Hoje acordei a pensar na frase de John F. Kennedy, “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas o que tu podes fazer pelo teu país”. Mensagem que vai muito além da política e que é um verdadeiro apelo à descentralização do “eu”, um convite para nos despirmos do egoísmo e nos colocarmos, de coração aberto, ao serviço do outro. Esta entrega é um milagre que sustenta os laços que mais nos importam no colo acolhedor do nosso lar ou no impacto que deixamos no trabalho.
Se mergulharmos mais fundo, na beleza da visão franciscana da vida, que a mim me diz muito, descobrimos que há incomparavelmente mais alegria em dar do que em receber. A verdadeira felicidade não é um troféu que se conquista para si mesmo, mas naquilo que escolhemos ser para os outros. Reside no ato quase sagrado de colocar o nosso conhecimento, o nosso tempo e os nossos dons ao serviço de quem nos rodeia. Viver de verdade exige coragem para abandonar o sedentarismo da alma, rejeitando a postura fria de quem apenas espera que o mundo lhe seja útil.
No aconchego ou nas tempestades da vida conjugal, a pergunta “o que eu ganho com isto?” é o veneno silencioso que afasta os corações. Quando transformamos a nossa relação num livro de contabilidade, onde cobramos cada gota de atenção e pesamos cada esforço, o amor perde o oxigénio. O casamento não é um contrato de troca, é um pacto de cuidado mútuo. Há muito de espiritual nos pequenos gestos diários, no aliviar o cansaço nos olhos do outro, nos gracejos para lhe devolver o sorriso, no suporte emocional sem esperar uma recompensa imediata ou uma vénia de agradecimento, no silenciar do próprio orgulho de uma escuta atenta, acolhendo assim as fragilidades mútuas. A felicidade a dois floresce no momento em que a vontade de ter razão cede lugar ao desejo profundo de ver o outro em paz, criando terreno para uma união duradoura e bonita de duas pessoas que não esperam ser servidas e idolatradas, mas que comovidas pelo valor uma da outra, decidiram ser abrigo e amparo ao outro.
Também no trabalho, que não tem de ser um fardo ou um castigo no propósito único de ter um salário, pode hever expressões da nossa utilidade no mundo, sobretudo para quem connosco partilha o dia a dia, alimentando um brilho de transformar a carreira numa missão de serviço. Partilhar o que se sabe com generosidade, transforma-nos numa fonte de inspiração e luz para os colegas, numa entrega do coração no que se faz, ao colocar paixão em cada detalhe, sabendo que o esforço melhora a vida de alguém, algures. O sucesso profissional ganha alma quando percebemos que, ao impulsionar o crescimento de um colega, estamos a elevar toda a comunidade.
Quem trabalha apenas para si próprio caminha sozinho e esvazia-se, mas quem trabalha para servir, deixa uma marca eterna na vida dos outros.
A nossa passagem por esta vida só ganha cor quando nos tornamos um lugar seguro para alguém. Seja na intimidade do quarto ou na correria do escritório, a postura de serviço liberta-nos do peso de olhar só para o próprio umbigo. Quando escolhemos, conscientemente, dar o melhor de nós sem reservas, descobrimos que é a servir, onde o amor e o sucesso nos encontram, que nos tornamos verdadeiramente inteiros.


