A vida resume-se a uma sucessão ininterrupta de encruzilhadas, em que sou confrontado com a necessidade de fazer opções constantes no trilho que percorro. São os pequenos e grandes veredictos diários que desenham o caminho do que sou, moldando a cada momento o chão que piso. Entre os dias que de facto vivo no eco melancólico daquilo que nunca chegou a ser meu, vejo-me forçado a uma postura de combate perante os abismos que a existência me impõe.
Quase sempre, a escolha mais sensata é aquela que me abraça com a promessa de segurança e certezas vazias, ainda que tantas vezes me saiba a tão pouco. Fico ali, ancorado ao que já é meu por direito e pela rotina, mas secretamente sou assombrado pelo sonho de tudo aquilo que poderíamos ter sido. É essa incerteza que me seduz na penumbra, esse sussurro persistente de que o mundo pode guardar algo maior para mim, mais vívido e intenso, logo ali adiante.
Venho a perceber, nas lutas interiores da minha caminhada, que o amor não é um porto de abrigo onde simplesmente se deitam âncoras, é sim, o próprio mar, uma travessia implacável que exige um esforço diário, com suor da alma. Amar é uma construção contínua, nunca um dado adquirido e no instante em que assumo o amor como garantido, ele começa a desvanecer-se, resvalando para as mãos de quem me alimenta com miragens e ilusões.
Foi no diálogo, mas também no silêncio desta clareza que tomei uma das decisões mais difíceis da minha jornada. Descobri que a fidelidade não é um automatismo social, mas sim uma escolha dolorosa, profundamente íntima. Manter-me firme exige uma disciplina que magoa. É a dor crua de sufocar um desejo ardente, um vislumbre de prazer que me promete consolar daquela solidão que, paradoxalmente, tantas vezes se faz sentir na vida em comum.
No entanto, para salvaguardar o que me é verdadeiramente sagrado, e para não trair a versão de mim mesmo que ainda teima em acreditar na eternidade do amor, escolho a resistência. Terei de silenciar estas pulsões que me dominam, para manter vivo o que é eterno.


