quinta-feira, outubro 08, 2026

Nú

Há dias experimentei uma sensação estranha e assustadora.

Estava a sair do meu gabinete de consulta e num breve momento fiquei frente a frente com uma utente, em silêncio, a olharmo-nos mutuamente. O que vi nos seus olhos, pareceu-me transmitir um ar de desilusão, um "não vales um chavelho", como se com aquele olhar me sentisse despido das máscaras que uso e me visse como sou interiormente.

Fiquei em pânico, pelo medo de ser demasiado revelador ou evidente a realidade, que tão bem tento diariamente esconder. Construí e alimento um ser artificial, socialmente apto, mas que ali ficou desarmado das defesas que criei.

E não é caso único. Ocasionalmente há quem me olhe e consiga ver além do superficial, e essa percepção deixa-me desconfortável, sem reacção, ansioso para voltar a esconder-me por detrás das imagens ilusórias que a simples visão alcança. Perceber a expressão de recriminação no outro é devastador.

Ver e olhar, são duas dimensões muito diferentes do mesmo sentido. Um vê o imediato, o que não é mais do que uma imagem perceptível. O outro olha além das camadas periféricas e vislumbra as entranhas que habitam, convivem e nos consomem intimamente.

Como diria... não gostei.

"O médico vai nú!"

quarta-feira, outubro 07, 2026

Narciso

A novela que decorre nestes dias e que se tornou drama maior do que todos os restantes problemas sociais, económicos e mundiais, revela o narcisista que há por detrás da personagem principal.

Querer subjugar o que há de bom num colectivo, pelas qualidades individuais, ainda que muito acima do normal, e sentir-se ofendido quando o caminho escolhido ignora os caprichos próprios, fez-me rever uma das minhas muitas lutas e que são objecto de reflexão pessoal.

Na verdade, questiono-me recorrentemente se não há muito de um narcisista dentro de mim. Não é que me queira comparar a um Ronaldo de uma qualquer área específica de actividade, mas nesta necessidade de uma validação constante, numa recusa de ser esquecido pelos demais. Mesmo a escrita, não será porventura uma dessas formas de narcisismo expresso na tentativa de gerar admiração?

Se não fosse o desagrado que sinto pela minha imagem física, estaria completa a figura de Narciso, a definhar para sempre fitando o meu reflexo nas águas límpidas de um lago, enquanto em redor o mundo corre com todas as suas maravilhas.

segunda-feira, outubro 05, 2026

Ultreia

Esta semana será de um trabalho intenso. Apesar de estar de férias do meu trabalho principal no hospital, ou pelo menos daquele do qual retiro maior rendimento, em todos os restantes, mantenho-me em actividade. De resto, se olhar para o passado, desde que comecei a trabalhar, julgo que não me ausentei mais do que uns 8 dias de uma qualquer actividade profissional e mesmo nestes sempre contactável para resolução de alguma situação clínica, para lhe dar, em meu entender, a melhor orientação.

Mas esta semana, vou ter que me me desmultiplicar mais um pouco, ir mais além do que só o necessário. Além das rotinas diárias e numa habitual e recorrente ausência da minha esposa nos primeiros dias desta semana, tenho umas jornadas de saúde para ajudar a acabar de organizar. Acabar de organizar, como quem diz, mobilizar monos de mobiliário que se encontram espalhados nos vários espaços onde vai decorrer a formação.

Consegui perceber uma certa desilusão, ou mesmo receio de que o local escolhido não fosse o ideal, mas numa promessa feita e com o sentimento interior de que o local é perfeito e que irá, também pelo seu simbolismo marcar pela positiva este evento, terei que me empenhar para deixar tudo visualmente mais agradável. Espero que o conteúdo, seja depois tanto ou melhor do que o imediatamente observável. É como a comida. Se o prato for apelativo à vista, a disposição para uma refeição agradável é consequente. Resta saber se o sabor desta refeição também cumpre com os requisitos gastronómicos de estrela Michelin.

Estou entusiasmado, nessa forma de tentar ocultar o receio que sinto de defraudar as expectativas dos demais nesta empreitada.

Para tanta força necessária, espero que não seja preciso a determinação obstinada de Sisifo, ou ter que deixar crescer a barba e cabelo, tal Sansão, pois o aspecto geral tornar-se-ia ainda pior.

Roguei ainda, nestas pequenas férias, num abraço de conforto a São Tiago Maior, debaixo de Campus Stellae, a necessidade de irmos todos mais além, de nos superarmos no caminho e de tornar gloriosa esta experiência.

