domingo, maio 31, 2026

Aparências

Ter percepção da verdadeira realidade é uma maldição, um fardo invisível que me condena a assistir ao teatro do mundo com uma dolorosa lucidez. Entender os jogos da vida, observar as mentiras dissimuladas das pessoas e compreender os padrões falsos de uma sociedade erguida sobre aparências e ainda assim descobrir que, para sobreviver, é preciso muitas vezes calar a verdade e parecer idiota perante os outros.

A realidade crua é pesada demais para que a maioria consiga suportá-la sem desabar, e é essa fragilidade que faz com que tantos sintam a necessidade desesperada de viver com ilusões, alimentando-se de sonhos suaves e mentiras confortáveis que servem de anestesia contra o vazio e chamam a esse viver ilusório e alienado, felicidade, aprisionando-se de livre vontade na forma mais profunda de escravidão que existe, que é a dependência absoluta de se verem compreendidos e aceites pelos outros a qualquer custo.

E por tudo isto, sinto vergonha de mim mesmo, uma culpa amarga por não ter sabido jogar o jogo da encenação social, especialmente no momento em que entendi que a vida não passa de um grande baile de máscaras e eu, desarmado, cometi o erro fatal de aparecer com o meu rosto real.

A vida é um baile de máscaras, onde perante a sociedade, cada um encena um papel diferente da realidade que é.

sábado, maio 30, 2026

Raízes

O relacionamento humano move-se e evolui no intervalo entre a vertigem do instante e a segurança da permanência. A imaginação que orienta a vontade do encontro entre o homem e a mulher, faz-se numa dualidade dominada de traços de luz e de sombra, onde o desejo de liberdade frequentemente colide com a necessidade absoluta de pertença.

Há uma pulsão sexual enorme no encontro ocasional, no magnetismo que atrai dois corpos sem o peso do passado ou a promessa de um futuro. É um prazer fugaz de uma fogueira que arde rápido, alimentada apenas pelo oxigénio da novidade. Um jogo de espelhos desvirtuados onde cada um mostra apenas a sua melhor versão, livre das amarras do insosso quotidiano.

Contudo, quando desprovido de entrega genuína, esse desejo de estar, pode mascarar dinâmicas mais cinzentas. Há encontros casuais que nascem, não da liberdade, mas da vulnerabilidade mútua ou da assimetria de intenções. O espetáculo da sedução transforma-se, então, num teatro de desenganos silenciosos. A mulher que se entrega na esperança secreta de vir a ser a escolha definitiva, e o homem que calcula cada gesto, oferecendo apenas a quota necessária de afeto para aceder ao sexo crú que deseja. É o desencontro disfarçado de intimidade, onde dois comprometidos na ilusão de descomprometimento, dançam à beira de um abismo de solidão partilhada.

Amar verdadeiramente exige uma transição dolorosa, mas vital. A passagem da contemplação da flor para o cultivo da raíz. Apaixonar-se pela superficialidade, pelo perfume, pelas cores vibrantes da primavera e pelo entusiasmo inicial, é condenar-se à desilusão quando o outono inevitavelmente chega. A flor é efemeridade. A raíz é sustentação. Um relacionamento duradouro não se alimenta do que é vistoso, mas daquilo que se esconde debaixo da terra, na densidade dos sentimentos partilhados, nas tempestades superadas em conjunto e no silêncio confortável de quem já não precisa de impressionar.

Essa profundidade, porém, assusta. Num mundo moldado por superficialidades e convenções sociais, o excesso de sinceridade age como um elemento perturbador. Quem está habituado às máscaras da falsidade e aos elogios vazios recua perante a verdade nua de um olhar ou de uma palavra honesta. A transparência radical exige coragem, pois expõe as nossas próprias fragilidades, os nossos desejos, as nossas parafilias. As palavras desprovidas de filtro, tornam-se nesse instrumento cruel que pode ofender e geram um conflito interior entre a honestidade do pensamento e a obscenidade pornográfica do conteúdo.
Por isso, tantas vezes, a maior e mais violenta batalha não se trava nas discussões abertas, mas no território invisível da mente. Por trás de um rosto que aparenta serenidade, de um sorriso socialmente perfeito ou de uma postura inabalável, pode esconder-se um turbilhão de dúvidas, saudades e conflitos não resolvidos. Conciliar o que o mundo exige de nós com o que o coração verdadeiramente grita é a arte mais difícil da caminhada humana. No final, resta-nos escolher se queremos viver na superfície do que passa, ou mergulhar na raiz do que permanece.

