quinta-feira, julho 30, 2026

Indiferença

A indiferença é o inverno do espírito humano. Não fere como o gume de uma lâmina nem queima como o calor do ódio, simplesmente gela, anestesia e apaga.

Ao longo da minha caminhada, fui percebendo que o verdadeiro oposto do amor não é a hostilidade que ruge, mas sim o silêncio vazio de quem olha sem ver e ouve sem escutar. A indiferença é um mal maior da nossa sociedade, porque isola os homens em ilhas invisíveis, convencendo-os de que a dor vizinha pertence a um universo estrangeiro.

No entanto, na arquitetura do afeto não são precisos grandes monumentos, mas basta tão só uma pequena palavra dita no momento da queda, um gesto mínimo que devolve a dignidade, um ombro que partilha o peso do mundo ou uma escuta atenta que valida a existência de quem fala, para fazer a diferença. Quando escolhemos quebrar o vidro da indiferença, descobrimos o bem em ser para o outro. Estender a mão é um ato desprovido de qualquer custo financeiro ou esforço gigantesco, mas carrega o poder tectónico de reescrever o dia de alguém.

Há, contudo, um mistério belo e circular nessa entrega. Ao iluminarmos a penumbra alheia, uma claridade inesperada invade a nossa própria alma, o conforto que oferecemos regressa a nós multiplicado, instalando no peito um bem-estar profundo e pacificador. Descobre-se, nesse mesmo instante, um certo egoísmo no altruísmo, no bem que fazemos ao outro salvamo-nos a nós mesmos da solidão.

Cuidar do próximo é uma forma sublime e legítima de cuidar de nós proprios.

quarta-feira, julho 29, 2026

Respeito pela honestidade

As palavras que sempre guiaram os meus passos, tem-se expressado ultimamente com uma força renovada. Por isso, não será de estranhar, como mesmo neste cantinho onde os pseudónimos substituem o seu criador, eu me mostre de uma transparência que pode causar algum espanto e estranheza.

Com o tempo e a aprendizagem, aprendi que o respeito não se impõe, conquista-se pelo exemplo, e nenhum exemplo educa mais do que a forma como tratamos os outros. Com esta convicção toda a minha vida me pautei por ser uma pessoa honesta e nas relações emocionais, sempre escolhi a clareza como bússola, mesmo sabendo que, por vezes, essa nudez da alma me traria feridas e prejuízos num mundo habituado a meias verdades ou enganos. Sempre acreditei que a verdade, ainda que inicialmente mais dolorosa, acaba sempre por trazer uma serenidade e paz indeléveis.

Durante muito tempo, carreguei o silêncio de coisas guardadas, que não revelava para não parecer um ser diferente, um tolinho, e percebi que quando se foge à verdade, tudo o que fica escondido gera angústia, uma pressão interior que nos consome os dias e nos rouba o sono. Ocultar é como construir uma prisão de tijolos invisíveis, onde o ar se torna rarefeito.

Mas agora, a verdade revela-se, sem reservas. No instante em que as palavras honestas deixam o meu peito e ganham o mundo, sinto um desmoronamento daquilo que é falso e vejo aparecer a fundação imediata de uma paz interior inabalável. Olhar o outro nos olhos e entregar-lhe a realidade nua não é um ato de crueza, é antes, uma das maiores expressões de respeito que podemos oferecer, pois significa considerar o outro digno da verdade, recusando o insulto da ilusão. A clareza liberta quem fala e dignifica quem escuta. Na mansidão desta nova aurora, descubro que a honestidade não nos isola, ela limpa o caminho para que os laços reais se tornem, finalmente, eternos.

terça-feira, julho 28, 2026

Invisível

Há um abismo entre o que o mundo testemunha e o que realmente se processa na quietude do nosso ser. Por fora, apresentamo-nos muitas vezes como estátuas de serenidade ou meros espectadores da vida, cumprimos rituais, mantemos a postura, observamos a paisagem e deixamos que o tempo nos atravesse com uma aparente passividade. Para quem nos vê de fora, o silêncio pode parecer ausência, a imobilidade pode sugerir acomodação e o olhar fixo no horizonte pode ser interpretado como simples contemplação.

