sexta-feira, julho 31, 2026

Vacaciones

Caríssimos leitores
(parece algo saído da série Bridgerton)

Os autores deste blog vão estar de férias, ou será melhor dizer, numa adaptação à língua dos próximos dias, de vacaciones.
E como será tempo de descanso das rotinas diárias, dará tempo para retornar à escrita regularmente interrompida de outros géneros literários.

Em jeito de sondagem ao público regular, gostaria que comentassem, o que gostariam de ler no regresso... reflexões sobre a existência de vida extraterrestre, contos eróticos apimentados pelos devaneios dos autores, ou dissertações sobre o estado actual de um mundo decadente?

Comentem, expressem-se e na volta, tentarei ir de encontro ao solicitado.

quinta-feira, julho 30, 2026

Indiferença

A indiferença é o inverno do espírito humano. Não fere como o gume de uma lâmina nem queima como o calor do ódio, simplesmente gela, anestesia e apaga.

Ao longo da minha caminhada, fui percebendo que o verdadeiro oposto do amor não é a hostilidade que ruge, mas sim o silêncio vazio de quem olha sem ver e ouve sem escutar. A indiferença é um mal maior da nossa sociedade, porque isola os homens em ilhas invisíveis, convencendo-os de que a dor vizinha pertence a um universo estrangeiro.

No entanto, na arquitetura do afeto não são precisos grandes monumentos, mas basta tão só uma pequena palavra dita no momento da queda, um gesto mínimo que devolve a dignidade, um ombro que partilha o peso do mundo ou uma escuta atenta que valida a existência de quem fala, para fazer a diferença. Quando escolhemos quebrar o vidro da indiferença, descobrimos o bem em ser para o outro. Estender a mão é um ato desprovido de qualquer custo financeiro ou esforço gigantesco, mas carrega o poder tectónico de reescrever o dia de alguém.

Há, contudo, um mistério belo e circular nessa entrega. Ao iluminarmos a penumbra alheia, uma claridade inesperada invade a nossa própria alma, o conforto que oferecemos regressa a nós multiplicado, instalando no peito um bem-estar profundo e pacificador. Descobre-se, nesse mesmo instante, um certo egoísmo no altruísmo, no bem que fazemos ao outro salvamo-nos a nós mesmos da solidão.

Cuidar do próximo é uma forma sublime e legítima de cuidar de nós proprios.

quarta-feira, julho 29, 2026

Respeito pela honestidade

As palavras que sempre guiaram os meus passos, tem-se expressado ultimamente com uma força renovada. Por isso, não será de estranhar, como mesmo neste cantinho onde os pseudónimos substituem o seu criador, eu me mostre de uma transparência que pode causar algum espanto e estranheza.

Com o tempo e a aprendizagem, aprendi que o respeito não se impõe, conquista-se pelo exemplo, e nenhum exemplo educa mais do que a forma como tratamos os outros. Com esta convicção toda a minha vida me pautei por ser uma pessoa honesta e nas relações emocionais, sempre escolhi a clareza como bússola, mesmo sabendo que, por vezes, essa nudez da alma me traria feridas e prejuízos num mundo habituado a meias verdades ou enganos. Sempre acreditei que a verdade, ainda que inicialmente mais dolorosa, acaba sempre por trazer uma serenidade e paz indeléveis.

Durante muito tempo, carreguei o silêncio de coisas guardadas, que não revelava para não parecer um ser diferente, um tolinho, e percebi que quando se foge à verdade, tudo o que fica escondido gera angústia, uma pressão interior que nos consome os dias e nos rouba o sono. Ocultar é como construir uma prisão de tijolos invisíveis, onde o ar se torna rarefeito.

Mas agora, a verdade revela-se, sem reservas. No instante em que as palavras honestas deixam o meu peito e ganham o mundo, sinto um desmoronamento daquilo que é falso e vejo aparecer a fundação imediata de uma paz interior inabalável. Olhar o outro nos olhos e entregar-lhe a realidade nua não é um ato de crueza, é antes, uma das maiores expressões de respeito que podemos oferecer, pois significa considerar o outro digno da verdade, recusando o insulto da ilusão. A clareza liberta quem fala e dignifica quem escuta. Na mansidão desta nova aurora, descubro que a honestidade não nos isola, ela limpa o caminho para que os laços reais se tornem, finalmente, eternos.

terça-feira, julho 28, 2026

Invisível

Há um abismo entre o que o mundo testemunha e o que realmente se processa na quietude do nosso ser. Por fora, apresentamo-nos muitas vezes como estátuas de serenidade ou meros espectadores da vida, cumprimos rituais, mantemos a postura, observamos a paisagem e deixamos que o tempo nos atravesse com uma aparente passividade. Para quem nos vê de fora, o silêncio pode parecer ausência, a imobilidade pode sugerir acomodação e o olhar fixo no horizonte pode ser interpretado como simples contemplação.

No entanto, a verdadeira vida acontece no interior, longe dos olhos de tantos que nos olham, mas não vêem, onde existe um ecossistema pulsante de ambição, superação e resiliência. Quando parecemos mais parados, é frequentemente quando estamos a travar as nossas batalhas mais exigentes. Dentro do peito de alguém aparentemente imóvel, cada dúvida superada é um ponto de apoio conquistado numa rocha íngreme de um interior que não precisa de plateia nem de grandes gestos externos para mover montanhas. A verdadeira força de vontade opera em absoluto recolhimento, sustentada pela luz da esperança que recusamos deixar apagar.

Somos, na essência, gigantes a guardar universos inteiros por trás de gestos contidos. A casca exterior serve apenas como um ponto de ancoragem a partir do qual a nossa mente e a nossa alma se lançam às altitudes mais ousadas.

