sábado, maio 30, 2026

Raízes

O relacionamento humano move-se e evolui no intervalo entre a vertigem do instante e a segurança da permanência. A imaginação que orienta a vontade do encontro entre o homem e a mulher, faz-se numa dualidade dominada de traços de luz e de sombra, onde o desejo de liberdade frequentemente colide com a necessidade absoluta de pertença.

Há uma pulsão sexual enorme no encontro ocasional, no magnetismo que atrai dois corpos sem o peso do passado ou a promessa de um futuro. É um prazer fugaz de uma fogueira que arde rápido, alimentada apenas pelo oxigénio da novidade. Um jogo de espelhos desvirtuados onde cada um mostra apenas a sua melhor versão, livre das amarras do insosso quotidiano.

Contudo, quando desprovido de entrega genuína, esse desejo de estar, pode mascarar dinâmicas mais cinzentas. Há encontros casuais que nascem, não da liberdade, mas da vulnerabilidade mútua ou da assimetria de intenções. O espetáculo da sedução transforma-se, então, num teatro de desenganos silenciosos. A mulher que se entrega na esperança secreta de vir a ser a escolha definitiva, e o homem que calcula cada gesto, oferecendo apenas a quota necessária de afeto para aceder ao sexo crú que deseja. É o desencontro disfarçado de intimidade, onde dois comprometidos na ilusão de descomprometimento, dançam à beira de um abismo de solidão partilhada.

Amar verdadeiramente exige uma transição dolorosa, mas vital. A passagem da contemplação da flor para o cultivo da raíz. Apaixonar-se pela superficialidade, pelo perfume, pelas cores vibrantes da primavera e pelo entusiasmo inicial, é condenar-se à desilusão quando o outono inevitavelmente chega. A flor é efemeridade. A raíz é sustentação. Um relacionamento duradouro não se alimenta do que é vistoso, mas daquilo que se esconde debaixo da terra, na densidade dos sentimentos partilhados, nas tempestades superadas em conjunto e no silêncio confortável de quem já não precisa de impressionar.

Essa profundidade, porém, assusta. Num mundo moldado por superficialidades e convenções sociais, o excesso de sinceridade age como um elemento perturbador. Quem está habituado às máscaras da falsidade e aos elogios vazios recua perante a verdade nua de um olhar ou de uma palavra honesta. A transparência radical exige coragem, pois expõe as nossas próprias fragilidades, os nossos desejos, as nossas parafilias. As palavras desprovidas de filtro, tornam-se nesse instrumento cruel que pode ofender e geram um conflito interior entre a honestidade do pensamento e a obscenidade pornográfica do conteúdo.
Por isso, tantas vezes, a maior e mais violenta batalha não se trava nas discussões abertas, mas no território invisível da mente. Por trás de um rosto que aparenta serenidade, de um sorriso socialmente perfeito ou de uma postura inabalável, pode esconder-se um turbilhão de dúvidas, saudades e conflitos não resolvidos. Conciliar o que o mundo exige de nós com o que o coração verdadeiramente grita é a arte mais difícil da caminhada humana. No final, resta-nos escolher se queremos viver na superfície do que passa, ou mergulhar na raiz do que permanece.

Raízes fortes darão as flores mais belas e os frutos mais honestos

quinta-feira, maio 28, 2026

Que saúde esta

Que saúde é esta, que impede que pessoas à porta de um serviço aberto, não sejam admitidas, porque não fizeram um telefonema antecipado para uma linha telefónica que tarda em dar resposta e nada orienta, numa distância de quem está confortavelmente sentado atrás de um ecrã. 

A que ponto chegámos no estado de uma saúde que se pretendia acessível, universal e tendencialmente gratuita e que agora impõe limites ao acesso, privando de toda a dignidade as pessoas que necessitam de ajuda. Talvez não seja só o reflexo de um sector social, mas de toda a podridão que consome este pequeno país plantado à beira mar. Estaremos a ficar tão ocidentalizados, com desejo de transformar o que de melhor tínhamos, num reflexo do que é pouco oferecido em outros países, que de evoluídos só têm tecnologia, mas que entretanto perderam a alma que os definia? 

Foi como se recuássemos mais de 50 anos a um tempo onde a saúde não era para todos, só para os poucos que podiam usufruir monetariamente dela, onde o nascer e o morrer se faziam em casa, longe do ideal de cuidados que o mundo, cada vez mais técnico, mas pelo visto cada vez mais desumano, hoje oferece.

