quarta-feira, dezembro 25, 2024

De luto

Faleceu recentemente um dos meus tios. Um dos mais próximos e queridos da nossa família nuclear. O que me fez refletir sobre o fim. A finitude de tudo. O fim da vida, o fim de relacionamentos, o fim de fases de vida que agarramos com força como à própria vida e que por vezes, morrem de forma precoce, contrariando a ideia de imortalidade do projecto primordial.


O fim, como o luto que daí advém, torna-se um processo íntimo de introspecção em que nos revemos vezes sem conta a reviver o que poderíamos ter feito de forma diferente, para conservar a "vida" que naquele momento termina.

Que fizemos para impedir o trágico desfecho? Tentámos corrigir-nos, adaptarmo-nos à mudança inevitável e em marcha, ou tentámos acelerar o processo de morte, eutanasiando precocemente o fim?


E é culpa que sentimos. Remorso de não ter suspendido ou revertido o processo de degradação e morte. 

Ou alívio por ter cessado finalmente todo esse sofrimento que num fim mais ou menos anunciado vínhamos a sentir.

E no fim a solidão que nos espera, pela perda contínua e recorrente de tudo o que vivemos e deixámos morrer.


A morte é a dura realidade.

sábado, dezembro 21, 2024

1%

Ninguém tem 100% de certeza, seja do que for. Se a vida fosse estatística matemática, estaríamos continuamente a calcular probabilidades perante as várias opções, com as quais somos diariamente confrontados. Como se reduzíssemos as nossas decisões ao risco médio de se acertar no que está certo e errado.

E é essa possibilidade de erro, associado a um desvio padrão, que nos faz hesitar no assumir do que é o caminho mais certo para nós. Mesmo quando em todo o cálculo ou calculismo, temos uma certeza de 99% de estarmos certos, é esse insignificante 1% que passa a dominar toda a nossa vida. O medo do erro, da incerteza, de falhar, torna-se de uma dimensão tal, que não abafa a (o intervalo de) confiança de se estar certo. E vive-se obcecado por tentar abolir a dúvida que nos consome totalmente, nesse peso maior que tem 1 em relação ao mais leve 99.

"A média aritmética ponderada, conhecida também por média ponderada, é a média que leva em consideração o peso atribuído a cada um dos valores dos quais queremos calcular a média. Quanto maior o peso de determinado valor, maior será o impacto dele na média, tornando esses valores mais relevantes.
Para calcular a média ponderada de um conjunto de valores, calculamos o produto de cada valor pelo seu peso, somamos os produtos encontrados, e dividimos a soma pela soma dos pesos."

Ainda estamos a falar de estatística?

sexta-feira, dezembro 20, 2024

Ler nos olhos

Quando nos olham nos olhos, e nos conseguem ler na nossa interioridade. Sem filtros, mas sem magoar com essa verdade que continuamente queremos refutar.

quinta-feira, dezembro 19, 2024

Já não dói

Em que pessoa me tornei depois de tudo isto? Depois de todo esse sofrimento, em que tentei perceber as respostas, as vias de fuga ou caminho que teria que assumir após o que aconteceu.

Quem é a pessoa que agora parece mais fria e insensível, perante ti, o teu toque, as tuas palavras, que dizem me amar, mas com a cabeça continuamente noutra pessoa, numa interacção que parece ir mais além de um pecado da carne, mas que questiono se não será uma verdadeira união. Procuras respostas perante tudo isto, como se um momento de maior contacto te possa esclarecer ou dissipar todas as dúvidas.

E questiono-me, porque fiquei assim. 

Indiferente? Como se já não me fizesse dano nada disto. Nesse vazio de sentimentos que aparentemente sinto por ti. 

Liberdade? Como se assumisse que num amor maior que sinto, a entrega do corpo e alma, fosse por respeitar profundamente e amar essa tua autonomia.

E o que fica e ficará para mim? Uma falsa dependência cega de ti, ou permitires-me a mim também o gozo de uma liberdade de ficar só, ou encontrar um novo caminho de luz por entre a escuridão? Não são respostas imediatas que procuro, que sejam resultado de decisões pouco reflectidas, dessas que por tanto se ponderar, acabam por ficar vazias de conteúdo pelo resultado do comodismo e segurança que nos dão. Mas também nada ponderadas, pela precipitação de uma chama intensa, que rapidamente se possa extinguir.

Só sei que já não dói. Há em mim uma maturidade que consegue definir agora com clareza o que pretende e que se sente sereno das decisões que o futuro possa trazer. Não é fuga de ti, que amo, mas sim essa liberdade que te dou para decidires o bem que queres para ti e ficar feliz pela tua felicidade.


