quinta-feira, julho 02, 2026

8 em 10

Tenho visto imagens, comentários, partilhas de conteúdos que mostram a celebração de 10 anos da CUF na cidade de Viseu, unidade de saúde com quem colaborei durante 8 destes anos.

8 anos de uma entrega maior, onde, muitas vezes com prejuízo pessoal e familiar, me senti parte de uma máquina de cuidar e de uma missão gratificante de servir, com foco no bem maior, o doente.

Esta era, de facto, uma das bandeiras daquela estrutura de prestação de cuidados de saúde e, por vários anos, senti que esse era um desígnio puro e verdadeiro. Senti o impacto que a proximidade de cuidados, a entrega e dedicação pessoal e de quase toda a equipa, criava nos doentes e famílias. Com os recursos, sempre parcos, conseguimos autênticos milagres, no tratar e no paliar.

Mas num dia atrás do outro, numa mudança discreta, mas radical, tive a clarividência de ver além das bandeiras falsas, a realidade por detrás das ilusões que se vendem e perceber que o foco estava em cuidar com dignidade a pessoa humana que tenha posses suficientes para ser tratada. Tive a noção da ambição da estrutura, de ser cada vez maior financeiramente, a todo o custo. Numa sucessiva recusa de quem tem poder de decisão, o que antes seria possível fazer com pouco, passou a ser impossível, num empurrar para o serviço público, todos aqueles que não possuíam condições financeiras para ali continuar, numa sensação desconfortável de tornar o prestador directo de cuidados e conforto, num agiota ou proxeneta em nome de outrem, que nunca mostrava o rosto da decisão, numa vil tarefa de extorsão até ao último cêntimo, sobretudo nos momentos de maior sofrimento.

Perceber que o que era positivo era realçado, mas o que era menos bom, era abafado até cair no esquecimento, em vez de servir como exemplo para uma melhoria, numa lavagem corrupta de imagem de falsa qualidade.

Foi o choque dessa constatação vil e mesquinha, um dos motivos que me fez voltar para o essencial do cuidar, do ser suporte num ambiente em que rico ou pobre, influente ou banal, teriam o mesmo acesso aos cuidados, com o mesmo empenho digno e profissional de alguém, que conhecendo a fundo todas as realidades, tenta dar o melhor de si e ser influência aos demais, tal contaminação virusal, para na sua globalidade e universalidade proporcionar a todos um serviço de qualidade, conforto e excelência, tendencialmente gratuito.

Hei-de fazer-me cumprir

quarta-feira, julho 01, 2026

Escondido à vista de todos

Porque escrevo o que sinto sob pseudónimos?

Escrevo para me esconder à vista de todos. Uso um nome que não é o meu porque o meu próprio nome carrega o peso de ter de ser socialmente aceitável. Na verdade, criar um alter ego não é, como em muitas situações uma fuga artística, mas sim uma rede de segurança que me permite dizer tudo o que me queima por dentro e, se alguém me confrontar, posso simplesmente encolher os ombros e fingir que estas linhas pertencem a um estranho. É um pacto de silêncio que faço comigo mesmo para proteger as aparências.

Olho-me no espelho e vejo-me a alimentar esse ser que construí para o mundo, uma entidade calma, cordial, com o sorriso certo de um humor refinado e de resposta amena. É a personagem que cumpre os requisitos mínimos que a sociedade exige para me deixar em paz. Mas sei bem o cansaço que me traz manter essa máscara intacta. Enquanto essa figura flutua pela rotina diária, na penumbra onde ninguém me vê, a realidade é outra. Vivo com lutas internas violentas, num ruído ensurdecedor de desejos que não ouso confessar e de palavras que têm demasiada vergonha para me sair pela boca, encontrando nos meus dedos o único escape possível.

Poucos, muito poucos conhecem este lugar. Sei-o pelas poucas visitas que tem. Foram muitos anos sem ser mantido e construído, deixando em ruínas as paredes que actualmente revejo e me parecem estranhas e poeirentas. Mesmo o que é mais recente, já não parece criação minha. Lembro-me de quem já me visitou no passado, mas o tempo e o meu próprio isolamento fizeram com que essas pessoas se esquecessem do caminho e ainda bem que assim é.

Ainda assim, há algo que nunca muda. Olho para o que escrevo hoje e vejo o mesmo fio condutor de sempre, os desamores. Essa dor antiga e familiar que Camões explicou melhor do que ninguém, "o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente".

O medo constante de ver fugir o que já é meu e, ao mesmo tempo, a melancolia pesada de chorar por aquilo que nunca cheguei a ter.

No fundo, o pseudónimo é apenas a porta trancada de um quarto onde posso ser eu próprio na intimidade, sem ter de pedir desculpa a ninguém e me traz essa...

