sábado, julho 04, 2026

Impacto

Hoje disseram-me que um pequeno gesto de ajuda, criou um impacto indeterminado na vida de outra pessoa. Esta impressão que se cria no seio do outro, não é algo premeditado, ou propositado, é simplesmente uma sequência reactiva de um agradecimento interior que me move e faz tentar ser mais interventivo numa sociedade que está a ficar cada vez mais desprovida da humanidade necessária para ser ajuda ao outro. E foi mais um mote para uma reflexão bacoca...

Os actos que praticamos todos os dias, mesmo os gestos ou palavras mais simples e desprovidas de uma intenção grandiosa, possuem uma força concreta e real na rotina das pessoas que nos rodeiam. A vida humana constrói-se através destas pequenas interações concretas, como uma palavra de atenção, uma ajuda num momento de pressa ou simplesmente uma escuta atenta. Estas acções de insignificante significado, provocam uma alteração direta no estado de espírito de quem as recebe, transformando muitas vezes um momento difícil num dia mais suportável e funcional.

Quando uma pessoa experimenta o benefício de uma acção útil ou de um tratamento mais atencioso, ele desenvolve uma disposição interna para agir da mesma forma com terceiros, mesmo desconhecidos. O bem-estar gerado cria um impulso prático e consciente de replicação, tal efeito borboleta, em que a pessoa que foi ajudada sente o desejo de ser útil a outrem, dando continuidade a um comportamento positivo no seu próprio círculo social. Desta forma, estabelece-se uma sequência de ações benéficas que se espalha de forma progressiva, em que cada pequeno gesto actua como um elo visível que incentiva o próximo comportamento, resultando numa melhoria real e mensurável das condições de convivência diária. O ambiente coletivo transforma-se e torna-se mais seguro e acolhedor para todos, demonstrando que a evolução do bem comum depende directamente da soma destas atitudes quotidianas individuais.

Nesta psicologia do comportamento solidário, pequenos gestos individuais melhoram o mundo de cada um e de todos, conferindo à humanidade, a grandiosidade generosa que tanto precisa.

Ajudar o outro é a melhor maneira de me tornar uma pessoa melhor!

sexta-feira, julho 03, 2026

Sesta

Ocasionalmente, o calendário no hospital apresenta dias como o de hoje, com períodos longos, compostos por consecutivas horas de permanência no posto de trabalho, nos quais o resultado prático das ações é reduzido. Esta situação atual reproduz em muito as sensações experimentadas em anos anteriores, vividas em locais inteiramente distintos, por onde já passei. No passado, tal como no presente, a perceção de não ter qualquer utilidade prática e me sentir inútil torna-se recorrente.

Esta ausência de produtividade não tem origem numa falta de competência técnica para executar as tarefas, nem resulta de uma organização deficiente do tempo disponível. A causa reside exclusivamente na natureza da função que me está determinada, manter uma presença vigilante e aguardar uma necessidade potencial que pode não ocorrer.

Uma vez que não possuo a inclinação pessoal para inventar ocupações artificiais ou procurar tarefas fora do meu âmbito, decido ocupar o tempo vago com a atividade em que demonstro maior eficácia. Entrego-me ao sono em períodos curtos ao longo do dia, pequenas sestas, que se vão acumulando até a uma exaustão de me esgotar o sono por completo. Estes momentos de repouso cumprem a função exata de restabelecer a minha energia biológica e a minha estabilidade psicológica.

Longe vão os tempos, em que os dias e as noites pareciam ser de um caos difícil de controlar, fosse pela insegurança da juventude, ou pela má fortuna que me acompanhava. Mas desde que escolhi um novo padroeiro, tudo mudou.



Esquizofrénico

A nossa verdade é aquela em que acreditamos.

