quinta-feira, junho 04, 2026

Estritamente necessário

Disseram-me, com a leveza de quem observa de fora, que tenho capacidade de organização, já outrora, em outros locais, reconhecida. Elogiam-me a destreza de não estender gestos ou o tempo além do estritamente necessário. Mas nesta profissão que escolhi, ou melhor, que me escolheu, a precisão do relógio é uma faca de dois gumes. Olho para as mãos que pedem ajuda, para a quantidade de doentes, para os rostos que esperam por mim, e a dúvida instala-se, fria. Na medicina, onde começa e acaba o necessário?

Se o necessário for apenas o que dita a cura biológica, o corte cirúrgico preciso ou a dosagem exata de um fármaco, então a organização é a minha maior virtude. Seria o mecânico perfeito de uma engrenagem viva. Mas o corpo humano não é uma máquina isolada, vem sempre acompanhado de uma biografia, de um medo primordial, de um silêncio que grita por socorro.

Propõem-me que faça o essencial, que corte o supérfluo. E aceito a premissa, pelo que eu entendo como supérfluo e acessório. O supérfluo é, por definição, tudo o que não acrescenta valor, o que não faz o outro ficar melhor, o que não cura nem pacifica a dor. É o ruído burocrático, o exame redundante, a pressão de um sistema cego. Tudo isto, a organização deve purgar.

Mas há um perigo latente em confundir pressa com eficácia. Aquilo que o cronograma institucional rotula como "excesso", como os dois minutos a mais para escutar o luto de quem fica, o toque no ombro de quem recebe um diagnóstico definitivo, a explicação repetida na linguagem de quem não entende de ciência, mas entende de dor, não é supérfluo. Se esses minutos acalmam o acelerado batimento cardíaco da angústia, eles curam. E se curam, tornam-se sagradamente necessários.

Não quero que a minha capacidade de organização seja uma armadura que me afaste da cabeceira do doente. Quero que ela seja a ferramenta que me liberta do que é estéril, para que me sobre tempo para o que é humano. Não estender além do necessário deve significar, afinal, não perder um único segundo com o que não alivia o sofrimento. Porque, no final do dia, a única contabilidade que importa na nossa profissão é a da dignidade que fomos capazes de devolver a quem sofre. E...

...a dignidade nunca aceita contagem decrescente.

quarta-feira, junho 03, 2026

Status quo

Há momentos na trajetória profissional em que o cansaço deixa de ser apenas físico e passa a ocupar todos os espaços da alma. Na hora em que o despertador toca ao mesmo tempo o peito aperta, desenha-se um diagnóstico invisível, a utilidade e a felicidade, que antes caminhavam juntas no quotidiano laboral, divorciaram-se.

Na perspetiva psicossocial, o trabalho não é apenas o cumprimento de tarefas em troca de um salário, ele constitui uma parte central da nossa identidade, da nossa validação social e do nosso sentimento de pertença e realização. Quando o ambiente institucional se torna rígido, cinzento ou indiferente ao valor humano, a dimensão profissional começa a murchar e o mais doloroso nesse processo é o apagamento da própria autoimagem. Imersos numa rotina que já não reconhecemos, passamos a duvidar das nossas capacidades, esquecendo o impacto positivo que a nossa presença gera nos outros. Nas raras vezes é preciso que alguém de fora nos recorde que as borboletas não vêem as próprias asas, mas todo o mundo vê a beleza delas, e que connosco é igual. A beleza do nosso empenho, a delicadeza do nosso trato e a força da nossa competência continuam intactas, ainda que o espelho do local onde trabalhamos esteja demasiado partido para refletir o melhor que somos. Como se a sombra obscura desse local que outrora nos dizia tanto e nos tornava felizes, cobrisse agora a luz que possuímos, consumindo-nos por completo.

