Quem está hoje por detrás da tela, não é o romântico incurável Sebastião da Graça, nem o ferido de morte Rodrigo Pais. É a
pessoa real, que hoje não se pretende esconder por detrás dos pseudónimos ou personagens fictícias que alimentam de palavras este blog, que mais não é que um local de reflexão e exposição para o eu próprio das lutas, dilemas, alegrias, tristezas e das vivências diárias.
E hoje, decidi falar comigo sobre relacionamentos. Sobre esse tema que aparentemente faz de nós peritos no amor, mas que no fundo percebemos que de peritos nada temos e nada somos.
Certamente todos nós já experimentámos a doçura do contacto inicial com alguém com o qual estabelecemos a determinado momento um relacionamento. Fosse mais sério e duradouro, ou mais fugaz e intenso. A sensação que o início da caminhada nos dá, de uma certa certeza, que o caminho por entre esse campo semeado de rosas de cores vibrantes, será fácil e preenchido só de alegria, esquecendo tantas vezes os espinhos que tão belas flores têm e que nos fazem lembrar das dificuldades na colheita. Como é intensa a sensação de sermos seres quase divinos, apaixonados e atraídos pela outra pessoa, seja pelas suas características físicas, emocionais ou intelectuais, e que nos faz esquecer tudo o que de menos agradável possa parecer ou obstáculos que possam surgir. Esse encantamento de uma perfeição que se encontrou, tal achado de um tesouro único escondido a aguardar ser descoberto por nós.
E depois? Como é o relacionamento ou longo do tempo?
Não é incomum nos dias que correm as relações terminarem de forma mais ou menos abrupta. É sabido que mesmo no casamento, mais de 70% acaba em divórcio. Fruto da desilusão de uma realidade ignorada, de um desencanto do outro, de tantas circunstâncias que outrora não se tinha tido percepção. E mesmo nos outros quase 30%, como será vivido o amor restante, que fica após a vibração inicial que pode ser menos duradoura de meses, poucos anos, ou mais longa de 20, 40 anos? Será um amor verdadeiro, real, ou um espectro do que foi e somente é sustentado pelo medo de perda e solidão?
Mas e para esses casais que parece que o amor nunca acaba? Não os que alimentam a ilusão aparente de um amor infinito, mas esses poucos, de certo muito poucos, que conseguem manter a paixão, como na centelha do momento inicial. O que os faz permanecer no amor, mesmo após tomarem a percepção das imperfeições do outro, seja por algo muitas vezes tão pesaroso ou outras vezes mais insignificante, mas que ainda assim não esmorece a vontade de estar e ficar, tentando recuperar a cada dia e a cada momento um relacionamento que vai ficando mais débil, como o corpo que envelhece e fica mais frágil.
O que os faz permanecer?
Na minha opinião é essa dimensão do relacionamento que não depende de nós. Não é um factor que possamos dominar, controlar ou escolher. Que é externa a nós, mas que nos orienta e guia. Essa dimensão espiritual que só encontramos talvez uma única vez na vida e nos que dá a visão de um destino e desígnio prévio. E que por tantas vezes não termos a certeza de a ter encontrado, continuamos à procura incessantemente, casando e descasando, juntando a afastando, mesmo numa união longa.
Podemos perder força na atração física, desilusão da dimensão emocional, mas se houver essa espiritualidade que une os dois elementos, será muito difícil romper o laço.
É no que acredito, porque é o que sinto.
Mesmo nos momentos de desilusão mútua, de um quase esquecer da união assumida, dessa incerteza da certeza que se tem, é nessa força de que aquilo que nos une é maior do que tudo o que nos possa afastar.
Podemos facilmente pensar que a pessoa certa, surge do momento certo e que em circunstâncias diversas, a pessoa certa poderia ser, em um outro momento, outra. É essa dúvida que continuamente nos assola de estarmos à procura do todo que nos completa e que quando encontramos deixamos a incerteza dos relacionamentos prévios.
Haverá momentos de dúvida, de insegurança, que nos farão falhar o compromisso. É certo que sim. Mas mesmo aí a grandeza do amor, torna essa união mais forte e menos frágil. Não será o medo da solidão ou abandono que nos dominará, mas sim uma intenção de continuar a lutar por essa pessoa que acreditamos ser única para nós, com todos os seus defeitos que acabámos por amar mais que as virtudes que possui. E nessas conquistas diárias de um relacionamento que se renova está a resposta para eliminar as incertezas que vão surgindo ao longo do tempo.
"Ama-me quando menos mereço, porque é quando mais preciso"
Mario Quintana