Dia 1 de Setembro. Não se esqueçam de declarar o vosso património de galinhas poedeiras, não vá cair sobre vós a desgraça de ter que pagar uma coima, por tão gravíssima falta de zelo.
Este tipo de leis é mais uma prova da decadência social do mundo actual e de mentes menores, mais pequenas do que a das galinhas. Não é algo novo, e este fenómeno actual de proliferação legislativa inútil, prova que a história, que por esquecida se tornar, se volta a repetir. Já na Roma antiga, Tácito cunhou a famosa expressão "Corruptissima republica plurimae leges", que significa "Quanto mais corrupta é a república, mais leis ela tem", sobre a relação entre o excesso de legislação e a degradação ética de uma sociedade. Um Estado que precisa de regular minuciosamente cada comportamento dos seus cidadãos é um Estado onde a moralidade intrínseca e o civismo falharam. A proliferação de leis inúteis que não geram ordem, são um pretexto para abusos de poder e excesso de burocracia.
Quanto mais leis e restrições existem, mais pobres se tornam as pessoas, mais ricos se tornam os políticos e mais ladrões e bandidos aparecem, na fuga engenhosa a tanta restrição, penalização ou comissão.
A substituição da moralidade pela legalidade mostra essa disfunção da sociedade, da ética outrora intrínseca e onde actualmente é a corrupção que impera. Quando a moral pessoal e o respeito mútuo desaparecem, o Estado tenta preencher esse vazio com decretos e as pessoas passam a agir não por convicção do que é certo ou errado, mas apenas para evitar penalizações legais, o que gera em alguns indivíduos uma vontade de deixarem de se guiar pela consciência e limitarem-se a procurar lacunas na lei.
O mais ridículo desta dinâmica e que demonstra a sua inutilidade e futilidade, está num Estado que cria leis porque não confia nos seus cidadãos e onde os cidadãos, por sua vez, perdem o respeito pelas leis ao percebê-las como arbitrárias ou excessivas, esquecendo todos, que o Estado são os próprios cidadãos.
"O desconhecimento da lei que não perdoa ninguém", torna-se comum, numa criminalização do quotidiano, pois num excesso de normas, torna-se impossível que o cidadão comum, tantas vezes sem acesso adequado à informação, conheça todas as regras, transformando virtualmente qualquer pessoa num infrator em potencial.
E pergunta-se. De onde vem o aproveitamento político do excesso legislativo? Uma enorme quantidade de leis sem substrato sobrecarrega o sistema judicial, gerando impunidade para os crimes verdadeiramente graves, onde a corrupção e o abuso de poder se tornam normais, pela lentidão ou ineficiência prática dos longos processos de averiguação ou penalização, que acaba em muitos casos por não chegar em tempo útil.
