terça-feira, março 03, 2026

Inseguro

As palavras ganham eco, nesse imenso vazio que é a minha mente. Ideias redundantes, que não me abandonam e me deixam sequestro de estados de overthinking, do qual não me consigo emancipar.

Porque sou tão inseguro? Porque no meio de alguma ideia de extroversão, me sinto logo de seguida inapropriado, desadequado, que me destrói? Não é uma ideia recente. Já aqui expus em tempos a minha visão da dismorfia que me acompanha. E voltei a sentir essa sensação de subjugação.


Porque fui abandonado, não há muito tempo? Ainda ontem me dizias como era o marido perfeito, um exemplo de pai. Dedicado, organizado, que te libertava de tantos afazeres, como nunca imaginaste que seria possível. E talvez, tenha sido tudo isto que te fez deixar de me desejar. Correndo o risco de parecer algo misógino, talvez esta vertente muito feminina em mim, de gestão familiar, de deixar tudo organizado, de ter brio e ser aprimorado nos afazeres domésticos, a rondar o exageradamente romântico nas palavras e nas acções, te fez ver-me mais como uma companheira de casa e menos como um amante ardente, que te dá prazer à carne.

E me fez, como tantas vezes nesse passado esquecido, sentir-me ignorado pelos imensos defeitos que tenho, que me deixam incapaz de me olhar com uma paixão própria e que me fazem assumir essa atitude de autocrítica, mais complacente do que a complacência de quem olha e em silêncio diz tudo.

Como seria bom alcançar esse estado de eudaimonia, objectivo inalcançável, mas propósito final.


"Perdoar é o reflexo de se amar o suficiente para seguir em frente."

segunda-feira, março 02, 2026

Duas caras

 A vida é um continuum de aprendizagem. Um "só sei que nada sei", constante. E é junto dos mais novos, que tantas vezes recebemos dos ensinamentos mais profundos que nos fazem mudar, na maioria das vezes, de atitudes.


Somos feitos de duas "matérias" distintas, que no entanto têm traços comuns entre si. Essa que é a que os outros vêem de nós, baseada nos traços que vamos deixando, mas sobretudo criada pela expectativa do que podemos ser. E a outra que é a visão que nós próprios temos de nós. Esta que, se calhar, ninguém chega mesmo a conhecer, ou só mesmo essas raras pessoas que olhando-nos nos olhos, conseguem perceber o nosso verdadeiro eu, esse íntimo de uma obscuridade luminosa do qual somos feitos.

Por isso é importante estarmos receptivos a ser tolerantes, empáticos perante os outros, pois não sabemos do sofrimento, da angústia, das desilusões pelas quais passaram, que os moldaram em introvertidos, por vezes até desagradáveis, ou nessa estranha forma de ser tão expansiva que esconde.


É nesta batalha entre o eu próprio e o eu social, que nos encontramos. Nessa necessidade de frenar impulsos, que em muito revelariam os nossos desejos mais profundos, por vezes tão obscenos que chocariam os mais incautos. Vive-se preso a limites auto impostos, a valores em que se acredita serem importantes, para não destruir por completo as raízes nas quais fomos criados e educados.


Falo de novo de amores e desamores... num momento em que pensava estar "curado" dessa doença que alimenta, mas também destrói. Numa altura em que tinha de novo assumido a certeza de que "tudo está escrito", de que nada aconteceu por acaso. Que a determinado momento das nossas vidas dissemos SIM a quem nos estava destinado para a vida. E, ainda acredito. Não fosse esse desejo que nos deixa toldados e nos consome a razão e que se torna num pecado saboroso de luxuria e sensação calorosa.

Há, sem dúvidas, pessoas muito especiais, fantásticas, de uma presença e espiritualidade única que nos deixam completamente sem norte. Pelo seu jeito, pela sua forma e sobretudo pelo seu conteúdo.

Mas, não podemos ter a ambição de sermos "donos" de tudo o que é bom. A cada um de nós um pedaço, sem necessidade de ao querer tudo, tudo perder. E a forma mais digna de mostrar afecto, torna-se então, nessa liberdade que nos traz felicidade. Felicidade que tem que ser uma conquista diária, trabalhada arduamente, mesmo que para isso se tenha que abdicar de muito, que ao outro parecendo pouco, é tanto.