Raízes fortes darão as flores mais belas e os frutos mais honestos

quinta-feira, maio 28, 2026

Que saúde esta

Que saúde é esta, que impede que pessoas à porta de um serviço aberto, não sejam admitidas, porque não fizeram um telefonema antecipado para uma linha telefónica que tarda em dar resposta e nada orienta, numa distância de quem está confortavelmente sentado atrás de um ecrã. 

A que ponto chegámos no estado de uma saúde que se pretendia acessível, universal e tendencialmente gratuita e que agora impõe limites ao acesso, privando de toda a dignidade as pessoas que necessitam de ajuda. Talvez não seja só o reflexo de um sector social, mas de toda a podridão que consome este pequeno país plantado à beira mar. Estaremos a ficar tão ocidentalizados, com desejo de transformar o que de melhor tínhamos, num reflexo do que é pouco oferecido em outros países, que de evoluídos só têm tecnologia, mas que entretanto perderam a alma que os definia? 

Foi como se recuássemos mais de 50 anos a um tempo onde a saúde não era para todos, só para os poucos que podiam usufruir monetariamente dela, onde o nascer e o morrer se faziam em casa, longe do ideal de cuidados que o mundo, cada vez mais técnico, mas pelo visto cada vez mais desumano, hoje oferece.

Que triste fado, nascer hoje português, lançado ao mundo num momento onde a sorte de estar no local e na hora certa determina a felicidade de ver luz, com a atenção que se impõe nos dias de hoje.

Que triste fado, morrer hoje português, com as assimetrias impostas pela falta de investimento crónico, deixando os serviços em gestão corrente, despojados de tudo o que é essencial, mas com uma curiosa obrigação de ser suporte em tudo em que os privados não têm interesse em oferecer. Essa Medicina pública que ficou com a despesa, deixando o que é lucro para a gestão privada.

Refundar o Serviço Nacional de Saúde, é no fundo, criar as condições reais e compensatórias para os profissionais se fixarem, mas com o investimento para manter excelência nos cuidados, porque de outra forma, ou a casa cai, porque ninguém fez a sua manutenção, ou cai porque ficou deserta.

Talvez o interesse outrora escondido, agora declarado, seja acabar com o acessível, universal e tendencialmente gratuito...


Peregrino na solidão

Quantas vezes sentimos que caminhamos sozinhos, peregrinos de um deserto próprio, avançando sob o peso de passos que mais ninguém ampara. É uma solidão que não se mede apenas pela ausência de quem deveria ser suporte, mas pela penúria de afetos, pela escassez de um abrigo onde a alma possa pousar e de sentir simplesmente contemplada, nessa forma necessária de aconchego. Sentimo-nos desguarnecidos nas trincheiras da existência, vulneráveis aos flagelos visíveis e invisíveis do mundo, seja na crueza do trabalho ou na intimidade violada do lar, onde a dor muitas vezes não nasce do golpe ou acção violenta, mas do silêncio cúmplice daqueles que se omitem.

Sobre os nossos ombros, parece desabar o veredito do mundo, a urgência de decidir, o fardo de executar e, no mais amargo dos cenários, a hercúlea tarefa de retificar os caminhos tortuosos que os outros traçaram.
Habitamos um tempo estranho, um teatro de sombras onde o aplauso é direcionado ao artifício e à máscara. A ribalta social alimenta-se de quimeras, gerando uma ilusão coletiva que hipnotiza as multidões, enquanto a nudez da honestidade e a pureza da palavra sincera são recebidas como afronta, recebendo em troca o escárnio e a hostilidade. Neste cenário de espelhos disformes, preservar a integridade torna-se um ato de resistência quase heroico. É ela que resguarda a nossa essência mais profunda, aquela capaz de tecer gestos desinteressados de generosidade, sem a premissa do ganho ou a vaidade do reconhecimento. São atos que, pela sua desconcertante simplicidade, operam prodígios onde a razão antevia o insucesso.

