quarta-feira, julho 22, 2026

Sofrimento familiar

 Ninguém diga que está bem...

A expressão não é minha, mas de um primo que há uns anos teve um acidente de viação grave que lhe retirou parte de uma vida normal, após ter permanecido quase 2 anos entre internamentos, intervenções cirúrgicas e reabilitação. Recorria frequentemente a esta frase para dizer que de um dia para o outro, nada somos, passando de uma situação de total independência, para uma dependência total de terceiros.

E hoje, a expressão assume novos contornos, agora não de um qualquer acidente súbito, mas de uma súbita doença de uma pessoa jovem que num momento que certamente pareceu eterno, tomou conhecimento de uma vida encurtada.

Há dias soube por amigos em comum que uma enfermeira com quem trabalhei no início da minha carreira profissional soube de um diagnóstico de neoplasia maligna do colon. E não fosse ser uma notícia por si só sombria, no momento do diagnóstico soube, como profissional de saúde que é, do mau prognóstico, por se apresentar com metastização hepática e carcinomatose peritoneal.

Recebemos todos a notícia com choque, desta mãe de 3 menores, com um pedido de oração. E talvez a oração tenha tido a força suficiente de não prolongar o sofrimento de um desfecho anunciado. Poupada a tratamentos supérfluos e penosos, em pouco tempo entrou numa agonia terminal, tal bênção de abreviar tamanho sofrimento.

É doloroso vê-la partir? Seria mais doloroso, vê-la numa agonia prolongada de fim certo, ainda que no imediato possa parecer frio e insensível. Mas para quem já presenciou tanto sofrimento, tanta distanasia, perceberá o que quero transmitir.

Que sofrimento a dos pais, de certo abatidos pelo impacto desta situação e que hoje, receberam mais uma notícia igualmente dolorosa. Uma irmã, mais nova, movida pelo diagnóstico oncológico recente na família, decidiu fazer um rastreio de saúde e como se não fosse catástrofe suficiente, descobriu que tem uma neoplasia da mamã com metastização pulmonar.

Não imagino sequer a tempestade que vai no íntimo de cada um, não há empatia sequer que chegue para entender tanto sofrimento.

Que tenham um descanso sereno e que sejam guias dos vossos filhos, Paula e Carmen.

terça-feira, julho 21, 2026

Para ti

Olhas à tua volta e tudo parece estático, como se o mundo conspirasse para te manter exatamente no mesmo lugar. Mas repara bem no teu reflexo. Há uma voz interior que te relembra uma verdade esquecida «Conhecer a si mesmo é o começo de toda sabedoria», já dizia o filósofo Aristóteles. É nesse ponto de partida, no silêncio da tua própria mente que a caminhada começa e ao descobrires quem és, não receies assumir essa identidade sem necessidade de pedir desculpa a nada nem ninguém. A tua alma foi colocada neste mundo para expressar essa verdade única que és tu, por isso vive-a com coragem e verás que tudo o resto começará a alinhar-se naturalmente.

Não fiques à espera de um sinal divino, de uma segunda-feira ideal ou de um sopro de inspiração que caia do céu. É que fomos erradamente ensinados a aguardar o momento perfeito, mas a verdade nua e crua é que a acção sempre gera inspiração, enquanto a inspiração raramente gera acção. Move-te. Move-te mesmo com medo, mesmo sem certezas, parte de onde te encontras agora e usa os recursos que já tens para começar a fazer o que pode ser feito já hoje. O teu primeiro passo não tem de ser perfeito, só tem de ser dado.

Nesta jornada, limpa o horizonte dos ruídos alheios, não te deixes intimidar pelas opiniões ou pelos julgamentos dos outros. Como escreveu Paulo Coelho, só a mediocridade é segura, por isso corre os teus riscos e faz o que o teu coração dita e lembra-te de que o teu sucesso não se mede pela queda dos que te rodeiam, mas pelo que alcanças tu própria com a tua força. Um espírito verdadeiramente criativo e livre é motivado pelo desejo profundo de alcançar os seus próprios sonhos, e nunca pelo desejo mesquinho de vencer os outros.

