Ser médico é mais do que uma profissão terminantemente técnica, em que é necessário, muitas vezes, um equilíbrio dessa linha ténue entre a biologia e a biografia, sobretudo ao cuidar de idosos com múltiplas patologias.
Num cenário de doença crónica avançada, o hospital, lares de idosos ou unidade de cuidados continuados, deixam de ser apenas lugares de cura ou convalescença, para se tornarem num espaço de definição de prioridades humanas.A luta ética surge quando a medicina técnica, capaz de prolongar o funcionamento dos órgãos, entra em conflito com a dignidade da pessoa humana. O dilema não é sobre desistir, mas sobre reconhecer o momento em que a intervenção agressiva deixa de ser um benefício e passa a ser uma obstinação terapêutica, uma agressão à dignidade e ao direito a uma boa morte.
Quando a cura já não é o objetivo clínico, o "sucesso" médico deve ser redefinido. Como costumo dizer nestes casos, a morte não é um insucesso. O sucesso passa a ser o controlo rigoroso dos sintomas, o alívio da dispneia e a preservação da lucidez e do conforto.
Cada decisão, seja iniciar um antibiótico, colocar uma sonda nasogástrica ou uma hospitalização, deve ser filtrada pela pergunta: "Isto acrescenta vida aos dias ou apenas dias a uma vida em sofrimento?"
Tantas são as vezes em que o doente já não pode decidir e a família, ausente ou abstinente na tomada de decisão, faz recair sobre o médico, com toda a carga de responsabilidade, a tarefa de mediar a angústia da família, da equipa alargada de prestação dos cuidados, ajudando-os a passar do "façam tudo para o manter vivo" para o "façam tudo para que ele não sofra". É um processo de luto antecipado onde a comunicação é o fármaco mais importante.
Decidir não reanimar, limitar cuidados mais ou menos invasivos ou ter atitudes mais conservadoras, não é uma omissão de auxílio, mas sim um ato de respeito pela finitude. É aceitar que a morte é um processo natural e não uma falha técnica.
Cuidar de quem envelhece exige a coragem de saber quando recuar na técnica para avançar na humanidade. É um exercício diário de humildade perante a vulnerabilidade alheia e a nossa própria impotência.
Comunicar à equipa de forma clara os princípios de dignidade humana e os objectivos dos cuidados, é garantir que todos compreendem que limitar não significa abandonar. Fazer entender que decisão tomada, não é fruto de uma escolha subjetiva, mas consequência do prognóstico clínico, da falta de reversibilidade da doença, da futilidade terapêutica nas situações de falência multiorgânica ou ausência de resposta a tratamentos, sobretudo no corpo tão excessivamente massacrado do idoso, onde qualquer forma de intervenção mais agressiva causaria apenas dano desnecessário e prolongamento do sofrimento, sem benefício na qualidade de vida.
E por isso é peremptório que a tomada de decisão seja partilhada com a equipa multidisciplinar (enfermeiros, auxiliares, direcção técnica). Sobretudo por aqueles, que passam mais tempo à cabeceira do doente e que detetam sinais precoces de sofrimento ou desejos expressos pelo doente que podem validar a decisão de limitar cuidados.
Decisão partilhada que passa pela comunicação e diálogo em equipa, em pequenos momentos, para alinhar objetivos, garantindo que todos transmitem a mesma informação à família, evitando mensagens contraditórias que geram desconfiança. Momentos onde se pode redefinir o plano de cuidados, abordando não no que não vai ser feito ou realizado, mas com foco no que será reforçado para garantir a dignidade do doente, como o controlo de sintomas centrados no conforto. Acções que podem ser realizadas de forma autónoma, criando-se, se necessário, protocolos bem definidos, seja para lidar com dor, dispneia e sofrimento. Deixar claro que foco agora é a paz e não a luta.
É fundamental perceber que numa equipa, cada um tem a sua visão, resultado de crenças e experiências pessoais. E reconhecer que a limitação de cuidados pode gerar sentimentos de impotência ou falha moral em alguns profissionais, tentando estar receptivo, sem julgamento ou sentimento de culpa, às dúvidas ou angústias sobre a decisão tomada, de forma a manter um controlo emocional de decisões que poderiam levar-nos a um esgotamento pessoal, de culpa ou responsabilização ou no seu antípoda de sensação sobre-humana de tomada de decisão divina, mantendo a fundamental humildade de reconhecer a cada momento o melhor para cada doente.
