quinta-feira, outubro 15, 2026

Segue mais leve

Lembra-te sempre de que a tua vida é um livro escrito apenas pela tua própria mão, e a sua leitura só a ti te diz respeito.

Não curves os teus ombros sob o peso de justificações que não deves a ninguém, nem permitas que o mundo exija explicações para os passos que escolhes dar ou para as decisões que tomam morada no teu coração. O teu caminho é sagrado e inteiramente teu.

O tempo corre como um rio, mas é finito, e tu precisas de cada gota desse tempo para ti e para os teus. Não desperdices um segundo que seja, nem um único sopro de energia, em caminhos que não te trazem paz, em laços que não te abraçam ou em direções que nada acrescentam à tua alma. Guarda o teu tempo como um tesouro precioso.

Não queiras carregar nos teus braços os problemas do mundo, nem as dores e fardos que pertencem a outros. O teu coração é um porto de abrigo, sim, mas não pode ser sempre um depósito de tempestades alheias. Caminha mais leve, reconhecendo a beleza imensa e libertadora dos teus próprios limites e das tuas escolhas.

Aprende a amar a tua própria voz quando ela escolhe recolher-se em ti. Está tudo bem em dizer "não", com serenidade e sem qualquer preâmbulo ou desculpa. Esse não ao que te desgasta, que te consome ou em que nada te acrescenta é, na verdade, o sim mais bonito e corajoso que podes dar a ti mesma. Segue em frente, de cabeça erguida, porque o teu único dever é seres fiel à tua própria luz.

terça-feira, outubro 13, 2026

Autocuidado

Tenho falado muito de autocuidado. Tento ser inspiração na minha profissão e na minha vida, para que outros cuidem de si, se foquem no seu próprio bem-estar. Uma espécie de coach motivacional!

E recentemente ouvi uma analogia que transmite muito daquilo que é a necessidade de cuidar de nós, para que estejamos bem para cuidar dos outros. Todos os que já andámos de avião, com maior ou menor atenção, já ouvimos as indicações de segurança antes de um voo. E a determinado momento, sobre a despressurização de uma cabine, é nos dito para colocarmos primeiro a máscara de oxigénio a nós próprios, antes de ajudar os outros, nomeadamente crianças. A garantia de estarmos bem, para ser ajuda ao próximo, é fundamental para a sobrevivência de todos.

Assim deve ser na nossa vida pessoal e profissional. Para cuidar, devemos ser cuidados. Devemos encontrar momentos que nos ajudem a reencontrar a paz, restabelecer a harmonia em nós, ser felizes interiormente e gentis nossas acções.

E o que faço eu para cuidar de mim? Houve tempos em que me via a trabalhar sem parar, priorizava tudo e todos, ligava pouco ao meu cansaço físico e emocional, cerrava os olhos e ouvidos para não ver ou escutar as chamadas de atenção próprias ou de quem comigo partilha a vida. E foi, também por isso, que parei. Revi as prioridades na minha vida e recentrei o foco em mim e na minha família. Ser para os outros, mais e melhor, fez-me descobrir o bem-estar em estar comigo próprio.

As caminhadas saudáveis, o escutar dos sons da natureza, as sestas higiénicas, a meditação, com ou sem oração, a distração nas experiências culinárias, o humor ou sorrir só sem razão, ouvir música, ler ou escrever, são tudo mecanismos de autocuidado.

Foi como se a vida, na semelhança do dia de hoje, fosse antes uma névoa de Outono e que a determinado momento se dissipasse para deixar passar a luz do Sol e revelar o azul do céu.

E agora, decidi que era tempo de alargar as minhas experiências pessoais aos outros. Criei num dos locais onde vou, com todo o apoio da Direcção, um espaço de autocuidado e escuta activa. Ser essa presença de alguém que ouve sem julgar, que não se impondo, simplesmente dá pistas para que cada um possa reencontrar o seu caminho, para que possa reencontrar-se, para que possa desabafar as palavras que ruminam no seu interior, para que ao verem a luz da realidade, sejam liberdade e não prisão. Para que cada um possa descobrir a paz, essencial para se ser feliz.

