Tenho visto imagens, comentários, partilhas de conteúdos que mostram a celebração de 10 anos da CUF na cidade de Viseu, unidade de saúde com quem colaborei durante 8 destes anos.
8 anos de uma entrega maior, onde, muitas vezes com prejuízo pessoal e familiar, me senti parte de uma máquina de cuidar e de uma missão gratificante de servir, com foco no bem maior, o doente.
Esta era, de facto, uma das bandeiras daquela estrutura de prestação de cuidados de saúde e, por vários anos, senti que esse era um desígnio puro e verdadeiro. Senti o impacto que a proximidade de cuidados, a entrega e dedicação pessoal e de quase toda a equipa, criava nos doentes e famílias. Com os recursos, sempre parcos, conseguimos autênticos milagres, no tratar e no paliar.
Mas num dia atrás do outro, numa mudança discreta, mas radical, tive a clarividência de ver além das bandeiras falsas, a realidade por detrás das ilusões que se vendem e perceber que o foco estava em cuidar com dignidade a pessoa humana que tenha posses suficientes para ser tratada. Tive a noção da ambição da estrutura, de ser cada vez maior financeiramente, a todo o custo. Numa sucessiva recusa de quem tem poder de decisão, o que antes seria possível fazer com pouco, passou a ser impossível, num empurrar para o serviço público, todos aqueles que não possuíam condições financeiras para ali continuar, numa sensação desconfortável de tornar o prestador directo de cuidados e conforto, num agiota ou proxeneta em nome de outrem, que nunca mostrava o rosto da decisão, numa vil tarefa de extorsão até ao último cêntimo, sobretudo nos momentos de maior sofrimento.
Perceber que o que era positivo era realçado, mas o que era menos bom, era abafado até cair no esquecimento, em vez de servir como exemplo para uma melhoria, numa lavagem corrupta de imagem de falsa qualidade.
Foi o choque dessa constatação vil e mesquinha, um dos motivos que me fez voltar para o essencial do cuidar, do ser suporte num ambiente em que rico ou pobre, influente ou banal, teriam o mesmo acesso aos cuidados, com o mesmo empenho digno e profissional de alguém, que conhecendo a fundo todas as realidades, tenta dar o melhor de si e ser influência aos demais, tal contaminação virusal, para na sua globalidade e universalidade proporcionar a todos um serviço de qualidade, conforto e excelência, tendencialmente gratuito.