Quero que sejas acima de tudo Feliz.


segunda-feira, dezembro 16, 2024

Momento inspirador

Podia recordar os momentos em que decidi que queria ser médico, fruto do exemplo de um médico amigo da família, que via na sua entrega e dedicação. Podia até recordar o meu terceiro ano do curso de Medicina em que tive a certeza que queria ser Internista.
Mas vou recordar esse momento de tamanha simplicidade, que em mim se tornou de uma grandeza inexplicável, em que tive de facto a certeza que esta era a vida que queria para mim.

Corria o ano de 2009 e numa daquelas urgências de hospital, em que tudo parece um caos, estava a começar de observar uma doente que vinha em cadeira de rodas. Aparentemente estável nas suas queixas, com um certo tempo para fazer uma boa recolha de história clínica, eis que toca esse som, tal sinal de iminente ataque aéreo, da sala de emergência. Peço permissão de forma rápida à doente, para ir acorrer à emergência e saio de imediato e de imediato chego à sala de emergência. Já não me recordo da situação que era, mas recordo que ainda me demoro cerca de uma hora de volta do doente emergente. Assim que ficou estável, veio-me à memória que tinha deixado uma doente pendente de observação e orientação no gabinete médico.
E eis que tudo se parece transfigurar
Ao voltar para junto desta doente, peço desculpa pela espera em que a deixei e tento sucintamente explicar o que tinha ido fazer, em sair para dar apoio e estabilização a um outro doente com situação mais premente de resolução.
E em vez de uma resposta, que seria perfeitamente aceitável de desagrado, ouço um "Sr Dr, nunca se arrependa de fazer o bem!".
Fiquei sem palavras e sem reacção. Como se aquelas palavras tivessem vindo, não daquela doente, mas de um anjo inspirador e protector que nos guia e protege.
Tive nesse momento a certeza de que era estar ao serviço do outro que seria feliz e me sentiria realizado, a tentar sempre fazer o melhor, fazer o bem.

E nos últimos tempos, tenho-me questionado se me tenho cumprido. Se estou a fazer o melhor pelos doentes e pela Medicina. E talvez também por isto, me decidi em voltar a "casa", para fazer cumprir este meu desígnio.

Nos últimos tempos, vi o sol começar a escurecer e senti aquele vento de Inverno a soprar mais frio. Comecei a ver o brilho desaparecer e as paredes em mim a não aguentar mais e a transformarem-se em escombros, como se tivesse perdido tudo o que é verdadeiro, e que me levou a querer estar de volta.
De agora em diante, os meus olhos não ficarão mais cegos pelas luzes do protagonismo. Convivi com estrelas, políticos elogiaram o meu nome, mas esses eram sonhos de outra pessoa que criaram em mim armadilhas e me transformaram num homem que não queria ser. De agora em diante, o que esperou por amanhã, começa hoje. Que essa promessa feita em mim, hoje recomece, como um grito no meu coração. E votarei para casa, outra vez!


Voltarei para voltar a ser feliz!

sábado, dezembro 14, 2024

I don't know who i am

I am not a stranger to the dark

"Hide away, " they say

"'Cause we don't want your broken parts"

I've learned to be ashamed of all my scars

"Run away, " they say

"No one'll love you as you are"


But I won't let them break me down to dust

I know that there's a place for us

For we are glorious


When the sharpest words wanna cut me down

I'm gonna send a flood, gonna drown 'em out

I am brave, I am bruised

I am who I'm meant to be, this is me

Look out 'cause here I come

And I'm marching on to the beat I drum

I'm not scared to be seen

I make no apologies, this is me

"This is me"
The Greatest Showman

sexta-feira, dezembro 13, 2024

O que há a perder?

Será que existe vida sem sofrimento?
Porque é que nos é permitido vislumbrar um pedaço de uma vida plena, feliz, para no momento a seguir, tudo se desvanecer nesse nevoeiro cerrado de um futuro que aparentando risonho, se torna num pesadelo de solidão e angústia?
Porque é que a cada momento nos deparamos com momentos que deitam por terra todas as nossas ambições, aspirações, paixões?
Porque é que nos tornamos prisioneiros de nós próprios, com medo de perder o pouco que temos como garantido, sacrificando tantas vezes o muito que nos poderia ser dado?

Pela estupidez humana do qual todos, ou quase todos, padecemos. Perante a pequena luz que nos é mostrada, acabamos por permanecer nas trevas da nossa pequenez e de uma segurança inexistente, com receio de ficarmos deslumbrados pela luminosidade de uma vida preenchida.
Não há forma de não sofrer e de não fazer sofrer. É ciência pura, factos irrefutáveis, incapazes de serem contrariados. Para cada acção, há invariavelmente uma reacção. E essa reacção terá impacto de volta ou sobre um outro objecto, contrariando a inércia da vida. Tornamo-nos incapazes de tomar decisões racionais, ou mesmo irracionais, pelo medo de sofrer e fazer sofrer ainda mais, sobretudo quem é inocente, apanhado que é no fogo cruzado das nossas acções e suas consequências.