Ninguém consegue medir a distância que uma pessoa já percorreu apenas por olhar para onde ela está parada. A inspiração mais profunda não faz barulho, ela é o impulso secreto que nos faz continuar a subir, mesmo quando o mundo à nossa volta acredita que estamos apenas a olhar o horizonte.

A vida impõe desafios, mas és tu que decides se eles serão obstáculos imóveis ou objectivos na subida.

segunda-feira, julho 27, 2026

Saudade

Mais um dia intenso, preenchido de sentimento de perda, mas também de uma estranha alegria gerada na compaixão, de uma partida com dignidade e serenidade de quem se encontrava num sofrimento físico e emocional de uma partida consciente e anunciada.

Ver partir quem já conhecemos, alguém que teria ainda muita vida pela frente, gerou em mim um sentimento de uma saudade enorme de todas as pessoas que já conheci e que de alguma forma me marcaram, seja por pequenos gestos que ficaram, pelas palavras que ainda ecoam dentro demim, ou simplesmente pela sua presença inspiradora. Alguns até desconhecidos, mas que guardei o rosto, outros que nunca mais voltei a ver.

Recordei hoje estas pessoas com as quais me cruzei pelos vários e distintos locais pelos quais passei. Não que guarde as memórias dos locais em si, desprovidos de vida ou de um vazio de pertença ou mesmo das pessoas que lá encontrei e que se misturavam com as paredes inanimadas, como se fossem um contínuo com a estrutura física em si, mas sim daqueles que davam vida aos locais com a sua humanidade.

Recordo-os pelo extraordinário que eram, mas sobretudo por, no ordinário, naquilo que era comum, aplicarem um amor extraordinário. São estes que invocam em mim essa saudade, que tornam frágil o forte que aparento ser. Apetecia-me hoje abraçar cada um deles, com força, num gesto prolongado em que cada um pudesse sentir a marca profunda e inextinguível de um sentimento que perdura e me preenche o coração e a alma e dizer obrigado pelo que foram para mim e que certamente são para cada um e para todos.

Obrigado aos que continuam a ser parte de mim

domingo, julho 26, 2026

Palavras de promessas

Hoje vi um provérbio italiano, que me fez refletir sobre aquilo que tantas vezes sou, entre a diferença do que as palavras facilmente dizem, e o que as acções ditam.

Entre aquilo que uma pessoa promete e o que realmente coloca em prática existe um mar inteiro que ainda precisa ser atravessado.

Há uma honestidade singular neste provérbio, um reparo que não condena, mas também não se deixa iludir. Não há cinismo nesta sentença, mas uma sabedoria simples de uma constatação de que o espaço entre a intenção declarada e a acção concreta é imenso, por vezes insondável.

A escolha do próprio mar como metáfora não é um acaso. Prometer é permanecer imóvel na margem, num terreno seguro onde a intenção habita, um ponto de partida que não encontra resistência, não exige sacrifício e não cobra preço algum. No reino das palavras mortas que não geram acções, o tempo é infinito e os obstáculos não existem, tudo é leve, belo e sem custo. Mas atravessar o mar é outra história. Exige navegação real, esforço físico, risco genuíno e um compromisso irrevogável com o destino. A acção concreta lida com o peso real da vida, enfrenta as horas contadas do dia, a energia finita do corpo, as tempestades imprevistas e a dolorosa necessidade de renunciar a mil caminhos para que apenas um se cumpra.

É essa assimetria fundamental que explica por que a promessa se multiplica com tanta facilidade, enquanto o gesto concreto se recolhe.

Contudo, o mundo acostumou-se a julgar mais pelos olhos do que pelas mãos. Encanta-se com a postura na margem, com a beleza do discurso e com a ilusão das aparências, esquecendo-se de olhar para a imensidão da água do mar. Aprender a distinguir quem apenas fala de quem efetivamente constrói a travessia é uma das formas mais profundas de sabedoria e de distinção do que é real do ilusório. Afinal, as intenções do olhar desenham o mapa, mas são apenas as mãos salgadas pelo mar que se cumprem no trabalho árduo de chegar à outra margem.


"Ó mar salgado, quanto do teu sal.
São lágrimas de..."
Fernando Pessoa, in Mar Salgado

sexta-feira, julho 24, 2026

Faz o que digo

Sinto-me tantas vezes na posição confortável de ser conselheiro, ouvinte ou suporte daqueles que vêem em mim um bom ouvinte, ponderado e seguro.

Mas intimamente, sei que me tornei num perito de um clássico "faz o que digo, não o que faço".

Transmito incentivo, quando pessoalmente me apetece baixar os braços e desistir. Dou motivação, quando pessoalmente me sinto esgotado pelas amarguras diárias.

Sei que palavras acrescentam pouco para uma paz interior necessária em cada um. E sei que quem observa de fora, tal expectador de vida alheia, não compreende a complexidade total das circunstâncias pessoais e familiares que são suporte de qualquer decisão.

Tento interiorizar em mim, o que apregoo, mas quando o reflexo que vejo é do inseguro interior, escondido atrás da máscara de um ser seguro, reconheço que mudar é tarefa bem mais difícil, onde as meras intenções não ganham força suficiente para ter peso nas acções diárias.


quarta-feira, julho 22, 2026

Sofrimento familiar

 Ninguém diga que está bem...

A expressão não é minha, mas de um primo que há uns anos teve um acidente de viação grave que lhe retirou parte de uma vida normal, após ter permanecido quase 2 anos entre internamentos, intervenções cirúrgicas e reabilitação. Recorria frequentemente a esta frase para dizer que de um dia para o outro, nada somos, passando de uma situação de total independência, para uma dependência total de terceiros.

E hoje, a expressão assume novos contornos, agora não de um qualquer acidente súbito, mas de uma súbita doença de uma pessoa jovem que num momento que certamente pareceu eterno, tomou conhecimento de uma vida encurtada.

