quinta-feira, setembro 03, 2026

Paz por ser humano

Ontem vi uma frase, publicada por uma colega, daquelas expressões que me faz pensar na forma de estar no mundo. Estava em inglês e traduzida seria:

"Num mundo onde há a obsessão em se ser extraordinário, há uma paz profunda em se ser só bom ser humano."


Vemo-nos a correr diariamente uma maratona invisível, competindo por pódios feitos de ouro, aplausos digitais e títulos que mal cabem na alma. Exige-se a cada um de nós o brilho que cega, o feito que espanta, o rasto luminoso dos cometas. No entanto, esquecemo-nos de que os cometas passam, mas a terra que pisamos permanece. Num mundo obcecado em se ser extraordinário, há uma paz profunda em se ser só bom ser humano.

Uma paz que não nasce da resignação ou do fracasso, mas que brota da sabedoria de quem escolheu desarmar-se, de um sossego de quem percebeu que a vida não é um palco, mas um chão partilhado. Enquanto a obsessão pelo extraordinário constrói monumentos de solidão, a simplicidade de ser humano cria pontes de uma beleza silenciosa de gestos que o mundo não filma, o amparo a quem tropeça, a escuta atenta de um desabafo, o respeito pelo tempo do outro e pelo nosso próprio ritmo.

Ser "só" um bom ser humano é a maior das grandezas. Significa trocar a ansiedade de ser o melhor pela serenidade de ser abrigo. E quando abdicamos do peso de ter de impressionar o mundo, o peito alivia, o quotidiano desacelera e o olhar ganha uma cor mais nítida. Descobrimos, finalmente, que a felicidade não mora no topo da montanha mais alta, mas no calor da fogueira que acendemos para quem caminha ao nosso lado na planície.

Só ser humano

quarta-feira, setembro 02, 2026

Pêndulo do Ser

Basta ver-te por breves momentos e a minha mente fica nesse turbilhão de pensamentos, do conflito entre a contenção e a entrega, entre o claustro do silêncio e o palco da palavra nua.

Ontem fiquei a pensar nessa máscara de virtude que coloco, de uma moralidade cinzenta na contenção, uma espécie de santidade artificial que visto como um casaco pesado em dias de inverno.

Durante anos, recolher-me numa introversão exagerada foi o meu escudo, o silêncio não era apenas ausência de som, era um tribunal privado onde cada desejo, antes de se fazer carne ou palavra, era julgado, condenado e sepultado na masmorra da timidez. Essa reclusão do "eu" tinha o seu próprio conforto de quem nada expõe, nada arrisca ver profanado. E durante tanto tempo sentia que a introversão levada ao extremo me asfixiava, me transformava a mente num cemitério de impulsos vivos, onde a aparência social servia de lápide a uma identidade que reclamava o direito de respirar.

E agora, sinto que a ruptura da barreira de contenção surge com a força devastadora de uma represa que cede. A exposição excessiva neste súbito atrevimento que rasga as linhas da escrita, quase que assume os contornos de uma heresia. Será tamanha desinibição o prenúncio de um surto ou os primeiros sintomas de uma demência frontotemporal? O medo de perder o controlo, de ver o juízo libertar-se das amarras daquilo que é socialmente aceitável, expor o desejo, confessar a nudez do corpo que se procura na solidão e partilhar o clímax nascido de uma "ilusão deliciosa" é um ato de profanação do sagrado espaço íntimo. Torna-se um pecado de excesso, onde o exibicionismo ameaça transformar a catarse em vulgaridade.

A moral fixa-se, portanto, nesta encruzilhada da alma. Se a introversão exagerada nos desumaniza pela repressão, transformando-nos em espectadores apáticos da nossa própria existência, a exposição sem filtros ameaça dissolver as fronteiras do pudor, deixando-nos vulneráveis ao escrutínio e ao julgamento alheio. A masturbação mental e física na solidão, quando transposta para palavras oferecidas ao "leitor assíduo", deixa de ser um segredo interior pacificador para se tornar numa provocação pública, num convite a um voyeurismo partilhado.

Talvez a verdadeira moralidade não resida na escolha de um dos extremos, mas na coragem de conseguir habitar na tensão entre ambos. Escrever em linhas tortas é, afinal, o preço que se paga para resgatar a verdade do meu ser, algures entre o silêncio que me protege e o grito que me liberta.

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Risco de desilusão

Vivo entre a máscara da virtude e a vertigem de um abismo.

terça-feira, setembro 01, 2026

Dura lex, sed lex... para galinhas

Dia 1 de Setembro. Não se esqueçam de declarar o vosso património de galinhas poedeiras, não vá cair sobre vós a desgraça de ter que pagar uma coima, por tão gravíssima falta de zelo.

