sexta-feira, setembro 14, 2007

Cirurgia

A acabar aquele que poderá muito bem ser o último contacto enquanto cirurgião, levo um misto de sentimentos comigo. Conheci certamente óptimas pessoas, excelentes colegas, brilhantes cirurgiões, mas com algumas falhas enquanto médicos... É isto que percebi da cirurgia. Muitos dos colegas são excelentes no domínio da técnica cirúrgica, no manuseamento da peça e da abordagem intra-operatória. Mas possuem as suas falhas enquanto médicos, sobretudo na lide da terapêutica e não poucas vezes, na sua relação com o doente, que deve ser visto sempre como um ser humano individual e não uma "peça cirúrgica andante".
Mas nem tudo é mau. Conheci um excelente chefe de serviço, que me fez passar de uma postura de "não tenho grandes ambições de carreira", para uma outra completa distinta e mesmo oposta de "gostava de vir a ser um chefe de serviço assim". Por ser diferente dos outros, mais humano, mais médico e ainda assim grande cirurgião, pelo que me fez ver numa cirurgia que não é desligada da Medicina, que em muito invejava, mas sim uma sua irmã, que a completa, que se articula com esta para oferecer ao doente a melhor qualidade de vida. E vida, lições de vida, foi o que muitas vezes tirei das nossas conversas no cumprimento obrigatório de horário a que diariamente me sujeitavam!
Por tudo isto,

Muito Obrigado Dr Nogueira!

quinta-feira, setembro 13, 2007

Vivo isolado

Sinto que vivo isolado. Como uma insignificante ilha no meio de um tenebroso mar, distante, cada vez mais de um Continente habitado por pessoas que a cada dia me são mais estranhas. Cada dia que passa arrasto-me numa sobrevivência diária, continuamente a perder o apoio de quem tinha por perto, à espera do desejado tempo em que partirei para um outro sítio, mais familiar, onde me sinto melhor.
Em grande parte será culpa minha, provavelmente só culpa minha, mas o afastamento a que voto cada dia em Lisboa, é fruto de atitudes pouco sensatas, dignas até de pessoas que comigo partilham um pedaço da vida. E como as amo muito, como se fossem parte integrante de mim, não entro em "confronto", nem tento sequer dar o meu ponto de vista, fazer perceber a realidade... e daí a minha indiferença, o meu silêncio. Mas tenho andado muito desgostoso com toda esta situação, que me deixa profundamente isolado e com vontade, mais do que nunca de deixar Lisboa e vir para onde sou feliz, Viseu.

Sinto que caminho cada vez mais sozinho...

terça-feira, setembro 11, 2007

Voltaria atrás?

Por quantas vezes ficamos com aquele sentimento, sensação que nos consome aos poucos por dentro, do como seria se fizéssemos as coisas de maneira diferente. Não serei certamente o único. Mas hoje especialmente tenho-me confrontado com várias passagens da minha vida, em que podia ter seguido um caminho distinto, opções diferentes. Não sei porquê, até porque nem é um daqueles dias de profunda melancolia, em que parece todo o mundo abater-se aos nossos pés.
Mas como seria?... Estaria no mesmo lugar do "espaço vivencial" onde me encontro? Teria a mesma vida, os mesmos amigos, seria, sentiria da mesma maneira?
Tudo isto, perguntas que nunca obterei resposta, mas que sem sentido, ocupam os meus pensamentos, alimentam-nos de dúvida, de receio, mas que por outro lado lhes ofertam a capacidade única da ponderação, de decisão reflectida, para que cada degrau da escada da vida se dê numa aparente segurança, e para que na queda nos possamos sustentar, segurar aos poucos momentos de certeza, para avançar e reforçar a ideia de que o destino de cada um se vai construindo a cada dia, e que são muitas mais as incertezas que encontramos na frágil vida do que as certezas e que por isso cada momento deve ser vivido como o último, como se não houvera o amanhã, para ultrapassar as dúvidas do "e se...". E mesmo correndo o risco de banalizar...

Carpe Diem

segunda-feira, setembro 10, 2007

Hei-de...

