segunda-feira, outubro 12, 2026

Milagres

Quando me pediram para escrever algumas palavras para fazer parte de um livro, como prenda de aniversário, fiquei com um bom sentimento, de reconhecimento de alguém que marcou positivamente a vida de outrem.

Mas, sou eu que me sinto diariamente grato pelo que esta pessoa, como um punhado de outras, significam e significaram para a minha vida. E lembrei-me da expressão de que "às vezes milagres, são só pessoas com corações gentis".

E eis o que saiu (nome fictício):

Até conhecer pessoas como o Zé, sempre imaginei os milagres como eventos grandiosos, feitos de impossíveis. Esperava por eles nos momentos de desespero, de olhos postos no céu, aguardando uma intervenção divina que mudasse o rumo dos infortúnios ou curasse as dores do mundo num estalar de dedos.

Mas o tempo ensinou-me a olhar para o lado. Quando a vida parece ingrata, cheia de egoísmo, quando o peso dos próprios passos parecem excessivos para as forças, eis que surgem pessoas como o Zé, com a sua sempre boa disposição que contagia, preenchido com um coração de uma gentileza quase divina. Não pela expressão de feitos grandiosos, mas pelos pequenos gestos de uma dimensão gigantesca. Uma mão estendida, um olhar que não se desvia ou uma palavra dita no momento certo. Alguém com a capacidade de parar a sua própria vida, por um segundo, para ser abrigo ao outro.

Percebi, então, que os milagres que tanto procuramos nas estrelas, caminham na verdade, no mesmo solo que nós. São pessoas como o Zé que trazem calor num dia frio, que escutam sem a urgência de julgar, ou que dividem o pouco que têm como se fosse uma fortuna.

O sobrenatural não está na suspensão das leis da física, mas na suspensão do egoísmo humano.

Hoje, quando me perguntam se acredito em milagres, sorrio. Penso nos rostos das pessoas que se cruzaram no meu caminho e em cada alma descomprometida com a vaidade e inteiramente dedicada à bondade silenciosa.

Sim, eu acredito.

Porque enquanto houver alguém disposto a ser o sol na tempestade de outrem, o mundo continuará a ser salvo, todos os dias, sem que ninguém precise de saber.

Se sinto saudades de partilhar os espaços que outrora foram a minha casa, sinto-a pelas pessoas como o Zé, que davam humanidade às paredes que a constituíam.

Um grande abraço! Muitos parabéns!

Que continue a ser o Zé. Só isso diz muito da pessoa que é e de toda a sua grandeza!

sábado, outubro 10, 2026

Outono

No Outono em que os dias vêem cair as folhas de uma árvore, revelando a nudez da sua essência, parece que vemos cair os pedaços moribundos de um plano que falhou.

Mas eu vejo algo diferente, a possibilidade de um renascimento, onde deixas para trás o peso que em nada já te acrescenta, para teres a força e o espaço para voltares a florir de novo.

As perdas tornam-nos hesitantes nos passos que damos, mas mesmo aí conseguimos ser luz e coragem para quem quer dar os seus, pois nem sempre está tudo bem e está tudo bem ser assim ao aceitar a mudança.

E em ti, sente-se a força silenciosa que te faz erguer todas as manhãs, mesmo quando a vida pesa. E és prova viva e bonita de que é possível continuar, mesmo sem saber onde o caminho te leva. Por mais que a dor aperte, não deixes de ser quem és, não te feches, não te endureças. A tua sensibilidade não é uma fraqueza, é sim, a ponte pela qual a tua alma se reconecta com a vida e iluminas o coração de que nem imaginarias. E isso faz de ti um ser único e extraordinário.

Em cada nova etapa, que irás escrever nas tuas próprias palavras, nunca duvides do que mereces, nem permitas que te façam duvidar, pois o fim de uma história não dita o teu valor. E mesmo quando os planos não dão certo, nunca te esqueças de que o único propósito da vida é seres feliz.

Caminha com calma, respira cada recomeço e confia no tempo. O que é para ti, a ti chegará.

Há quem olhe para ti e sinta esperança.

sexta-feira, outubro 09, 2026

Jornadas

Há ideias que não passam disso, ideias, sem terem uma consequência prática, ou sequer verem a luz da realização. Ficam num estado de adormecimento crónico que ensombram a mente nos dias vazios.

Mas é preciso ser acção, não só intenção. Deixar que as ideias passem a projectos e de projectos a uma real execução.

E assim foi. De umas ideias avulsas, saídas da amálgama confusa que são os meus pensamentos, houve quem acreditasse no seu potencial, as agarrasse com um sentido prático de concretização efetiva e criasse umas jornadas de saúde que foram um sucesso.