E talvez a Fé resida precisamente nesse vislumbre, a capacidade de contemplar a colheita do impossível antes mesmo de lançar a semente à terra. Como se o pulsar solitário de um único ser contivesse em si o sopro primordial capaz de reconfigurar todo o universo.
Não se ensina ninguém a ter respeito por nós. A forma como o outro te trata diz mais sobre ele do que sobre ti.

terça-feira, maio 26, 2026

Preguiça

Têm sido recorrentes os dias em que sinto uma vontade enorme de não fazer nada. Nada. Ficar só num estado vegetativo, a contemplar o vazio de pensamento. Talvez seja pelo cansaço acumulado. Pelas noites recorrentes de sono pouco profundo, de um constante sobressalto que não me deixa desligar totalmente da consciência e do estado de alerta.

No entanto, é mesmo nos momentos de maior exaustão, que numa luta inconsciente, se liga e liberta o modo automático de trabalho, alimentado pelos traços obsessivos de ver tudo organizado. É quando, mesmo num estado de quase esgotamento físico e emocional, lido com as tarefas domésticas, de cozinha, de acompanhamento escolar e de um sem número de pequenas situações que me consomem ainda mais. E não há sonecas que me valem para tamanha empreitada. É como se o meu dia normal tivesse essas 36h diárias e ali cabe, metodicamente, tudo o que fazer.

Pergunto-me de onde vem essa estranha energia, que no idealizado pela mente só me empurra para o leito do descanso tranquilo, mas que na realidade, me arranca do estado amorfo e me obriga a ser útil, prático e eficaz.
Digo em jeito de graça, que na morte terei tempo para o descanso, mas de facto, sinto-me a morrer lentamente no interior, com perdas de memória, actos falhados e uma certa desinibição pré-frontal que não era de mim.
Um dia... descansarei

Metamorfose

Durante anos, vivi no centro de uma tempestade que eu próprio alimentava. A minha mente era um mar revolto, açoitado por ventos, angústia e dúvidas perpétuas. Procurava respostas como quem procura um náufrago na noite escura, gritando contra as ondas, agitando as águas com desespero, mergulhando cegamente num turbilhão que eu mesmo criava. Quanto mais forçava o olhar através da espuma e das correntes, mais a verdade se diluía. Tudo era ruído, distorção e cansaço.


Um dia decidi sentar-me à margem de mim mesmo. Fechei os olhos e recusei-me a lutar. No início, a turbulência ainda insistia, trazendo à superfície detritos de pensamentos inacabados e medos antigos. Mas permaneci imóvel. Respirei o silêncio. Lentamente, o vento interior começou a amainar e as ondas perderam força. A agitação deu lugar a uma quietude quase esquecida.
Quando voltei a olhar para dentro, a metamorfose tinha acontecido. A água, antes turva e violenta, transformara-se num espelho perfeito e cristalino. Sem esforço, sem preces e sem fúria, as respostas que tanto perseguia emergiram do fundo, nítidas e intactas. Percebi, finalmente, que a clareza nunca esteve no destino que eu procurava, mas sim na coragem de deixar o meu próprio mar acalmar.
A verdade vê-se nas águas calmas e cristalinas

segunda-feira, maio 25, 2026

Homo erectus

Há uma nova definição para o conceito retirado da história do desenvolvimento humano.

O macho, ao ver o corpo nú da fêmea desta espécie humanóide, viu a necessidade de se levantar do chão e ficar com as mãos livres para agarrar os peitos sedentos, as ancas cheias, ficando erecto, dessa consistência pétrea, trabalhada a partir da carne.