Que triste fado, nascer hoje português, lançado ao mundo num momento onde a sorte de estar no local e na hora certa determina a felicidade de ver luz, com a atenção que se impõe nos dias de hoje.

Que triste fado, morrer hoje português, com as assimetrias impostas pela falta de investimento crónico, deixando os serviços em gestão corrente, despojados de tudo o que é essencial, mas com uma curiosa obrigação de ser suporte em tudo em que os privados não têm interesse em oferecer. Essa Medicina pública que ficou com a despesa, deixando o que é lucro para a gestão privada.

Refundar o Serviço Nacional de Saúde, é no fundo, criar as condições reais e compensatórias para os profissionais se fixarem, mas com o investimento para manter excelência nos cuidados, porque de outra forma, ou a casa cai, porque ninguém fez a sua manutenção, ou cai porque ficou deserta.

Talvez o interesse outrora escondido, agora declarado, seja acabar com o acessível, universal e tendencialmente gratuito...


Peregrino na solidão

Quantas vezes sentimos que caminhamos sozinhos, peregrinos de um deserto próprio, avançando sob o peso de passos que mais ninguém ampara. É uma solidão que não se mede apenas pela ausência de quem deveria ser suporte, mas pela penúria de afetos, pela escassez de um abrigo onde a alma possa pousar e de sentir simplesmente contemplada, nessa forma necessária de aconchego. Sentimo-nos desguarnecidos nas trincheiras da existência, vulneráveis aos flagelos visíveis e invisíveis do mundo, seja na crueza do trabalho ou na intimidade violada do lar, onde a dor muitas vezes não nasce do golpe ou acção violenta, mas do silêncio cúmplice daqueles que se omitem.

Sobre os nossos ombros, parece desabar o veredito do mundo, a urgência de decidir, o fardo de executar e, no mais amargo dos cenários, a hercúlea tarefa de retificar os caminhos tortuosos que os outros traçaram.
Habitamos um tempo estranho, um teatro de sombras onde o aplauso é direcionado ao artifício e à máscara. A ribalta social alimenta-se de quimeras, gerando uma ilusão coletiva que hipnotiza as multidões, enquanto a nudez da honestidade e a pureza da palavra sincera são recebidas como afronta, recebendo em troca o escárnio e a hostilidade. Neste cenário de espelhos disformes, preservar a integridade torna-se um ato de resistência quase heroico. É ela que resguarda a nossa essência mais profunda, aquela capaz de tecer gestos desinteressados de generosidade, sem a premissa do ganho ou a vaidade do reconhecimento. São atos que, pela sua desconcertante simplicidade, operam prodígios onde a razão antevia o insucesso.

E talvez a Fé resida precisamente nesse vislumbre, a capacidade de contemplar a colheita do impossível antes mesmo de lançar a semente à terra. Como se o pulsar solitário de um único ser contivesse em si o sopro primordial capaz de reconfigurar todo o universo.
Não se ensina ninguém a ter respeito por nós. A forma como o outro te trata diz mais sobre ele do que sobre ti.

terça-feira, maio 26, 2026

Preguiça

Têm sido recorrentes os dias em que sinto uma vontade enorme de não fazer nada. Nada. Ficar só num estado vegetativo, a contemplar o vazio de pensamento. Talvez seja pelo cansaço acumulado. Pelas noites recorrentes de sono pouco profundo, de um constante sobressalto que não me deixa desligar totalmente da consciência e do estado de alerta.

No entanto, é mesmo nos momentos de maior exaustão, que numa luta inconsciente, se liga e liberta o modo automático de trabalho, alimentado pelos traços obsessivos de ver tudo organizado. É quando, mesmo num estado de quase esgotamento físico e emocional, lido com as tarefas domésticas, de cozinha, de acompanhamento escolar e de um sem número de pequenas situações que me consomem ainda mais. E não há sonecas que me valem para tamanha empreitada. É como se o meu dia normal tivesse essas 36h diárias e ali cabe, metodicamente, tudo o que fazer.

Pergunto-me de onde vem essa estranha energia, que no idealizado pela mente só me empurra para o leito do descanso tranquilo, mas que na realidade, me arranca do estado amorfo e me obriga a ser útil, prático e eficaz.
Digo em jeito de graça, que na morte terei tempo para o descanso, mas de facto, sinto-me a morrer lentamente no interior, com perdas de memória, actos falhados e uma certa desinibição pré-frontal que não era de mim.
Um dia... descansarei

Metamorfose

Durante anos, vivi no centro de uma tempestade que eu próprio alimentava. A minha mente era um mar revolto, açoitado por ventos, angústia e dúvidas perpétuas. Procurava respostas como quem procura um náufrago na noite escura, gritando contra as ondas, agitando as águas com desespero, mergulhando cegamente num turbilhão que eu mesmo criava. Quanto mais forçava o olhar através da espuma e das correntes, mais a verdade se diluía. Tudo era ruído, distorção e cansaço.