Haverá dias longos e subidas íngremes, e a montanha que estás a escalar vai parecer cada vez mais imponente e o cansaço que vais sentir vai ser cada vez maior até te apertar o peito, mas não vaciles pois tudo isso é o sinal inequívoco de que estás cada vez mais próxima do topo. A tua vitalidade não se demonstra apenas pela tua capacidade de persistir na dor, mas sim pela tua coragem sublime de recomeçar do zero sempre que for necessário. Existe dentro de ti uma força avassaladora, capaz de transformar por completo o rumo da tua vida, basta que lutes, que te recuses a desistir e que aguardes, com os olhos firmes no horizonte, o romper de um novo amanhecer.

Viver, afinal, é acalentar sonhos e esperanças, fazendo da fé a tua inspiração maior, é procurar e encontrar, nas pequenas coisas do quotidiano, um grande motivo para ser feliz. Porque a felicidade, tal como nos ensinou o Dalai Lama, não é algo que encontras pronto, num destino final, ela é construída, tijolo a tijolo, através das tuas próprias ações diárias.

Um dia, quando olhares para trás e regressares aos cenários que hoje te parecem cinzentos e estagnados, vais sorrir. Não haverá nada como regressar a um lugar que permanece exatamente igual para descobrires, com um orgulho imenso, o quanto tu mudaste. Assume o leme, a vida é tua e o momento é agora.

Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste.
Sigmund Freud

domingo, julho 19, 2026

50 anos

Ontem, o tempo presente testemunhou o passado de meio século de um amor indomável. Os meus pais celebraram cinquenta anos de matrimónio que nunca se vestiu com a ilusão da perfeição. Entre aquelas quatro paredes do casamento, a história escreveu-se com os traços severos do mau humor do meu pai, a persistência irritante da minha mãe e os silêncios pesados, quase fúnebres, que por vezes assolavam a casa. Mas ultrapassaram sempre as diferenças e permanecem unidos meia centena de anos depois.

Na minha memória e dos meus dois irmãos, ficou gravada um momento, tal cicatriz numa infância assustada por uma tempestade maior. Recordo ainda hoje, uma discussão tão séria que ameaçou romper o mundo que conhecíamos. Lembro-me da presença de dois tios que surgiram tais conselheiros de paz no meio do caos. Nunca soubemos o motivo, mas como os problemas de vida em casal não são exclusivos de ninguém, assumi mais tarde que pudesse ter sido alguma infidelidade ou talvez apenas o peso da vida em comum.

Para celebrar esta união que desafiou as probabilidades, recusámos a opulência e as festas de arromba, algo que a minha mãe sempre rejeitou e numa cumplicidade fraterna de três irmãos, planeámos um segredo uma fuga de casa. Partimos todos, rumo a Braga para um fim de semana intimista. Ali, no recolhimento de uma eucaristia vespertina e à volta da mesa de um jantar digno da sua história, o amor manifestou-se na sua forma mais pura. Houve lágrimas de emoção, abraços de gratidão e uma grandiosidade humilde que uniu as doze almas da nossa linhagem, os noivos, os filhos, as noras e os netos.

O momento mais alto, contudo, foi desenhado pelo próprio destino. Naquela tarde, o Evangelho ecoou as parábolas do trigo, da semente de mostarda e do fermento (Mt 13: 24-46). E, num instante de revelação, percebemos que a vida dos meus pais era a tradução viva daquelas palavras escritas há milénios. O amor deles foi trigo fértil que cresceu corajoso no meio do joio das adversidades, foi o grão minúsculo de mostarda que germinou até se erguer como uma árvore frondosa, capaz de dar abrigo a quem ama e foi o fermento que levedou as três partes de farinha, para se transformar no pão sagrado que nos alimenta, educa e sustenta todos os dias.

Viver este aniversário foi como olhar para o espelho da minha própria existência. Muitas vezes o amor parece uma chama moribunda, esquecida e negligenciada sob o manto cinzento da rotina. O desânimo do quotidiano surge como uma neblina densa que teima em ocultar o sol, mas que sabemos na verdade que nunca deixa de existir. A força dos cinquenta anos recordou-me que o amor não é a ausência de tempestades, mas a vontade inabalável de não fugir e de continuar a caminhar juntos por entre as tribulações diárias e ontem, sem que nada estivesse escrito, todos nós renovámos secretamente os nossos próprios votos de fidelidade à vida e ao futuro.