No entanto, a verdadeira vida acontece no interior, longe dos olhos de tantos que nos olham, mas não vêem, onde existe um ecossistema pulsante de ambição, superação e resiliência. Quando parecemos mais parados, é frequentemente quando estamos a travar as nossas batalhas mais exigentes. Dentro do peito de alguém aparentemente imóvel, cada dúvida superada é um ponto de apoio conquistado numa rocha íngreme de um interior que não precisa de plateia nem de grandes gestos externos para mover montanhas. A verdadeira força de vontade opera em absoluto recolhimento, sustentada pela luz da esperança que recusamos deixar apagar.

Somos, na essência, gigantes a guardar universos inteiros por trás de gestos contidos. A casca exterior serve apenas como um ponto de ancoragem a partir do qual a nossa mente e a nossa alma se lançam às altitudes mais ousadas.

Ninguém consegue medir a distância que uma pessoa já percorreu apenas por olhar para onde ela está parada. A inspiração mais profunda não faz barulho, ela é o impulso secreto que nos faz continuar a subir, mesmo quando o mundo à nossa volta acredita que estamos apenas a olhar o horizonte.

A vida impõe desafios, mas és tu que decides se eles serão obstáculos imóveis ou objectivos na subida.

segunda-feira, julho 27, 2026

Saudade

Mais um dia intenso, preenchido de sentimento de perda, mas também de uma estranha alegria gerada na compaixão, de uma partida com dignidade e serenidade de quem se encontrava num sofrimento físico e emocional de uma partida consciente e anunciada.

Ver partir quem já conhecemos, alguém que teria ainda muita vida pela frente, gerou em mim um sentimento de uma saudade enorme de todas as pessoas que já conheci e que de alguma forma me marcaram, seja por pequenos gestos que ficaram, pelas palavras que ainda ecoam dentro demim, ou simplesmente pela sua presença inspiradora. Alguns até desconhecidos, mas que guardei o rosto, outros que nunca mais voltei a ver.

Recordei hoje estas pessoas com as quais me cruzei pelos vários e distintos locais pelos quais passei. Não que guarde as memórias dos locais em si, desprovidos de vida ou de um vazio de pertença ou mesmo das pessoas que lá encontrei e que se misturavam com as paredes inanimadas, como se fossem um contínuo com a estrutura física em si, mas sim daqueles que davam vida aos locais com a sua humanidade.

Recordo-os pelo extraordinário que eram, mas sobretudo por, no ordinário, naquilo que era comum, aplicarem um amor extraordinário. São estes que invocam em mim essa saudade, que tornam frágil o forte que aparento ser. Apetecia-me hoje abraçar cada um deles, com força, num gesto prolongado em que cada um pudesse sentir a marca profunda e inextinguível de um sentimento que perdura e me preenche o coração e a alma e dizer obrigado pelo que foram para mim e que certamente são para cada um e para todos.

Obrigado aos que continuam a ser parte de mim

domingo, julho 26, 2026

Palavras de promessas

Hoje vi um provérbio italiano, que me fez refletir sobre aquilo que tantas vezes sou, entre a diferença do que as palavras facilmente dizem, e o que as acções ditam.

Entre aquilo que uma pessoa promete e o que realmente coloca em prática existe um mar inteiro que ainda precisa ser atravessado.

Há uma honestidade singular neste provérbio, um reparo que não condena, mas também não se deixa iludir. Não há cinismo nesta sentença, mas uma sabedoria simples de uma constatação de que o espaço entre a intenção declarada e a acção concreta é imenso, por vezes insondável.

A escolha do próprio mar como metáfora não é um acaso. Prometer é permanecer imóvel na margem, num terreno seguro onde a intenção habita, um ponto de partida que não encontra resistência, não exige sacrifício e não cobra preço algum. No reino das palavras mortas que não geram acções, o tempo é infinito e os obstáculos não existem, tudo é leve, belo e sem custo. Mas atravessar o mar é outra história. Exige navegação real, esforço físico, risco genuíno e um compromisso irrevogável com o destino. A acção concreta lida com o peso real da vida, enfrenta as horas contadas do dia, a energia finita do corpo, as tempestades imprevistas e a dolorosa necessidade de renunciar a mil caminhos para que apenas um se cumpra.