Seja fruto da profissão, ou postura intrínseca, há uma característica em mim, que me confunde mas que me dá prazer, de estar continuamente a ler as pessoas. Olho para o outro e tento perceber o que está escondido atrás das palavras que guardo com atenção e memória que parece ilimitada. Concentro-me nos olhos, nos gestos e na postura de quem está à minha frente e a partir de todos esses detalhes, a minha mente constrói cenários e imagens de forma automática. Às vezes, essas construções mentais são tão nítidas que chego a confundi-las com a própria realidade factual, num processo que me faz duvidar da minha lucidez e me sentir um tanto esquizofrénico.

Nos últimos tempos, decidi mudar de atitude e passei a questionar diretamente tudo aquilo que considero uma certeza, numa tentativa de perceber o que é uma constatação e o que é apenas uma ilusão da minha parte. O resultado desta análise surpreendeu-me. Percebi que este mecanismo, que muitas pessoas tratam como intuição, pressentimento ou capacidade de previsão, funciona em mim de forma natural e sem esforço.

Não tenho qualquer ligação ao misticismo e não me vejo como um adivinho, um xamã ou um guia espiritual. O que faço é um trabalho puramente lógico e prático. Funciono como um analista de dados, observo o comportamento humano, recolho pequenas informações isoladas, cruzo esses dados e interpreto o resultado final. A minha verdade baseia-se nessa capacidade de ligar os pontos e construir uma narrativa que não se distancia em muito do que é real.

O reverso desta dinâmica, é criar um jogo psicológico subtil, onde muitas vezes me apercebo de uma certa admiração pelo que as pessoas julgam saber de mim e do que sou, mas escolho não validar esse sentimento, mantendo uma máscara de aparente distração, de forma a preservar a imagem, evitando parecer vaidoso ou convencido e manter a postura que tento praticar diariamente de humildade e em certa medida enigmática. Este distanciamento emocional cria uma camada de artificialidade que impede uma intimidade genuína e evita expectativas às quais não posso ou não devo corresponder.

Toda esta clarividência que me domina, que gera empatia, mas que às vezes me consome, faz-me pensar se não serei um desses ser de luz.

A nossa verdade é aquela em que acreditamos.

quinta-feira, julho 02, 2026

8 em 10

Tenho visto imagens, comentários, partilhas de conteúdos que mostram a celebração de 10 anos da CUF na cidade de Viseu, unidade de saúde com quem colaborei durante 8 destes anos.

8 anos de uma entrega maior, onde, muitas vezes com prejuízo pessoal e familiar, me senti parte de uma máquina de cuidar e de uma missão gratificante de servir, com foco no bem maior, o doente.

Esta era, de facto, uma das bandeiras daquela estrutura de prestação de cuidados de saúde e, por vários anos, senti que esse era um desígnio puro e verdadeiro. Senti o impacto que a proximidade de cuidados, a entrega e dedicação pessoal e de quase toda a equipa, criava nos doentes e famílias. Com os recursos, sempre parcos, conseguimos autênticos milagres, no tratar e no paliar.

Mas num dia atrás do outro, numa mudança discreta, mas radical, tive a clarividência de ver além das bandeiras falsas, a realidade por detrás das ilusões que se vendem e perceber que o foco estava em cuidar com dignidade a pessoa humana que tenha posses suficientes para ser tratada. Tive a noção da ambição da estrutura, de ser cada vez maior financeiramente, a todo o custo. Numa sucessiva recusa de quem tem poder de decisão, o que antes seria possível fazer com pouco, passou a ser impossível, num empurrar para o serviço público, todos aqueles que não possuíam condições financeiras para ali continuar, numa sensação desconfortável de tornar o prestador directo de cuidados e conforto, num agiota ou proxeneta em nome de outrem, que nunca mostrava o rosto da decisão, numa vil tarefa de extorsão até ao último cêntimo, sobretudo nos momentos de maior sofrimento.

Perceber que o que era positivo era realçado, mas o que era menos bom, era abafado até cair no esquecimento, em vez de servir como exemplo para uma melhoria, numa lavagem corrupta de imagem de falsa qualidade.