Foi como se tivesse lido os meus pensamentos, sem grandes palavras e conseguido ir muito mais além do que fora imaginado, conferindo-lhe a grandiosidade que se alcançou.

Parabéns, também, a todos os que participaram com o seu trabalho, com a sua escuta atenta ou simplesmente pela sua presença. Foi dignificante para todos este dia que passou, mesmo com toda a incerteza colectiva, com as inseguranças individuais de quem se vê na necessidade ou obrigação de estar perante uma assembleia de pessoas ávidas de aprendizagem ou pelas dúvidas iniciais da sua exequibilidade.

Guardarei este dia, como um dos bons dias que vivi. Exausto pela expectativa e ansiedade iniciais, mas feliz pelo que se foi alcançado.

Vamos cuidar de quem cuida.

quinta-feira, outubro 08, 2026

Nú

Há dias experimentei uma sensação estranha e assustadora.

Estava a sair do meu gabinete de consulta e num breve momento fiquei frente a frente com uma utente, em silêncio, a olharmo-nos mutuamente. O que vi nos seus olhos, pareceu-me transmitir um ar de desilusão, um "não vales um chavelho", como se com aquele olhar me sentisse despido das máscaras que uso e me visse como sou interiormente.

Fiquei em pânico, pelo medo de ser demasiado revelador ou evidente a realidade, que tão bem tento diariamente esconder. Construí e alimento um ser artificial, socialmente apto, mas que ali ficou desarmado das defesas que criei.

E não é caso único. Ocasionalmente há quem me olhe e consiga ver além do superficial, e essa percepção deixa-me desconfortável, sem reacção, ansioso para voltar a esconder-me por detrás das imagens ilusórias que a simples visão alcança. Perceber a expressão de recriminação no outro é devastador.

Ver e olhar, são duas dimensões muito diferentes do mesmo sentido. Um vê o imediato, o que não é mais do que uma imagem perceptível. O outro olha além das camadas periféricas e vislumbra as entranhas que habitam, convivem e nos consomem intimamente.

Como diria... não gostei.

"O médico vai nú!"

quarta-feira, outubro 07, 2026

Narciso

A novela que decorre nestes dias e que se tornou drama maior do que todos os restantes problemas sociais, económicos e mundiais, revela o narcisista que há por detrás da personagem principal.

Querer subjugar o que há de bom num colectivo, pelas qualidades individuais, ainda que muito acima do normal, e sentir-se ofendido quando o caminho escolhido ignora os caprichos próprios, fez-me rever uma das minhas muitas lutas e que são objecto de reflexão pessoal.

Na verdade, questiono-me recorrentemente se não há muito de um narcisista dentro de mim. Não é que me queira comparar a um Ronaldo de uma qualquer área específica de actividade, mas nesta necessidade de uma validação constante, numa recusa de ser esquecido pelos demais. Mesmo a escrita, não será porventura uma dessas formas de narcisismo expresso na tentativa de gerar admiração?

Se não fosse o desagrado que sinto pela minha imagem física, estaria completa a figura de Narciso, a definhar para sempre fitando o meu reflexo nas águas límpidas de um lago, enquanto em redor o mundo corre com todas as suas maravilhas.

segunda-feira, outubro 05, 2026

Ultreia

Esta semana será de um trabalho intenso. Apesar de estar de férias do meu trabalho principal no hospital, ou pelo menos daquele do qual retiro maior rendimento, em todos os restantes, mantenho-me em actividade. De resto, se olhar para o passado, desde que comecei a trabalhar, julgo que não me ausentei mais do que uns 8 dias de uma qualquer actividade profissional e mesmo nestes sempre contactável para resolução de alguma situação clínica, para lhe dar, em meu entender, a melhor orientação.

Mas esta semana, vou ter que me me desmultiplicar mais um pouco, ir mais além do que só o necessário. Além das rotinas diárias e numa habitual e recorrente ausência da minha esposa nos primeiros dias desta semana, tenho umas jornadas de saúde para ajudar a acabar de organizar. Acabar de organizar, como quem diz, mobilizar monos de mobiliário que se encontram espalhados nos vários espaços onde vai decorrer a formação.

Consegui perceber uma certa desilusão, ou mesmo receio de que o local escolhido não fosse o ideal, mas numa promessa feita e com o sentimento interior de que o local é perfeito e que irá, também pelo seu simbolismo marcar pela positiva este evento, terei que me empenhar para deixar tudo visualmente mais agradável. Espero que o conteúdo, seja depois tanto ou melhor do que o imediatamente observável. É como a comida. Se o prato for apelativo à vista, a disposição para uma refeição agradável é consequente. Resta saber se o sabor desta refeição também cumpre com os requisitos gastronómicos de estrela Michelin.

