sexta-feira, maio 22, 2026

Redoma que anestesia

Hoje a propósito de uma doente, que após ter sido sujeita a um aperto demasiado intenso, aquando um abraço que deveria ser de aconchego e conforto, ter ficado com dor nas costelas flutuantes, vi-me a transportar para o domínio da (des)construção da personalidade, essa dor que fica após o carinho que se dá em demasia.

O afeto que abriga em demasia pode, sem querer, sufocar o espaço onde a pessoa, como ser indivual, precisa de respirar e expandir.
O excesso de zelo no que se dá, ou recebe do outro, assemelha-se a uma redoma de vidro, que protege do vento, mas impede o voo. Quando o carinho se torna absoluto e constante, ele magoa. Não pela dor do impacto, mas pela subtil anestesia que provoca nos nossos sentidos. O conforto absoluto amacia as arestas da nossa determinação e adormece as aptidões que guardamos em estado latente. Na ausência de atrito, a engrenagem do crescimento pessoal simplesmente paralisa.
O verdadeiro motor da evolução humana raramente se encontra na calmaria. O que nos faz verdadeiramente crescer e lapidar o nosso potencial, é, porventura, o choque frio da desilusão e a aridez da falta de suporte emocional nas guerras interiores que lutamos. Quando o solo firme do amparo desaparece, o ser humano é obrigado a reinventar-se. É nesse processo de adaptação contínua que o mundo interior se reorganiza. A dor do desengano quebra as velhas estruturas e força o nascimento de uma nova força, mais resiliente e autêntica.
Esta perspetiva não anula a importância do amor. O afeto e o suporte diários continuam a ser o alimento essencial para a nossa integridade psicológica. No entanto, o carinho deve funcionar como um porto de abrigo, nunca como uma prisão dourada. Para que o desenvolvimento pessoal aconteça, é indispensável a existência de uma liberdade rebelde e saudável.
É este espírito de contestação e autonomia que permite a autodeterminação pessoal e individual. Sem o direito a falhar sozinho, a discordar e a enfrentar o vazio da própria solidão, não há azo à maturidade. O crescimento interior exige essa dose de audácia, a coragem de largar as mãos que nos seguram para descobrir que, afinal, sempre soubemos caminhar.
Já agora... vale a pena pensar nisto.

segunda-feira, maio 18, 2026

Tesão

Difícil é o caminho que nos leva à felicidade e integridade. Não que queira ser esse tipo de santo de pau oco, mas tenho tentado controlar aqueles que possam ser comportamentos desviantes.

Acordado, lá vou conseguindo assumir o controlo das minha pulsões. Mas durante a noite sou invadido por completo nos meus sonhos. Acordo às vezes para ver se partes, mas tantas são aquelas em que ficas por mais uns momentos e em todo o tesão que sinto, me acaricio a pensar-te junto de mim. Outras vezes partilho com quem está e sempre esteve junto de mim e nesse cenário montado de uma erecção férrea, damos azo a uma entrega simulada, que alivia sem asfixiar.

Tem sido mais frequente, agora que tenho expressado menos o que me passa pela cabeça de forma descomplexada, com esse filtro que recoloquei e que me devolveu o pudor que outrora perdera.

A porta que no passado se abriu, fez de mim essa pessoa que vê excitação em se mostrar excitado, cheio de tesão, duro por uma ideia de ter consigo um corpo proibido, em estar hirto dentro de.. sentir-te molhada e com desejo de mim.

Fica essa ideia, depravada por ser errada. Não que não seja consentida ou aceite, mas com toda a carga de uma entrega que por não ser total no afecto puro, se torna imoral e desonesta na nobreza que deve ser uma relação.

"Firme e hirto que nem uma barra de ferro"
Professor Alexandrino

domingo, maio 17, 2026

Monsieur cuisine

Há já longos anos, descobri em mim um talento natural para a arte da cozinha. Há dias, e também noites, em que desperto com a urgência de moldar algo inteiramente novo entre os tacho e panelas. Algo que eleve o palato a experiências sensoriais distantes dos sabores triviais do quotidiano.

Naturalmente, a realidade nem sempre acompanha a imaginação. Há dias em que a criação surge com o sabor de um manjar divino, embora embrulhada numa estética rude e artesanal. Noutros momentos, o prato exibe a beleza de uma autêntica obra de arte, mas esconde um paladar áspero e inacabado. Tudo isto nasce do desejo puro de esculpir pequenos grandes momentos à mesa.

