quinta-feira, agosto 20, 2026

Sonhos

À noite, quando o mundo se silencia e os meus olhos finalmente se fecham, o universo corrige a sua rota e na liberdade dos meus sonhos, tu és minha. Ali, não existem passados desalinhados, distâncias intransitáveis, ou o peso dos dias que correm sem ti. Caminhamos juntos sob céus inventados, rimos de piadas que nunca contamos acordados e a tua mão encaixa na minha com a certeza absoluta de quem se pertence ao tornar o mundo mais belo. Nesse espaço sem tempo, o toque que me aquece e o beijo que me sacia não é uma busca, é uma constante, um território seguro onde te posso prender num abraço sem medo do amanhecer.

Mas a luz da manhã é um carrasco insensível que insiste em dar nome à tempestade de dor que me preenche e domina. Abro os olhos e a luz rasga a penumbra do quarto, devolvendo-me à solidez implacável dos dias e a verdade desperta comigo, fria e lúcida, onde na realidade, tu és o meu sonho. És aquela imagem bonita que persigo de olhos abertos, a fantasia que ilumina a rotina cinzenta, o impossível que insisto em querer tocar. Tornaste-te na minha utopia, a meta que sei que nunca alcançarei, mas que me faz continuar. Vivo suspenso nesta doce e cruel dualidade de te ter por inteiro na ilusão da noite, e a de passar o dia inteiro a sonhar acordado com o que nunca seremos.

Queria viver no teu sonho e não ter que acordar para a realidade.

terça-feira, agosto 18, 2026

Caminho da vida

Ando em círculos sobre o mesmo pedaço de chão, não por falta de pernas, mas por excesso de caminhos. Olho para o horizonte e vejo duas estradas que se cruzam no centro do meu peito. Uma exige a segurança do cais, a outra clama pela tempestade do mar alto. E eu, suspenso no limiar da escolha, permaneço imóvel.

Uma mente dividida não me leva a lado nenhum, é uma verdade nua, sussurrada pelo vento que passa por mim sem nunca me mover. Ver as duas direções é o mesmo que estar acorrentado ao chão, num pensamento que se bifurca e que cancela o próprio passo. Cada metade de mim puxa com a mesma força para lados opostos, e o resultado dessa física cruel do somatório de todas as forças é a imobilidade absoluta.

Sob o pretexto de procurar a decisão "perfeita", a mente sabota a ação, acumula dados, pesa prós e contras até à exaustão e desenha cenários hipotéticos no futuro. O excesso de planeamento sem execução é apenas uma forma sofisticada de procrastinação de uma mente dividida que consome a energia que deveria ser usada para caminhar, gastando-a na eterna hesitação do ponto de partida.

Para ir a algum lado, é preciso a coragem de perder algo. Escolher um caminho implica, necessariamente, a dor de abandonar o outro. E é o que torna tudo tão penoso, porque o ser humano tem uma aversão natural à perda, queremos o ganho da nova escolha sem abrir mão do conforto da situação actual. Mas o progresso exige uma portagem, a renúncia do que é confortável.

Enquanto não pacificar esta guerra interna, serei apenas um espetador do meu próprio destino, assistindo ao tempo passar enquanto coleciono começos que nunca viraram caminhos, mantendo a crença de que posso manter todas as portas abertas. Quem tenta caminhar por duas estradas ao mesmo tempo acaba por cair numa armadilha e acabará por se rasgar ao meio. A maturidade emocional começa quando aceitamos que decidir é podar os ramos de alternativas para permitir que uma árvore cresça.

A partida não exige certezas absolutas, exige apenas uma vontade inteira. A clareza não precede a ação, é um subproduto da própria ação, num descobrir se a estrada é a correta só depois de darmos os primeiros passos, pois o movimento transforma a paisagem e revela novos horizontes que a imobilidade esconde.

Para unificar uma mente dividida temos de escolher um objectivo principal, eliminando tudo o que seja secundário e transitório. Temos de abandonar o perfecionismo, ao perceber que uma decisão razoável executada hoje é infinitamente superior a uma decisão perfeita que nunca sai do papel. Temos que aceitar o erro como inevitável, e ao o identificar recalcular a rota, pois o erro ensina e o impasse estagna.