Desculpa se te faço sofrer. Não era minha intenção. Só queria mostrar-te a grandeza da luz que existe em ti, capaz de iluminar a vida dos outros. Capaz de fazer renascer um desejo de vida maior, melhor, do que aquela que no sofrimento escolhemos para nós, nesse masoquismo pouco saudável que acabámos por abraçar. E nesse processo, deixei de saber quem sou e porque me tornei nesse ser humano repugnante, que já não consigo identificar como parte de mim.


O que há a perder? Nada. Tudo...

terça-feira, dezembro 10, 2024

Ensaio sobre o "princípio de incerteza"

Quem está hoje por detrás da tela, não é o romântico incurável Sebastião da Graça, nem o ferido de morte Rodrigo Pais. É a pessoa real, que hoje não se pretende esconder por detrás dos pseudónimos ou personagens fictícias que alimentam de palavras este blog, que mais não é que um local de reflexão e exposição para o eu próprio das lutas, dilemas, alegrias, tristezas e das vivências diárias.

E hoje, decidi falar comigo sobre relacionamentos. Sobre esse tema que aparentemente faz de nós peritos no amor, mas que no fundo percebemos que de peritos nada temos e nada somos. 
Certamente todos nós já experimentámos a doçura do contacto inicial com alguém com o qual estabelecemos a determinado momento um relacionamento. Fosse mais sério e duradouro, ou mais fugaz e intenso. A sensação que o início da caminhada nos dá, de uma certa certeza, que o caminho por entre esse campo semeado de rosas de cores vibrantes, será fácil e preenchido só de alegria, esquecendo tantas vezes os espinhos que tão belas flores têm e que nos fazem lembrar das dificuldades na colheita. Como é intensa a sensação de sermos seres quase divinos, apaixonados e atraídos pela outra pessoa, seja pelas suas características físicas, emocionais ou intelectuais, e que nos faz esquecer tudo o que de menos agradável possa parecer ou obstáculos que possam surgir. Esse encantamento de uma perfeição que se encontrou, tal achado de um tesouro único escondido a aguardar ser descoberto por nós.

E depois? Como é o relacionamento ou longo do tempo?
Não é incomum nos dias que correm as relações terminarem de forma mais ou menos abrupta. É sabido que mesmo no casamento, mais de 70% acaba em divórcio. Fruto da desilusão de uma realidade ignorada, de um desencanto do outro, de tantas circunstâncias que outrora não se tinha tido percepção. E mesmo nos outros quase 30%, como será vivido o amor restante, que fica após a vibração inicial que pode ser menos duradoura de meses, poucos anos, ou mais longa de 20, 40 anos? Será um amor verdadeiro, real, ou um espectro do que foi e somente é sustentado pelo medo de perda e solidão?

Mas e para esses casais que parece que o amor nunca acaba? Não os que alimentam a ilusão aparente de um amor infinito, mas esses poucos, de certo muito poucos, que conseguem manter a paixão, como na centelha do momento inicial. O que os faz permanecer no amor, mesmo após tomarem a percepção das imperfeições do outro, seja por algo muitas vezes tão pesaroso ou outras vezes mais insignificante, mas que ainda assim não esmorece a vontade de estar e ficar, tentando recuperar a cada dia e a cada momento um relacionamento que vai ficando mais débil, como o corpo que envelhece e fica mais frágil.

O que os faz permanecer?
Na minha opinião é essa dimensão do relacionamento que não depende de nós. Não é um factor que possamos dominar, controlar ou escolher. Que é externa a nós, mas que nos orienta e guia. Essa dimensão espiritual que só encontramos talvez uma única vez na vida e nos que dá a visão de um destino e desígnio prévio. E que por tantas vezes não termos a certeza de a ter encontrado, continuamos à procura incessantemente, casando e descasando, juntando a afastando, mesmo numa união longa. 
Podemos perder força na atração física, desilusão da dimensão emocional, mas se houver essa espiritualidade que une os dois elementos, será muito difícil romper o laço.
É no que acredito, porque é o que sinto.
Mesmo nos momentos de desilusão mútua, de um quase esquecer da união assumida, dessa incerteza da certeza que se tem, é nessa força de que aquilo que nos une é maior do que tudo o que nos possa afastar.