Assim me vejo a andar continuamente, erecto pelo desejo de apertar com força para junto de mim o corpo ansioso de toque, de abraço, de ser acarinhado nas mais profundas entranhas do ser. De passar as mãos, em toda a sua liberdade pela pele suave e explorar gentilmente o prazer de uma mulher, nessa mistura entre erecção e toque, que a transporta para uma dimensão orgásmica.



domingo, maio 24, 2026

Relacionamentos gravitacionais

Há um cansaço silencioso que move os astros, uma fadiga feita de distância e de uma insistência antiga. No imensidão negra do cosmos, a Lua desenha a mesma curva há milénios, presa a um centro que nunca alcança, mas do qual jamais se liberta. Ela orbita a Terra com a fidelidade cega dos perdidamente apaixonados, gastando a sua luz reflectida num chão que mal repara na sua dança. A Lua não se cansa de insistir na proximidade.

A Terra, porém, carrega o peso desse olhar constante como um fardo invisível. Entediada da sombra que a persegue, exausta da maré que a puxa e do eterno retorno da mesma companheira, a Terra desvia os olhos. Não há nela espaço para a Lua. O seu peito de rocha e oceano arde por outra coisa. Cansada da Lua, a Terra corre desesperadamente atrás do Sol. Procura a luz que a queima, a gravidade que a governa de longe, o centro dourado que dita os seus dias mas que nunca se deixará tocar. É uma fuga concêntrica, uma perseguição eterna onde quem é amado ignora, e quem ama definha na busca do intangível.

Este bailado celeste é o espelho mais nítido da nossa própria insatisfação. Vivemos enredados na mesma geometria trágica dos afectos. Há sempre alguém que nos gravita, que nos oferece a constância dos dias, o conforto do abraço que já conhecemos de cor, a presença segura que se tornou paisagem. E nós, injustos e míopes na nossa humanidade, cansamo-nos dessa proximidade sem mistério. Olhamos para quem está connosco e vemos apenas o hábito, a rotina que apaga o brilho.
De olhos postos no horizonte, preferimos a vertigem do que está longe. Desperdiçamos a vida a orbitar sóis particulares, pessoas, sonhos ou passados que se esquivam de nós, que nos mantêm à distância exacta de uma miragem. Queremos o que incendeia, o que é difícil, o que se posiciona além das nossas forças. Alimentamo-nos da melancolia de não conseguir alcançar, como se o valor do amor estivesse na impossibilidade de o possuir.
Procuramos o Sol que nos ignora enquanto pisamos, distraídos, o solo da Lua que nos guarda. Condenamo-nos a uma eterna saudade do que não temos, incapazes de ver que a beleza mais rara não está na luz que nos cega ao longe, mas na paciência de quem aceita partilhar connosco a mesma escuridão.
O amor não se mede na intensidade da luz mas na proximidade do abraço diário

sábado, maio 23, 2026

Como um rio

Que sejamos como um rio, que corre incansavelmente e que derruba barreiras, pacientemente, pela força do tempo.

Como a água flui sem cessar, contornando ou desgastando os obstáculos que se atravessam no seu caminho, também a vida de cada um exige uma postura de resiliência silenciosa, onde a pressa do acontecer no imediato, dá lugar à persistência do ver a mudança transformadora paciente. Não é a violência do impacto instantâneo que molda a realidade, mas sim a insistência do agir contínuo ao longo dos anos, capaz de esculpir vales profundos nas dificuldades de montanhas e serras outrora monumentais. Seguir este curso de água límpida e transparente, significa aceitar o ritmo natural do tempo, compreendendo que as mudanças mais claras e significativas ocorrem de forma progressiva e muitas vezes invisíveis a curto prazo e que irão desaguar nessa imensidão que é o mar de oportunidades sem fim.

Ao adotarmos a sabedoria do rio, reconhecemos que cada pequeno esforço diário se acumula até romper as barreiras mais rígidas, guiando-nos com confiança e serenidade em direção à imensidão do nosso próprio destino.