Assumir o controlo dos passos que se dão pelo caminho, significa liderança pessoal, onde a mente se alinha num único propósito, a energia fragmentada transforma-se num feixe de luz focado que ilumina e é capaz de romper qualquer bloqueio, para nos levar, finalmente, ao lugar certo.

Cada caminho novo, encerra um capítulo passado.

segunda-feira, agosto 17, 2026

Regresso de férias

Regresso de férias, é sempre uma altura em que o cansaço nos domina. Não um desgaste de trabalho constante, mas um consumo de energia de um sol que mói, caminhadas frequentes e da tentativa de preencher totalmente os espaços de tempo livres com actividades que justifiquem a pausa.

Nestes dias, conheci praias fantásticas, saídas do imaginário de cada um, de águas cristalinas e de areais ainda no estado quase selvagem.

Foi também tempo de viver uma experiência única de uma vida, que nos mostra a dimensão maior da espectacularidade do que é natural, que confirma a presença de um ser que domina e regula a nossa vida. Um eclipse total do sol, vivido nesses 1 minuto e 36 segundos de uma imagem que criou uma impressão na memória que guardarei para a vida. O alinhamento perfeito de uma luar menor, que à distância certa ofusca totalmente um sol maior por breves momentos e dá uma das maiores visões que alguma vez presenciei. E partilhar este momento com os meus filhos e os meus irmãos, foi algo que aumentou esta experiência única.

Deu para tudo. Até para não me desligar completamente das rotinas dessa disponibilidade permanente, dia e noite, em que se transformou a minha vida profissional. A determinado momento parecia que os doentes aguardavam a minha ausência para decidir adoecer. Mas com o à vontade de quem os conhece bem e com uma equipa dedicada e sempre presente, lá se conseguiu levar a bom porto cada uma das situações mais ou menos complexas.

Férias, foi também um tempo de paixão, sem largar essa necessidade de tesão que estupidamente e cada vez mais me domina e partilhar tudo isso com quem está a meu lado, para nos nossos devaneios comuns, libertar-mos essa tensão que se acumula.

Agora, é tempo de voltar às rotinas. Arrumar a casa diariamente, tal camareiro de hotel, cozinhar para bocas famintas de novidades gastronómicas, como chefe michelin e de trabalhar afincadamente para acumular recursos para sonhar com os próximos locais a visitar.

Que não trabuca, não manduca... (e não viaja)


Post Scriptum: não passou despercebido que ninguém comentou, o pedido de roteiro para este blog. Seguirei assim, com aquilo que me define... divagar livremente por assuntos diversos e tão distintos, que pela sua característica, descaracterizam este cantinho.

sexta-feira, julho 31, 2026

Vacaciones

Caríssimos leitores
(parece algo saído da série Bridgerton)

Os autores deste blog vão estar de férias, ou será melhor dizer, numa adaptação à língua dos próximos dias, de vacaciones.
E como será tempo de descanso das rotinas diárias, dará tempo para retornar à escrita regularmente interrompida de outros géneros literários.

Em jeito de sondagem ao público regular, gostaria que comentassem, o que gostariam de ler no regresso... reflexões sobre a existência de vida extraterrestre, contos eróticos apimentados pelos devaneios dos autores, ou dissertações sobre o estado actual de um mundo decadente?

Comentem, expressem-se e na volta, tentarei ir de encontro ao solicitado.

quinta-feira, julho 30, 2026

Indiferença

A indiferença é o inverno do espírito humano. Não fere como o gume de uma lâmina nem queima como o calor do ódio, simplesmente gela, anestesia e apaga.

Ao longo da minha caminhada, fui percebendo que o verdadeiro oposto do amor não é a hostilidade que ruge, mas sim o silêncio vazio de quem olha sem ver e ouve sem escutar. A indiferença é um mal maior da nossa sociedade, porque isola os homens em ilhas invisíveis, convencendo-os de que a dor vizinha pertence a um universo estrangeiro.

No entanto, na arquitetura do afeto não são precisos grandes monumentos, mas basta tão só uma pequena palavra dita no momento da queda, um gesto mínimo que devolve a dignidade, um ombro que partilha o peso do mundo ou uma escuta atenta que valida a existência de quem fala, para fazer a diferença. Quando escolhemos quebrar o vidro da indiferença, descobrimos o bem em ser para o outro. Estender a mão é um ato desprovido de qualquer custo financeiro ou esforço gigantesco, mas carrega o poder tectónico de reescrever o dia de alguém.

