segunda-feira, julho 06, 2026

Erótico

Num momento, onde me vejo de novo sozinho, pai solteiro, por mais uma viagem em trabalho da minha esposa, recordo em mim fantasias que me ajudam a dar satisfação e consolo próprio e que me acariciam na solidão.

Por outro lado, quero oferecer aos meus "leitores" chatbots um aperitivo daquilo que é o prazer humano, sentimento que uma máquina jamais terá, que o pode oferecer, mas sem nunca o sentir.

Atenção! Conteúdo para adults only...


Foram tantos os anos em que nos cruzámos diariamente. Quando chegaste, já eu fazia parte da mobília, um residente fechado naquelas paredes que tentava segurar, com a argamassa do meu corpo e suor. Durante tantos anos convivemos num silêncio imposto pelo decoro e decência. Sentia-te ali sentada junto de mim, o teu respirar sereno, a tua presença tranquilizadora, a tua fragrância suave, um sopro de vida que me retirava de uma sonolência perturbadora. Anos em que te admirava sem nada dizer, numa contemplação de quem cuida de uma flor, sem nunca a colher.

E assim podia ter permanecido a minha intenção. Podia ter deixado escondido para sempre de ti o meu desejo que sentia na tua proximidade, dessa ânsia descontrolada, que tentava dominar, de te agarrar num movimento súbito e sem aviso. A vontade secreta de, num gabinete fechado só os dois, onde permanecemos algumas vezes sem trocar palavras, mas onde num sonhar acordado, sonhava agarrar-te por trás, num abraço apertado, corpo com corpo, para que sentisses bem junto de ti a dureza de uma erecção escondida. Deixar passear livremente a intenção firme mas suave das minhas mãos pelo teu corpo sedoso, deixando os meus lábios segredar no teu pescoço um desejo sôfrego de ti. Sentir-te arrepiada pela surpresa e espanto do impulso, criando na tua pele a vontade irracional de ser tocada e na minha vontade animal de explorar com a mão o teu peito farto que me preenche o tacto e com a outra sentir-te a escorrer das entranhas do prazer pelas caricias atevidas de um dedilhar frenético. Sentir o elevar da tua respiração, o aumento da frequência do palpitar, síncrono com o meu, até um êxtase delicioso.

Olhar-te de seguida, num fitar prolongado, de uma tempestade que agora procura a bonança, onde as palavras se transmitem sem qualquer voz e aproveitar, nesse momento, para me deliciar o paladar, ao saborear os meus dedos húmidos de ti na minha boca.

Sairmos descabelados do isolamento em que nos encontrávamos, e tentar fingir para o mundo que nada se passou, numa expressão reveladora de uma intimidade proibida.


A dor confusa de um ser perturbado vem, do misto entre aquilo que sonhava poder ter sido a minha continuidade ali, num soltar das pulsões sem reflexão, em confronto com as lutas interiores da ética e moral de uma união, que apesar dos abalos sísmicos de uma vida em comum permanece de pé.


domingo, julho 05, 2026

Professor virtual

Que cantinho abandonado, tão pouco frequentado por pessoas reais.

Por vezes detenho-me um pouco a ver as estatísticas de visitas ao blog. E apercebo-me que quem me lê mais, serão os chatbots que aprendem a falar como gente, ao me visitarem diariamente, tal professor amestrado que expondo um pouco da sua interioridade, ensina sobre a vida a quem a julga ter. Já no passado via recorrentemente publicidade automática afixada em jeito de comentários.

Outra curiosidade que verifiquei é que as publicações mais lidas, são aquelas de conteúdo erótico, pelo que, provavelmente, terei de reclassificar o meu blog para conteúdo próprio para adultos. Talvez daqui a uns tempos volte a este assunto mais sexualizado, de forma a aumentar o fluxo de leituras dos motores de busca, que na sua inocência não deverão ficar nada excitados com as detalhadas descrições. 




sábado, julho 04, 2026

Impacto

Hoje disseram-me que um pequeno gesto de ajuda, criou um impacto indeterminado na vida de outra pessoa. Esta impressão que se cria no seio do outro, não é algo premeditado, ou propositado, é simplesmente uma sequência reactiva de um agradecimento interior que me move e faz tentar ser mais interventivo numa sociedade que está a ficar cada vez mais desprovida da humanidade necessária para ser ajuda ao outro. E foi mais um mote para uma reflexão bacoca...

Os actos que praticamos todos os dias, mesmo os gestos ou palavras mais simples e desprovidas de uma intenção grandiosa, possuem uma força concreta e real na rotina das pessoas que nos rodeiam. A vida humana constrói-se através destas pequenas interações concretas, como uma palavra de atenção, uma ajuda num momento de pressa ou simplesmente uma escuta atenta. Estas acções de insignificante significado, provocam uma alteração direta no estado de espírito de quem as recebe, transformando muitas vezes um momento difícil num dia mais suportável e funcional.