É essa assimetria fundamental que explica por que a promessa se multiplica com tanta facilidade, enquanto o gesto concreto se recolhe.

Contudo, o mundo acostumou-se a julgar mais pelos olhos do que pelas mãos. Encanta-se com a postura na margem, com a beleza do discurso e com a ilusão das aparências, esquecendo-se de olhar para a imensidão da água do mar. Aprender a distinguir quem apenas fala de quem efetivamente constrói a travessia é uma das formas mais profundas de sabedoria e de distinção do que é real do ilusório. Afinal, as intenções do olhar desenham o mapa, mas são apenas as mãos salgadas pelo mar que se cumprem no trabalho árduo de chegar à outra margem.


"Ó mar salgado, quanto do teu sal.
São lágrimas de..."
Fernando Pessoa, in Mar Salgado

sexta-feira, julho 24, 2026

Faz o que digo

Sinto-me tantas vezes na posição confortável de ser conselheiro, ouvinte ou suporte daqueles que vêem em mim um bom ouvinte, ponderado e seguro.

Mas intimamente, sei que me tornei num perito de um clássico "faz o que digo, não o que faço".

Transmito incentivo, quando pessoalmente me apetece baixar os braços e desistir. Dou motivação, quando pessoalmente me sinto esgotado pelas amarguras diárias.

Sei que palavras acrescentam pouco para uma paz interior necessária em cada um. E sei que quem observa de fora, tal expectador de vida alheia, não compreende a complexidade total das circunstâncias pessoais e familiares que são suporte de qualquer decisão.

Tento interiorizar em mim, o que apregoo, mas quando o reflexo que vejo é do inseguro interior, escondido atrás da máscara de um ser seguro, reconheço que mudar é tarefa bem mais difícil, onde as meras intenções não ganham força suficiente para ter peso nas acções diárias.


quarta-feira, julho 22, 2026

Sofrimento familiar

 Ninguém diga que está bem...

A expressão não é minha, mas de um primo que há uns anos teve um acidente de viação grave que lhe retirou parte de uma vida normal, após ter permanecido quase 2 anos entre internamentos, intervenções cirúrgicas e reabilitação. Recorria frequentemente a esta frase para dizer que de um dia para o outro, nada somos, passando de uma situação de total independência, para uma dependência total de terceiros.

E hoje, a expressão assume novos contornos, agora não de um qualquer acidente súbito, mas de uma súbita doença de uma pessoa jovem que num momento que certamente pareceu eterno, tomou conhecimento de uma vida encurtada.

Há dias soube por amigos em comum que uma enfermeira com quem trabalhei no início da minha carreira profissional soube de um diagnóstico de neoplasia maligna do colon. E não fosse ser uma notícia por si só sombria, no momento do diagnóstico soube, como profissional de saúde que é, do mau prognóstico, por se apresentar com metastização hepática e carcinomatose peritoneal.

Recebemos todos a notícia com choque, desta mãe de 3 menores, com um pedido de oração. E talvez a oração tenha tido a força suficiente de não prolongar o sofrimento de um desfecho anunciado. Poupada a tratamentos supérfluos e penosos, em pouco tempo entrou numa agonia terminal, tal bênção de abreviar tamanho sofrimento.

É doloroso vê-la partir? Seria mais doloroso, vê-la numa agonia prolongada de fim certo, ainda que no imediato possa parecer frio e insensível. Mas para quem já presenciou tanto sofrimento, tanta distanasia, perceberá o que quero transmitir.

Que sofrimento a dos pais, de certo abatidos pelo impacto desta situação e que hoje, receberam mais uma notícia igualmente dolorosa. Uma irmã, mais nova, movida pelo diagnóstico oncológico recente na família, decidiu fazer um rastreio de saúde e como se não fosse catástrofe suficiente, descobriu que tem uma neoplasia da mamã com metastização pulmonar.

Não imagino sequer a tempestade que vai no íntimo de cada um, não há empatia sequer que chegue para entender tanto sofrimento.

Que tenham um descanso sereno e que sejam guias dos vossos filhos, Paula e Carmen.