sexta-feira, julho 03, 2026

Esquizofrénico

A nossa verdade é aquela em que acreditamos.

Seja fruto da profissão, ou postura intrínseca, há uma característica em mim, que me confunde mas que me dá prazer, de estar continuamente a ler as pessoas. Olho para o outro e tento perceber o que está escondido atrás das palavras que guardo com atenção e memória que parece ilimitada. Concentro-me nos olhos, nos gestos e na postura de quem está à minha frente e a partir de todos esses detalhes, a minha mente constrói cenários e imagens de forma automática. Às vezes, essas construções mentais são tão nítidas que chego a confundi-las com a própria realidade factual, num processo que me faz duvidar da minha lucidez e me sentir um tanto esquizofrénico.

Nos últimos tempos, decidi mudar de atitude e passei a questionar diretamente tudo aquilo que considero uma certeza, numa tentativa de perceber o que é uma constatação e o que é apenas uma ilusão da minha parte. O resultado desta análise surpreendeu-me. Percebi que este mecanismo, que muitas pessoas tratam como intuição, pressentimento ou capacidade de previsão, funciona em mim de forma natural e sem esforço.

Não tenho qualquer ligação ao misticismo e não me vejo como um adivinho, um xamã ou um guia espiritual. O que faço é um trabalho puramente lógico e prático. Funciono como um analista de dados, observo o comportamento humano, recolho pequenas informações isoladas, cruzo esses dados e interpreto o resultado final. A minha verdade baseia-se nessa capacidade de ligar os pontos e construir uma narrativa que não se distancia em muito do que é real.

O reverso desta dinâmica, é criar um jogo psicológico subtil, onde muitas vezes me apercebo de uma certa admiração pelo que as pessoas julgam saber de mim e do que sou, mas escolho não validar esse sentimento, mantendo uma máscara de aparente distração, de forma a preservar a imagem, evitando parecer vaidoso ou convencido e manter a postura que tento praticar diariamente de humildade e em certa medida enigmática. Este distanciamento emocional cria uma camada de artificialidade que impede uma intimidade genuína e evita expectativas às quais não posso ou não devo corresponder.

Toda esta clarividência que me domina, que gera empatia, mas que às vezes me consome, faz-me pensar se não serei um desses ser de luz.

A nossa verdade é aquela em que acreditamos.

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