"Água mole em pedra dura tanto bate até que fura"
ditado popular

sexta-feira, maio 22, 2026

Redoma que anestesia

Hoje a propósito de uma doente, que após ter sido sujeita a um aperto demasiado intenso, aquando um abraço que deveria ser de aconchego e conforto, ter ficado com dor nas costelas flutuantes, vi-me a transportar para o domínio da (des)construção da personalidade, essa dor que fica após o carinho que se dá em demasia.

O afeto que abriga em demasia pode, sem querer, sufocar o espaço onde a pessoa, como ser indivual, precisa de respirar e expandir.
O excesso de zelo no que se dá, ou recebe do outro, assemelha-se a uma redoma de vidro, que protege do vento, mas impede o voo. Quando o carinho se torna absoluto e constante, ele magoa. Não pela dor do impacto, mas pela subtil anestesia que provoca nos nossos sentidos. O conforto absoluto amacia as arestas da nossa determinação e adormece as aptidões que guardamos em estado latente. Na ausência de atrito, a engrenagem do crescimento pessoal simplesmente paralisa.
O verdadeiro motor da evolução humana raramente se encontra na calmaria. O que nos faz verdadeiramente crescer e lapidar o nosso potencial, é, porventura, o choque frio da desilusão e a aridez da falta de suporte emocional nas guerras interiores que lutamos. Quando o solo firme do amparo desaparece, o ser humano é obrigado a reinventar-se. É nesse processo de adaptação contínua que o mundo interior se reorganiza. A dor do desengano quebra as velhas estruturas e força o nascimento de uma nova força, mais resiliente e autêntica.
Esta perspetiva não anula a importância do amor. O afeto e o suporte diários continuam a ser o alimento essencial para a nossa integridade psicológica. No entanto, o carinho deve funcionar como um porto de abrigo, nunca como uma prisão dourada. Para que o desenvolvimento pessoal aconteça, é indispensável a existência de uma liberdade rebelde e saudável.
É este espírito de contestação e autonomia que permite a autodeterminação pessoal e individual. Sem o direito a falhar sozinho, a discordar e a enfrentar o vazio da própria solidão, não há azo à maturidade. O crescimento interior exige essa dose de audácia, a coragem de largar as mãos que nos seguram para descobrir que, afinal, sempre soubemos caminhar.
Já agora... vale a pena pensar nisto.

segunda-feira, maio 18, 2026

Tesão

Difícil é o caminho que nos leva à felicidade e integridade. Não que queira ser esse tipo de santo de pau oco, mas tenho tentado controlar aqueles que possam ser comportamentos desviantes.

Acordado, lá vou conseguindo assumir o controlo das minha pulsões. Mas durante a noite sou invadido por completo nos meus sonhos. Acordo às vezes para ver se partes, mas tantas são aquelas em que ficas por mais uns momentos e em todo o tesão que sinto, me acaricio a pensar-te junto de mim. Outras vezes partilho com quem está e sempre esteve junto de mim e nesse cenário montado de uma erecção férrea, damos azo a uma entrega simulada, que alivia sem asfixiar.

Tem sido mais frequente, agora que tenho expressado menos o que me passa pela cabeça de forma descomplexada, com esse filtro que recoloquei e que me devolveu o pudor que outrora perdera.

A porta que no passado se abriu, fez de mim essa pessoa que vê excitação em se mostrar excitado, cheio de tesão, duro por uma ideia de ter consigo um corpo proibido, em estar hirto dentro de.. sentir-te molhada e com desejo de mim.

Fica essa ideia, depravada por ser errada. Não que não seja consentida ou aceite, mas com toda a carga de uma entrega que por não ser total no afecto puro, se torna imoral e desonesta na nobreza que deve ser uma relação.

"Firme e hirto que nem uma barra de ferro"
Professor Alexandrino

domingo, maio 17, 2026

Monsieur cuisine

Há já longos anos, descobri em mim um talento natural para a arte da cozinha. Há dias, e também noites, em que desperto com a urgência de moldar algo inteiramente novo entre os tacho e panelas. Algo que eleve o palato a experiências sensoriais distantes dos sabores triviais do quotidiano.

