A expressão não é minha. Foi retirada das palavras de um colega, na última reunião nacional da AMCP. Mas fez-me reflectir sobre alguns dos motivos pelos quais tomei uma das decisões mais disruptivas da minha vida recente. Deixar o conforto e qualidade de vida que tinha nos últimos anos, para reassumir o que eu julgo ser um espírito de missão maior, que se estava a desvanecer na minha profissão, naquela que assumi como minha vida para os outros.
O que é a Medicina senão uma entrega e serviço ao outro, ao doente que nos procura, num momento de maior sofrimento, ao pedir ajuda. E a atitude não deve ser de superioridade, de domínio sobre o doente e a doença, mas de humildade e empatia para que em conjunto se possa providenciar o melhor tratamento e cura, objectivo final, nem sempre fácil de atingir.
E nos últimos anos, via-me num enredo de discursos vãos e enganadores de foco no doente, como se de um pleonasmo se tratasse, como daquelas vezes em que a nossa voz interior nos quer convencer que estamos a fazer o correcto, mas temos perfeita noção que não, ainda que recorrentemente tentemos convencermo-nos que sim. Seria como se na porta de um talho estivesse escrito, o nosso foco é a sua carne. Que mais poderia ser?
Mas o que é então o foco no doente?
Quando verdadeiramente nos centramos no doente, no que ele tem para nos dizer, as suas preocupações a suas tão profundas angústias na doença, e nós com sentido de entrega nos dispomos a ouvir atentamente, podemos dispensar tantas vezes o que é supérfluo e acessório. Sem necessidade de entrar em processos dispendiosos, prolongados e por vezes dolorosos de obtenção de respostas, quando era na escuta atenta do doente, na obtenção dessa história própria que se encontravam as respostas às dúvidas originais.
Mas tornou-se mais fácil, ignorar a pessoa, cerrar os ouvidos, fechar os olhos e perder o sentido de tacto, e pedir ad initio um sem números de exames e procedimentos na tentativa de um método mais simplificado de obtenção de soluções, nem sempre em benefício do doente.
"...fá-lo-ei só para a utilidade dos doentes, abstendo-me de todo o mal voluntário e de toda voluntária maleficência e de qualquer outra acção corruptora..."
in Juramento de Hipócrates
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