As crises e as rotinas podem ocultar a luz por algum tempo, mas a verdadeira essência do amor reside na coragem de esperar pelo amanhecer.

Amar é construir todos os dias algo novo, com as mesmas mãos.

sábado, julho 18, 2026

Arrogância

O mundo político está como o mundo das relações pessoais, habitado por deuses de gesso. Se outrora a condição humana se definia pela sua bela e trágica imperfeição, hoje assistimos ao nascimento de uma nova espécie, o homem imaculado e de uma perfeição isenta de responsabilização. Cruzamo-nos diariamente com estas divindades modernas nos palcos da política e nos corredores da vida quotidiana, seres dotados de uma infalibilidade assustadora, cujas línguas esqueceram o sabor amargo, mas curativo, da palavra "errei".

O mundo transformou-se num imenso tribunal onde o réu é sempre o outro. Se há um colapso na pólis da educação, justiça ou saúde, ou uma fenda numa relação afetiva, a culpa nunca reside no sujeito que agiu ou omitiu. Aponta-se, antes, o dedo à engrenagem falível da tecnologia, ao ruído invisível da comunicação, ou a um qualquer alinhamento cósmico de fatores externos desestabilizadores. Erguem-se altares à própria soberba, onde a desculpa esfarrapada substituiu a contrição e o cinismo ocupou o lugar da retidão. Blindados pelo orgulho, os indivíduos constroem a sua personalidade sobre o pedestal da arrogância, confundindo a teimosia em assumir o erro com uma falsa demonstração de força.

Esquecem-se, contudo, de que a verdadeira grandeza reside na planície da humildade. Retirar as devidas ilações de um fracasso e aceitar o peso das próprias decisões não é um ato de fraqueza, mas sim o manifesto mais puro de coragem intelectual e moral. Ao expulsarmos a falha do horizonte humano, condenamo-nos a uma perfeição estéril e de fachada e sem o reconhecimento da nossa própria fragilidade, a sabedoria definha, os laços humanos tornam-se transações teatrais e a política esvazia-se de ética. Resta-nos a urgência de redescobrir a beleza de sermos seres que erram, de sermos somente humanos, sob pena de ficarmos sufocados pelo fumo desta nossa própria e insustentável vaidade.

Errar é ser humano, reconhecer o erro é demonstrar carácter, agora persistir no erro é uma escolha ignorante.

sexta-feira, julho 17, 2026

Já chorei por...

As lágrimas são o idioma mais honesto da nossa alma. São autênticas palavras que não precisam de tradução nem de filtros, surgindo sempre que o peito se torna pequeno demais para guardar tudo o que sentimos. Olhando para trás, percebo que a minha história também se escreve com a água que me correu pelos olhos.

Já chorei porque me magoaram, sentindo o peso frio da injustiça na pele.

Já chorei porque magoei, carregando o arrependimento amargo de ter falhado com quem me estendia a mão.

Já chorei porque me humilharam, no silêncio de um canto onde o mundo parecia desabar.

Já chorei porque fui orgulhoso e não pedi desculpa, aprisionado numa fortaleza que eu mesmo construí.

Já chorei porque me senti ofendido, deixando a ferida arder antes de cicatrizar.

Já chorei porque me senti grato, quando o peito transbordou de um amor tão grande que não coube em palavras.

Cada uma dessas gotas cumpriu o seu papel. Chorar é esse mecanismo de libertação de uma raiva, angústia ou felicidade acumulada. Longe de ser um sinal de fraqueza, o choro é o transbordo da nossa humanidade, é o filtro que limpa o olhar, ajudando o corpo e a alma a descomprimir e a restabelecer uma nova serenidade.

Por isso, nunca escondas as tuas lágrimas nem te envergonhes do teu desabafo, deixa que elas lavem o que passou e preparem o solo do teu coração para o que há de vir. Depois da tempestade que desagua dos olhos, a alma ergue-se sempre mais leve, mais forte e pronta para recomeçar com uma paz renovada.