Naturalmente, a realidade nem sempre acompanha a imaginação. Há dias em que a criação surge com o sabor de um manjar divino, embora embrulhada numa estética rude e artesanal. Noutros momentos, o prato exibe a beleza de uma autêntica obra de arte, mas esconde um paladar áspero e inacabado. Tudo isto nasce do desejo puro de esculpir pequenos grandes momentos à mesa.

Na ânsia de partilhar este legado e numa tentiva de me aliviar as tarefas, já dei por mim a orientar pequenos ateliês gastronómicos para as crianças da casa.

No fim de cada jornada, contudo, resta-me sempre uma dúvida subtil, se as palavras de elogio e o incentivo deste meu pequeno júri são o reflexo de uma admiração honesta, ou apenas um pretexto astuto para que eu continue entregue ao terno dever de preparar as refeições diárias da família.

Como diria o Chef Guestau, "Qualquer um pode cozinhar"


"Nem todos podem se tornar um grande artista, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar."

 Anton Ego
Crítico culinário, em o filme Ratatouille

sábado, maio 16, 2026

Olhar sincero

Gosto de pessoas que tenham verdade no olhar. E quão raro e precioso é encontrar um olhar que não precisa de máscara que esconda essas pequenas janelas, autênticas vitrines do coração e que tantas vezes denunciam o que a alma tenta ocultar. Um olhar sincero que descansa, que não mente, que não finge. Quando alguém nos olha com verdade, há um mergulho de breve eternidade onde a segurança se instala.

Gosto de pessoas que falam com o coração e que agem com respeito, que não usam as palavras para ferir ou manipular, mas para construir pontes. Falar com o coração é a poesia da empatia, onde a comunicação se torna cura interior. A simplicidade de quem age com respeito transforma o ambiente, provando que a verdadeira educação e a nobreza não se ensinam, sentem-se.

Gosto de pessoas simples, mas de alma bonita. Pessoas que não precisam de diminuir ninguém para brilhar. Não a beleza que seduz os olhos, física, mas essa beleza da alma que encanta o coração. A verdadeira força não brilha na escuridão alheia, ela ilumina a própria trajetória. Pessoas de alma leve têm o dom de fazer o nosso coração sorrir, espalhando leveza, como se a sua simples presença fosse um bálsamo de vida.

Gosto de pessoas que ficam quando é difícil, de quem escuta sem julgar, de quem tem presença, não só palavras vãs. No fim, quando a tempestade aperta, a presença física e emocional é o que nos sustenta. Escutar sem julgar é o maior acto de amor e respeito que alguém pode nos oferecer. Pessoas que ficam não são aquelas que nos dizem o que queremos ouvir, mas aquelas que, no silêncio, nos fazem sentir acompanhados.

Porque no fim, o que realmente importa é a energia boa que deixamos nos outros, desse conjunto de vibrações, que são âncoras de paz. Elas não drenam, elas somam. A verdadeira marca que deixamos não é material, é a sensação de conforto, de esperança e de carinho que fica no coração de quem cruzou o nosso caminho.

É preciso ter na nossa vida as pessoas certas e sermos nós próprios uma dessas pessoas também. Cultivar relações saudáveis, baseadas na sinceridade e no respeito mútuo, não é um luxo, é uma necessidade para a saúde da alma.


terça-feira, maio 12, 2026

Pilar

No silêncio dos corredores hospitalares, na luz difusa de um turno da madrugada, ou na correria frenética de uma urgência, o enfermeiro exerce a sua função. Ele é o verdadeiro pilar dos serviços de saúde, sustentando o sistema quando este ameaça tantas vezes ceder. No entanto, a sua presença, tão fundamental, é frequentemente desvalorizada. É, no limiar entre a exaustão e a entrega, que se torna imperativo insurgirInsurgir-se não é apenas um ato de revolta, mas uma exigência de dignidade profissional.