Há dias soube por amigos em comum que uma enfermeira com quem trabalhei no início da minha carreira profissional soube de um diagnóstico de neoplasia maligna do colon. E não fosse ser uma notícia por si só sombria, no momento do diagnóstico soube, como profissional de saúde que é, do mau prognóstico, por se apresentar com metastização hepática e carcinomatose peritoneal.

Recebemos todos a notícia com choque, desta mãe de 3 menores, com um pedido de oração. E talvez a oração tenha tido a força suficiente de não prolongar o sofrimento de um desfecho anunciado. Poupada a tratamentos supérfluos e penosos, em pouco tempo entrou numa agonia terminal, tal bênção de abreviar tamanho sofrimento.

É doloroso vê-la partir? Seria mais doloroso, vê-la numa agonia prolongada de fim certo, ainda que no imediato possa parecer frio e insensível. Mas para quem já presenciou tanto sofrimento, tanta distanasia, perceberá o que quero transmitir.

Que sofrimento a dos pais, de certo abatidos pelo impacto desta situação e que hoje, receberam mais uma notícia igualmente dolorosa. Uma irmã, mais nova, movida pelo diagnóstico oncológico recente na família, decidiu fazer um rastreio de saúde e como se não fosse catástrofe suficiente, descobriu que tem uma neoplasia da mamã com metastização pulmonar.

Não imagino sequer a tempestade que vai no íntimo de cada um, não há empatia sequer que chegue para entender tanto sofrimento.

Que tenham um descanso sereno e que sejam guias dos vossos filhos, Paula e Carmen.

terça-feira, julho 21, 2026

Para ti

Olhas à tua volta e tudo parece estático, como se o mundo conspirasse para te manter exatamente no mesmo lugar. Mas repara bem no teu reflexo. Há uma voz interior que te relembra uma verdade esquecida «Conhecer a si mesmo é o começo de toda sabedoria», já dizia o filósofo Aristóteles. É nesse ponto de partida, no silêncio da tua própria mente que a caminhada começa e ao descobrires quem és, não receies assumir essa identidade sem necessidade de pedir desculpa a nada nem ninguém. A tua alma foi colocada neste mundo para expressar essa verdade única que és tu, por isso vive-a com coragem e verás que tudo o resto começará a alinhar-se naturalmente.

Não fiques à espera de um sinal divino, de uma segunda-feira ideal ou de um sopro de inspiração que caia do céu. É que fomos erradamente ensinados a aguardar o momento perfeito, mas a verdade nua e crua é que a acção sempre gera inspiração, enquanto a inspiração raramente gera acção. Move-te. Move-te mesmo com medo, mesmo sem certezas, parte de onde te encontras agora e usa os recursos que já tens para começar a fazer o que pode ser feito já hoje. O teu primeiro passo não tem de ser perfeito, só tem de ser dado.

Nesta jornada, limpa o horizonte dos ruídos alheios, não te deixes intimidar pelas opiniões ou pelos julgamentos dos outros. Como escreveu Paulo Coelho, só a mediocridade é segura, por isso corre os teus riscos e faz o que o teu coração dita e lembra-te de que o teu sucesso não se mede pela queda dos que te rodeiam, mas pelo que alcanças tu própria com a tua força. Um espírito verdadeiramente criativo e livre é motivado pelo desejo profundo de alcançar os seus próprios sonhos, e nunca pelo desejo mesquinho de vencer os outros.

Haverá dias longos e subidas íngremes, e a montanha que estás a escalar vai parecer cada vez mais imponente e o cansaço que vais sentir vai ser cada vez maior até te apertar o peito, mas não vaciles pois tudo isso é o sinal inequívoco de que estás cada vez mais próxima do topo. A tua vitalidade não se demonstra apenas pela tua capacidade de persistir na dor, mas sim pela tua coragem sublime de recomeçar do zero sempre que for necessário. Existe dentro de ti uma força avassaladora, capaz de transformar por completo o rumo da tua vida, basta que lutes, que te recuses a desistir e que aguardes, com os olhos firmes no horizonte, o romper de um novo amanhecer.

Viver, afinal, é acalentar sonhos e esperanças, fazendo da fé a tua inspiração maior, é procurar e encontrar, nas pequenas coisas do quotidiano, um grande motivo para ser feliz. Porque a felicidade, tal como nos ensinou o Dalai Lama, não é algo que encontras pronto, num destino final, ela é construída, tijolo a tijolo, através das tuas próprias ações diárias.

Um dia, quando olhares para trás e regressares aos cenários que hoje te parecem cinzentos e estagnados, vais sorrir. Não haverá nada como regressar a um lugar que permanece exatamente igual para descobrires, com um orgulho imenso, o quanto tu mudaste. Assume o leme, a vida é tua e o momento é agora.

Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste.
Sigmund Freud

domingo, julho 19, 2026

50 anos

Ontem, o tempo presente testemunhou o passado de meio século de um amor indomável. Os meus pais celebraram cinquenta anos de matrimónio que nunca se vestiu com a ilusão da perfeição. Entre aquelas quatro paredes do casamento, a história escreveu-se com os traços severos do mau humor do meu pai, a persistência irritante da minha mãe e os silêncios pesados, quase fúnebres, que por vezes assolavam a casa. Mas ultrapassaram sempre as diferenças e permanecem unidos meia centena de anos depois.

Na minha memória e dos meus dois irmãos, ficou gravada um momento, tal cicatriz numa infância assustada por uma tempestade maior. Recordo ainda hoje, uma discussão tão séria que ameaçou romper o mundo que conhecíamos. Lembro-me da presença de dois tios que surgiram tais conselheiros de paz no meio do caos. Nunca soubemos o motivo, mas como os problemas de vida em casal não são exclusivos de ninguém, assumi mais tarde que pudesse ter sido alguma infidelidade ou talvez apenas o peso da vida em comum.

