terça-feira, março 04, 2008

Engatatão

O bom da vida que abracei é que continuamente sou confrontado com um ou outro verdadeiro milagre, que me faz sentir que esta é a melhor profissão que alguém pode ter.
Há uns dias atrás, entrou na urgência um senhor dos seus 80 anos, independente até então, e que subitamente teria sido encontrado caído em casa. Tinha sido vítima de um AVC hemorrágico, condição clínica com prognóstico muito reservado, com taxas de mortalidade imediatas muito elevadas e de complicações muito frequentes.
No entanto, os que resistem às primeiras horas, os poucos que conseguem, são brindados pela vida, como que para uma nova existência!
Foi o que aconteceu com o senhor Manuel, tão Manuel como todos os outros homens, e que teve uma recuperação milagrosa.
De tão milagrosa ser, ao décimo dia de internamento, já não tinha qualquer sequela do AVC de que sofrera e estava pronto a enfrentar a realidade domiciliária.
E de tanta surpresa ser para o próprio, apercebendo-se de como tinha tido este bafo de vida renovada, sentiu-se com forças para a abraçar por completo. Tanto o quis fazer que ao ter alta, recusava-se a recorrer ao uso de muletas para locomoção de problemas prévios osteo-articulares. Sentia-se com vontade renovada de engatar moças lá no centro de dia para onde iria passar as tardes, e estes acessórios pouco práticos eram incómodos na hora do flirt.
Ao fim de uma conversa descomplicada, lá consegui convencer o senhor Manuel que é bem melhor ir ao engate de costas bem direitas e de peito aberto à beleza de uma mulher, que curvado perante a resignação da condição física, mesmo à custa de insignificantes questões inestéticas condicionais.
E lá teve alta mais um milagre da Medicina portuguesa!

Boas conquistas!

segunda-feira, março 03, 2008

Who decides who lives or dies?

Quem somos nós que decidimos sobre vidas? Quem somos nós que ao ver cada doente com necessidade de suporte de vida, nos fazemos continuamente a pergunta: É para investir?

Gostava que a resposta fosse só uma. Sim, investe-se em todos, sem excepção. Mas seria falta de verdade e errado dizê-lo. O estado da arte, a que a medicina chegou, permite virtualmente e manutenção artificial de uma vida por um tempo indeterminado. E com isto seriam maiores as questões éticas, profissionais, pessoais, que as respostas. Para cada doente teria de haver capacidade técnica para o seu suporte, o que seria um esforço humano (porque o económico nunca seria problema, para uma vida) sem precedentes e em última instância estar-se-ia a entrar na prática de distanásia. Até que ponto é correcto prolongar um estado de sofrimento e doença...
Não o digo sem sentir uma enorme angústia por cada um dos doentes em que esta questão se coloca. Tentamos ser um pouco superficiais, abstrairmo-nos da condição humana que somos, para o podermos fazer. No entanto, somos tão ou mais humanos que os restantes, nesta difícil tarefa que é de ajuizar sobre o investimento que se faz na vida.

Choro por cada um que parte.

sábado, março 01, 2008

Especial

Não estava à espera que me dissesse nada. Já tinha pensado nisso, sim, que talvez viesse um dia destes pedir-me para escrever algo numa fita, mas sempre num sentimento binomial de que talvez não o fizesse. Mas porque não o fez da forma mais simples? Bastava dizer que queria que escrevesse algo, sem necessitar de um prólogo em que me dissesse que fui especial, muito importante, único nestes anos da vida dela... Tê-lo-ia feito na mesma, sem ressentimentos que nunca chegaram a aparecer. Mas quem compreende as mulheres?

Encontrámo-nos, após alguns meses sem termos dito quase uma palavra, para me deixar a fita. Mas ao contrário de outras vezes, não senti agora mais que afecto por uma amiga, que descobri ter mantido. E talvez o tenha deixado inconscientemente transparecer e em pouco tempo se desvaneceu o seu entusiasmo inicial.
E por isso te peço desculpa se te alimentei alguma esperança, com um reencontro que em muito teve de banal.
Fiquei a pensar como em tantas outras alturas do passado, no que tivemos. Foi especial sim, mas teve os seus momentos, o seu tempo, que já passou. E tenho percebido, que o que aconteceu entre nós não foi suficientemente forte, faltou sempre algo que nos completasse e por isso não consegui lutar mais por algo em que tu nunca fizeste muito por acreditar. Manter-te-ei sempre com o carinho que te devo, pela amizade que conseguiu resistir, mas...
E agora a dúvida sobre o que escrever, em relação a alguém que agora me parece tão estranhamente desconhecida.

Também tu me apoiaste e confiaste em mim nestes anos.