Sonhava hoje, sobre esses princípios de relacionamento. Da paixão que vem das qualidades que observamos no outro e do amor, que fica das imperfeições que compreendemos e aceitamos. Que assumimos diariamente como desafios, numa tolerância, num respeito mútuo, em que vemos partilhar e mudar o nosso eu íntimo ao outro, como se os dois fossemos um. Não há perda de identidade no processo. Há uma mudança natural, assumindo-se essa atitude de resiliência que nos faz ficar, superar adversidades e sair mais forte da experiência.


Não sou um Dr do amor. Nunca fui. E disto, apesar dos anos passarem, pareço perceber cada vez menos. Aprendizagem feita, com as alegrias e com as tristezas que em todas as histórias nos fazem perceber do difícil que é viver em paz, sereno, alienado ao que nos rodeia. Como seria bom viver nessa escuridão da solidão, nesse viciante desejo de não sofrer por se partilhar, mas com a sensação de que o isolamento total não nos teria trazido dos momentos mais felizes e luminosos da nossa vida, ainda que alguns deles tenham sido tão efémeros, mas de uma intensidade, capazes de nos transformar. Momentos capazes de transformar segundos, dias, anos em algo único, aos quais voltaríamos, sem hesitar.


"Sofremos muito com o pouco que nos falta e desfrutamos pouco do muito que temos".

Shakespeare

domingo, fevereiro 22, 2026

30 dinheiros

Não me é muito habitual que um sonho me marque tanto.

Em criança, era-me recorrente sonhar com queda de um terceiro andar onde vivia, e como se de um looping se tratasse, subia de novo as escadas para voltar a saltar. Sem dano, sem consequências. Só o salto. Nunca tentei perceber o porquê deste sonho, mas ainda hoje me recordo dos seus pormenores.

Esta noite, num pequeno intervalo de descanso, de mais uma noite de trabalho, voltei a ter um sonho que me despertou e que ainda agora, de olhos bem abertos, me atormenta.
No meio de uma confusão de sentimentos, que me pareciam bastante reais, de uma experiência de flirt a uma figura feminina, eis que vejo uma figura de aspecto tenebroso, que me coloca uma moeda de prata na mão.
A moeda pesava na palma da minha mão. Um disco de prata fria que parecia sugar o calor da pele. O brilho não era lunar ou puro. Tinha um reflexo baço, como se guardasse dentro de si o fumo de um abismo. Diante de mim, a figura desvaneceu-se nas sombras, mas o seu sorriso permaneceu gravado no ar, como um sorriso de quem conhece o preço exato da integridade humana.
Era o pagamento. O metal reluzente era o selo de uma traição que ainda ecoa na minha consciência. Ao fechar os dedos sobre a prata, senti o magnetismo do pecado, a promessa de poder, o conforto da recompensa, o sussurro sedutor de que "todos têm um preço". Era a tentação personificada, um convite para abandonar a luz e abraçar a conveniência das trevas.

No entanto, no centro do meu peito, sinto um nó apertado. O dilema de uma chama que me queima o espírito. De um lado, a prata oferece a ilusão de um caminho fácil. Do outro, a retidão exige o sacrifício desse brilho maldito.
Sinto em mim, a encruzilhada do limiar entre o homem que eu era e a sombra que o demónio quer que eu me torne. A moeda não é apenas dinheiro, mas o peso da minha própria alma em julgamento.
Em todo o caso, sonho ou mensagem, mais vale não brincar com o fogo, do inferno.

"...prostrou-se com o rosto em terra e orou: "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres"."
Mateus 26:39

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Politicamente (In)Correcto

Encontramo-nos em tempos de vida social, onde impera o politicamente correcto. Onde qualquer palavra ou gesto ofende.
Aqui vai algo encontrado algures e copiado.
Ainda que possa passar uma imagem preconceituosa de mim. Mas torna-se viciosamente irritante, tanta correcção.


"Antigamete na escola e na vida

Havia os ... ‘burros’ ... ‘gordos’ ... ‘caixa de óculos’ ... ‘sem sal’ ... ‘pretos’ ... ‘chineses’ ... ‘indianos’ ... ‘artolas’ ... ‘maricas’ ... etc.

Os ‘burros’ chumbavam! 