Para celebrar esta união que desafiou as probabilidades, recusámos a opulência e as festas de arromba, algo que a minha mãe sempre rejeitou e numa cumplicidade fraterna de três irmãos, planeámos um segredo uma fuga de casa. Partimos todos, rumo a Braga para um fim de semana intimista. Ali, no recolhimento de uma eucaristia vespertina e à volta da mesa de um jantar digno da sua história, o amor manifestou-se na sua forma mais pura. Houve lágrimas de emoção, abraços de gratidão e uma grandiosidade humilde que uniu as doze almas da nossa linhagem, os noivos, os filhos, as noras e os netos.

O momento mais alto, contudo, foi desenhado pelo próprio destino. Naquela tarde, o Evangelho ecoou as parábolas do trigo, da semente de mostarda e do fermento (Mt 13: 24-46). E, num instante de revelação, percebemos que a vida dos meus pais era a tradução viva daquelas palavras escritas há milénios. O amor deles foi trigo fértil que cresceu corajoso no meio do joio das adversidades, foi o grão minúsculo de mostarda que germinou até se erguer como uma árvore frondosa, capaz de dar abrigo a quem ama e foi o fermento que levedou as três partes de farinha, para se transformar no pão sagrado que nos alimenta, educa e sustenta todos os dias.

Viver este aniversário foi como olhar para o espelho da minha própria existência. Muitas vezes o amor parece uma chama moribunda, esquecida e negligenciada sob o manto cinzento da rotina. O desânimo do quotidiano surge como uma neblina densa que teima em ocultar o sol, mas que sabemos na verdade que nunca deixa de existir. A força dos cinquenta anos recordou-me que o amor não é a ausência de tempestades, mas a vontade inabalável de não fugir e de continuar a caminhar juntos por entre as tribulações diárias e ontem, sem que nada estivesse escrito, todos nós renovámos secretamente os nossos próprios votos de fidelidade à vida e ao futuro.

As crises e as rotinas podem ocultar a luz por algum tempo, mas a verdadeira essência do amor reside na coragem de esperar pelo amanhecer.

Amar é construir todos os dias algo novo, com as mesmas mãos.

sábado, julho 18, 2026

Arrogância

O mundo político está como o mundo das relações pessoais, habitado por deuses de gesso. Se outrora a condição humana se definia pela sua bela e trágica imperfeição, hoje assistimos ao nascimento de uma nova espécie, o homem imaculado e de uma perfeição isenta de responsabilização. Cruzamo-nos diariamente com estas divindades modernas nos palcos da política e nos corredores da vida quotidiana, seres dotados de uma infalibilidade assustadora, cujas línguas esqueceram o sabor amargo, mas curativo, da palavra "errei".

O mundo transformou-se num imenso tribunal onde o réu é sempre o outro. Se há um colapso na pólis da educação, justiça ou saúde, ou uma fenda numa relação afetiva, a culpa nunca reside no sujeito que agiu ou omitiu. Aponta-se, antes, o dedo à engrenagem falível da tecnologia, ao ruído invisível da comunicação, ou a um qualquer alinhamento cósmico de fatores externos desestabilizadores. Erguem-se altares à própria soberba, onde a desculpa esfarrapada substituiu a contrição e o cinismo ocupou o lugar da retidão. Blindados pelo orgulho, os indivíduos constroem a sua personalidade sobre o pedestal da arrogância, confundindo a teimosia em assumir o erro com uma falsa demonstração de força.

Esquecem-se, contudo, de que a verdadeira grandeza reside na planície da humildade. Retirar as devidas ilações de um fracasso e aceitar o peso das próprias decisões não é um ato de fraqueza, mas sim o manifesto mais puro de coragem intelectual e moral. Ao expulsarmos a falha do horizonte humano, condenamo-nos a uma perfeição estéril e de fachada e sem o reconhecimento da nossa própria fragilidade, a sabedoria definha, os laços humanos tornam-se transações teatrais e a política esvazia-se de ética. Resta-nos a urgência de redescobrir a beleza de sermos seres que erram, de sermos somente humanos, sob pena de ficarmos sufocados pelo fumo desta nossa própria e insustentável vaidade.

Errar é ser humano, reconhecer o erro é demonstrar carácter, agora persistir no erro é uma escolha ignorante.

sexta-feira, julho 17, 2026

Já chorei por...

As lágrimas são o idioma mais honesto da nossa alma. São autênticas palavras que não precisam de tradução nem de filtros, surgindo sempre que o peito se torna pequeno demais para guardar tudo o que sentimos. Olhando para trás, percebo que a minha história também se escreve com a água que me correu pelos olhos.

Já chorei porque me magoaram, sentindo o peso frio da injustiça na pele.

Já chorei porque magoei, carregando o arrependimento amargo de ter falhado com quem me estendia a mão.

Já chorei porque me humilharam, no silêncio de um canto onde o mundo parecia desabar.

Já chorei porque fui orgulhoso e não pedi desculpa, aprisionado numa fortaleza que eu mesmo construí.

Já chorei porque me senti ofendido, deixando a ferida arder antes de cicatrizar.

Já chorei porque me senti grato, quando o peito transbordou de um amor tão grande que não coube em palavras.

Cada uma dessas gotas cumpriu o seu papel. Chorar é esse mecanismo de libertação de uma raiva, angústia ou felicidade acumulada. Longe de ser um sinal de fraqueza, o choro é o transbordo da nossa humanidade, é o filtro que limpa o olhar, ajudando o corpo e a alma a descomprimir e a restabelecer uma nova serenidade.

Por isso, nunca escondas as tuas lágrimas nem te envergonhes do teu desabafo, deixa que elas lavem o que passou e preparem o solo do teu coração para o que há de vir. Depois da tempestade que desagua dos olhos, a alma ergue-se sempre mais leve, mais forte e pronta para recomeçar com uma paz renovada.