 ...liberdade de me expor.

terça-feira, junho 30, 2026

O brilho que nos une

Ao se definir os últimos retoques na organização de umas jornadas de saúde, desafio feito à directora técnica de um dos locais onde presto serviço, surgiram algumas expressões de insegurança no grupo de trabalho, que me fizeram ser mais interventivo no ânimo da equipa. Saiu algo do género...

Olhar para o caminho que temos pela frente na organização destas Jornadas de Formação para Auxiliares de Ação Direta traz-me um misto de orgulho e de profunda responsabilidade. Sei que, nos bastidores, partilhamos algo muito humano, o receio da exposição. Quando nos colocamos diante dos outros, quando subimos a um palco ou assumimos a liderança de uma partilha de conhecimentos, é natural que a insegurança tente ganhar espaço. No entanto, é precisamente aqui, nesta linha de partida desafiante, que reside a maior oportunidade de transformação para o nosso ser profissional. Fazer uma exposição, seja ela teórica, técnica ou prática, é muito mais do que transmitir conteúdos a terceiros. É um meio necessário para o nosso próprio crescimento pessoal interior e esta oportunidade não pode, de forma alguma, ser negligenciada ou desperdiçada por medo. Cada vez que vencemos a barreira da timidez, geramos um ganho progressivo de um à vontade, de uma fluência que tanto admiramos nos outros e que não é inata, mas que se adquire e lapida através da prática, no exercício do discurso coloquial e na generosidade de partilhar o que sabemos.

A segurança no "eu" que cultivamos nestes momentos eleva-nos a um estado de bem-estar próprio tão forte que se torna o motor para feitos e ganhos ainda maiores nas nossas vidas.

Ao olhar para cada um de vós, vejo uma equipa com um potencial extraordinário. Queremos que estas jornadas sejam dinâmicas, vibrantes e eminentemente práticas, mas percebo o receio que alguns sentem em se exporem. É por isso que hoje decidi refletir sobre cada um de nós e no todo que fornamos como equipa. Quero fazer um apelo direto a essa força interior que sei que habita em cada um, mesmo que por vezes pareça escondida ou reprimida pelas nossas próprias dúvidas. É hora de permitir que essa força veja a luz do dia!
O nosso trabalho com os idosos exige de nós sensibilidade, resiliência e entrega diária. Se somos capazes de cuidar com tanta nobreza no silêncio do quotidiano, somos perfeitamente capazes de partilhar essa sabedoria com os restantes. Ao darmos este passo em frente, juntos, não estamos apenas a organizar um evento, estamos a criar uma cultura institucional viva de "saber fazer". Estamos a criar um espaço onde adquirir know-how serve tanto para a valorização e formação do outro, como para o nosso próprio enriquecimento pessoal.

Conto com a coragem de todos e de cada um. Iremos transformar o receio em dinâmica, a dúvida em partilha e estas jornadas num marco inesquecível para todos nós. O vosso conhecimento é valioso demais para ficar guardado e fechado nas paredes da instituição.

Vamos fazê-lo brilhar!

segunda-feira, junho 29, 2026

Aging

O envelhecimento é um processo biológico natural. E se um dos picos é por volta dos 40 anos, sinto-me cada vez mais nesse processo normal de ganho progressivo de sinais e sintomas de uma perda progressiva de capacidades. O corpo torna-se no eco do cansaço, onde cada linha de expressão e cada perda subtil de vigor não são falhas, mas sim a caligrafia da própria vida a inscrever-se na nossa pele.

Habitar o corpo nesta etapa é aprender a ler um novo mapa. A rigidez matinal, um fôlego que claudica mais cedo, uma vertigem que aparece do nada, uma nitidez que se esbate no olhar, surgem como o reverso inevitável de uma perda fisiológica natural. É o relógio da vida a ditar o seu ritmo, lembrando-nos de que a juventude não era um estado permanente, mas passageira.

O que é físico não opera no vazio, mas é caixa de ressonância da nossa mente e têm surgido cada vez mais estudos a correlacionar estas duas dimensões, sobre a relação entre bem-estar emocional e processos de doença. Quando o desconforto emocional se instala, seja pelo peso das responsabilidades, pelas crises existenciais da meia-idade ou por anseios silenciosos, a fronteira entre o que é puramente biológico e o que é anímico esbate-se de forma assustadora. As dores multiplicam-se, as queixas fragmentam-se e o cansaço deixa de ser apenas físico para se tornar uma névoa que cega o quotidiano numa dor total.

O bem-estar emocional e a saúde física partilham o mesmo ecossistema. Quando o coração ou a mente pesam, o corpo verga e a doença encontra terreno fértil para se manifestar. Escutar estas múltiplas queixas contemporâneas é perceber que, talvez, o corpo não esteja apenas a envelhecer, está, acima de tudo, a tentar falar. Está a exigir a pausa, o acolhimento e a cura das feridas invisíveis que a biologia, por si só, não consegue explicar.