"Assim seja."

segunda-feira, outubro 12, 2026

Milagres

Quando me pediram para escrever algumas palavras para fazer parte de um livro, como prenda de aniversário, fiquei com um bom sentimento, de reconhecimento de alguém que marcou positivamente a vida de outrem.

Mas, sou eu que me sinto diariamente grato pelo que esta pessoa, como um punhado de outras, significam e significaram para a minha vida. E lembrei-me da expressão de que "às vezes milagres, são só pessoas com corações gentis".

E eis o que saiu (nome fictício):

Até conhecer pessoas como o Zé, sempre imaginei os milagres como eventos grandiosos, feitos de impossíveis. Esperava por eles nos momentos de desespero, de olhos postos no céu, aguardando uma intervenção divina que mudasse o rumo dos infortúnios ou curasse as dores do mundo num estalar de dedos.

Mas o tempo ensinou-me a olhar para o lado. Quando a vida parece ingrata, cheia de egoísmo, quando o peso dos próprios passos parecem excessivos para as forças, eis que surgem pessoas como o Zé, com a sua sempre boa disposição que contagia, preenchido com um coração de uma gentileza quase divina. Não pela expressão de feitos grandiosos, mas pelos pequenos gestos de uma dimensão gigantesca. Uma mão estendida, um olhar que não se desvia ou uma palavra dita no momento certo. Alguém com a capacidade de parar a sua própria vida, por um segundo, para ser abrigo ao outro.

Percebi, então, que os milagres que tanto procuramos nas estrelas, caminham na verdade, no mesmo solo que nós. São pessoas como o Zé que trazem calor num dia frio, que escutam sem a urgência de julgar, ou que dividem o pouco que têm como se fosse uma fortuna.

O sobrenatural não está na suspensão das leis da física, mas na suspensão do egoísmo humano.

Hoje, quando me perguntam se acredito em milagres, sorrio. Penso nos rostos das pessoas que se cruzaram no meu caminho e em cada alma descomprometida com a vaidade e inteiramente dedicada à bondade silenciosa.

Sim, eu acredito.

Porque enquanto houver alguém disposto a ser o sol na tempestade de outrem, o mundo continuará a ser salvo, todos os dias, sem que ninguém precise de saber.

Se sinto saudades de partilhar os espaços que outrora foram a minha casa, sinto-a pelas pessoas como o Zé, que davam humanidade às paredes que a constituíam.

Um grande abraço! Muitos parabéns!

Que continue a ser o Zé. Só isso diz muito da pessoa que é e de toda a sua grandeza!

sábado, outubro 10, 2026

Outono

No Outono em que os dias vêem cair as folhas de uma árvore, revelando a nudez da sua essência, parece que vemos cair os pedaços moribundos de um plano que falhou.

Mas eu vejo algo diferente, a possibilidade de um renascimento, onde deixas para trás o peso que em nada já te acrescenta, para teres a força e o espaço para voltares a florir de novo.

As perdas tornam-nos hesitantes nos passos que damos, mas mesmo aí conseguimos ser luz e coragem para quem quer dar os seus, pois nem sempre está tudo bem e está tudo bem ser assim ao aceitar a mudança.

E em ti, sente-se a força silenciosa que te faz erguer todas as manhãs, mesmo quando a vida pesa. E és prova viva e bonita de que é possível continuar, mesmo sem saber onde o caminho te leva. Por mais que a dor aperte, não deixes de ser quem és, não te feches, não te endureças. A tua sensibilidade não é uma fraqueza, é sim, a ponte pela qual a tua alma se reconecta com a vida e iluminas o coração de que nem imaginarias. E isso faz de ti um ser único e extraordinário.

Em cada nova etapa, que irás escrever nas tuas próprias palavras, nunca duvides do que mereces, nem permitas que te façam duvidar, pois o fim de uma história não dita o teu valor. E mesmo quando os planos não dão certo, nunca te esqueças de que o único propósito da vida é seres feliz.