Insurgir contra a subvalorização que reduz a enfermagem a um papel meramente executor, ignorando a sua capacidade científica, a sua autonomia na tomada de decisão ética e a sua gestão complexa de cuidados.
Insurgir contra as escalas de trabalho desumanas e os salários que não condizem com a responsabilidade de quem segura a vida entre as mãos.
Insurgir contra a escassez de recursos que transformam o cuidado num desafio diário, exigindo o reconhecimento de que, sem enfermeiros valorizados, não há sistema de saúde resiliente.
O trabalho do enfermeiro é a arte de cuidar, um pilar que segura o peso do sofrimento humano. Insurgir é, portanto, o ato de reclamar o espaço de valor que lhes é devido, garantindo que o pilar invisível não se quebre sob o peso do esquecimento.
É tempo de levantar a voz, de não se resignar, e de fazer da enfermagem uma voz ativa e inquestionável na construção de um futuro melhor na saúde.
Feliz dia internacional da enfermagem

segunda-feira, maio 11, 2026

Fecundidade

Hoje celebra-se a vida da minha madrinha. E o seu nascimento só poderia ter sido em Maio, o mês de Maria, a mãe por excelência.

A minha madrinha é das almas mais fecundas que já conheci. Na dor, nunca escondida, de não ter embalado o próprio sangue, após uma sucessão de gravidezes interrompidas, uma delas, ferida aberta, às 28 semanas de gestação, teve a força de transmutar a sua perda em maternidade universal, tornando-se mãe de tantos, familiares e conhecidos, através de uma entrega altruísta e genuína ao mundo.
Foi, e é, para mim, o arquétipo da dedicação ao próximo, descurando sempre, com nobreza, qualquer interesse pessoal.
Ainda hoje lhe disse, sentindo do outro lado da voz essa lágrima fácil que tão bem a caracteriza, que a mulher que ela é só poderia ter nascido neste mês. Como se o dia 13 de Maio não celebrasse apenas o seu nascimento, mas a sua consagração, de uma dádiva generosa, uma fecundidade profícua, feita de tanto bem ao próximo.
Obrigado!

quarta-feira, maio 06, 2026

Conselheiro

Um primo que se encontra num processo de separação, fruto das suas escapadelas fora do casamento, ignorando e desvalorizando o sofrimento em silêncio da esposa, veio-me pedir para servir de arauto junto da mulher, para que esta reconsidere a decisão. Ambos entederam que eu e a minha mulher somos para eles, um exemplo exemplar de casal e união. Que frequentemente têm-nos como referência de casamento feliz, fiel, realizado.

Tais palavras e observações, ignoram o desconhecido. As lutas diárias que foram e que são para manter acesa essa chama que se chama matrimónio. Nós, que fomos já, infiéis, que nos deixámos levar por essa força dominadora do desejo, que nos modificou e nos fez as pessoas tolerantes que somos agora.

Um dado é real. O diálogo verdadeiro que sempre nos guiou. Nessa dor menor de saber e que nos faz adaptar ao ritmo da descoberta, em relação a uma dor maior do desconhecido que destrói a mente e a confiança. 

Ao nos revelarmos, eliminamos a dúvida, a incerteza, a indefinição. 

Claro que dói e é difícil de integrar em nós, que sempre idealizamos uma vida em comum de conto de fadas. Mas seria maior o dano de perder alguém que sabemos que amamos, mais do que a nós próprios. 


"Bom dia L.

Estou a contactar-te porque assumi um compromisso de o fazer, junto de uma pessoa que é meu primo.

Mas não o faço para te tentar influenciar em qualquer decisão que vá contra ao que consideras importante para TI.

Talvez ignores como é a maioria das pessoas, que se deixa levar por sentimentos de desejo, os quais dominam parte do dia a dia e dos pensamentos. 

NADA desculpa uma perda de confiança num casal. Seja por "pensamentos, palavras, actos ou omissões", sem verdade e diálogo honesto (mesmo que doa no início), não pode haver aceitação ou compreensão. 