Um dia decidi sentar-me à margem de mim mesmo. Fechei os olhos e recusei-me a lutar. No início, a turbulência ainda insistia, trazendo à superfície detritos de pensamentos inacabados e medos antigos. Mas permaneci imóvel. Respirei o silêncio. Lentamente, o vento interior começou a amainar e as ondas perderam força. A agitação deu lugar a uma quietude quase esquecida.
Quando voltei a olhar para dentro, a metamorfose tinha acontecido. A água, antes turva e violenta, transformara-se num espelho perfeito e cristalino. Sem esforço, sem preces e sem fúria, as respostas que tanto perseguia emergiram do fundo, nítidas e intactas. Percebi, finalmente, que a clareza nunca esteve no destino que eu procurava, mas sim na coragem de deixar o meu próprio mar acalmar.
A verdade vê-se nas águas calmas e cristalinas

segunda-feira, maio 25, 2026

Homo erectus

Há uma nova definição para o conceito retirado da história do desenvolvimento humano.

O macho, ao ver o corpo nú da fêmea desta espécie humanóide, viu a necessidade de se levantar do chão e ficar com as mãos livres para agarrar os peitos sedentos, as ancas cheias, ficando erecto, dessa consistência pétrea, trabalhada a partir da carne.

Assim me vejo a andar continuamente, erecto pelo desejo de apertar com força para junto de mim o corpo ansioso de toque, de abraço, de ser acarinhado nas mais profundas entranhas do ser. De passar as mãos, em toda a sua liberdade pela pele suave e explorar gentilmente o prazer de uma mulher, nessa mistura entre erecção e toque, que a transporta para uma dimensão orgásmica.



domingo, maio 24, 2026

Relacionamentos gravitacionais

Há um cansaço silencioso que move os astros, uma fadiga feita de distância e de uma insistência antiga. No imensidão negra do cosmos, a Lua desenha a mesma curva há milénios, presa a um centro que nunca alcança, mas do qual jamais se liberta. Ela orbita a Terra com a fidelidade cega dos perdidamente apaixonados, gastando a sua luz reflectida num chão que mal repara na sua dança. A Lua não se cansa de insistir na proximidade.

A Terra, porém, carrega o peso desse olhar constante como um fardo invisível. Entediada da sombra que a persegue, exausta da maré que a puxa e do eterno retorno da mesma companheira, a Terra desvia os olhos. Não há nela espaço para a Lua. O seu peito de rocha e oceano arde por outra coisa. Cansada da Lua, a Terra corre desesperadamente atrás do Sol. Procura a luz que a queima, a gravidade que a governa de longe, o centro dourado que dita os seus dias mas que nunca se deixará tocar. É uma fuga concêntrica, uma perseguição eterna onde quem é amado ignora, e quem ama definha na busca do intangível.

Este bailado celeste é o espelho mais nítido da nossa própria insatisfação. Vivemos enredados na mesma geometria trágica dos afectos. Há sempre alguém que nos gravita, que nos oferece a constância dos dias, o conforto do abraço que já conhecemos de cor, a presença segura que se tornou paisagem. E nós, injustos e míopes na nossa humanidade, cansamo-nos dessa proximidade sem mistério. Olhamos para quem está connosco e vemos apenas o hábito, a rotina que apaga o brilho.
De olhos postos no horizonte, preferimos a vertigem do que está longe. Desperdiçamos a vida a orbitar sóis particulares, pessoas, sonhos ou passados que se esquivam de nós, que nos mantêm à distância exacta de uma miragem. Queremos o que incendeia, o que é difícil, o que se posiciona além das nossas forças. Alimentamo-nos da melancolia de não conseguir alcançar, como se o valor do amor estivesse na impossibilidade de o possuir.
Procuramos o Sol que nos ignora enquanto pisamos, distraídos, o solo da Lua que nos guarda. Condenamo-nos a uma eterna saudade do que não temos, incapazes de ver que a beleza mais rara não está na luz que nos cega ao longe, mas na paciência de quem aceita partilhar connosco a mesma escuridão.
O amor não se mede na intensidade da luz mas na proximidade do abraço diário