Foi o choque dessa constatação vil e mesquinha, um dos motivos que me fez voltar para o essencial do cuidar, do ser suporte num ambiente em que rico ou pobre, influente ou banal, teriam o mesmo acesso aos cuidados, com o mesmo empenho digno e profissional de alguém, que conhecendo a fundo todas as realidades, tenta dar o melhor de si e ser influência aos demais, tal contaminação virusal, para na sua globalidade e universalidade proporcionar a todos um serviço de qualidade, conforto e excelência, tendencialmente gratuito.

Hei-de fazer-me cumprir

quarta-feira, julho 01, 2026

Escondido à vista de todos

Porque escrevo o que sinto sob pseudónimos?

Escrevo para me esconder à vista de todos. Uso um nome que não é o meu porque o meu próprio nome carrega o peso de ter de ser socialmente aceitável. Na verdade, criar um alter ego não é, como em muitas situações uma fuga artística, mas sim uma rede de segurança que me permite dizer tudo o que me queima por dentro e, se alguém me confrontar, posso simplesmente encolher os ombros e fingir que estas linhas pertencem a um estranho. É um pacto de silêncio que faço comigo mesmo para proteger as aparências.

Olho-me no espelho e vejo-me a alimentar esse ser que construí para o mundo, uma entidade calma, cordial, com o sorriso certo de um humor refinado e de resposta amena. É a personagem que cumpre os requisitos mínimos que a sociedade exige para me deixar em paz. Mas sei bem o cansaço que me traz manter essa máscara intacta. Enquanto essa figura flutua pela rotina diária, na penumbra onde ninguém me vê, a realidade é outra. Vivo com lutas internas violentas, num ruído ensurdecedor de desejos que não ouso confessar e de palavras que têm demasiada vergonha para me sair pela boca, encontrando nos meus dedos o único escape possível.

Poucos, muito poucos conhecem este lugar. Sei-o pelas poucas visitas que tem. Foram muitos anos sem ser mantido e construído, deixando em ruínas as paredes que actualmente revejo e me parecem estranhas e poeirentas. Mesmo o que é mais recente, já não parece criação minha. Lembro-me de quem já me visitou no passado, mas o tempo e o meu próprio isolamento fizeram com que essas pessoas se esquecessem do caminho e ainda bem que assim é.

Ainda assim, há algo que nunca muda. Olho para o que escrevo hoje e vejo o mesmo fio condutor de sempre, os desamores. Essa dor antiga e familiar que Camões explicou melhor do que ninguém, "o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente".

O medo constante de ver fugir o que já é meu e, ao mesmo tempo, a melancolia pesada de chorar por aquilo que nunca cheguei a ter.

No fundo, o pseudónimo é apenas a porta trancada de um quarto onde posso ser eu próprio na intimidade, sem ter de pedir desculpa a ninguém e me traz essa...

 ...liberdade de me expor.

terça-feira, junho 30, 2026

O brilho que nos une

Ao se definir os últimos retoques na organização de umas jornadas de saúde, desafio feito à directora técnica de um dos locais onde presto serviço, surgiram algumas expressões de insegurança no grupo de trabalho, que me fizeram ser mais interventivo no ânimo da equipa. Saiu algo do género...

Olhar para o caminho que temos pela frente na organização destas Jornadas de Formação para Auxiliares de Ação Direta traz-me um misto de orgulho e de profunda responsabilidade. Sei que, nos bastidores, partilhamos algo muito humano, o receio da exposição. Quando nos colocamos diante dos outros, quando subimos a um palco ou assumimos a liderança de uma partilha de conhecimentos, é natural que a insegurança tente ganhar espaço. No entanto, é precisamente aqui, nesta linha de partida desafiante, que reside a maior oportunidade de transformação para o nosso ser profissional. Fazer uma exposição, seja ela teórica, técnica ou prática, é muito mais do que transmitir conteúdos a terceiros. É um meio necessário para o nosso próprio crescimento pessoal interior e esta oportunidade não pode, de forma alguma, ser negligenciada ou desperdiçada por medo. Cada vez que vencemos a barreira da timidez, geramos um ganho progressivo de um à vontade, de uma fluência que tanto admiramos nos outros e que não é inata, mas que se adquire e lapida através da prática, no exercício do discurso coloquial e na generosidade de partilhar o que sabemos.