Este tipo de leis é mais uma prova da decadência social do mundo actual e de mentes menores, mais pequenas do que a das galinhas. Não é algo novo, e este fenómeno actual de proliferação legislativa inútil, prova que a história, que por esquecida se tornar, se volta a repetir. Já na Roma antiga, Tácito cunhou a famosa expressão "Corruptissima republica plurimae leges", que significa "Quanto mais corrupta é a república, mais leis ela tem", sobre a relação entre o excesso de legislação e a degradação ética de uma sociedade. Um Estado que precisa de regular minuciosamente cada comportamento dos seus cidadãos é um Estado onde a moralidade intrínseca e o civismo falharam. A proliferação de leis inúteis que não geram ordem, são um pretexto para abusos de poder e excesso de burocracia.

Quanto mais leis e restrições existem, mais pobres se tornam as pessoas, mais ricos se tornam os políticos e mais ladrões e bandidos aparecem, na fuga engenhosa a tanta restrição, penalização ou comissão.

A substituição da moralidade pela legalidade mostra essa disfunção da sociedade, da ética outrora intrínseca e onde actualmente é a corrupção que impera. Quando a moral pessoal e o respeito mútuo desaparecem, o Estado tenta preencher esse vazio com decretos e as pessoas passam a agir não por convicção do que é certo ou errado, mas apenas para evitar penalizações legais, o que gera em alguns indivíduos uma vontade de deixarem de se guiar pela consciência e limitarem-se a procurar lacunas na lei.

O mais ridículo desta dinâmica e que demonstra a sua inutilidade e futilidade, está num Estado que cria leis porque não confia nos seus cidadãos e onde os cidadãos, por sua vez, perdem o respeito pelas leis ao percebê-las como arbitrárias ou excessivas, esquecendo todos, que o Estado são os próprios cidadãos.

"O desconhecimento da lei que não perdoa ninguém", torna-se comum, numa criminalização do quotidiano, pois num excesso de normas, torna-se impossível que o cidadão comum, tantas vezes sem acesso adequado à informação, conheça todas as regras, transformando virtualmente qualquer pessoa num infrator em potencial.

E pergunta-se. De onde vem o aproveitamento político do excesso legislativo? Uma enorme quantidade de leis sem substrato sobrecarrega o sistema judicial, gerando impunidade para os crimes verdadeiramente graves, onde a corrupção e o abuso de poder se tornam normais, pela lentidão ou ineficiência prática dos longos processos de averiguação ou penalização, que acaba em muitos casos por não chegar em tempo útil.

Pobre de quem vive com o rendimento de uma dúzia de galinhas.

domingo, agosto 30, 2026

Resistência

O fim do dia de ontem, acabou por se transformar numa dessas agradáveis surpresas, que por inesperadas enchem de brilho, cor e som a vida.

Depois das devidas sonecas de uma saída de urgência e a pedido insistente das crianças, lá fomos, mais uma vez, à feira de São Mateus. Entre jantar bifanas e cachorros, as tão habituais voltinhas nas diversões, onde se deixa uma renda, e farturas, esse bocado de massa de farinha coberto de uma tonelada de açúcar e canela, ficámos para assistir ao concerto dos Resistência.

E deixaram-nos amarrados até ao final, num momento musical que mostra que a música portuguesa, com autores e músicos que resistem às tendências actuais de auto tone e remasterizações e só com voz e acústica se consegue recriar e dignificar clássicos. Estes artistas de idade de impor respeito e de um corpo a exigir pausa, mas de uma mente resistente ao envelhecimento, fizeram-me recordar o que um espectáculo musical deve ser, envolvente, animador e de elevação.

A música e as letras, têm essa capacidade de transmitir mensagens, que pelo seu impacto visual e auditivo, conseguem transformar o dia pacato e banal, num dia fantástico e preenchido.

Talvez seja só um dos demais sinais de que estou mesmo a ficar velho, mas também eu resisto a esse fado.

Para os cépticos desta ideia, tentei criar uma rapsódia com ideias chave das músicas, que criam esse impacto mental e de motivação no interior de cada um de nós. Vamos lá a esta reflexão dentro da reflexão, desta vez com alguma apropriação de ideias (os créditos aos devidos autores)...


Caminhamos pela vida como quem atravessa uma praça cheia de desconhecidos, carregando dores secretas e a estranha certeza de que o nosso fado é único. No entanto, se pararmos por um instante e erguermos os olhos, percebemos a grande ilusão da solidão. Não sou um caso isolado, não sou o único a olhar o céu, a ver os sonhos partirem, à espera que algo aconteça. Todos nós partilhamos a mesma calçada invisível, a deserdar as nossas próprias frustrações, a despejar a raiva, a viver as emoções, a desejar o que não se teve, agarrado às tentações. É o ciclo humano, a eterna teimosia em ouvir vozes alheias, tropeçando nos mesmos erros de sempre, a ouvir os conselhos dos outros e sempre a cair nos buracos, a desejar agarrar o que não se tem.