Permanecer num lugar onde o sofrimento psicológico superou a realização profissional é insistir num ciclo de desgaste sem saída. A psicologia social ensina-nos que o meio molda o indivíduo, e insistir na permanência em contextos tóxicos ou estagnados, na esperança de que as coisas mudem por milagre, é uma armadilha emocional. Afinal, uma pessoa não se pode curar no mesmo ambiente que a fez adoecer. Nenhuma terapia, resiliência ou esforço pessoal é capaz de florescer num solo que secou, onde as marcas de uma vida saudável, tentam a todo o custo ser apagadas por quem alimenta o status quo. A saúde mental e a dignidade profissional exigem que se reconheça o limite das forças e a necessidade urgente de novos ares, novos rostos e novos desafios. Partir, portanto, deixa de ser um ato de desistência ou de derrota e passa a ser o maior gesto de preservação do próprio ser. Quando olhamos para a nossa própria história com generosidade, percebemos que o amor também é saber quando partir. Esse desapego corajoso não se aplica apenas às relações afetivas, mas também aos ciclos profissionais. Encerrar um capítulo e procurar outro local de trabalho é, acima de tudo, um ato de amor próprio, uma escolha consciente de resgatar o direito de se sentir útil, feliz e, finalmente, inteira. Que este passo seja o renascer de uma primavera interior, onde cada novo horizonte traga a certeza de que a felicidade nunca se perdeu, apenas esperava pelo momento certo de voltar a guiar os nossos passos rumo ao lugar que onde se merece habitar.

"Encerrar um capítulo é acima de tudo um acto de amor próprio"
Rodrigo Pais, médico e... psicólogo

terça-feira, junho 02, 2026

Gratidão

Há momentos que surgem do inesperado e que na sua profunda simplicidade, vêm dar sentido ao que por momentos, de maior desgaste, parece ter sido perdido.

Há uns dias atrás, estava parado à espera que o meu filho acabasse de arrumar a tralha musical que carrega, sempre que é solicitado para animar mais uma cerimónia religiosa, eis que do nada um homem sensivelmente da minha idade me aborda. Como a memória que tenho é muito visual, não identifiquei o sujeito. E como me é habitual, mesmo não identificando de imediato uma qualquer pessoa, sorrio para não parecer desagradável, pensando desta feita que estava a olhar para um ex colega de escola.

"- É o Dr Rodrigo, não é?
- Sim sou.
- Talvez não esteja a ver quem sou, mas há pouco mais de um ano, salvou-me. Estou-lhe grato, devo-lhe a minha vida."

Confesso que demorei uns eternos 5 segundos a associar a pessoa a algum evento tão dramático e marcante.
E num momento de inicial surpresa, que rapidamente me emocionou, lembrei-me do jovem doente, entrado na Sala de Emergência por febre, confusão e agitação ao qual fiz de imediato uma punção lombar, sem perder um segundo e que rapidamente iniciou tratamento para aquilo que se viria a confirmar-se como uma meningite meningococcica.

Acabo por desvalorizar recorrentemente o que faço. Assumo como o necessário e natural na minha profissão, aquilo que é lógico e automático perante cada quadro clínico. Mas são estes momentos de uma gratidão pelo que nos é devido fazer, que são recompensa pelo que fazemos, mesmo em ambientes degradados, confusos e de uma dinâmica complexa que nos desgasta.

É pela vida renovada, de situações que ao atrasar diagnóstico e tratamento, poderiam ter um impacto enorme na vida e qualidade de vida de doentes, sobretudo jovens e autónomos, com uma vida longa pela frente, que me fazem acreditar no dom que recebi. E talvez, as pessoas que trabalham diariamente comigo estejam certas, não sei, ao me dizer recorrentemente até se tornar cansativo que a minha presença modifica tudo e todos ao meu redor.

Obrigado por fazerem do meu dia a dia uma bênção, por ser médico

segunda-feira, junho 01, 2026

Perfeição não existe

Na minha vida profissional já vivi algumas mudanças. Na profissão que tenho, ainda é pouco frequente a mudança. O trocar de local de trabalho, num certo hábito de se permanecer onde se fez formação e aí continuar. Sem lutas decorrentes da mudança, sem aventurarismos, e numa postura de resignação e conformação no adquirido.