O teu choro de hoje é apenas o ensaio para o teu sorriso mais bonito de amanhã.

quinta-feira, julho 16, 2026

Salva-te a ti mesmo

Nas discussões vivas de quem luta para manter acesa a chama de uma relação em que o conceito de amor parece mutar a cada momento, surgem alturas em que percebemos que é impossível tentar resgatar quem não quer ser salvo. Como se o mar não escutasse os apelos de quem escolhe afundar-se, por mais que lancemos a corda. Gastar a nossa energia na tentativa hercúlea de mudar o outro é como desenhar na areia enquanto a maré sobe, um esforço em vão que apenas nos consome e esvazia.

Com o tempo e a permanência, percebemos que as pessoas só conseguem oferecer aquilo que carregam no peito. Exigir amor de quem está deserto, compreensão de quem só se escuta a si próprio ou compaixão de quem vive na amargura, é uma ilusão que alimenta o desespero. Mendigamos tanto por atenção, por afeto ou carinho e tomamos percepção de que tudo isso já habita dentro de nós. Pedimos lá fora, esperamos dos outros essa atenção e esquecemo-nos, contudo, de nos oferecer a nós próprios esse mesmo cuidado. Anulamo-nos na urgência de ser o cais dos outros, ignorando que o nosso próprio barco está à deriva, abdicamos de nós, vestindo a capa de heróis de histórias que não são nossas.

Depositar no outro a responsabilidade da nossa cura é caminhar de olhos vendados para o sofrimento. A mudança que procuramos não virá do exterior, mas sim do romper das amarras que nos prendem a quem e ao que nos desgasta.

É preciso erguer os olhos e escolher o nosso rumo. Procurar estar rodeado de quem vibra na mesma frequência de luz, de quem nos desafia a crescer e de quem nos inspira a ser a nossa melhor versão. Quando escolhemos caminhar ao lado de quem nos eleva, o fardo fica mais leve e o horizonte ganha um novo brilho. No processo é preciso não esquecer de nos salvarmos a nós próprios também. Tudo o resto é só caminho.

terça-feira, julho 14, 2026

Vaidade

Viver não devia ser uma arena de exibição constante das minhas capacidades e tenho cada vez mais a noção de que passo os dias a tentar mostrar ao mundo que sou capaz, que tenho valor, que alcancei o sucesso, num esforço contínuo para obter uma estranha e desnecessária validação externa. Construí uma imagem pública detalhada para o mundo e esqueci-me da minha realidade interior. Apesar de ter a noção de que a esta dinâmica assenta em premissas erradas, custa-me aceitar que o verdadeiro crescimento pessoal não precisa de audiência nem de aplausos.

Torna-se difícil mudar esta mentalidade, ainda que saiba que seria uma alteração transformadora.

Terei que ser mais forte que a minha vaidade, o meu egocentrismo narcisista e adoptar uma postura de focus on improving not proving (soa bem melhor em inglês e foi a expressão que deu o mote). Esta escolha altera o rumo da nossa energia diária e em vez de gastar recursos a criar justificações para os outros, investimos o tempo na nossa própria evolução. Deixamos de querer parecer bons para nos focarmos em ser genuinamente melhores. É um processo silencioso, íntimo e muito mais recompensador.

A necessidade de provar algo aos outros revela a nossa própria insegurança, pois quem tem a certeza do seu caminho não precisa de apresentar provas a ninguém. A obsessão pelo mediatismo e pelo reconhecimento gera apenas ansiedade crónica e por outro lado, a procura pela melhoria pessoal, discreta e contínua traz uma paz interior profunda. Aprendemos a olhar para os erros como informação e não como falhas morais, onde cada tropeção passa a ser apenas uma lição útil.

Esta transição exige uma honestidade humilde e profunda connosco próprios. Significa aceitar as nossas limitações atuais sem qualquer sentimento de culpa, mas também celebrar os pequenos progressos diários, mesmo que ninguém os veja. A evolução pessoal é uma maratona solitária, não um sprint para as redes ou vida social e o único termo de comparação válido é aquilo que fomos no dia anterior. No final, percebemos que a vida se torna muito mais leve, deixamos cair o peso das expectativas alheias, libertamo-nos da obrigação de impressionar quem está à nossa volta e o nosso foco principal passa a ser o desenvolvimento e a aprendizagem, onde o resultado surge de forma natural. Já não precisamos de provar nada, porque o nosso próprio ser já é a maior evidência do nosso trabalho.

Terei que ser mais forte que a minha vaidade.

segunda-feira, julho 13, 2026

Demanda

Não é muito frequente abordar aqui assuntos que revelam as minhas convicções ou crenças. Mas pontualmente lá vou abordando timidamente estes assuntos, com um ou outro post, misturando nesta amalgama que é o blog, o profano e o sagrado. Também será assim na vida do ser individual que é cada um de nós.

Ultimamente tem-se tornado mais notório, também fruto da maior exposição mediática e de conteúdos partilhados, grupos a tentar justificar ou apregoar serem os verdadeiros defensores da fé, numa forma mais ou menos ritualizada e padronizada de ser a verdade. E questiono-me frequentemente, onde está a verdadeira verdade? Onde reside, na deturpação corrupta da carne, o que é verdadeiro do espírito? Podia discutir um caso qualquer em particular, mas este problema é extensível a tantos casos em geral. As pessoas, no seu seguidismo cego e de quem repousa numa ilusória paz de mente de quem vive sem questionar seja o que for, acabam por assumir uma postura agressiva, autoritária e extemista de vivência social, de quem se assume como defensor verdadeiro de uma causa, ideia ou dogma. E extende-se a todas as lateralidades da vida em sociedade, como quem diz da direita à esquerda, ou para não ofender os mais "ofendíveis" da esquerda à direita, como se a primazia da razão residisse também na ordenação verbal das palavras.