Quando uma pessoa experimenta o benefício de uma acção útil ou de um tratamento mais atencioso, ele desenvolve uma disposição interna para agir da mesma forma com terceiros, mesmo desconhecidos. O bem-estar gerado cria um impulso prático e consciente de replicação, tal efeito borboleta, em que a pessoa que foi ajudada sente o desejo de ser útil a outrem, dando continuidade a um comportamento positivo no seu próprio círculo social. Desta forma, estabelece-se uma sequência de ações benéficas que se espalha de forma progressiva, em que cada pequeno gesto actua como um elo visível que incentiva o próximo comportamento, resultando numa melhoria real e mensurável das condições de convivência diária. O ambiente coletivo transforma-se e torna-se mais seguro e acolhedor para todos, demonstrando que a evolução do bem comum depende directamente da soma destas atitudes quotidianas individuais.

Nesta psicologia do comportamento solidário, pequenos gestos individuais melhoram o mundo de cada um e de todos, conferindo à humanidade, a grandiosidade generosa que tanto precisa.

Ajudar o outro é a melhor maneira de me tornar uma pessoa melhor!

sexta-feira, julho 03, 2026

Sesta

Ocasionalmente, o calendário no hospital apresenta dias como o de hoje, com períodos longos, compostos por consecutivas horas de permanência no posto de trabalho, nos quais o resultado prático das ações é reduzido. Esta situação atual reproduz em muito as sensações experimentadas em anos anteriores, vividas em locais inteiramente distintos, por onde já passei. No passado, tal como no presente, a perceção de não ter qualquer utilidade prática e me sentir inútil torna-se recorrente.

Esta ausência de produtividade não tem origem numa falta de competência técnica para executar as tarefas, nem resulta de uma organização deficiente do tempo disponível. A causa reside exclusivamente na natureza da função que me está determinada, manter uma presença vigilante e aguardar uma necessidade potencial que pode não ocorrer.

Uma vez que não possuo a inclinação pessoal para inventar ocupações artificiais ou procurar tarefas fora do meu âmbito, decido ocupar o tempo vago com a atividade em que demonstro maior eficácia. Entrego-me ao sono em períodos curtos ao longo do dia, pequenas sestas, que se vão acumulando até a uma exaustão de me esgotar o sono por completo. Estes momentos de repouso cumprem a função exata de restabelecer a minha energia biológica e a minha estabilidade psicológica.

Longe vão os tempos, em que os dias e as noites pareciam ser de um caos difícil de controlar, fosse pela insegurança da juventude, ou pela má fortuna que me acompanhava. Mas desde que escolhi um novo padroeiro, tudo mudou.



Esquizofrénico

A nossa verdade é aquela em que acreditamos.

Seja fruto da profissão, ou postura intrínseca, há uma característica em mim, que me confunde mas que me dá prazer, de estar continuamente a ler as pessoas. Olho para o outro e tento perceber o que está escondido atrás das palavras que guardo com atenção e memória que parece ilimitada. Concentro-me nos olhos, nos gestos e na postura de quem está à minha frente e a partir de todos esses detalhes, a minha mente constrói cenários e imagens de forma automática. Às vezes, essas construções mentais são tão nítidas que chego a confundi-las com a própria realidade factual, num processo que me faz duvidar da minha lucidez e me sentir um tanto esquizofrénico.

Nos últimos tempos, decidi mudar de atitude e passei a questionar diretamente tudo aquilo que considero uma certeza, numa tentativa de perceber o que é uma constatação e o que é apenas uma ilusão da minha parte. O resultado desta análise surpreendeu-me. Percebi que este mecanismo, que muitas pessoas tratam como intuição, pressentimento ou capacidade de previsão, funciona em mim de forma natural e sem esforço.

Não tenho qualquer ligação ao misticismo e não me vejo como um adivinho, um xamã ou um guia espiritual. O que faço é um trabalho puramente lógico e prático. Funciono como um analista de dados, observo o comportamento humano, recolho pequenas informações isoladas, cruzo esses dados e interpreto o resultado final. A minha verdade baseia-se nessa capacidade de ligar os pontos e construir uma narrativa que não se distancia em muito do que é real.

O reverso desta dinâmica, é criar um jogo psicológico subtil, onde muitas vezes me apercebo de uma certa admiração pelo que as pessoas julgam saber de mim e do que sou, mas escolho não validar esse sentimento, mantendo uma máscara de aparente distração, de forma a preservar a imagem, evitando parecer vaidoso ou convencido e manter a postura que tento praticar diariamente de humildade e em certa medida enigmática. Este distanciamento emocional cria uma camada de artificialidade que impede uma intimidade genuína e evita expectativas às quais não posso ou não devo corresponder.

Toda esta clarividência que me domina, que gera empatia, mas que às vezes me consome, faz-me pensar se não serei um desses ser de luz.