Na ânsia de partilhar este legado e numa tentiva de me aliviar as tarefas, já dei por mim a orientar pequenos ateliês gastronómicos para as crianças da casa.

No fim de cada jornada, contudo, resta-me sempre uma dúvida subtil, se as palavras de elogio e o incentivo deste meu pequeno júri são o reflexo de uma admiração honesta, ou apenas um pretexto astuto para que eu continue entregue ao terno dever de preparar as refeições diárias da família.

Como diria o Chef Guestau, "Qualquer um pode cozinhar"


"Nem todos podem se tornar um grande artista, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar."

 Anton Ego
Crítico culinário, em o filme Ratatouille

sábado, maio 16, 2026

Olhar sincero

Gosto de pessoas que tenham verdade no olhar. E quão raro e precioso é encontrar um olhar que não precisa de máscara que esconda essas pequenas janelas, autênticas vitrines do coração e que tantas vezes denunciam o que a alma tenta ocultar. Um olhar sincero que descansa, que não mente, que não finge. Quando alguém nos olha com verdade, há um mergulho de breve eternidade onde a segurança se instala.

Gosto de pessoas que falam com o coração e que agem com respeito, que não usam as palavras para ferir ou manipular, mas para construir pontes. Falar com o coração é a poesia da empatia, onde a comunicação se torna cura interior. A simplicidade de quem age com respeito transforma o ambiente, provando que a verdadeira educação e a nobreza não se ensinam, sentem-se.

Gosto de pessoas simples, mas de alma bonita. Pessoas que não precisam de diminuir ninguém para brilhar. Não a beleza que seduz os olhos, física, mas essa beleza da alma que encanta o coração. A verdadeira força não brilha na escuridão alheia, ela ilumina a própria trajetória. Pessoas de alma leve têm o dom de fazer o nosso coração sorrir, espalhando leveza, como se a sua simples presença fosse um bálsamo de vida.

Gosto de pessoas que ficam quando é difícil, de quem escuta sem julgar, de quem tem presença, não só palavras vãs. No fim, quando a tempestade aperta, a presença física e emocional é o que nos sustenta. Escutar sem julgar é o maior acto de amor e respeito que alguém pode nos oferecer. Pessoas que ficam não são aquelas que nos dizem o que queremos ouvir, mas aquelas que, no silêncio, nos fazem sentir acompanhados.

Porque no fim, o que realmente importa é a energia boa que deixamos nos outros, desse conjunto de vibrações, que são âncoras de paz. Elas não drenam, elas somam. A verdadeira marca que deixamos não é material, é a sensação de conforto, de esperança e de carinho que fica no coração de quem cruzou o nosso caminho.

É preciso ter na nossa vida as pessoas certas e sermos nós próprios uma dessas pessoas também. Cultivar relações saudáveis, baseadas na sinceridade e no respeito mútuo, não é um luxo, é uma necessidade para a saúde da alma.


terça-feira, maio 12, 2026

Pilar

No silêncio dos corredores hospitalares, na luz difusa de um turno da madrugada, ou na correria frenética de uma urgência, o enfermeiro exerce a sua função. Ele é o verdadeiro pilar dos serviços de saúde, sustentando o sistema quando este ameaça tantas vezes ceder. No entanto, a sua presença, tão fundamental, é frequentemente desvalorizada. É, no limiar entre a exaustão e a entrega, que se torna imperativo insurgirInsurgir-se não é apenas um ato de revolta, mas uma exigência de dignidade profissional.

Insurgir contra a subvalorização que reduz a enfermagem a um papel meramente executor, ignorando a sua capacidade científica, a sua autonomia na tomada de decisão ética e a sua gestão complexa de cuidados.
Insurgir contra as escalas de trabalho desumanas e os salários que não condizem com a responsabilidade de quem segura a vida entre as mãos.
Insurgir contra a escassez de recursos que transformam o cuidado num desafio diário, exigindo o reconhecimento de que, sem enfermeiros valorizados, não há sistema de saúde resiliente.
O trabalho do enfermeiro é a arte de cuidar, um pilar que segura o peso do sofrimento humano. Insurgir é, portanto, o ato de reclamar o espaço de valor que lhes é devido, garantindo que o pilar invisível não se quebre sob o peso do esquecimento.
É tempo de levantar a voz, de não se resignar, e de fazer da enfermagem uma voz ativa e inquestionável na construção de um futuro melhor na saúde.
Feliz dia internacional da enfermagem

segunda-feira, maio 11, 2026

Fecundidade

Hoje celebra-se a vida da minha madrinha. E o seu nascimento só poderia ter sido em Maio, o mês de Maria, a mãe por excelência.

