Várias vezes abordei o tema dos cuidados paliativos. É uma área onde tenho muito a palmilhar. E são os doentes que mais nos ensinam, sobre a doença e sobretudo sobre a vida.
Eis o caso do João. O João é um Homem, à qual a vida parecia desde o início ser madrasta, não fosse o João ter uma paralisia cerebral que o debilitou muito desde nascença. De tal maneira que este Homem, parece um pequeno menino e facilmente caímos no desleixo de o tratar como tal. Mas de menino não tem nada. O João, mesmo com as suas limitações inerentes à doença, conseguiu, de certo com enorme luta, licenciar-se, ter um trabalho e com um esforço titânico, vingar na vida. Sempre com o apoio incondicional e sempre presente da mãe.
Só por tudo isto, já seria uma vida digna de ser imortalizada. No entanto o João tinha muito mais para nos ensinar, a nós que pequenas insignificâncias nos parecem tantas vezes impossíveis de ultrapassar e que por isso ficamos com tantos lutos por resolver.
Aos 30 anos, o João, já malfadado desde o primeiro dia da sua vida, foi diagnosticado com uma neoplasia maligna do pulmão. Dessas tão graves que ao momento do diagnóstico se encontrava disseminada e que colocava sobre si um mau prognóstico a curto prazo.
E mesmo nesta doença terrível, o João na sua magnificência, arranjou mais um motivo de nos dar uma lição. No seio de uma família, já em certo sofrimento constante, em que esta notícia deve ter caído como o sentimento de uma desgraça sobre outra e que dificilmente se consegue entender tamanho infortúnio, o João mostrou de início uma enorme serenidade, uma aceitação do que aí viria.
E pergunto-me, eu que, não percebo nada de vida ou morte, que não tenho esta clarividência de aceitar o que parece devastador e transformar em momento enriquecedor, como pode alguém permanecer tão tranquilo com uma situação destas?
Será uma forma de altruísmo, uma forma de agradecimento à mãe? Não estou louco ou insensível. Ora vejamos. Estando a mãe a caminhar paulatinamente para uma idade mais avançada e com o desígnio da lei natural da vida, em que morrem primeiro os mais velhos, como seria a angústia desta mãe em deixar ao abandono, o seu companheiro filho de uma vida? Não que agora não sofra pela perda eminente. Mas a caridade com que o João "decidiu" partir primeiro, e de forma tão serena, aceitando o destino, torna-o ainda mais especial em ser recordado. Recordado não com a sua doença, mas pela vida que deu aos que o conheceram e partilharam a sua história. Pela forma como aceita os poucos dias que lhe restam e na certeza que ao partir ficará livre de todas as amarras que toda a vida o aprisionaram a um corpo inerte e que finalmente ganhará força para caminhar e voar, para sempre vigilante sobre esta família e mãe que tanto o acarinhou.
(Erich Fromm)
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