullying! Era ‘aprendizagem on job’. 

Aprender assim era duro pois dói e não se esquece mais.

E às vezes em casa com os pais também se ‘aprendia’.

O menino ou menina ‘sem sal’ passava despercebido(a) e sentia-se sozinho(a). 

Ter uma alcunha diferente era fixe. 

A diferença era vista com bons olhos.

E aprendia-se uma coisa importante, rirmos de nós próprios. 

E não "chorarmos" porque alguém nos chamou isto ou aquilo. 

Assumia-se a gordura ... o ‘esquelético’ ... a ‘caixa de óculos’... e tudo o mais que viesse.

Mas quando não se estava bem, quando não se gostava da alcunha, fazia-se uma coisa importante. Mudava-se, lutava-se por acabar com ela.

Não se culpava os outros nem a sociedade. 

Não se faziam ‘queixinhas’!

E falhava-se ... Muitas vezes! 

Mas cada vez que se falhava ficava-se mais forte.

E sabíamos que era assim. Que havia uns que conseguiam, outros ficavam para trás, que havia quem vencia e quem falhava.

Agora não. Todos somos iguais.

Todos somos bons ... todos merecemos ... todos temos as mesmas oportunidades ... todos devemos até ganhar o mesmo ... todos somos vítimas ... todos somos oprimidos ... e todos somos parvos … porque aceitamos este ambiente do ‘politicamente correcto’ sem dizer nada… e até devemos dizer que somos ‘normais’.


Segundo o novo paradigma social, devem ter muito cuidado comigo, porque:

- Sou velho ou quase... tenho mais de 45 anos... e quando chegar à reforma, se chegar a tê-la, o que vai fazer de mim um tolo... improdutivo... que gasta estupidamente os recursos do Estado;

- Nasci branco, o que me torna racista;

- Não voto na esquerda radical, o que me torna fascista;

- Sou hetero, o que me torna um homofóbico;

- Possuo casa própria, o que me torna um proprietário rico (ou talvez mesmo um latifundiário);

- Gosto de comer borrego... o que me torna um abusador de animais;

- Sou cristão e, embora pouco praticante, sou um infiel aos olhos de milhões de muçulmanos;

- Não concordo com tudo o que o Governo faz, o que me torna um reaccionário;

- Gosto de ver mulheres bonitas bem vestidas (ou despidas), ou super decotadas, o que me torna um tipo capaz de assediar;

- Valorizo a minha identidade portuguesa e a minha cultura europeia e ocidental, o que me torna um xenófobo;

- Gostaria de viver em segurança e ver os infractores na prisão, o que me torna um desrespeitador dos direitos "fundamentais" protegidos;

- Conduzo um carro a diesel, o que me torna um poluidor, contribuindo para o aumento de CO2;

Apesar de estes defeitos todos, acho que ainda sou feliz… era mais antes… mas mesmo assim... considero-me um ‘gajo normal’!!"

Ser sociedade é saber reconhecer as diferenças e conviver com elas, não eliminá-las