Estou entusiasmado, nessa forma de tentar ocultar o receio que sinto de defraudar as expectativas dos demais nesta empreitada.

Para tanta força necessária, espero que não seja preciso a determinação obstinada de Sisifo, ou ter que deixar crescer a barba e cabelo, tal Sansão, pois o aspecto geral tornar-se-ia ainda pior.

Roguei ainda, nestas pequenas férias, num abraço de conforto a São Tiago Maior, debaixo de Campus Stellae, a necessidade de irmos todos mais além, de nos superarmos no caminho e de tornar gloriosa esta experiência.

Ultreia et Suseia

sexta-feira, outubro 02, 2026

Tau

Toda a vida procurei encontrar o meu caminho para a felicidade. Na minha infância tive a sorte de ter nascido no mesmo dia do meu melhor amigo, o meu irmão gémeo e quando comecei a ter noção do mundo que me rodeava, desenvolveram-se dentro de mim as questões da metafísica que na adolescência dominam a nossa existência e sobre as quais tantas vezes conversava.

Foi nesta altura do meu crescimento que convivi com alguns colegas de escola, seminaristas de uma ordem de Combonianos, e um deles, com quem conversava muito sobre a existência de Deus e da sua criação, ofertou-me uma espécie de cruz que vim a saber designar-se de Tau.

Comecei a usá-lo diariamente, a par de um crucifixo em prata oferecido pelos meus padrinhos, ainda em criança muito pequena, junto com a inicial do meu nome. Havia algo de místico, que imaginava superior, que me protegia e amparava e que me mantinha nessa felicidade inocente quase infantil.

E foi durante a adolescência que tive um desses momentos modificadores de vida. Um dia por tédio ou aborrecimento e com total desconhecimento do que viria a significar esta atitude, subi a enorme escadaria da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis no dia da efeméride deste Santo, e senti um calor enorme interior, ao ouvir as palavras que iriam regular a minha vida a partir de então... "Mais vale dar do que receber, amar que ser amado" e percebi que o Tau era o símbolo desta forma de cristianismo. Se já sentia a força da sua protecção, agora encontrava a força da sua direcção.

E usei-o sempre, todos os dias sem excepção, num envelhecer conjunto da madeira e da carne.

Quando conheci a mulher que viria a ser minha esposa e pela força que sentia vir de um pedaço simbólico, decidi oferecer-lhe o Tau, para que passasse a ser protecção e graça no seu dia a dia. Não como amuleto ou talismã, mas como uma presença viva de um Cristo simples, humilde e de entrega feliz na vida.

E assim foi durante anos, até que em 2022, o meu mundo espiritual ruiu e fez desabar toda a estrutura que construíra. Ficava em ruínas a ideia de felicidade que sempre me alimentou, dessa ingenuidade virginal que me guiava. O Tau também tinha desaparecido do peito e das nossas vidas, como um simbolismo desse abandono do poder de uma espiritualidade superior a cada um de nós e que dava força a uma união.

Também eu mudei. Tive que mudar para me adaptar a uma nova realidade, mas não para melhor. Fiquei mais ligado ao que era da carne e menos ao que era do espírito e com essa mudança veio o sentimento de uma desilusão própria. E sei que desiludi. Do outrora simples e humilde Sebastião da Graça pouco resta, dominado pelo sem vergonha e magoado Rodrigo Pais.

Tentei procurar respostas na solidão, perceber onde se encontrava o caminho na escuridão, tentei ver a pequena luz que sabia que não se extinguira, mas que brilhava com uma força menor, tão pequena que passava quase despercebida. Até perceber que a resposta já se encontrava em mim... "Mais vale dar do que receber, amar que ser amado".

Amar é viver para o outro, dar-mo-nos naquilo em que somos melhores, sem esperar moeda de troca ou retorno e com este sentimento recuperei um pouco da felicidade que pensava perdida ou esquecida. Ser o que sempre tentei ser, a melhor pessoa possível e fazer depender apenas de mim, a procura dessa felicidade na entrega simples, humilde e genuína.

Do Tau original, não sei paradeiro. Ficou perdido no passado, como prova de que não é uma peça que tem valor, mas o seu significado, a impressão da sua força que fica marcada na nossa alma e coração.

E há uns dias voltei a usar um Tau, que mais tarde adquiri, para me fazer recordar diariamente que só sou verdadeiramente feliz se me entregar verdadeiramente ao próximo, sem esperar recompensa ou gratidão, mas para sentir que a minha vida tem um propósito e um fim.

"Pregue o Evangelho em todo o tempo. Se necessário, use palavras."
São Francisco de Assis

E como tenho falhado... nos pensamentos,  nos actos, nas palavras e nas omissões.

Tenho que assumir de novo o controlo.