Ter percepção da verdadeira realidade é uma maldição, um fardo invisível que me condena a assistir ao teatro do mundo com uma dolorosa lucidez. Entender os jogos da vida, observar as mentiras dissimuladas das pessoas e compreender os padrões falsos de uma sociedade erguida sobre aparências e ainda assim descobrir que, para sobreviver, é preciso muitas vezes calar a verdade e parecer idiota perante os outros.
A realidade crua é pesada demais para que a maioria consiga suportá-la sem desabar, e é essa fragilidade que faz com que tantos sintam a necessidade desesperada de viver com ilusões, alimentando-se de sonhos suaves e mentiras confortáveis que servem de anestesia contra o vazio e chamam a esse viver ilusório e alienado, felicidade, aprisionando-se de livre vontade na forma mais profunda de escravidão que existe, que é a dependência absoluta de se verem compreendidos e aceites pelos outros a qualquer custo.
E por tudo isto, sinto vergonha de mim mesmo, uma culpa amarga por não ter sabido jogar o jogo da encenação social, especialmente no momento em que entendi que a vida não passa de um grande baile de máscaras e eu, desarmado, cometi o erro fatal de aparecer com o meu rosto real.