A vida do mundo assume esse ambiente cíclico de rotação natural do confronto eterno entre razão e paixão, onde o racional é questionado, pela dimensão absorvente da paixão, do que é moldado pelo que sentimos ser mais forte. Entre um wookismo e um conservadorismo exagerados, que ganham cada vez mais seguidores, como autênticos soldados que se perfilados nas fileiras de um conflito anunciado, reside a verdade oculta e que deve ser objectivo de busca. Uma busca constante de aperfeiçoamento pessoal e não da resignação de quem se cansa de procurar e assume só seguir o que é enfiado pelo grupo. E esta demanda aplica-se a todo o universo onde cada um de nós está inserido, político, laboral, social, relacional e espiritual (do que vai além do estritamente religioso).

E para não me alongar e tornar tudo de novo muito confuso, direcciono a reflexão de hoje para essa dimensão da religiosidade em que eu acredito. E esta é a minha verdade, que aos olhos de outros pode ser sujeita a uma qualquer observação de conteúdo semelhante à reflexão de hoje e entendida como errada.

Acredito que Deus se fez Homem, simples, que nasceu Judeu submisso e não Romano dominador, que escolheu andar no meio dos pobres e pecadores e não no meio dos fariseus detentores de poder e riqueza, que pregou tanto em sinagogas como no meio do campo ou no mar, com palavras simples e acessíveis e não com rituais de linguagem complexa. E foram os homens de uma dimensão reduzida que na intenção de se assumirem grandiosos, transformaram o que era de uma simplicidade deslumbrante numa confusão rebuscada de opulência insignificante.

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Mt 5, 1-12

domingo, julho 12, 2026

Atrevido

Nos últimos dias tenho manifestado aqui o meu lado mais atrevido, numa desinibição e exposição pouco habitual. Como se as pulsões interiores de desejos que se reprimem na necessidade de uma aparência social, ganhassem uma força maior de expressão através da escrita. Estarei a iniciar um surto psicótico ou a ficar com demência, dessa frontotemporal, que liberta o juízo das amarras do criticável? Mas o que não bate certo é essa memória infinita, que não me larga, mesmo nos pormenores que guardo e que me desgastam nos debates internos de teimar em entender mensagens subliminares onde provavelmente não existe qualquer conteúdo real.

E tu, leitor assíduo das linhas tortas que aqui vagueiam em jeito de escrita linear, aprecias o conteúdo mais livre e desinibido, ou o filtro poético dos debates de uma consciência perturbada?

As entradas neste blog são em grande parte de servidores norte-americanos. Será que o Sr Trump me lê? Explicaria muita coisa. Vamos ver se ele me dá os conselhos que demando.

🫣

quinta-feira, julho 09, 2026

Ficção

Às vezes penso que poderia ser escritor. Desde a adolescência fui construíndo textos aos soluços, que acabo por abandonar e por vezes retomar, numa insatisfação de ao reler o trabalho próprio, não me parecer de qualidade literária suficiente para ser exibida. Recentemente retomei a escrita, tais "retalhos da vida de um médico", mas num estilo próprio e pessoal, à qual chamo de "vida comum".

Hoje decidi fazer algo diferente. Entrar totalmente no mundo da ficção, num estilo distinto e de quem parece estar a entrar num surto psicótico que me liberta das amarras da moralidade social.