A nossa verdade é aquela em que acreditamos.

quinta-feira, julho 02, 2026

8 em 10

Tenho visto imagens, comentários, partilhas de conteúdos que mostram a celebração de 10 anos da CUF na cidade de Viseu, unidade de saúde com quem colaborei durante 8 destes anos.

8 anos de uma entrega maior, onde, muitas vezes com prejuízo pessoal e familiar, me senti parte de uma máquina de cuidar e de uma missão gratificante de servir, com foco no bem maior, o doente.

Esta era, de facto, uma das bandeiras daquela estrutura de prestação de cuidados de saúde e, por vários anos, senti que esse era um desígnio puro e verdadeiro. Senti o impacto que a proximidade de cuidados, a entrega e dedicação pessoal e de quase toda a equipa, criava nos doentes e famílias. Com os recursos, sempre parcos, conseguimos autênticos milagres, no tratar e no paliar.

Mas num dia atrás do outro, numa mudança discreta, mas radical, tive a clarividência de ver além das bandeiras falsas, a realidade por detrás das ilusões que se vendem e perceber que o foco estava em cuidar com dignidade a pessoa humana que tenha posses suficientes para ser tratada. Tive a noção da ambição da estrutura, de ser cada vez maior financeiramente, a todo o custo. Numa sucessiva recusa de quem tem poder de decisão, o que antes seria possível fazer com pouco, passou a ser impossível, num empurrar para o serviço público, todos aqueles que não possuíam condições financeiras para ali continuar, numa sensação desconfortável de tornar o prestador directo de cuidados e conforto, num agiota ou proxeneta em nome de outrem, que nunca mostrava o rosto da decisão, numa vil tarefa de extorsão até ao último cêntimo, sobretudo nos momentos de maior sofrimento.

Perceber que o que era positivo era realçado, mas o que era menos bom, era abafado até cair no esquecimento, em vez de servir como exemplo para uma melhoria, numa lavagem corrupta de imagem de falsa qualidade.

Foi o choque dessa constatação vil e mesquinha, um dos motivos que me fez voltar para o essencial do cuidar, do ser suporte num ambiente em que rico ou pobre, influente ou banal, teriam o mesmo acesso aos cuidados, com o mesmo empenho digno e profissional de alguém, que conhecendo a fundo todas as realidades, tenta dar o melhor de si e ser influência aos demais, tal contaminação virusal, para na sua globalidade e universalidade proporcionar a todos um serviço de qualidade, conforto e excelência, tendencialmente gratuito.

Hei-de fazer-me cumprir

quarta-feira, julho 01, 2026

Escondido à vista de todos

Porque escrevo o que sinto sob pseudónimos?

Escrevo para me esconder à vista de todos. Uso um nome que não é o meu porque o meu próprio nome carrega o peso de ter de ser socialmente aceitável. Na verdade, criar um alter ego não é, como em muitas situações uma fuga artística, mas sim uma rede de segurança que me permite dizer tudo o que me queima por dentro e, se alguém me confrontar, posso simplesmente encolher os ombros e fingir que estas linhas pertencem a um estranho. É um pacto de silêncio que faço comigo mesmo para proteger as aparências.

Olho-me no espelho e vejo-me a alimentar esse ser que construí para o mundo, uma entidade calma, cordial, com o sorriso certo de um humor refinado e de resposta amena. É a personagem que cumpre os requisitos mínimos que a sociedade exige para me deixar em paz. Mas sei bem o cansaço que me traz manter essa máscara intacta. Enquanto essa figura flutua pela rotina diária, na penumbra onde ninguém me vê, a realidade é outra. Vivo com lutas internas violentas, num ruído ensurdecedor de desejos que não ouso confessar e de palavras que têm demasiada vergonha para me sair pela boca, encontrando nos meus dedos o único escape possível.

Poucos, muito poucos conhecem este lugar. Sei-o pelas poucas visitas que tem. Foram muitos anos sem ser mantido e construído, deixando em ruínas as paredes que actualmente revejo e me parecem estranhas e poeirentas. Mesmo o que é mais recente, já não parece criação minha. Lembro-me de quem já me visitou no passado, mas o tempo e o meu próprio isolamento fizeram com que essas pessoas se esquecessem do caminho e ainda bem que assim é.

Ainda assim, há algo que nunca muda. Olho para o que escrevo hoje e vejo o mesmo fio condutor de sempre, os desamores. Essa dor antiga e familiar que Camões explicou melhor do que ninguém, "o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente".

O medo constante de ver fugir o que já é meu e, ao mesmo tempo, a melancolia pesada de chorar por aquilo que nunca cheguei a ter.

No fundo, o pseudónimo é apenas a porta trancada de um quarto onde posso ser eu próprio na intimidade, sem ter de pedir desculpa a ninguém e me traz essa...

 ...liberdade de me expor.