A segurança no "eu" que cultivamos nestes momentos eleva-nos a um estado de bem-estar próprio tão forte que se torna o motor para feitos e ganhos ainda maiores nas nossas vidas.

Ao olhar para cada um de vós, vejo uma equipa com um potencial extraordinário. Queremos que estas jornadas sejam dinâmicas, vibrantes e eminentemente práticas, mas percebo o receio que alguns sentem em se exporem. É por isso que hoje decidi refletir sobre cada um de nós e no todo que fornamos como equipa. Quero fazer um apelo direto a essa força interior que sei que habita em cada um, mesmo que por vezes pareça escondida ou reprimida pelas nossas próprias dúvidas. É hora de permitir que essa força veja a luz do dia!
O nosso trabalho com os idosos exige de nós sensibilidade, resiliência e entrega diária. Se somos capazes de cuidar com tanta nobreza no silêncio do quotidiano, somos perfeitamente capazes de partilhar essa sabedoria com os restantes. Ao darmos este passo em frente, juntos, não estamos apenas a organizar um evento, estamos a criar uma cultura institucional viva de "saber fazer". Estamos a criar um espaço onde adquirir know-how serve tanto para a valorização e formação do outro, como para o nosso próprio enriquecimento pessoal.

Conto com a coragem de todos e de cada um. Iremos transformar o receio em dinâmica, a dúvida em partilha e estas jornadas num marco inesquecível para todos nós. O vosso conhecimento é valioso demais para ficar guardado e fechado nas paredes da instituição.

Vamos fazê-lo brilhar!

segunda-feira, junho 29, 2026

Aging

O envelhecimento é um processo biológico natural. E se um dos picos é por volta dos 40 anos, sinto-me cada vez mais nesse processo normal de ganho progressivo de sinais e sintomas de uma perda progressiva de capacidades. O corpo torna-se no eco do cansaço, onde cada linha de expressão e cada perda subtil de vigor não são falhas, mas sim a caligrafia da própria vida a inscrever-se na nossa pele.

Habitar o corpo nesta etapa é aprender a ler um novo mapa. A rigidez matinal, um fôlego que claudica mais cedo, uma vertigem que aparece do nada, uma nitidez que se esbate no olhar, surgem como o reverso inevitável de uma perda fisiológica natural. É o relógio da vida a ditar o seu ritmo, lembrando-nos de que a juventude não era um estado permanente, mas passageira.

O que é físico não opera no vazio, mas é caixa de ressonância da nossa mente e têm surgido cada vez mais estudos a correlacionar estas duas dimensões, sobre a relação entre bem-estar emocional e processos de doença. Quando o desconforto emocional se instala, seja pelo peso das responsabilidades, pelas crises existenciais da meia-idade ou por anseios silenciosos, a fronteira entre o que é puramente biológico e o que é anímico esbate-se de forma assustadora. As dores multiplicam-se, as queixas fragmentam-se e o cansaço deixa de ser apenas físico para se tornar uma névoa que cega o quotidiano numa dor total.

O bem-estar emocional e a saúde física partilham o mesmo ecossistema. Quando o coração ou a mente pesam, o corpo verga e a doença encontra terreno fértil para se manifestar. Escutar estas múltiplas queixas contemporâneas é perceber que, talvez, o corpo não esteja apenas a envelhecer, está, acima de tudo, a tentar falar. Está a exigir a pausa, o acolhimento e a cura das feridas invisíveis que a biologia, por si só, não consegue explicar.

Há uma beleza em cada fase da vida... mas agora a beleza ganha um peso de existência.