A minha madrinha é das almas mais fecundas que já conheci. Na dor, nunca escondida, de não ter embalado o próprio sangue, após uma sucessão de gravidezes interrompidas, uma delas, ferida aberta, às 28 semanas de gestação, teve a força de transmutar a sua perda em maternidade universal, tornando-se mãe de tantos, familiares e conhecidos, através de uma entrega altruísta e genuína ao mundo.
Foi, e é, para mim, o arquétipo da dedicação ao próximo, descurando sempre, com nobreza, qualquer interesse pessoal.
Ainda hoje lhe disse, sentindo do outro lado da voz essa lágrima fácil que tão bem a caracteriza, que a mulher que ela é só poderia ter nascido neste mês. Como se o dia 13 de Maio não celebrasse apenas o seu nascimento, mas a sua consagração, de uma dádiva gerosa, uma fecundidade profícua, feita de tanto bem ao próximo.
Obrigado!

quarta-feira, maio 06, 2026

Conselheiro

Um primo que se encontra num processo de separação, fruto das suas escapadelas fora do casamento, ignorando e desvalorizando o sofrimento em silêncio da esposa, veio-me pedir para servir de arauto junto da mulher, para que esta reconsidere a decisão. Ambos entederam que eu e a minha mulher somos para eles, um exemplo exemplar de casal e união. Que frequentemente têm-nos como referência de casamento feliz, fiel, realizado.

Tais palavras e observações, ignoram o desconhecido. As lutas diárias que foram e que são para manter acesa essa chama que se chama matrimónio. Nós, que fomos já, infiéis, que nos deixámos levar por essa força dominadora do desejo, que nos modificou e nos fez as pessoas tolerantes que somos agora.

Um dado é real. O diálogo verdadeiro que sempre nos guiou. Nessa dor menor de saber e que nos faz adaptar ao ritmo da descoberta, em relação a uma dor maior do desconhecido que destrói a mente e a confiança. 

Ao nos revelarmos, eliminamos a dúvida, a incerteza, a indefinição. 

Claro que dói e é difícil de integrar em nós, que sempre idealizamos uma vida em comum de conto de fadas. Mas seria maior o dano de perder alguém que sabemos que amamos, mais do que a nós próprios. 


"Bom dia L.

Estou a contactar-te porque assumi um compromisso de o fazer, junto de uma pessoa que é meu primo.

Mas não o faço para te tentar influenciar em qualquer decisão que vá contra ao que consideras importante para TI.

Talvez ignores como é a maioria das pessoas, que se deixa levar por sentimentos de desejo, os quais dominam parte do dia a dia e dos pensamentos. 

NADA desculpa uma perda de confiança num casal. Seja por "pensamentos, palavras, actos ou omissões", sem verdade e diálogo honesto (mesmo que doa no início), não pode haver aceitação ou compreensão. 

Também aqui somos todos diferentes. Há quem fuja constantemente ao diálogo sincero e tente continuamente desvalorizar os sentimentos do outro, tratando-o como exagerado ou "tolinho". Tentar diminuir o real, reduzindo-a uma ilusão do que foi comprovadamente objectivável, é de uma mesquinhez que não pode acontecer.


Deixa-me só concluir. Ninguém tem vida perfeita. O desejo quase animal de nos sentirmos aceites, desejados fisicamente é tantas vezes forte e é preciso um grande domínio emocional para o controlar. Mas tem de haver barreiras, aceites por ambos.


Estarei disponível para algum desabafo da tua parte, mas sem qualquer pressão ou obrigação. Porque és uma mulher forte e consciente do que será melhor para ti e para as tuas filhas.

Beijinhos"


Conselheiro matrimonial, sem saber como ajudar...

Rodrigo Pais