Ficção

Todos dias entrava naquele hospital, com um olhar vago de quem caminha nos seus pensamentos interiores, das preocupações que o atormentavam. Falava para si:
- Como vou resolver o imbróglio que se tornou a situação clínica do doente da cama 7?
Matutava horas indefinidas nas mesmas situações, redundantes que se tornavam.
Mas esse dia, viria a tornar-se diferente, único de todos os dias anteriores da monotonia que se tinha tornado o arrastar dos pés para aquele hospital.
Ao chegar à enfermaria, num relance reparou num olhar diferente, estranho até então. Foi como se a sonolência diária dos dias comuns, despertasse agora num sopro de vida refrescante que activou todos os seus sentidos. Permaneceu imóvel, boquiaberto de um espanto causado pela impressão que esta mulher de peito cheio, anca definida e lábios de uma vivacidade impressionante lhe causara. Sentiu na distância necessariamente social o seu fôlego de um respirar sereno, e ansiava sentir pelo toque a suavidade visível da sua pele. Inconscientemente percebeu que o seu corpo rebelde já reagia a tal imagem, ficando de falo erecto e duro de tanta excitação. Tímido no entanto, fingiu ignorar a sua presença, tentando demonstrar uma falsa indiferença, controlando os seus impulsos mais ferozes, suavizando a própria voz, com a intenção de simular uma calma aparente. Por dentro o corpo explodia de tesão, queria contacto, queria revelar-se de imediato a esta pessoa a quem nem ainda tinha sequer perguntado o nome, mas que já tinha causado todo este impacto pela sua presença.
Dias se passaram e a relação estabelecida era a cordial e social de dois colegas de trabalho. Evitava a todo o custo qualquer pergunta mais pessoal para não revelar a mínima das intenções.
No entanto em casa, na intimidade e segredo da sua cama, acariciava-se várias vezes, como se estivesse acompanhado a dar prazer a este corpo que com o olhar se deliciava, como se houvesse um magnetismo invisível que fazia com que se orbitassem entre si e em êxtase deixava-se explodir ao imaginar preencher de esperma esta mulher.
Um dia, tal como tantos outros, fechados os dois no mesmo gabinete, num silêncio ensurdecedor de quem tem algo para declarar, mas se vê na obrigação de não o fazer por medo de não ser compreendido, deixou escapar num sussurro que aquela imagem de mulher o deixava sem palavras que descrevessem o sentimento que o dominava e diminuía.
- A enfermeira, deixa-se totalmente desconcentrado.
Sentiu pela primeira vez a inquietação dela, como se até então a sua presença fosse indiferente, mas agora a desconcertava, agora deixava-a tensa, de um arrepio que era visível na pele. Mas ela não replicou logo. Decidiu antes pela provocação, como se a intenção dela fosse aumentar até ao descontrolo total esse desejo animalesco, selvagem e irracional dele.
- Ai é? E o que é que o desconcentra mais?
E conseguiu. Ele ficou como se nada nem ninguém mais existisse, como se à volta fosse agora tudo um vazio e naquele momento fossem só os dois, um homem e uma mulher despidos de tudo o que o era do mundo, preparados para uma entrega.
Tentaram manter uma falsa postura, tinham receio de ser surpreendidos por alguém que entrasse de forma súbita no gabinete. Mas a tensão aumentava, sentiasse no ar, a temperatura subira, pelo intensificar da actividade interior dos dois corpos, até um momento que deixara de ser possível e humanamente aguentar. Sem palavras e como se a comunicação passara a ser só pela mente, saiu um de cada vez, primeiro ela, em direcção à escadaria que ninguém usava. De seguida ele, com o seu habitual gracejo para quem o interpelava, hoje um tanto nervoso. E encontraram-se os dois de novo. Agora numa paz segura de uma agitação que se podia agora e finalmente revelar. Olharam um para o outro, a uma distância que dava para sentir o bater rítmico do coração. E ela disse:
- Sabes o que me apetecia agora?
Ele, ansioso por deixar as palavras e fazer-se sentir pelo actos respondeu com um breve, mas intenso:
- Sei.
E não foi preciso mais. Nesse momento os seus lábios encontraram-se,  as suas línguas acariciavam-se suavamente, enquanto a boca parecia querer devorar tudo sem freio. As mãos dele perderam o pudor e passaram a tocar em tudo o que a liberdade por ela consentida ia permitindo. Ela, libertando-se de qualquer constrangimento, agarrou com força o pénis dele, engrandecido e de uma vitalidade de aço, tomando-o como seu.
- Estás tão duro para mim. É tão bom sentir-te assim duro por mim.
- Estás tão molhada para mim. Adoro sentir-te assim a escorrer por mim.
E esquecendo-se do local impróprio onde se encontravam, ignorando toda e qualquer segurança e vontade de sigilo, deixaram-se fluir. De pé, ele encostava-a agora à parede e virava-a agora de costas, enquanto lhe agarrava a anca com uma mão, com a outra ajeitava a erecção do pénis hirto e a penetrava na vagina, fazendo-o deslizar sem dificuldade até ao fundo,  ouvindo-a a gemer, o que o excitava ainda mais. Beijava-a no pescoço enquanto estava dentro dela, e ela arrepiava-se a cada estocada. Por alguns momentos, os dois corpos fundiam-se e ele acabou por se vir com todo o seu fulgor dentro dela. Beijaram-se, olharam-se, sem palavras, momento só quebrado por um sorriso mútuo e o encostar das duas frontes. Amanharam-se, ele ainda erecto a tentar acomodar o que parecia enorme para voltar a ficar fechado dentro das calças, ela a escorrer pelas pernas e sem possibilidade de um asseio melhor.
Nos dias seguintes tentavam encontrar sempre um momento para os dois. Percorreram gabinetes, áreas que julgavam escondidas, experimentaram várias posições distintas, como se o pensamento de um fosse o anseio do outro, até ao ponto em que os perfumes dos dois se ia misturando numa fragrância única. Ele penetrava-a com vigor, tinha prazer em sentir-se a escorrer quando ela se vinha na sua boca, ao ser acariciada com os lábios e língua. Ela enfiava por vezes o pénis na sua boca, dizendo a seguir para se deixar largar das amarras do politicamente correcto e sentir o calor do interior do corpo nela.
Já não dava para passar despercebido. Começara a surgir um murmurinho no hospital. Os restantes já percebiam dos sorrisos que trocavam, da cumplicidade que havia entre os dois. E quando ela, um dia se aproxima dele e diz:
- Estou grávida. Como vou explicar ao meu marido?
O marido era estéril. Tinham feitos exames, atrás de exames, tentativas atrás de tentativas para tentar engravidar e o veredicto frio e cruel era um, ele não poderia vir a ver o fruto da sua descendência.
Ele ficou inicialmente em choque. Não de quem recebe a notícia de uma calamidade, mas de quem secretamente, no interior dos seus pensamentos mais profundos, o desejava.
Era um solteirão, visto como um pretendente ideal, no qual muitas viam um bom partido. Mas no seu ser introvertido, nunca se tinha permitido deixar ser absorvido por uma mulher. E sentia que esta mulher, casada, significava para si tudo, mesmo que fosse sempre o outro, mas que mesmo aí era uma escolha de quem podendo ter tudo, ainda assim decidia permanecer junto dele.
...
(continua?)

quarta-feira, julho 08, 2026

O eco da entrega

Hoje acordei a pensar na frase de John F. Kennedy, “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas o que tu podes fazer pelo teu país”. Mensagem que vai muito além da política e que é um verdadeiro apelo à descentralização do “eu”, um convite para nos despirmos do egoísmo e nos colocarmos, de coração aberto, ao serviço do outro. Esta entrega é um milagre que sustenta os laços que mais nos importam no colo acolhedor do nosso lar ou no impacto que deixamos no trabalho.

Se mergulharmos mais fundo, na beleza da visão franciscana da vida, que a mim me diz muito, descobrimos que há incomparavelmente mais alegria em dar do que em receber. A verdadeira felicidade não é um troféu que se conquista para si mesmo, mas naquilo que escolhemos ser para os outros. Reside no ato quase sagrado de colocar o nosso conhecimento, o nosso tempo e os nossos dons ao serviço de quem nos rodeia. Viver de verdade exige coragem para abandonar o sedentarismo da alma, rejeitando a postura fria de quem apenas espera que o mundo lhe seja útil.