Caminha com calma, respira cada recomeço e confia no tempo. O que é para ti, a ti chegará.

Há quem olhe para ti e sinta esperança.

sexta-feira, outubro 09, 2026

Jornadas

Há ideias que não passam disso, ideias, sem terem uma consequência prática, ou sequer verem a luz da realização. Ficam num estado de adormecimento crónico que ensombram a mente nos dias vazios.

Mas é preciso ser acção, não só intenção. Deixar que as ideias passem a projectos e de projectos a uma real execução.

E assim foi. De umas ideias avulsas, saídas da amálgama confusa que são os meus pensamentos, houve quem acreditasse no seu potencial, as agarrasse com um sentido prático de concretização efetiva e criasse umas jornadas de saúde que foram um sucesso.

Foi como se tivesse lido os meus pensamentos, sem grandes palavras e conseguido ir muito mais além do que fora imaginado, conferindo-lhe a grandiosidade que se alcançou.

Parabéns, também, a todos os que participaram com o seu trabalho, com a sua escuta atenta ou simplesmente pela sua presença. Foi dignificante para todos este dia que passou, mesmo com toda a incerteza colectiva, com as inseguranças individuais de quem se vê na necessidade ou obrigação de estar perante uma assembleia de pessoas ávidas de aprendizagem ou pelas dúvidas iniciais da sua exequibilidade.

Guardarei este dia, como um dos bons dias que vivi. Exausto pela expectativa e ansiedade iniciais, mas feliz pelo que se foi alcançado.

Vamos cuidar de quem cuida.

quinta-feira, outubro 08, 2026

Nú

Há dias experimentei uma sensação estranha e assustadora.

Estava a sair do meu gabinete de consulta e num breve momento fiquei frente a frente com uma utente, em silêncio, a olharmo-nos mutuamente. O que vi nos seus olhos, pareceu-me transmitir um ar de desilusão, um "não vales um chavelho", como se com aquele olhar me sentisse despido das máscaras que uso e me visse como sou interiormente.

Fiquei em pânico, pelo medo de ser demasiado revelador ou evidente a realidade, que tão bem tento diariamente esconder. Construí e alimento um ser artificial, socialmente apto, mas que ali ficou desarmado das defesas que criei.

E não é caso único. Ocasionalmente há quem me olhe e consiga ver além do superficial, e essa percepção deixa-me desconfortável, sem reacção, ansioso para voltar a esconder-me por detrás das imagens ilusórias que a simples visão alcança. Perceber a expressão de recriminação no outro é devastador.

Ver e olhar, são duas dimensões muito diferentes do mesmo sentido. Um vê o imediato, o que não é mais do que uma imagem perceptível. O outro olha além das camadas periféricas e vislumbra as entranhas que habitam, convivem e nos consomem intimamente.

Como diria... não gostei.

"O médico vai nú!"

quarta-feira, outubro 07, 2026

Narciso

A novela que decorre nestes dias e que se tornou drama maior do que todos os restantes problemas sociais, económicos e mundiais, revela o narcisista que há por detrás da personagem principal.

Querer subjugar o que há de bom num colectivo, pelas qualidades individuais, ainda que muito acima do normal, e sentir-se ofendido quando o caminho escolhido ignora os caprichos próprios, fez-me rever uma das minhas muitas lutas e que são objecto de reflexão pessoal.

Na verdade, questiono-me recorrentemente se não há muito de um narcisista dentro de mim. Não é que me queira comparar a um Ronaldo de uma qualquer área específica de actividade, mas nesta necessidade de uma validação constante, numa recusa de ser esquecido pelos demais. Mesmo a escrita, não será porventura uma dessas formas de narcisismo expresso na tentativa de gerar admiração?

Se não fosse o desagrado que sinto pela minha imagem física, estaria completa a figura de Narciso, a definhar para sempre fitando o meu reflexo nas águas límpidas de um lago, enquanto em redor o mundo corre com todas as suas maravilhas.