Não se tornavam doutores como hoje em dia.

Mas a fasquia era definida pelo marrão da turma!

Não era nivelada por baixo como agora. 

Somos todos iguais ... diz-se!!

Antes não parecia que fossemos!

Mas o ‘gordo’ também tinha notas brutais e ninguém sabia como! 

Talvez porque não jogasse à bola!

O ‘caixa de óculos’ tinha um sentido de humor inigualável mas não fazia corridas pois tinha medo de cair!

O ‘preto’ jogava à bola como ninguém e fazia umas fintas inimagináveis! Tinha um físico fora do comum!

O ‘chinês’ tinha vindo de outra escola, sabia à brava inglês, e tinha histórias que não lembravam a ninguém.

Cada um tinha um «defeito», até uma alcunha!

Mas tinha ou lutava por ter também outras qualidades.

Hoje não...!!

Dizem que somos todos iguais. 

Agora, tudo ou é bullying ... ou racismo ... ou xenofobia ... ou opressão ... ou assédio ... ou violência ... ou o caralho...! 

Antigamente, quando se era mesmo racista, levava-se um "chapadão" na tromba e aprendia-se logo que o ‘preto’ era como todos os outros, um de nós!

Apenas tinha cor diferente. 

E não era bullying! Era ‘aprendizagem on job’. 

Aprender assim era duro pois dói e não se esquece mais.

E às vezes em casa com os pais também se ‘aprendia’.

O menino ou menina ‘sem sal’ passava despercebido(a) e sentia-se sozinho(a). 

Ter uma alcunha diferente era fixe. 

A diferença era vista com bons olhos.

E aprendia-se uma coisa importante, rirmos de nós próprios. 

E não "chorarmos" porque alguém nos chamou isto ou aquilo. 

Assumia-se a gordura ... o ‘esquelético’ ... a ‘caixa de óculos’... e tudo o mais que viesse.

Mas quando não se estava bem, quando não se gostava da alcunha, fazia-se uma coisa importante. Mudava-se, lutava-se por acabar com ela.

Não se culpava os outros nem a sociedade. 

Não se faziam ‘queixinhas’!

E falhava-se ... Muitas vezes! 

Mas cada vez que se falhava ficava-se mais forte.

E sabíamos que era assim. Que havia uns que conseguiam, outros ficavam para trás, que havia quem vencia e quem falhava.

Agora não. Todos somos iguais.

Todos somos bons ... todos merecemos ... todos temos as mesmas oportunidades ... todos devemos até ganhar o mesmo ... todos somos vítimas ... todos somos oprimidos ... e todos somos parvos … porque aceitamos este ambiente do ‘politicamente correcto’ sem dizer nada… e até devemos dizer que somos ‘normais’.


Segundo o novo paradigma social, devem ter muito cuidado comigo, porque:

- Sou velho ou quase... tenho mais de 45 anos... e quando chegar à reforma, se chegar a tê-la, o que vai fazer de mim um tolo... improdutivo... que gasta estupidamente os recursos do Estado;

- Nasci branco, o que me torna racista;

- Não voto na esquerda radical, o que me torna fascista;

- Sou hetero, o que me torna um homofóbico;

- Possuo casa própria, o que me torna um proprietário rico (ou talvez mesmo um latifundiário);

- Gosto de comer borrego... o que me torna um abusador de animais;

- Sou cristão e, embora pouco praticante, sou um infiel aos olhos de milhões de muçulmanos;

- Não concordo com tudo o que o Governo faz, o que me torna um reaccionário;

- Gosto de ver mulheres bonitas bem vestidas (ou despidas), ou super decotadas, o que me torna um tipo capaz de assediar;

- Valorizo a minha identidade portuguesa e a minha cultura europeia e ocidental, o que me torna um xenófobo;

- Gostaria de viver em segurança e ver os infractores na prisão, o que me torna um desrespeitador dos direitos "fundamentais" protegidos;

- Conduzo um carro a diesel, o que me torna um poluidor, contribuindo para o aumento de CO2;

Apesar de estes defeitos todos, acho que ainda sou feliz… era mais antes… mas mesmo assim... considero-me um ‘gajo normal’!!"