Ultreia et Suseia

sexta-feira, outubro 02, 2026

Tau

Toda a vida procurei encontrar o meu caminho para a felicidade. Na minha infância tive a sorte de ter nascido no mesmo dia do meu melhor amigo, o meu irmão gémeo e quando comecei a ter noção do mundo que me rodeava, desenvolveram-se dentro de mim as questões da metafísica que na adolescência dominam a nossa existência e sobre as quais tantas vezes conversava.

Foi nesta altura do meu crescimento que convivi com alguns colegas de escola, seminaristas de uma ordem de Combonianos, e um deles, com quem conversava muito sobre a existência de Deus e da sua criação, ofertou-me uma espécie de cruz que vim a saber designar-se de Tau.

Comecei a usá-lo diariamente, a par de um crucifixo em prata oferecido pelos meus padrinhos, ainda em criança muito pequena, junto com a inicial do meu nome. Havia algo de místico, que imaginava superior, que me protegia e amparava e que me mantinha nessa felicidade inocente quase infantil.

E foi durante a adolescência que tive um desses momentos modificadores de vida. Um dia por tédio ou aborrecimento e com total desconhecimento do que viria a significar esta atitude, subi a enorme escadaria da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis no dia da efeméride deste Santo, e senti um calor enorme interior, ao ouvir as palavras que iriam regular a minha vida a partir de então... "Mais vale dar do que receber, amar que ser amado" e percebi que o Tau era o símbolo desta forma de cristianismo. Se já sentia a força da sua protecção, agora encontrava a força da sua direcção.

E usei-o sempre, todos os dias sem excepção, num envelhecer conjunto da madeira e da carne.

Quando conheci a mulher que viria a ser minha esposa e pela força que sentia vir de um pedaço simbólico, decidi oferecer-lhe o Tau, para que passasse a ser protecção e graça no seu dia a dia. Não como amuleto ou talismã, mas como uma presença viva de um Cristo simples, humilde e de entrega feliz na vida.

E assim foi durante anos, até que em 2022, o meu mundo espiritual ruiu e fez desabar toda a estrutura que construíra. Ficava em ruínas a ideia de felicidade que sempre me alimentou, dessa ingenuidade virginal que me guiava. O Tau também tinha desaparecido do peito e das nossas vidas, como um simbolismo desse abandono do poder de uma espiritualidade superior a cada um de nós e que dava força a uma união.

Também eu mudei. Tive que mudar para me adaptar a uma nova realidade, mas não para melhor. Fiquei mais ligado ao que era da carne e menos ao que era do espírito e com essa mudança veio o sentimento de uma desilusão própria. E sei que desiludi. Do outrora simples e humilde Sebastião da Graça pouco resta, dominado pelo sem vergonha e magoado Rodrigo Pais.

Tentei procurar respostas na solidão, perceber onde se encontrava o caminho na escuridão, tentei ver a pequena luz que sabia que não se extinguira, mas que brilhava com uma força menor, tão pequena que passava quase despercebida. Até perceber que a resposta já se encontrava em mim... "Mais vale dar do que receber, amar que ser amado".

Amar é viver para o outro, dar-mo-nos naquilo em que somos melhores, sem esperar moeda de troca ou retorno e com este sentimento recuperei um pouco da felicidade que pensava perdida ou esquecida. Ser o que sempre tentei ser, a melhor pessoa possível e fazer depender apenas de mim, a procura dessa felicidade na entrega simples, humilde e genuína.

Do Tau original, não sei paradeiro. Ficou perdido no passado, como prova de que não é uma peça que tem valor, mas o seu significado, a impressão da sua força que fica marcada na nossa alma e coração.

E há uns dias voltei a usar um Tau, que mais tarde adquiri, para me fazer recordar diariamente que só sou verdadeiramente feliz se me entregar verdadeiramente ao próximo, sem esperar recompensa ou gratidão, mas para sentir que a minha vida tem um propósito e um fim.

"Pregue o Evangelho em todo o tempo. Se necessário, use palavras."
São Francisco de Assis

E como tenho falhado... nos pensamentos,  nos actos, nas palavras e nas omissões.

Tenho que assumir de novo o controlo.

quarta-feira, setembro 30, 2026

Amor que protege

Os nossos filhos são o nosso maior amor. Por eles, daríamos tudo o que somos e tudo o que temos, num piscar de olhos, sem olhar a consequências, movidos pelo desejo de os ver sempre felizes. No entanto, a verdade mais dura da maternidade é perceber que não se pode viver a vida deles.

