quinta-feira, junho 18, 2026

Saramago

Passaram 16 anos desde a morte de Saramago.  Pessoalmente não é um autor que me diga muito, pela sua forma muito confusa de escrever, nesse jeito de virar o português do avesso e revelar de forma absurda o que ele esconde, tornando-o profundo.

José Saramago é, por si só, um labirinto sintático desafiante, uma floresta densa onde a pontuação tradicional se dissolve e as palavras parecem tropeçar umas nas outras.

No entanto alvíssaras sejam dadas a algumas citações que marcaram e marcam, e que são de uma profundidade complexa que revela muito do ser de cada um.


"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."

"É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós."

"Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo."

"Se tens coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne e sangra todo o dia."


De facto, entrar na essência humana exige reconhecer que carregamos no peito um mistério sem dicionário, uma força silenciosa e sem pronúncia que define a nossa verdadeira identidade. Para decifrar este enigma interior e alcançar a plenitude dessa essência, somos obrigados a romper com o casulo do ego e a distanciarmo-nos das nossas próprias certezas, se tivermos coragem. Esta jornada de autodescoberta e emancipação não suporta a ansiedade dos passos precipitados nem a inércia dos dias vazios, exigindo de cada um de nós o equilíbrio perfeito de quem caminha com firmeza na urgência da vida. É neste percurso, feito de avanços e recuos no tempo, que a nossa vulnerabilidade se manifesta e se torna o nosso maior triunfo, uma sensibilidade exposta que recusa a rigidez de coração daqueles que se decidiram endurecer perante o mundo, mas que como o meu, se fizeram de carne, vivo, autêntico e profundamente humano que sangra todo o dia.
Saramago... um escritor que me tocou de forma muito improvável.

Revolta

Pela minha forma de ser, nesse desejo de ser aceite e apreciado por todos, alimentando uma necessidade de elogio constante, vejo-me recorrentemente a tentar ser o mais prestável possível. Desmultiplico-me em tarefas, abdico de momentos em família e de descanso, para dizer sempre sim a qualquer pedido que seja feito. E dada a minha profissão e a proximidade a um grupo de religiosos, em contacto com um dos locais onde presto serviços, sou frequentemente utilizado como médico pessoal de uma classe inteira que se julga privilegiada.

Ora, recentemente e por necessidade de organização de uma pequena festa familiar de celebração de 50 anos de matrimónio dos meus pais, solicitei de forma humilde e envergonhada, ajuda a um destes clérigos, que recorrentemente me pede ajuda. A resposta, foi um tanto, muito, surpreendente. "Procure nesta página de internet, o contacto que precisa". Que rica e preciosa ajuda. Que forma delicada e interessada em ajudar.

Pergunto-me se é correto, continuar a ser sempre o profissional, a pessoa disponível, para depois, num pedido de uma ajuda tão simples, ser encaminhado, para um caminho tão despersonalizado de apoio.

Puta que pariu.

A revolta que sinto, é mais interior, própria minha do que contra terceiros, por ser esse indivíduo que não diz não, quando intimamente o desejava fazer, alimentado uma visão de eterno disponível e até submisso, aos caprichos individuais de cada um.

Tento mudar, ser diferente, mas com receio de ser considerado arrogante, ingrato ou simplesmente mal educado. Gostava de, nestes ambientes socialmente mais conservadores, um dia ter a coragem de mandar alguns destes à merdinha, de onde no seu pedestal parecem habitar, tais enviados divinos se sentem, mas de coração podre.

Hei-de mudar... um dia.

quarta-feira, junho 17, 2026

Pulsões inefáveis

Há sensações que se explicam pela mecânica do corpo, mas o que sinto por ti escapa a qualquer lógica. É uma força que me puxa na tua direção, uma corrente elétrica que me domina os dias e me rouba o controlo dos pensamentos. Quando te vejo, não é apenas o meu corpo que se move e se agita com a urgência de te tocar, é a minha mente inteira que se rende à tua ideia, desenhando cenários de intimidade de dois corpos, onde deixamos de ser o que o mundo espera de nós.

Desejo-te como quem deseja um segredo partilhado no escuro, o fruto proibido de uma cumplicidade que só nós entendemos. Quero-te como minha amante, a personificação de uma fantasia que arde sob a pele e que não pede licença para existir. É um magnetismo bruto, carnal e absoluto, que me enche desse tesão duro, difícil de ignorar e que me consome por dentro e dita cada batimento do meu coração.