Ser sociedade é saber reconhecer as diferenças e conviver com elas, não eliminá-las

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Potencial

Não sei em que acreditas. Às vezes também não sei em que acredito.
Mas, quantas vezes temos essa sensação, de que tudo acontece na altura e no momento certo.

Não há qualquer novidade aqui. No início tudo parece extremamente romântico. Uma crescente ânsia em estar, em ser memória constante nos pensamentos de outra pessoa.
Depois retorna o normal e rotineiro. 
Por isso é necessário renovar, reinventar, num contínuo diálogo sobre qual a nossa vontade maior.
Diálogo e Verdade. Sem medos ou pudores.

Sou para ti uma lembrança, uma recordação de que tens valor. De que mereces ser feliz, apreciada, amada, querida pelo que és interiormente. 
Ter a noção de que é um privilégio ter-te ao lado. Ter e ser pertença de alguém com a qual se construíu uma vida em conjunto, que deve reconhecer o que és, como és, o potencial enorme que tens.
É lembrar-te sempre do amor que deves ter por ti em primeiro lugar, para o que o possas partilhar sem medida com os teus. 

Serei só isso. Um catalisador do reconhecimento que deves rever em ti.
Uma face alegre, que faz do humor um escudo e uma arma, para fazer sorrir, rir à gargalhada que seja, para que nesse momento esqueças o que a vida pode trazer de menos bom e enfrentares o futuro com optimismo.


"Posso nunca vir a sentir o teu toque, mas continuarei a beijar-te nos meus sonhos mais secretos"

terça-feira, fevereiro 17, 2026

Até onde nos permitiríamos ir?

São tantas as perguntas, tantas as dúvidas que surgem na minha mente... talvez seja por esse motivo. A mente, mente... inventa constantemente cenários impossíveis, inverosímeis, pouco realistas.

Até onde nos permitiríamos ir? Até onde poderia ir, uma qualquer loucura, onde nos entregássemos mutuamente ao desejo, a essa luxúria, esquecendo quase por completo a vida que nos rodeia. Seria possível?

Mas a insegurança e a cautela, diz-me que é tudo fruto da minha cabeça, nessa ilusão quase psicótica em que pareço viver permanentemente. E pelo dever de respeito, a ti, que tens uma vida própria, uma família a que ainda pertences. E pelo respeito aos meus, inocentes crianças, que ignoram o estado miserável em que vivo em união. Negligenciado em afeto e atenção, em modo automático de dona de casa, gestor de finanças e taxista.

...a vida fosse diferente?

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Crise de meia-idade

Deixara (de novo) de expor aqui as minhas inquietudes. Tinha retomado o diálogo mútuo que elimina a necessidade de me auto confrontar com questões interiores que me atormentam, que criam angústia e dilema. Mas o silêncio em que a vida de casal, que tantas vezes se sobrepõe ao ruído do dia-a-dia, fizeram-me regressar ao cantinho, confuso e confabulante do meu eu.


Tenho refletido sobre a meia-idade onde, sem qualquer dúvida me encontro. Esse período de transição, que nos confronta com a finitude da vida, o envelhecimento físico e psicológico, com a necessidade de reavaliação e revalidação constante profissional e dos relacionamentos, tal como uma nova adolescência, só que na vida adulta.

E se de todas as mudanças, que causam, por um lado, insatisfação, tristeza, arrependimento, por outro, comportamentos joviais, expansivos, é o narcisismo que gera essa luta ética e moral interior que confunde e baralha.

Essa vontade estranha de nos sentirmos aceites, bajulados, apreciados, mesmo a nível físico, como se lutássemos contra o efeito irreversível do tempo no rosto e no corpo. Como sentíssemos a vontade de seduzir e nos sentirmos seduzidos, recusando ficar de parte, ao lado de uma vida efemeramente alegre.

E surge o conflito, com os valores de correção, respeito, lealdade e até dignidade própria que acaba por se perder nessa tentativa do constante "look at me".

E é nessa metanoia, que deve imperar o controlo de emoções, que parecem, em relação a valores e motivos maiores, banais, superficiais e fugazes.

Não pode haver felicidade, se com o nosso comportamento estamos a privar a felicidade de outros. A liberdade que julgamos ter em nós de mudar, não pode criar dor nas pessoas que são alvo de um qualquer devaneio pessoal de sedução, bem-estar ou aceitação.