Ainda que mais recentemente, já vai havendo quem troque a confusão segura de um serviço público, pela indefinição tranquila de um privado. Mas como, gosto de ser diferente e talvez mais autónomo nas decisões laborais, já conheci, ao longo de 20 anos de profissão médica, tanto o público em vários locais, como o privado, onde permaneci 8 anos.
E cheguei a uma conclusão. Não há locais perfeitos de trabalho. Todos têm os seus pontos positivos, que nos fazem querer permanecer, como os negativos que nos fazem querer ter ou ser mudança. Mas com a certeza que no momento de uma troca de locais, se vai com um espírito aberto, de receptividade que anima, mas que com o tempo, com os obstáculos criados, sobretudo pelos agentes da inércia, nada habituados a ondas transformadoras, virá a rotina do desânimo.
Com a convivência no reconhecimento dos vários trabalhos, lá vamos criando as balizas e as linhas vermelhas, de forma a sentirmos pertença a  um local e a uma tolerância saudável que nos faz seguir, evitando o confronto ao menor dos sinais, sem nunca nos conformar-mos de todo às rotinas, ao "deixa andar" que entorpece, mantendo alerta a vontade e o desígnio próprio.
E por isso, fez já mais de um ano, que voltei a um local onde vivi momentos bons e outros nada bons, com uma certeza de que, sou eu, na minha autonomia, que defino a liberdade de exercer a minha profissão, numa forma muito própria de entrega.
E é preciso um equilíbrio entre o querer mudar e o permanecer (não só na profissão)... porque a perfeição não existe.

domingo, maio 31, 2026

Aparências

Ter percepção da verdadeira realidade é uma maldição, um fardo invisível que me condena a assistir ao teatro do mundo com uma dolorosa lucidez. Entender os jogos da vida, observar as mentiras dissimuladas das pessoas e compreender os padrões falsos de uma sociedade erguida sobre aparências e ainda assim descobrir que, para sobreviver, é preciso muitas vezes calar a verdade e parecer idiota perante os outros.

A realidade crua é pesada demais para que a maioria consiga suportá-la sem desabar, e é essa fragilidade que faz com que tantos sintam a necessidade desesperada de viver com ilusões, alimentando-se de sonhos suaves e mentiras confortáveis que servem de anestesia contra o vazio e chamam a esse viver ilusório e alienado, felicidade, aprisionando-se de livre vontade na forma mais profunda de escravidão que existe, que é a dependência absoluta de se verem compreendidos e aceites pelos outros a qualquer custo.

E por tudo isto, sinto vergonha de mim mesmo, uma culpa amarga por não ter sabido jogar o jogo da encenação social, especialmente no momento em que entendi que a vida não passa de um grande baile de máscaras e eu, desarmado, cometi o erro fatal de aparecer com o meu rosto real.

A vida é um baile de máscaras, onde perante a sociedade, cada um encena um papel diferente da realidade que é.

sábado, maio 30, 2026

Raízes

O relacionamento humano move-se e evolui no intervalo entre a vertigem do instante e a segurança da permanência. A imaginação que orienta a vontade do encontro entre o homem e a mulher, faz-se numa dualidade dominada de traços de luz e de sombra, onde o desejo de liberdade frequentemente colide com a necessidade absoluta de pertença.

Há uma pulsão sexual enorme no encontro ocasional, no magnetismo que atrai dois corpos sem o peso do passado ou a promessa de um futuro. É um prazer fugaz de uma fogueira que arde rápido, alimentada apenas pelo oxigénio da novidade. Um jogo de espelhos desvirtuados onde cada um mostra apenas a sua melhor versão, livre das amarras do insosso quotidiano.

Contudo, quando desprovido de entrega genuína, esse desejo de estar, pode mascarar dinâmicas mais cinzentas. Há encontros casuais que nascem, não da liberdade, mas da vulnerabilidade mútua ou da assimetria de intenções. O espetáculo da sedução transforma-se, então, num teatro de desenganos silenciosos. A mulher que se entrega na esperança secreta de vir a ser a escolha definitiva, e o homem que calcula cada gesto, oferecendo apenas a quota necessária de afeto para aceder ao sexo crú que deseja. É o desencontro disfarçado de intimidade, onde dois comprometidos na ilusão de descomprometimento, dançam à beira de um abismo de solidão partilhada.