Esta atração que carrega o peso do proibido, a vertigem perigosa de cruzar uma linha sem retorno, de uma tensão constante em saber que não te posso ter à vista de todos, que cada olhar trocado é um desvio e cada pensamento contigo é uma traição às regras que nos cercam. Mas é precisamente esse perigo, o sabor clandestino do que está trancado no escuro, que torna o desejo ainda mais violento e possuidor. A proibição não trava o meu corpo, pelo contrário, incendeia-o.

Fisicamente, a tua imagem transforma-se numa reação inevitável, explícita e repetida. A urgência de ti manifesta-se de forma constante e desarmante, com ereções frequentes que denunciam o quanto me controlas, mesmo no silêncio dos meus pensamentos. O meu corpo endurece-se e reclama-te, respondendo ao teu perfume ou à simples memória das tuas curvas. É uma necessidade visceral de quebrar a barreira da pele, um desejo avassalador de estar dentro de ti, de me fundir no teu calor e de te possuir num espaço que seja só nosso, longe de qualquer julgamento.

Tentei encontrar palavras para descrever a exata medida desta atracção, a forma como a tua presença me destabiliza e como a promessa da tua pele me persegue. Mas a verdade é que esta urgência física e mental que me prende a ti, é de uma dimensão inefável. Não cabe em definições, não se traduz em frases e não se justifica perante ninguém. É um sentimento demasiado vasto e profundo para ser nomeado, que simplesmente vive em mim, avassalador, esperando pelo momento em que o teu corpo finalmente responda ao meu.



segunda-feira, junho 15, 2026

Velhice

Estou mesmo velho.

Com falta de algumas peças dentárias, que me nego a ir recolocar, retirando de mim alguma artificialidade.

Com o envelhecer da pele, do cabelo e barba, num ganhar progressivamente maior de manchas brancas no loiro dos meus pêlos.

Por um escroto descaído, como se fosse possível dar autênticas joelhadas em mim próprio, que só se resolve quando fico com essa excitação de ter comigo o prazer de uma mulher, como se as peles em excesso se deslocassem para um outro lugar, dando crescimento ao corpo.

Pela necessidade crescente de descanso após noites de trabalho, como se a sesta fizesse parte de uma rotina.

Para complicar mais a situação de uma decadência visual inevitável, a única manifestação física de alguma juventude, vem desse acne juvenil, que teima em não me abandonar.

Mais uns degraus para a velhice...

domingo, junho 14, 2026

Miudezas

Perante a imensidão de tudo, que sentido toma todas as nossas dúvidas, perguntas e incertezas?

Contemplar tudo o que me rodeia, olhar à noite e ver o céu que me esmaga, de uma dimensão implacável mas, no entanto calma e serena. Olhar para cima e saber, com uma certeza que me gela e fascina, que aquela imensidão negra salpicada de luzes antigas não quer saber de mim. O Universo estende-se num tempo que não consigo medir, desenhando maravilhas numa tela infinita onde cada estrela é um milagre e cada galáxia um sopro. E eu aqui, tão dramaticamente finito, tão ridiculamente pequeno.

É estranho como passamos os dias a erguer monumentos de ansiedade, a carregar o peso do mundo nos ombros, a chorar as perdas como se o cosmos e a dimensão de uma espiritualidade divina estivesse de luto connosco. Ou noutros momentos a celebrar as nossas pequenas vitórias como se os astros aplaudissem de pé tamanha insignificância.

Agigantamos os nossos medos como se fossem maiores, os nossos desejos como se fosse insaciáveis e os nossos pequenos dramas quotidianos como se fossem únicos. Criamos autênticas tempestades em copos de água e esquecemo-nos de que o próprio oceano onde flutuamos é apenas uma gota invisível na imensidão de tudo.

Tudo o que me tira a serenidade necessária de viver em paz, seja pela pressa do mundo, o receio de falhar, o orgulho ferido de arriscar e perder, ou o simples anseio pelo amanhã, tudo isto, não mais é do que miudezas, dessa poeira cósmica suspensa num raio de sol, como dizia Carl Sagan. Desperdiçamos tanta vida a tentar dar uma dimensão eterna àquilo que é efémero e reconhecer esta pequenez, não deve trazer amargura, mas sim um alívio.

Se sou um sopro num tempo sem fim, então os meus erros também o são. Se os meus problemas são minúsculos perante a grande criação divina, posso finalmente respirar tranquilamente, por essa beleza libertadora em aceitar que sou pequeno, que me livra da obrigação de ser gigante, um santo e me devolve o direito de ser...

