segunda-feira, dezembro 16, 2024

Momento inspirador

Podia recordar os momentos em que decidi que queria ser médico, fruto do exemplo de um médico amigo da família, que via na sua entrega e dedicação. Podia até recordar o meu terceiro ano do curso de Medicina em que tive a certeza que queria ser Internista.
Mas vou recordar esse momento de tamanha simplicidade, que em mim se tornou de uma grandeza inexplicável, em que tive de facto a certeza que esta era a vida que queria para mim.

Corria o ano de 2009 e numa daquelas urgências de hospital, em que tudo parece um caos, estava a começar de observar uma doente que vinha em cadeira de rodas. Aparentemente estável nas suas queixas, com um certo tempo para fazer uma boa recolha de história clínica, eis que toca esse som, tal sinal de iminente ataque aéreo, da sala de emergência. Peço permissão de forma rápida à doente, para ir acorrer à emergência e saio de imediato e de imediato chego à sala de emergência. Já não me recordo da situação que era, mas recordo que ainda me demoro cerca de uma hora de volta do doente emergente. Assim que ficou estável, veio-me à memória que tinha deixado uma doente pendente de observação e orientação no gabinete médico.
E eis que tudo se parece transfigurar
Ao voltar para junto desta doente, peço desculpa pela espera em que a deixei e tento sucintamente explicar o que tinha ido fazer, em sair para dar apoio e estabilização a um outro doente com situação mais premente de resolução.
E em vez de uma resposta, que seria perfeitamente aceitável de desagrado, ouço um "Sr Dr, nunca se arrependa de fazer o bem!".
Fiquei sem palavras e sem reacção. Como se aquelas palavras tivessem vindo, não daquela doente, mas de um anjo inspirador e protector que nos guia e protege.
Tive nesse momento a certeza de que era estar ao serviço do outro que seria feliz e me sentiria realizado, a tentar sempre fazer o melhor, fazer o bem.

E nos últimos tempos, tenho-me questionado se me tenho cumprido. Se estou a fazer o melhor pelos doentes e pela Medicina. E talvez também por isto, me decidi em voltar a "casa", para fazer cumprir este meu desígnio.

Nos últimos tempos, vi o sol começar a escurecer e senti aquele vento de Inverno a soprar mais frio. Comecei a ver o brilho desaparecer e as paredes em mim a não aguentar mais e a transformarem-se em escombros, como se tivesse perdido tudo o que é verdadeiro, e que me levou a querer estar de volta.
De agora em diante, os meus olhos não ficarão mais cegos pelas luzes do protagonismo. Convivi com estrelas, políticos elogiaram o meu nome, mas esses eram sonhos de outra pessoa que criaram em mim armadilhas e me transformaram num homem que não queria ser. De agora em diante, o que esperou por amanhã, começa hoje. Que essa promessa feita em mim, hoje recomece, como um grito no meu coração. E votarei para casa, outra vez!


Voltarei para voltar a ser feliz!

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