Que saúde é esta, que impede que pessoas à porta de um serviço aberto, não sejam admitidas, porque não fizeram um telefonema antecipado para uma linha telefónica que tarda em dar resposta e nada orienta, numa distância de quem está confortavelmente sentado atrás de um ecrã.
A que ponto chegámos no estado de uma saúde que se pretendia acessível, universal e tendencialmente gratuita e que agora impõe limites ao acesso, privando de toda a dignidade as pessoas que necessitam de ajuda. Talvez não seja só o reflexo de um sector social, mas de toda a podridão que consome este pequeno país plantado à beira mar. Estaremos a ficar tão ocidentalizados, com desejo de transformar o que de melhor tínhamos, num reflexo do que é pouco oferecido em outros países, que de evoluídos só têm tecnologia, mas que entretanto perderam a alma que os definia?
Foi como se recuássemos mais de 50 anos a um tempo onde a saúde não era para todos, só para os poucos que podiam usufruir monetariamente dela, onde o nascer e o morrer se faziam em casa, longe do ideal de cuidados que o mundo, cada vez mais técnico, mas pelo visto cada vez mais desumano, hoje oferece.
Que triste fado, nascer hoje português, lançado ao mundo num momento onde a sorte de estar no local e na hora certa determina a felicidade de ver luz, com a atenção que se impõe nos dias de hoje.
Que triste fado, morrer hoje português, com as assimetrias impostas pela falta de investimento crónico, deixando os serviços em gestão corrente, despojados de tudo o que é essencial, mas com uma curiosa obrigação de ser suporte em tudo em que os privados não têm interesse em oferecer. Essa Medicina pública que ficou com a despesa, deixando o que é lucro para a gestão privada.
Refundar o Serviço Nacional de Saúde, é no fundo, criar as condições reais e compensatórias para os profissionais se fixarem, mas com o investimento para manter excelência nos cuidados, porque de outra forma, ou a casa cai, porque ninguém fez a sua manutenção, ou cai porque ficou deserta.