Quando os vemos sofrer, a primeira reação é querer carregar essa dor no lugar deles. Mas o caminho de cada filho pertence-lhe só a ele. Não podes substituir o que o teu filho vive, o que ele escolhe fazer ou o que sente. Tentar fazer isso seria tirar-lhe a oportunidade de crescer.

Ele terá momentos de felicidade única, sucesso e superação, mas também enfrentará a desilusão, a queda e o desânimo. Ambos os lados são necessários para moldar quem ele deve ser e não há forma alguma de antecipar ou prever cada queda ou sofrimento. O teu papel não é evitar que ele caia, mas sim ser a disponibilidade constante, o porto seguro para onde ele sabe que pode sempre voltar quando o mundo lá fora falhar.

Cada vez mais me convenço de que os nossos filhos nunca são nossos. Eles vêm através de nós, mas não nos pertencem. Amamo-los incondicionalmente, seríamos capazes de dar a vida por eles sem hesitar, mas nunca conseguiremos ser substitutos na história que só eles têm o direito e o dever de escrever.

Aguenta firme. O teu amor não falha quando ele sofre. O teu amor triunfa quando, mesmo no sofrimento, ele sabe que não está sozinho.

Recorda cada dia:

O meu amor protege, mas não substitui o caminho dele.

Dar espaço para ele cair é dar-lhe a oportunidade de aprender a levantar-se.

Eu não posso viver a vida dele, mas posso ser o seu porto de abrigo.

Amar incondicionalmente é aceitar que ele não me pertence, mas que terá sempre o meu apoio.

Hoje, escolho confiar no processo de descoberta e crescimento dele e não me esquecer de cuidar também de mim.


Espero em vão

Há uma voz de sempre,
Que chama por mim.
Para que eu lembre,
Que a noite tem fim.

Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Em nome de um sonho,
Em nome de ti.

Procuro à noite,
Um sinal de ti.
Espero à noite,
Por quem não esqueci.

Eu peço à noite,
Um sinal de ti.
Quem eu não esqueci...

Por sinais perdidos,
Espero em vão.
Por tempos antigos,
Por uma canção.

Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Por quem já não volta,
Por quem eu perdi.

Procuro à noite,
Um sinal de ti.
Espero à noite,
Por quem não esqueci.

Eu peço à noite,
Um sinal de ti.
Quem eu não esqueci...

...

Por quem não esqueci
Sétima Legião ‧ 1989

segunda-feira, setembro 28, 2026

Elogios

Recorrentemente ouço pessoas a elogiar a forma de ser e estar dos meus filhos, sobretudo do mais velho. Um jovem, que reconheço ter uma personalidade gentil e de elevado sentido de compromisso pelas causas que abraça.

É um sentimento estranho vê-lo a ser gabado e costumo dizer em jeito de gracejo, que desconheço a filiação genética de tais atributos, que ao pai não sairá de certo.

E como resposta, hoje ouvi uma expressão que me desarmou.


"Quando a raíz é forte, a árvore só pode dar bons frutos".


De facto a semente cai à terra sem manual de instruções, e o jardineiro, na sua humilde ignorância, passa os dias a questionar se o solo que oferece é suficiente. Olho para as minhas próprias imperfeições, as arestas por limar, as falhas de que sinto culpa e, por um mecanismo de defesa, sacudo de mim a possibilidade de ser parte do milagre.

Mas o mundo assiste, atento, ao crescimento da árvore. Vê o jovem que se ergue com a gentileza desenhada nos gestos e o compromisso firme gravado em si.

E quando o mundo o elogia, o coração estranha, porque a proximidade esconde o sagrado, o quotidiano cega-me para a beleza da obra que ajudei a erguer.

É preciso o olhar alheio, condensado numa frase, para desarmar as defesas do sangue. A raiz não é apenas a genética, é a presença constante e disponível, o exemplo invisível, o afeto dado nos dias cinzentos e a firmeza nos momentos de tempestade. O fruto não nasce bom por mero acaso ou capricho do vento, é o resultado silencioso de uma seiva que corre subterrânea, alimentada por um amor que, mesmo sem saber, soube ser fundação.


Olhar para o meu filho é aceitar a árvore que dá bons frutos, porque a raíz, desde o primeiro dia, sustentou o mundo para que ele pudesse florescer.