Hei-de estudar até não conseguir mais. Não cederei à tentação do desleixo, do descuido da simples ignorância. Tentarei em cada dia, com a força que me for permitida lutar para conseguir a cada momento, estar a altura do problema, da situação, do doente. Nos últimos tempos, tenho-me deixado estagnar pelos conhecimentos adquiridos na faculdade, mas chegou a altura de avançar, seguir em frente e melhorar as minhas capacidades, os meus conhecimentos e dar aos doentes todas as oportunidades possíveis de cura, de solução, de esperança. Não me refugiar na estupidez da ignorância e estudar. Estudar até um ponto, em que todo esse conhecimento saia com tanta naturalidade quanto um acto de banalidade diária, como se toda a minha vida o tivesse feito, como parte integrante e estrutural de mim.
Não baixarei braços nunca, nunca me permitirei dizer não sei, desconheço, nunca tinha pensado nisso. Não desistirei de tratar, de curar, de proporcionar felicidade no acto da cura a quem por confiança por vezes cega, deposita em nós toda a sua esperança e mais do que isso, muito mais do que isso, a sua vida e alma.
Só preciso de renovar em mim, cada dia que passe, o sentimento de entrega incondicional por amor, dedicação, sacrifício ao doente.

Que tenha força para me fazer cumprir...

sexta-feira, setembro 07, 2007

Desterrado

Tanto tempo aprisionado, neste Tarrafal a que me votei, desterrado nesta triste terra de Olissipo, só porque cometi o crime "político" de a ter escolhido para abraçar o primeiro ano enquanto profissional, de uma nova forma de vida.
Tantas são as saudades que alimentei da serra, do cheiro a terra da lavoura, da brisa dos montes, das árvores, do canto animado dos pássaros que tanto adoro, que vivo cada dia desorientado, sem destino, nesta cidade de desgosto, tristeza e miséria.
E chegou finalmente, após tantos dias, o momento de revisitar os locais que amo, sair em liberdade condicional, para desfrutar um pouco do sabor de ser livre, feliz nesse sítio que quero que seja o meu sítio no final da pena de 8 longos anos. Tenho no entanto, perfeita noção que voltarei antes de todo este grande objectivo, aos "trabalhos forçados na prisão". Mas é o sonho da liberdade, a certeza do voltar um dia para ficar, que me segura a esperança e a alma no dia-a-dia penoso do desterro arrastado.

Um dia irei para ficar!

segunda-feira, setembro 03, 2007

Renascer

Todos nós lamentamos a perda de uma vida. Todos ficamos tristes com a morte, sobretudo quando de forma trágica, abrupta, sem aviso de um jovem, de alguém que tinha tanta vida para viver.
Mas também não é menos verdade que por vezes, infelizmente não tantas quanto desejáveis, a perda de uma vida faz renascer tantas outras. Confrontei-me de novo nestes dois meses com o drama da transplantação, com os problemas éticos, sociais e humanos, envolvidos em todo este processo que acima de tudo tenta dar vida a uns, respeitando dignamente a entrega de outros.
Mas mesmo assim, a oportunidade nem sempre é aproveitada, no momento em que há receptores que "gentilmente" cedem o órgão que há tanto tempo aguardavam, muitas vezes só por um capricho, e que mais tarde se vêm a arrepender. E tantos que esperam anos sem terem a sua sorte, com a infelicidade de outros, para poderem renascer com uma nova oportunidade de vida.

Vidas que renascem quando outra termina.

sábado, setembro 01, 2007

Presunção

Porque há médicos presunçosos, que se acham superiores aos outros, mesmo maiores que a vida? Não compreendo como é que qualquer pessoa e muito mais um médico, que se propôs a servir o doente, a servir a comunidade, não de uma postura de elevação, mas de humildade, pode por vezes sentir-se maior que tudo o resto, assumir uma posição de superioridade.
Esta característica nota-se sobretudo em "super" especialistas, que mais do que ver doentes, são autênticos consultores de Medicina. Delegam a parte laboral e de contacto humano a outros, segundo estes menos diferenciados, e com base na sua vasta experiência de seres superiores, decidem unicamente opinar sobre o rumo de uma decisão terapêutica ou diagnóstica, sem nunca de facto fazer qualquer tipo de intervenção directa no doente.
Enfim, ainda bem que não há tantos assim, destes semi-deuses de "meia-tigela", a assombrar a Medicina.

A boa prática é baseada na humildade.