Há uma beleza em cada fase da vida... mas agora a beleza ganha um peso de existência.

sexta-feira, junho 26, 2026

Estagnado

Há dias em que o tempo parece voar. Outros em que a cadência das horas se perde e tudo parece inanimado.

O tempo não é como uma linha reta, mas antes uma maré invisível que ora nos arrasta na sua corrente furiosa, ora recua, deixando-nos encalhados num areal de minutos imóveis.

É comum termos a noção de que a vida corre depressa, e há, de facto, dias em que o mundo gira com uma vertigem tal que as horas, os dias e meses parecem evaporar-se entre os dedos.

Mas depois, sem aviso, a engrenagem do relógio cala-se e o contar contínuo habitual das horas perde-se, e tudo ao redor assume uma quietude estranha, onde o próprio ar parece pesado e desprovido de vida.

Nestes últimos dias, tenho visto o tempo estagnar bem diante dos meus olhos. Não passa, assiste-me. Cada jornada transforma-se num deserto interminável que, na minha mente, ganha as proporções de longos meses. Os dias prolongam-se num labirinto infinito de pequenos afazeres, tarefas miúdas e automáticas que drenam a energia mas não preenchem a alma. É uma rotina de baixa rentabilidade interior, onde o esforço é tremendo e o fruto é quase nenhum. Sinto um peso físico e invisível ancorado ao meu peito, um fardo que desacelera o mundo exterior e me força a uma lentificação profunda em tudo o que sou. Cada gesto exige uma deliberação imensa, cada pensamento arrasta-se como se nadasse contra a corrente.

Estou suspenso no âmago de uma pausa forçada, à espera que o tempo recomece.

quarta-feira, junho 24, 2026

Sonolência

Ando com uma sensação de vazio, um eco persistente que ressoa nas paredes de uma mente que já não sabe o que procurar.

O relógio na parede já não dita as horas, limita-se a arrastar o tempo num compasso monocórdico, tão cinzento quanto a luz que me entra pela janela. Os dias sucedem-se uns aos outros, réplicas exatas de uma rotina sem relevo, como se precisassem de um estímulo qualquer, de um sobressalto grandioso que me arrancasse desta vida amorfa.

A sonolência, que outrora era apenas um cansaço passageiro e habitualmente pesado, transbordou e ganhou essa dimensão ainda maior, de um manto denso que me submerge e anestesia os sentidos. Flutuo num estado quase vegetativo de existência, onde os pensamentos se movem devagar, como peixe cego em água estagnada.

Não há dor profunda, mas sim uma ausência dela, num limbo onde o mundo exterior acontece lá fora, do outro lado do vidro, enquanto eu permaneço imóvel no meu interior.

Olho para as minhas próprias mãos e não lhes reconheço a urgência que outrora me acariciavam e me davam consolo. Sinto falta de energia, falta de vida, daquela eletricidade simples que faz o sangue pulsar e dá um propósito ao mais pequeno dos gestos.

Sou uma sombra que habita o meu próprio corpo, à espera que um sopro de vento ou uma faísca imprevista quebre este vazio e me devolva o direito de voltar a acordar.


segunda-feira, junho 22, 2026

Liberto-te de mim

Passei os últimos dias a pensar sobre a constante inconstância dos meus actos. No vai e vem de sentimentos e de palavras que confudem.

Nem sei bem como começar, como se a escrita outrora fluente, estivesse agora bloqueada. Mas sei que preciso de assumir o que o silêncio tem tentado esconder. Há dias em que a culpa pesa tanto que nos faltam as metáforas certas. Mas hoje, olhando para o vazio que ficou entre nós, e com uma frase que li, percebi finalmente com uma maior clareza.

"Como posso culpar o vento pela destruição que fez, se fui eu que abri a porta?"

Era eu quem te devia ter protegido, o teu coração, a tua paz do vento suave onde vivias e que desarranjava o teu cabelo. Em vez disso, deixei o vendaval do meu caos entrar e desabar o que tinhas de mais bonito. Foste tu quem sofreu o impacto de uma tempestade que nunca te pertenceu. E a verdade, nua e crua, é apenas esta, "pessoas confusas magoam pessoas incríveis."

Tu foste, e és, incrível em cada detalhe, na tua paciência, na tua sapiência e na tua luz. Eu sou apenas a confusão, o labirinto que não se sabe decifrar. Desculpa por não ter sabido fechar a porta a tempo. Desculpa por ter permitido que o meu barulho interno silenciasse o teu afeto.

Por saber o quanto te mago-o, percebo que o meu último ato de cuidado é afastar-me. Não te posso prender ao meu processo de cura, nem pedir-te que entendas como eu me organizo por dentro. Mereces que alguém seja abrigo, não tempestade. Liberto-te de mim, do meu desalinho e de qualquer obrigação de desculpar.

Fica bem, segue o teu trilho e guarda apenas o que de bom deixei como força para fazeres o teu próprio caminho.

Adeus