Podemos facilmente pensar que a pessoa certa, surge do momento certo e que em circunstâncias diversas, a pessoa certa poderia ser, em um outro momento, outra. É essa dúvida que continuamente nos assola de estarmos à procura do todo que nos completa e que quando encontramos deixamos a incerteza dos relacionamentos prévios.
Haverá momentos de dúvida, de insegurança, que nos farão falhar o compromisso. É certo que sim. Mas mesmo aí a grandeza do amor, torna essa união mais forte e menos frágil. Não será o medo da solidão ou abandono que nos dominará, mas sim uma intenção de continuar a lutar por essa pessoa que acreditamos ser única para nós, com todos os seus defeitos que acabámos por amar mais que as virtudes que possui. E nessas conquistas diárias de um relacionamento que se renova está a resposta para eliminar as incertezas que vão surgindo ao longo do tempo.

"Ama-me quando menos mereço, porque é quando mais preciso"
Mario Quintana

domingo, dezembro 08, 2024

O duplo

Quantos de nós não temos vidas duplas. Uma que mostramos para a sociedade e outra que guardamos na nossa intimidade. Quantas vezes os olhos dos outros não veem em nós somente a ilusão do que somos verdadeiramente. A vida aparentemente glamorosa, cheia de emoção e harmonia, mas por detrás se esconde uma vida de luta, trabalho árduo e tantos momentos de desilusão que nos obrigam a fazer um sem número de proezas, para conquistar um pedaço de felicidade.

Como se em nós houvesse esse stunt double, como no cinema, sempre pronto a fazer a parte perigosa da nossa vida, aquela em que nós não nos dispomos a arriscar, com medo de falhar e nos perdermos na derrota dos desafios da vida.

No entanto e tantas vezes, ficamos sem saber quem está a viver a vida por nós, se nós mesmos, ou essa personagem pouco real. Se não é o nosso duplo a viver a vida comum, rotineira, sem emoção, ou se é o nosso eu, próprio e individual a viver a vida de risco, a lutar contra o medo, iludido que está de ter a segurança desse duplo que arrisca tudo por nós.

Estou confuso. Numa confusão que não está a conseguir distinguir a ilusão da realidade. Numa luta interior entre o que está certo ou errado, entre o que é sentimento ou desejo. Entre o que é comum ou extraordinário.

O que acontece quando após a emoção inicial se entra na rotina? Deixar-nos-emos substituir pelo que são os actos aventurosos do nosso duplo ou pelo conforto tranquilo do nosso eu, pacato e insalubre?

Preciso tanto de serenidade. Essa que limpa e clarifica todos os pensamentos mais superficiais e imediatos, para que consiga ouvir a interioridade que há em mim, sem juízos, decisões pré-concebidas ou valores enraizados nessas areias movediças que dão uma falsa sensação de estabilidade.

Preciso desse tempo que é tão escasso, mas que quero aproveitar para me sentir, me refletir e me decidir sobre o que me cura e eleva.

"Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
Alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste"
Desfado, Ana Moura


sábado, dezembro 07, 2024

Cinderela

"Sou a Cinderela antes de conhecer o príncipe..."


Eles são duas crianças a viver esperanças, a saber sorrir

Ela tem cabelos louros, ele tem tesouros para repartir
Numa outra brincadeira passam mesmo à beira, sempre sem falar
Uns olhares envergonhados e são namorados sem ninguém pensar

Foram juntos outro dia, como por magia, no autocarro, em pé
Ele lá lhe disse, a medo: O meu nome é Pedro e o teu qual é?
Ela corou um pouquinho e respondeu baixinho: Sou a Cinderela
Quando a noite o envolveu ele adormeceu e sonhou com ela

Então
Bate, bate coração!
Louco, louco de ilusão!
A idade assim não tem valor
Crescer
Vai dar tempo p'ra aprender
Vai dar jeito p'ra viver
O teu primeiro amor

Cinderela das histórias, a avivar memórias, a deixar mistério
Já o fez andar na lua, no meio da rua e a chover a sério
Ela, quando lá o viu, encharcado e frio, quase o abraçou
Com a cara assim molhada, ninguém deu por nada, ele até chorou

Então
Bate, bate coração!
Louco, louco de ilusão!
A idade assim não tem valor
Crescer
Vai dar tempo p'ra aprender
Vai dar jeito p'ra viver
O teu primeiro amor

E agora, nos recreios, dão os seus passeios, fazem muitos planos
E dividem a merenda, tal como uma prenda que se dá nos anos
E, num desses bons momentos, houve sentimentos a falar por si
Ele pegou na mão dela: Sabes Cinderela, eu gosto de ti

Então
Bate, bate coração!
Louco, louco de ilusão!
A idade assim não tem valor
Crescer
Vai dar tempo p'ra aprender
Vai dar jeito p'ra viver
O teu primeiro amor

Cinderela

Então
Bate, bate coração!
Louco, louco de ilusão!
A idade assim não tem valor
Crescer
Vai dar tempo p'ra aprender
Vai dar jeito p'ra viver
O teu primeiro amor

Então bate bate coração

Cinderela, Carlos Paião, médico