Quantos de nós não temos vidas duplas. Uma que mostramos para a sociedade e outra que guardamos na nossa intimidade. Quantas vezes os olhos dos outros não veem em nós somente a ilusão do que somos verdadeiramente. A vida aparentemente glamorosa, cheia de emoção e harmonia, mas por detrás se esconde uma vida de luta, trabalho árduo e tantos momentos de desilusão que nos obrigam a fazer um sem número de proezas, para conquistar um pedaço de felicidade.
Como se em nós houvesse esse stunt double, como no cinema, sempre pronto a fazer a parte perigosa da nossa vida, aquela em que nós não nos dispomos a arriscar, com medo de falhar e nos perdermos na derrota dos desafios da vida.
No entanto e tantas vezes, ficamos sem saber quem está a viver a vida por nós, se nós mesmos, ou essa personagem pouco real. Se não é o nosso duplo a viver a vida comum, rotineira, sem emoção, ou se é o nosso eu, próprio e individual a viver a vida de risco, a lutar contra o medo, iludido que está de ter a segurança desse duplo que arrisca tudo por nós.
Estou confuso. Numa confusão que não está a conseguir distinguir a ilusão da realidade. Numa luta interior entre o que está certo ou errado, entre o que é sentimento ou desejo. Entre o que é comum ou extraordinário.
O que acontece quando após a emoção inicial se entra na rotina? Deixar-nos-emos substituir pelo que são os actos aventurosos do nosso duplo ou pelo conforto tranquilo do nosso eu, pacato e insalubre?
Preciso tanto de serenidade. Essa que limpa e clarifica todos os pensamentos mais superficiais e imediatos, para que consiga ouvir a interioridade que há em mim, sem juízos, decisões pré-concebidas ou valores enraizados nessas areias movediças que dão uma falsa sensação de estabilidade.
Preciso desse tempo que é tão escasso, mas que quero aproveitar para me sentir, me refletir e me decidir sobre o que me cura e eleva.
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