Há, contudo, um mistério belo e circular nessa entrega. Ao iluminarmos a penumbra alheia, uma claridade inesperada invade a nossa própria alma, o conforto que oferecemos regressa a nós multiplicado, instalando no peito um bem-estar profundo e pacificador. Descobre-se, nesse mesmo instante, um certo egoísmo no altruísmo, no bem que fazemos ao outro salvamo-nos a nós mesmos da solidão.

Cuidar do próximo é uma forma sublime e legítima de cuidar de nós proprios.

quarta-feira, julho 29, 2026

Respeito pela honestidade

As palavras que sempre guiaram os meus passos, tem-se expressado ultimamente com uma força renovada. Por isso, não será de estranhar, como mesmo neste cantinho onde os pseudónimos substituem o seu criador, eu me mostre de uma transparência que pode causar algum espanto e estranheza.

Com o tempo e a aprendizagem, aprendi que o respeito não se impõe, conquista-se pelo exemplo, e nenhum exemplo educa mais do que a forma como tratamos os outros. Com esta convicção toda a minha vida me pautei por ser uma pessoa honesta e nas relações emocionais, sempre escolhi a clareza como bússola, mesmo sabendo que, por vezes, essa nudez da alma me traria feridas e prejuízos num mundo habituado a meias verdades ou enganos. Sempre acreditei que a verdade, ainda que inicialmente mais dolorosa, acaba sempre por trazer uma serenidade e paz indeléveis.

Durante muito tempo, carreguei o silêncio de coisas guardadas, que não revelava para não parecer um ser diferente, um tolinho, e percebi que quando se foge à verdade, tudo o que fica escondido gera angústia, uma pressão interior que nos consome os dias e nos rouba o sono. Ocultar é como construir uma prisão de tijolos invisíveis, onde o ar se torna rarefeito.

Mas agora, a verdade revela-se, sem reservas. No instante em que as palavras honestas deixam o meu peito e ganham o mundo, sinto um desmoronamento daquilo que é falso e vejo aparecer a fundação imediata de uma paz interior inabalável. Olhar o outro nos olhos e entregar-lhe a realidade nua não é um ato de crueza, é antes, uma das maiores expressões de respeito que podemos oferecer, pois significa considerar o outro digno da verdade, recusando o insulto da ilusão. A clareza liberta quem fala e dignifica quem escuta. Na mansidão desta nova aurora, descubro que a honestidade não nos isola, ela limpa o caminho para que os laços reais se tornem, finalmente, eternos.

terça-feira, julho 28, 2026

Invisível

Há um abismo entre o que o mundo testemunha e o que realmente se processa na quietude do nosso ser. Por fora, apresentamo-nos muitas vezes como estátuas de serenidade ou meros espectadores da vida, cumprimos rituais, mantemos a postura, observamos a paisagem e deixamos que o tempo nos atravesse com uma aparente passividade. Para quem nos vê de fora, o silêncio pode parecer ausência, a imobilidade pode sugerir acomodação e o olhar fixo no horizonte pode ser interpretado como simples contemplação.

No entanto, a verdadeira vida acontece no interior, longe dos olhos de tantos que nos olham, mas não vêem, onde existe um ecossistema pulsante de ambição, superação e resiliência. Quando parecemos mais parados, é frequentemente quando estamos a travar as nossas batalhas mais exigentes. Dentro do peito de alguém aparentemente imóvel, cada dúvida superada é um ponto de apoio conquistado numa rocha íngreme de um interior que não precisa de plateia nem de grandes gestos externos para mover montanhas. A verdadeira força de vontade opera em absoluto recolhimento, sustentada pela luz da esperança que recusamos deixar apagar.

Somos, na essência, gigantes a guardar universos inteiros por trás de gestos contidos. A casca exterior serve apenas como um ponto de ancoragem a partir do qual a nossa mente e a nossa alma se lançam às altitudes mais ousadas.

Ninguém consegue medir a distância que uma pessoa já percorreu apenas por olhar para onde ela está parada. A inspiração mais profunda não faz barulho, ela é o impulso secreto que nos faz continuar a subir, mesmo quando o mundo à nossa volta acredita que estamos apenas a olhar o horizonte.

A vida impõe desafios, mas és tu que decides se eles serão obstáculos imóveis ou objectivos na subida.