...apenas humano.

sexta-feira, junho 12, 2026

Vida adiada

A caminhada da vida não exige de nós uma velocidade vertiginosa dos ventos, mas a calma firme dos passos seguros. Não tenhamos pressa, mas tenhamos rumo, pois a pressa costuma cegar os olhos para as belezas do caminho e para as lições dos tropeços. Há uma sabedoria oculta no tempo de maturação de todas as coisas. Compreender que demorar é diferente de se perder, traz a paz necessária para acalmar um coração ansioso. Tal como o rio que serpenteia longamente entre as montanhas e que não está perdido, está apenas a desenhar o seu próprio leito antes de se entregar à imensidão desconhecida do oceano. Cada curva e cada pausa têm o seu propósito, contanto que a direção final permaneça clara na mente de quem faz a caminhada.

É na beleza simples dos dias comuns, quando os frutos ainda não são visíveis e a sua colheita parece distante, que se constrói-se o verdadeiro caráter. Se ainda não dá para sermos exemplo pelo resultado, que sejamos exemplo pelo esforço. A dedicação diária é a força invisível cheia de luz que rompe na escuridão. É no suor do trabalho, na repetição sistemática de gestos bondosos e na escolha de continuar, mesmo quando quase ninguém está a olhar, que o caminho que nos está destinado se molda. Dia após dia de rotinas e num momento, tudo muda. A colheita que parece súbita é, na verdade, o culminar de mil madrugadas de espera. A grande transformação nunca acontece por acaso, ela é o estalar inevitável de uma estrutura pacientemente edificada.

Por isso, desfaça-se das ilusões de que o futuro trará uma versão mágica de si mesmo para resolver o presente. Chega de esperar por quem já você é. A força que procura, a coragem que deseja e a sabedoria de que necessita não estão guardadas num amanhã distante, mas já presentes no seu peito, agora. O gigante que aguarda o momento ideal para despertar já habita na sua essência, por isso, assuma a responsabilidade pela sua própria história, calce os sapatos da determinação e avance com a certeza de que o rumo certo já está traçado sob os seus pés.

Chega de esperar por quem já você é.

quinta-feira, junho 11, 2026

Semente

Ao refletir sobre projectos profissionais que se avizinham e recordar o processo alegórico da semente de trigo, decidi explorar esse mecanismo de crescimento interior de uma semente que deitada na incerteza da terra, decide germinar no seio de cada um de nós.

O destino de um projeto assemelha-se ao ciclo silencioso do trigo deitado à terra. Lançar uma ideia ao mundo é um ato de fé, onde o semeador abre a mão e aceita a soberania do solo. Cada semente carrega em si a promessa do fruto, mas o seu sucesso nunca depende apenas da força do seu próprio germe.

Há grãos que caem no terreno árido da pressa, da indiferença ou da falta de recursos. Nessas fendas de pedra, o destino parece traçado para a morte. No entanto, é precisamente na dureza desse chão que se manifesta a resiliência mais pura. Algumas sementes, teimosas por natureza, recusam-se a secar de imediato. Elas gastam a sua pouca energia a procurar fendas invisíveis na rocha, estendendo raízes milimétricas em busca da humidade escondida. Nos projectos pessoais e de trabalho, esta resiliência é a capacidade de sobreviver à escassez, de adaptar a estratégia e de resistir ao inverno da vida. É o esforço silencioso de quem, mesmo sem condições ideais, luta para manter a ideia viva dentro de si até que o tempo mude.

Por outro lado, as sementes que correm a feliz sorte de encontrar o solo generoso enfrentam um desafio diferente, mas igualmente exigente. A terra boa é apenas o prólogo. O sucesso maduro nasce do suor da gestão diária. É aqui que entra o papel do cuidador, que não se limita a esperar a colheita, mas assume a responsabilidade do cultivo. Gerir é a arte de regar com disciplina, garantindo que não falte água, mas também que as raízes não apodreçam pelo excesso. É nutrir o solo com o conhecimento certo, podar as ervas daninhas que desviam o foco e proteger a cultura das pragas imprevistas. Sem este esforço estruturado e estratégico, até o melhor terreno desperdiça o seu potencial.

Só quando a resiliência no deserto se alia à excelência da gestão no solo fértil é que o milagre se cumpre por completo. A semente rompe a sua própria casca, eleva-se contra a gravidade em direção à luz e transforma-se. O que começou como um grão solitário escondido no escuro, destinado a morrer no esquecimento do subsolo, acaba, ao sol, por dar flor, dobrar-se em fruto e alimentar o mundo.

"Uma sementinha de trigo, caiu no chão e brotou..."