Porque escrevo o que sinto sob pseudónimos?
Escrevo para me esconder à vista de todos. Uso um nome que não é o meu porque o meu próprio nome carrega o peso de ter de ser socialmente aceitável. Na verdade, criar um alter ego não é, como em muitas situações uma fuga artística, mas sim uma rede de segurança que me permite dizer tudo o que me queima por dentro e, se alguém me confrontar, posso simplesmente encolher os ombros e fingir que estas linhas pertencem a um estranho. É um pacto de silêncio que faço comigo mesmo para proteger as aparências.
Olho-me no espelho e vejo-me a alimentar esse ser que construí para o mundo, uma entidade calma, cordial, com o sorriso certo de um humor refinado e de resposta amena. É a personagem que cumpre os requisitos mínimos que a sociedade exige para me deixar em paz. Mas sei bem o cansaço que me traz manter essa máscara intacta. Enquanto essa figura flutua pela rotina diária, na penumbra onde ninguém me vê, a realidade é outra. Vivo com lutas internas violentas, num ruído ensurdecedor de desejos que não ouso confessar e de palavras que têm demasiada vergonha para me sair pela boca, encontrando nos meus dedos o único escape possível.
Poucos, muito poucos conhecem este lugar. Sei-o pelas poucas visitas que tem. Foram muitos anos sem ser mantido e construído, deixando em ruínas as paredes que actualmente revejo e me parecem estranhas e poeirentas. Mesmo o que é mais recente, já não parece criação minha. Lembro-me de quem já me visitou no passado, mas o tempo e o meu próprio isolamento fizeram com que essas pessoas se esquecessem do caminho e ainda bem que assim é.
Ainda assim, há algo que nunca muda. Olho para o que escrevo hoje e vejo o mesmo fio condutor de sempre, os desamores. Essa dor antiga e familiar que Camões explicou melhor do que ninguém, "o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente".
O medo constante de ver fugir o que já é meu e, ao mesmo tempo, a melancolia pesada de chorar por aquilo que nunca cheguei a ter.
No fundo, o pseudónimo é apenas a porta trancada de um quarto onde posso ser eu próprio na intimidade, sem ter de pedir desculpa a ninguém e me traz essa...

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