Quase os matava

Estava na urgência ontem à noite. Não pude assistir à surpresa que o meu irmão fez aos meus pais ao vir sem aviso prévio a Portugal este fim-de-semana! Quis fazer-nos uma surpresa a todos, mas astuto como sou e na "geminês" de tudo o que somos, descobri a tempo de não ser apanhado de sobreaviso e assim preparar em silêncio a sua vinda.
A minha mãe interrogava-se diariamente quando viria, o meu pai ocultava nesse seu ar de insensibilidade uma vontade de o ver proximamente, e por isso choraram de uma alegria de o voltar a ver! E esperei o momento em que viria um deles ter à urgência, em choque com tanta emoção, momento que felizmente não chegou a acontecer...

E agora que veio, para nos fazer companhia neste fim-de-semana, e sobretudo para vir cortar o cabelo, poupar 3 euros e comer a boa comida portuguesa da mamã, vou ficar toda a noite a falar com ele, a não o deixar dormir, a não dormir eu próprio mesmo após uma longa noite de trabalho, para nos contarmos tudo o que pelo telefone parece estranho falar.

És muito maluco! Mas adoramos-te assim!

sábado, fevereiro 23, 2008

20 anos de «para o ano é que é»

Não imaginava enquanto utente, e pouco assíduo, que o hospital de Viseu estivesse a rebentar pelas costuras no número de internamentos.
O número total de camas para internamento em Medicina e distribuídas por dois serviços é de cerca 120 camas. No entanto, em todo o hospital haverá sensivelmente mais entre 60 a 100 doentes sob a alçada da Medicina Interna. Como se explica este fenómeno?
Há já cerca de 20 anos que o hospital padece desta doença que incessantemente teimam em não querer curar. Desde essa altura, outros serviços disponibilizam parte das suas camas para a Medicina Interna. Ora isto acontece, não só porque há grande número de doentes idosos, com múltipla patologia, mas também porque estas especialidades pedem, empurram doentes para serem vistos por um médico, pela sua complexidade, dúvida no diagnóstico ou por uma sem razão. Chega-se ao ridículo de estar um colega de uma especialidade cirúrgica em plena enfermaria e chamar por um médico numa emergência.

E se tudo isto não fosse estranho, basta dizer que o novo hospital de Viseu, cheio de condições, ainda novo mesmo para os parâmetros actuais, tem apenas 10 anos. Onde estavam os actores de há 20 anos atrás, quando estes problemas se começaram a colocar? Onde estão esses mesmo actores, agora que a situação se perpetuou? Há muito que se fala em aumentar o hospital, de facto ele foi construído com essa mesma intenção, de crescer... Mas a realidade é outra. 10, 20 anos depois a situação mantém-se, correndo-se o risco, sempre presente mas continuamente contrariado por cada um dos profissionais, em não se perder a qualidade de prestação de serviços no meio desta confusão que é tornar todo o hospital de Viseu de uma só especialidade.
Infelizmente, as sucessivas administrações vêem a Medicina Interna como não lucrativa à luz dos parâmetros dos actuais hospitais-empresa, optando sim pela área cirúrgica do doente são, que vê rapidamente e em poucos dias o seu problema resolvido, com maior retorno financeiro por parte do accionista maioritário, o estado, que descura cada vez mais as verdadeiras necessidades de uma população envelhecida, com multipatologia e que necessita por isso de uma abordagem multidisciplinar, de uma abordagem do todo que é o indivíduo doente.

É urgente uma cura. Será este ano?

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Ajustamento

Para toda a alteração feita, há sempre uma reacção de ajustamento, para a qual cada um de nós se adapta a essa nova realidade, através de mecanismos inconscientes da personalidade.
É que o se tem passado comigo. Nestes dias que passaram, tenho-me tentado adaptar à nova vida em que estou, ao novo local de trabalho, a novos métodos e abordagens. E os primeiros dias foram mesmo de uma grande ansiedade, por me sentir desorientado, perdido e não pouco frequentes são as comparações com o passado não muito distante. Mas ainda assim, tenho tentado sobreviver a tudo isso, assimilando rapidamente o que de novo tenho adquirido, para ser mais fácil seguir de novo com confiança neste novo caminho que percorro.

"Para cada acção há sempre uma reacção oposta e de igual intensidade."
Terceira lei de Newton

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Vanitas vanitatum et omnia vanita

Que aspecto estranho têm as pessoas que trabalham no hospital de Viseu. Andam como se não houvesse pedras na calçada, de nariz bem levantado, sem receio de tropeçar em algo maior que a sua miserável existência.
Não gostei da primeira impressão, e espero que seja isso mesmo, uma primeira impressão, excepções a uma qualquer regra de humildade e realismo de não se ser maior que qualquer outra pessoa, não se ser maior que os doentes que vemos diariamente, que o padeiro que todos os dias lhes faz o pão ou o agricultor que o faz crescer.
Somos todos fundamentais e importantes, e de nada serve andar-se todo emproado, de rabo a abanar, só porque se trabalha num local onde pessoas procuram com angústia ajuda de pessoas como elas e não de semi-Deuses que desejavam ainda assim ter domínio sobre essas almas.

Fiquei triste ao não me rever numa abordagem assim, à profissão, à vida.

Tudo é vaidade.