No aconchego ou nas tempestades da vida conjugal, a pergunta “o que eu ganho com isto?” é o veneno silencioso que afasta os corações. Quando transformamos a nossa relação num livro de contabilidade, onde cobramos cada gota de atenção e pesamos cada esforço, o amor perde o oxigénio. O casamento não é um contrato de troca, é um pacto de cuidado mútuo. Há muito de espiritual nos pequenos gestos diários, no aliviar o cansaço nos olhos do outro, nos gracejos para lhe devolver o sorriso, no suporte emocional sem esperar uma recompensa imediata ou uma vénia de agradecimento, no silenciar do próprio orgulho de uma escuta atenta, acolhendo assim as fragilidades mútuas. A felicidade a dois floresce no momento em que a vontade de ter razão cede lugar ao desejo profundo de ver o outro em paz, criando terreno para uma união duradoura e bonita de duas pessoas que não esperam ser servidas e idolatradas, mas que comovidas pelo valor uma da outra, decidiram ser abrigo e amparo ao outro.

Também no trabalho, que não tem de ser um fardo ou um castigo no propósito único de ter um salário, pode hever expressões da nossa utilidade no mundo, sobretudo para quem connosco partilha o dia a dia, alimentando um brilho de transformar a carreira numa missão de serviço. Partilhar o que se sabe com generosidade, transforma-nos numa fonte de inspiração e luz para os colegas, numa entrega do coração no que se faz, ao colocar paixão em cada detalhe, sabendo que o esforço melhora a vida de alguém, algures. O sucesso profissional ganha alma quando percebemos que, ao impulsionar o crescimento de um colega, estamos a elevar toda a comunidade.

Quem trabalha apenas para si próprio caminha sozinho e esvazia-se, mas quem trabalha para servir, deixa uma marca eterna na vida dos outros.


A nossa passagem por esta vida só ganha cor quando nos tornamos um lugar seguro para alguém. Seja na intimidade do quarto ou na correria do escritório, a postura de serviço liberta-nos do peso de olhar só para o próprio umbigo. Quando escolhemos, conscientemente, dar o melhor de nós sem reservas, descobrimos que é a servir, onde o amor e o sucesso nos encontram, que nos tornamos verdadeiramente inteiros.

Infelizmente para muitos, esta forma de ser, de uma entrega desinteressada ao outro, vive morta no seio das relações pessoais ou profissionais, tal como jaz o autor da expressão que motivou a reflexão de hoje, morto que foi por aqueles que vivem para o interior de si mesmos, em privilégio do interesse próprio.

Colocar paixão em cada detalhe melhora a vida de alguém, algures.

terça-feira, julho 07, 2026

Lavagem verde

Há certos termos e expressões que uso recorrente e me fazem sentir um Doutorado numa qualquer área específica. Um entendido num sem número de questões sociais, profissionais ou psicológicas, tal sabichão que tudo sabe e tudo opina. E o termo lavagem verde, tem-me acompanhado, para explicar a arrogância, prepotência e engano de quem tem poder de legislar e regular ou sobre aqueles que exercem influência sobre as questões ambientais.

Cada vez mais se ouve falar de campanhas de proteção ambiental, medidas atrás de medidas para se "salvar" o planeta do aquecimento global e cada vez mais vemos o impacto da poluição.

É curiso pensar que são as maiores empresas poluidoras mundiais, que mais programas de apoio e incentivo criam para minorar os efeitos da poluição, nesse green wash, que tolda a visão popular e mediática, tentando esconder o sol com uma peneira. Escusado será sugerir que quem detém o poder financeiro, inunda o poder político de regalias, de forma a que este pondere decisões, que com o malabarismo habitual se consiga ver um lobo vestido em pele de cordeiro.

Assim é também no mundo empresarial. Quando há a percepção interna de que uma medida é nefasta para um grupo profissional, ou para a sociedade, cria-se de imediato um grupo de trabalho ou uma equipa de qualidade, para monitorizar e avaliar a implementação das medidas e tentar minorar o seu impacto. Minorar, não eliminar. Que estas equipas não estão para ser um contrapeso para as administrações, que impõe, julga e condena e de seguida lava as suas mãos de uma inocência culposa dos seus actos. Arrisco dizer, que quanto maior a estrutura de regulamentação  maior o dano causado pelas medidas, numa proporcionalidade de tentativa de absolvição maior dos pecados cometidos e diluição dos problemas, até à sua redução a uma insignificância. Não menos curioso de se observar, é que nesta falsa autocomiseração se tenta atribuir o sentimento de culpa ao consumidor final, como se fosse responsabilidade própria e individual a degradação a que se chegou.

"Então, Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente..."
Mateus 27: 24-25

Sovina

Começou a funcionar um sistema de recolha de garrafas de plástico e alumínio, que já tinha conhecido há muitos anos atrás na Alemanha, onde o meu irmão vive há uns valentes 20 anos (como o tempo passa tão rápido). É assim que o nosso país se quer comparar com os parceiros do centro e norte europeu, mas sem a adequada equivalência remuneratória.

E para não perder os preciosos 10 cêntimos que cada embalagem tem de tara, vejo-me recorrentemente a transportar garrafas de água vazias até casa, depois de uma dispendiosa e farta refeição fora. Como se os 20 ou 30 cêntimos, fossem uma compensação justa de toda a despesa em comida, tal sovina, que não abdica de poupar todo e qualquer centavo, na ilusória intenção de vir a enriquecer um dia. Há dias vi-me mesmo a levar para casa 3 garrafas perdidas no chão, só pelo valor do depósito.

Empreendedorismo seria, abandonar de uma vez por todas a Medicina e andar a recolher todos os vasilhames perdidos por aí. Isso sim, seria obra, ofuscada pela falsa intenção de um green wash de recolha selectiva de resíduos no bem maior de proteção ambiental, só que pago a cêntimo de ouro.

Finalmente riquinho!