Também aqui somos todos diferentes. Há quem fuja constantemente ao diálogo sincero e tente continuamente desvalorizar os sentimentos do outro, tratando-o como exagerado ou "tolinho". Tentar diminuir o real, reduzindo-a uma ilusão do que foi comprovadamente objectivável, é de uma mesquinhez que não pode acontecer.


Deixa-me só concluir. Ninguém tem vida perfeita. O desejo quase animal de nos sentirmos aceites, desejados fisicamente é tantas vezes forte e é preciso um grande domínio emocional para o controlar. Mas tem de haver barreiras, aceites por ambos.


Estarei disponível para algum desabafo da tua parte, mas sem qualquer pressão ou obrigação. Porque és uma mulher forte e consciente do que será melhor para ti e para as tuas filhas.

Beijinhos"


Conselheiro matrimonial, sem saber como ajudar...

Rodrigo Pais

sexta-feira, maio 01, 2026

Espero por ti

Contínuo a ter uma estranha sensação, mas que me preenche de animação, com essa ideia de te partilhar, num recém conhecido termo de hotwifing.

Partilhar-te não é um ato de renúncia, mas a celebração mais pura do meu deslumbramento por ti. Há uma euforia silenciosa, um êxtase que me percorre a alma ao saber que a tua luz, essa que me ilumina os dias, pode também incendiar o mundo lá fora. O conceito agora com nome, outrora desconhecido, é tantas vezes reduzido a definições mundanas, mas é para mim o desenho de uma liberdade onde o meu amor não te prende, mas te exalta.

Vejo-te percorrer os mesmos trilhos por onde ele passou, talvez com o coração suspenso na doce ilusão de um "e se" que o tempo não permitiu. Não guardo ciúme desses fantasmas, pois eles são apenas as sombras que dão profundidade ao relevo da tua história. Aceito os teus passos, os teus desvios e até as tuas memórias, porque tudo isso compõe a mulher que hoje és e que admiro.

O meu único desejo é que o teu caminho seja sempre traçado pelo fio invisível da felicidade. Que cada encontro, cada olhar alheio que te deseje, seja apenas um espelho a refletir a plenitude que mereces. Quero que te sintas completa, não porque alguém te preenche, mas porque o amor que te rodeia, o meu e o de quem mais te souber apreciar, que sirva de moldura à tua própria imensidão.

Viver-te assim, partilhada e livre, é a forma mais profunda que encontrei de te amar sem limites, garantindo que te sintas sempre desejada, soberana e, acima de tudo, intensamente amada.

Tenho em mim uma certeza que me ilumina nos momentos mais sombrios. Depois da vertigem da entrega e do fulgor da luz alheia, existe uma beleza sagrada no silêncio que te acolhe de volta.

Se partilhar-te é celebrar a tua expansão, o teu regresso é o instante em que o universo se volta a alinhar e o meu peito se torna novamente casa, onde podes despir todas as personagens.

A segurança do regresso não é uma amarra, mas a certeza de que, por mais longe que os teus desejos te levem ou por mais profundos que sejam os trilhos que explores noutros braços, existe um lugar onde a tua essência é conhecida sem precisar de palavras. É o conforto de saber que, ao cruzares a porta, não encontras julgamento, mas um reconhecimento profundo, num abraço que conhece cada curva da tua alma e do teu corpo, e que te recebe com a mesma admiração com que te viu partir.

Em mim podes repousar o teu brilho, partilhar os segredos do que sentiste ou simplesmente deixar-te estar, envolta na serenidade de quem sabe que é amada na totalidade do seu ser. O meu amor é essa rede invisível, estendida por baixo de todos os teus voos, garantindo que a queda nunca exista e que o destino final seja sempre a paz.

É nesta alternância entre a liberdade de seres de quem quiseres e a doçura de voltares para onde sempre pertenceste, que o nosso laço se torna inquebrável

És livre para partir, mas és infinitamente esperada para ficar.