Amar verdadeiramente exige uma transição dolorosa, mas vital. A passagem da contemplação da flor para o cultivo da raíz. Apaixonar-se pela superficialidade, pelo perfume, pelas cores vibrantes da primavera e pelo entusiasmo inicial, é condenar-se à desilusão quando o outono inevitavelmente chega. A flor é efemeridade. A raíz é sustentação. Um relacionamento duradouro não se alimenta do que é vistoso, mas daquilo que se esconde debaixo da terra, na densidade dos sentimentos partilhados, nas tempestades superadas em conjunto e no silêncio confortável de quem já não precisa de impressionar.

Essa profundidade, porém, assusta. Num mundo moldado por superficialidades e convenções sociais, o excesso de sinceridade age como um elemento perturbador. Quem está habituado às máscaras da falsidade e aos elogios vazios recua perante a verdade nua de um olhar ou de uma palavra honesta. A transparência radical exige coragem, pois expõe as nossas próprias fragilidades, os nossos desejos, as nossas parafilias. As palavras desprovidas de filtro, tornam-se nesse instrumento cruel que pode ofender e geram um conflito interior entre a honestidade do pensamento e a obscenidade pornográfica do conteúdo.
Por isso, tantas vezes, a maior e mais violenta batalha não se trava nas discussões abertas, mas no território invisível da mente. Por trás de um rosto que aparenta serenidade, de um sorriso socialmente perfeito ou de uma postura inabalável, pode esconder-se um turbilhão de dúvidas, saudades e conflitos não resolvidos. Conciliar o que o mundo exige de nós com o que o coração verdadeiramente grita é a arte mais difícil da caminhada humana. No final, resta-nos escolher se queremos viver na superfície do que passa, ou mergulhar na raiz do que permanece.

Raízes fortes darão as flores mais belas e os frutos mais honestos

quinta-feira, maio 28, 2026

Que saúde esta

Que saúde é esta, que impede que pessoas à porta de um serviço aberto, não sejam admitidas, porque não fizeram um telefonema antecipado para uma linha telefónica que tarda em dar resposta e nada orienta, numa distância de quem está confortavelmente sentado atrás de um ecrã. 

A que ponto chegámos no estado de uma saúde que se pretendia acessível, universal e tendencialmente gratuita e que agora impõe limites ao acesso, privando de toda a dignidade as pessoas que necessitam de ajuda. Talvez não seja só o reflexo de um sector social, mas de toda a podridão que consome este pequeno país plantado à beira mar. Estaremos a ficar tão ocidentalizados, com desejo de transformar o que de melhor tínhamos, num reflexo do que é pouco oferecido em outros países, que de evoluídos só têm tecnologia, mas que entretanto perderam a alma que os definia? 

Foi como se recuássemos mais de 50 anos a um tempo onde a saúde não era para todos, só para os poucos que podiam usufruir monetariamente dela, onde o nascer e o morrer se faziam em casa, longe do ideal de cuidados que o mundo, cada vez mais técnico, mas pelo visto cada vez mais desumano, hoje oferece.

Que triste fado, nascer hoje português, lançado ao mundo num momento onde a sorte de estar no local e na hora certa determina a felicidade de ver luz, com a atenção que se impõe nos dias de hoje.

Que triste fado, morrer hoje português, com as assimetrias impostas pela falta de investimento crónico, deixando os serviços em gestão corrente, despojados de tudo o que é essencial, mas com uma curiosa obrigação de ser suporte em tudo em que os privados não têm interesse em oferecer. Essa Medicina pública que ficou com a despesa, deixando o que é lucro para a gestão privada.

Refundar o Serviço Nacional de Saúde, é no fundo, criar as condições reais e compensatórias para os profissionais se fixarem, mas com o investimento para manter excelência nos cuidados, porque de outra forma, ou a casa cai, porque ninguém fez a sua manutenção, ou cai porque ficou deserta.

Talvez o interesse outrora escondido, agora declarado, seja acabar com o acessível, universal e tendencialmente gratuito...