sábado, julho 18, 2026

Arrogância

O mundo político está como o mundo das relações pessoais, habitado por deuses de gesso. Se outrora a condição humana se definia pela sua bela e trágica imperfeição, hoje assistimos ao nascimento de uma nova espécie, o homem imaculado e de uma perfeição isenta de responsabilização. Cruzamo-nos diariamente com estas divindades modernas nos palcos da política e nos corredores da vida quotidiana, seres dotados de uma infalibilidade assustadora, cujas línguas esqueceram o sabor amargo, mas curativo, da palavra "errei".

O mundo transformou-se num imenso tribunal onde o réu é sempre o outro. Se há um colapso na pólis da educação, justiça ou saúde, ou uma fenda numa relação afetiva, a culpa nunca reside no sujeito que agiu ou omitiu. Aponta-se, antes, o dedo à engrenagem falível da tecnologia, ao ruído invisível da comunicação, ou a um qualquer alinhamento cósmico de fatores externos desestabilizadores. Erguem-se altares à própria soberba, onde a desculpa esfarrapada substituiu a contrição e o cinismo ocupou o lugar da retidão. Blindados pelo orgulho, os indivíduos constroem a sua personalidade sobre o pedestal da arrogância, confundindo a teimosia em assumir o erro com uma falsa demonstração de força.

Esquecem-se, contudo, de que a verdadeira grandeza reside na planície da humildade. Retirar as devidas ilações de um fracasso e aceitar o peso das próprias decisões não é um ato de fraqueza, mas sim o manifesto mais puro de coragem intelectual e moral. Ao expulsarmos a falha do horizonte humano, condenamo-nos a uma perfeição estéril e de fachada e sem o reconhecimento da nossa própria fragilidade, a sabedoria definha, os laços humanos tornam-se transações teatrais e a política esvazia-se de ética. Resta-nos a urgência de redescobrir a beleza de sermos seres que erram, de sermos somente humanos, sob pena de ficarmos sufocados pelo fumo desta nossa própria e insustentável vaidade.

Errar é ser humano, reconhecer o erro é demonstrar carácter, agora persistir no erro é uma escolha ignorante.

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