Pela minha forma de ser, nesse desejo de ser aceite e apreciado por todos, alimentando uma necessidade de elogio constante, vejo-me recorrentemente a tentar ser o mais prestável possível. Desmultiplico-me em tarefas, abdico de momentos em família e de descanso, para dizer sempre sim a qualquer pedido que seja feito. E dada a minha profissão e a proximidade a um grupo de religiosos, em contacto com um dos locais onde presto serviços, sou frequentemente utilizado como médico pessoal de uma classe inteira que se julga privilegiada.
Ora, recentemente e por necessidade de organização de uma pequena festa familiar de celebração de 50 anos de matrimónio dos meus pais, solicitei de forma humilde e envergonhada, ajuda a um destes clérigos, que recorrentemente me pede ajuda. A resposta, foi um tanto, muito, surpreendente. "Procure nesta página de internet, o contacto que precisa". Que rica e preciosa ajuda. Que forma delicada e interessada em ajudar.
Pergunto-me se é correto, continuar a ser sempre o profissional, a pessoa disponível, para depois, num pedido de uma ajuda tão simples, ser encaminhado, para um caminho tão despersonalizado de apoio.
Puta que pariu.
A revolta que sinto, é mais interior, própria minha do que contra terceiros, por ser esse indivíduo que não diz não, quando intimamente o desejava fazer, alimentado uma visão de eterno disponível e até submisso, aos caprichos individuais de cada um.
Tento mudar, ser diferente, mas com receio de ser considerado arrogante, ingrato ou simplesmente mal educado. Gostava de, nestes ambientes socialmente mais conservadores, um dia ter a coragem de mandar alguns destes à merdinha, de onde no seu pedestal parecem habitar, tais enviados divinos se sentem, mas de coração podre.
Hei-de mudar... um dia.