Há dias em que o tempo parece voar. Outros em que a cadência das horas se perde e tudo parece inanimado.
O tempo não é como uma linha reta, mas antes uma maré invisível que ora nos arrasta na sua corrente furiosa, ora recua, deixando-nos encalhados num areal de minutos imóveis.
É comum termos a noção de que a vida corre depressa, e há, de facto, dias em que o mundo gira com uma vertigem tal que as horas, os dias e meses parecem evaporar-se entre os dedos.
Mas depois, sem aviso, a engrenagem do relógio cala-se e o contar contínuo habitual das horas perde-se, e tudo ao redor assume uma quietude estranha, onde o próprio ar parece pesado e desprovido de vida.
Nestes últimos dias, tenho visto o tempo estagnar bem diante dos meus olhos. Não passa, assiste-me. Cada jornada transforma-se num deserto interminável que, na minha mente, ganha as proporções de longos meses. Os dias prolongam-se num labirinto infinito de pequenos afazeres, tarefas miúdas e automáticas que drenam a energia mas não preenchem a alma. É uma rotina de baixa rentabilidade interior, onde o esforço é tremendo e o fruto é quase nenhum. Sinto um peso físico e invisível ancorado ao meu peito, um fardo que desacelera o mundo exterior e me força a uma lentificação profunda em tudo o que sou. Cada gesto exige uma deliberação imensa, cada pensamento arrasta-se como se nadasse contra a corrente.

