A indiferença é o inverno do espírito humano. Não fere como o gume de uma lâmina nem queima como o calor do ódio, simplesmente gela, anestesia e apaga.
Ao longo da minha caminhada, fui percebendo que o verdadeiro oposto do amor não é a hostilidade que ruge, mas sim o silêncio vazio de quem olha sem ver e ouve sem escutar. A indiferença é um mal maior da nossa sociedade, porque isola os homens em ilhas invisíveis, convencendo-os de que a dor vizinha pertence a um universo estrangeiro.
No entanto, na arquitetura do afeto não são precisos grandes monumentos, mas basta tão só uma pequena palavra dita no momento da queda, um gesto mínimo que devolve a dignidade, um ombro que partilha o peso do mundo ou uma escuta atenta que valida a existência de quem fala, para fazer a diferença. Quando escolhemos quebrar o vidro da indiferença, descobrimos o bem em ser para o outro. Estender a mão é um ato desprovido de qualquer custo financeiro ou esforço gigantesco, mas carrega o poder tectónico de reescrever o dia de alguém.
Há, contudo, um mistério belo e circular nessa entrega. Ao iluminarmos a penumbra alheia, uma claridade inesperada invade a nossa própria alma, o conforto que oferecemos regressa a nós multiplicado, instalando no peito um bem-estar profundo e pacificador. Descobre-se, nesse mesmo instante, um certo egoísmo no altruísmo, no bem que fazemos ao outro salvamo-nos a nós mesmos da solidão.

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