O teu choro de hoje é apenas o ensaio para o teu sorriso mais bonito de amanhã.

quinta-feira, julho 16, 2026

Salva-te a ti mesmo

Nas discussões vivas de quem luta para manter acesa a chama de uma relação em que o conceito de amor parece mutar a cada momento, surgem alturas em que percebemos que é impossível tentar resgatar quem não quer ser salvo. Como se o mar não escutasse os apelos de quem escolhe afundar-se, por mais que lancemos a corda. Gastar a nossa energia na tentativa hercúlea de mudar o outro é como desenhar na areia enquanto a maré sobe, um esforço em vão que apenas nos consome e esvazia.

Com o tempo e a permanência, percebemos que as pessoas só conseguem oferecer aquilo que carregam no peito. Exigir amor de quem está deserto, compreensão de quem só se escuta a si próprio ou compaixão de quem vive na amargura, é uma ilusão que alimenta o desespero. Mendigamos tanto por atenção, por afeto ou carinho e tomamos percepção de que tudo isso já habita dentro de nós. Pedimos lá fora, esperamos dos outros essa atenção e esquecemo-nos, contudo, de nos oferecer a nós próprios esse mesmo cuidado. Anulamo-nos na urgência de ser o cais dos outros, ignorando que o nosso próprio barco está à deriva, abdicamos de nós, vestindo a capa de heróis de histórias que não são nossas.

Depositar no outro a responsabilidade da nossa cura é caminhar de olhos vendados para o sofrimento. A mudança que procuramos não virá do exterior, mas sim do romper das amarras que nos prendem a quem e ao que nos desgasta.

É preciso erguer os olhos e escolher o nosso rumo. Procurar estar rodeado de quem vibra na mesma frequência de luz, de quem nos desafia a crescer e de quem nos inspira a ser a nossa melhor versão. Quando escolhemos caminhar ao lado de quem nos eleva, o fardo fica mais leve e o horizonte ganha um novo brilho. No processo é preciso não esquecer de nos salvarmos a nós próprios também. Tudo o resto é só caminho.

terça-feira, julho 14, 2026

Vaidade

Viver não devia ser uma arena de exibição constante das minhas capacidades e tenho cada vez mais a noção de que passo os dias a tentar mostrar ao mundo que sou capaz, que tenho valor, que alcancei o sucesso, num esforço contínuo para obter uma estranha e desnecessária validação externa. Construí uma imagem pública detalhada para o mundo e esqueci-me da minha realidade interior. Apesar de ter a noção de que a esta dinâmica assenta em premissas erradas, custa-me aceitar que o verdadeiro crescimento pessoal não precisa de audiência nem de aplausos.

Torna-se difícil mudar esta mentalidade, ainda que saiba que seria uma alteração transformadora.

Terei que ser mais forte que a minha vaidade, o meu egocentrismo narcisista e adoptar uma postura de focus on improving not proving (soa bem melhor em inglês e foi a expressão que deu o mote). Esta escolha altera o rumo da nossa energia diária e em vez de gastar recursos a criar justificações para os outros, investimos o tempo na nossa própria evolução. Deixamos de querer parecer bons para nos focarmos em ser genuinamente melhores. É um processo silencioso, íntimo e muito mais recompensador.

A necessidade de provar algo aos outros revela a nossa própria insegurança, pois quem tem a certeza do seu caminho não precisa de apresentar provas a ninguém. A obsessão pelo mediatismo e pelo reconhecimento gera apenas ansiedade crónica e por outro lado, a procura pela melhoria pessoal, discreta e contínua traz uma paz interior profunda. Aprendemos a olhar para os erros como informação e não como falhas morais, onde cada tropeção passa a ser apenas uma lição útil.

Esta transição exige uma honestidade humilde e profunda connosco próprios. Significa aceitar as nossas limitações atuais sem qualquer sentimento de culpa, mas também celebrar os pequenos progressos diários, mesmo que ninguém os veja. A evolução pessoal é uma maratona solitária, não um sprint para as redes ou vida social e o único termo de comparação válido é aquilo que fomos no dia anterior. No final, percebemos que a vida se torna muito mais leve, deixamos cair o peso das expectativas alheias, libertamo-nos da obrigação de impressionar quem está à nossa volta e o nosso foco principal passa a ser o desenvolvimento e a aprendizagem, onde o resultado surge de forma natural. Já não precisamos de provar nada, porque o nosso próprio ser já é a maior evidência do nosso trabalho.

Terei que ser mais forte que a minha vaidade.