Mas o movimento é o único antídoto contra o mofo do tempo. E eu não quero estar parado, fico velho. Vou marchar até ao fim, isolado nesta marcha solitária, com esse preço alto em escolher o próprio rumo, em recusar as amarras que a sociedade nos tenta impor a cada esquina. Quando decidimos não vestir nenhuma farda espiritual ou ideológica, o mundo estranha em ser desalinhado. Por tudo o que sempre lutei em ser sincero, por tanto que arrisquei, ainda espero. Avançamos sob o julgamento dos outros, mas com a cabeça erguida, cientes de que ninguém sabe para onde vamos, ninguém manda em quem somos.

Essa liberdade de ser autêntico exige uma resistência diária, uma recusa em ser propriedade de bandeiras, linhagens ou dogmas. Mais do que a um país, que a uma família ou geração, mais do que a um passado, que a uma história ou tradição, tu pertences a ti, não és de ninguém. Mais do que a um patrão, a uma rotina ou profissão, mais do que a um partido, que a uma equipa ou religião, tu pertences a ti, não és de ninguém.

Essa soberania da alma é o verdadeiro ponto de partida. Só quando nos resgatamos a nós mesmos é que conseguimos vislumbrar o horizonte com clareza. Sei que tudo parece ser um sonho que não pertence a mais ninguém. Mas esse destino luminoso, não se compra nem se herda, constrói-se no âmago da mente, se souberes acreditar que sonhar é só viver e viver, imaginar. A imaginação é o rascunho da realidade, que nos dá forças para enfrentar as tempestades temporárias, com a certeza de que quando as nuvens partirem, o céu azul ficará, e quando as trevas abrirem, vais ver, o Sol brilhará. 

Por isso, não cedas à inércia. Vais conquistar um lugar, um lugar ao Sol sempre teu. A jornada é tua e de mais ninguém, exigindo cada gota do teu esforço diário. Não pares de lutar, agarra o dia ao nascer. Há uma batalha a travar que só tu podes vencer. 

Resiste. Só tu podes vencer!

sábado, agosto 29, 2026

Palhacito

No meio das densas correntes que nos rodeiam, vejo-me como uma pessoa de olhar atento que acompanha de perto o rosto dos restantes. Um olhar próprio que celebra a luz do sorriso e que se ensombra quando o peso do mundo torna os outros, sérios, sisudos, recolhidos no seu próprio silêncio.

Diante dessa percepção, aceito vestir voluntariamente o disfarce de um palhaço do quotidiano. Alguém que inventa pretextos banais, como a leitura fingida de um texto lúdico, um comentário casual, uma distração orquestrada, apenas para romper o nevoeiro e resgatar a alegria que parece perdida ou distante.

Porque ver o riso e restaurar a serenidade é, para quem observa, a certeza de que a beleza do mundo ainda resiste ao cinzento da indiferença actual.

Pateta (Goofy)

Amor infinito, tempo finito

Há uma verdade bonita e ao mesmo tempo dolorosa no amor por um filho. A força da entrega absoluta, uma busca incessante por uma felicidade que se deseja mútua e eterna.

Perante a chegada de novas vidas, assistimos a um milagre de expansão interior. O afeto não se fragmenta, expande-se, a alegria não se divide, multiplica-se.

Porém, a física do mundo impõe-se cruel. Se o amor ignora fronteiras ou limites, o tempo permanece finito e inflexível. Na ampulheta de tempo quotidiana, os minutos não se multiplicam e, na partilha inevitável das horas, a qualidade do encontro dilui-se no corropio dos dias. É nessa fresta de ausência velada que nasce o ciúme entre irmãos, essa sombra que cresce silenciosa no chão da infância e que, se não for apaziguada pelo tato da compreensão, pode deixar sulcos profundos na alma, cicatrizes que os adultos carregam em segredo pela vida fora.

Ainda que o amor possa ser infinito, que se multiplica sem fim, o tempo esse é finito e não se estica. E a limitação da entrega por amor, está presa à finitude temporal.

domingo, agosto 23, 2026

Olhos nos olhos

Apareceste sem aviso. Descontraída vieste ter comigo à sala, quando os meninos ainda dormiam. Aninhaste-te comigo no sofá, ao meu colo, num pedido sem palavras de mimo e carinho. Tu que me lês, mas não me julgas nem repreendes. De ti só essa compreensão infinita da minha loucura em sonhos e ilusões.

Olhos nos olhos, beijamo-nos lentamente, sem pressa alguma, sem vontade de acabar o que começámos. Detemo-nos em momentos intemporais a saborear cada pedaço, cada olhar. No silêncio, interrompido apenas pelo respirar profundo e suspiros de cada um, segredamos ao ouvido o desejo e o amor que partilhamos juntos, não com receio de sermos ouvidos pelo mundo lá fora, mas por uma intimidade única em comum.

Tu dizes que és minha. Eu sou teu. Nas pulsões sem consciência do coração e da mente, tu és alma. Permitimo-nos a partilhar e ser partilhados em corpo, mas a alma, essa pertence só ti, numa espiritualidade sem tempo, sem espaço e sem fim. Não há mal que não tenha cura, se o que é maior do que nós permanece saudável.

A minha alma, és tu