sábado, novembro 30, 2024
Foco
Silêncio que fala
Todos temos momentos na nossa vida em que ficamos totalmente desarmados, impotentes e não sabemos como falar ou agir. Em que é no silêncio das nossas palavras interiores que tentamos encontrar as respostas.
Nos últimos dias tenho estado no olho de uma tempestade, daquelas que fazem abanar os mais fortes alicerces da casa em que habitamos, nós próprios. Um turbilhão de pensamentos e discussões interiores, entre o ser seguro que pensava ser e o animal aparente irracional em que agora me vejo a mutar. E anseio por essa bonança que vem depois dos dias piores, para que na serenidade e afastado de qualquer sentimento mais impulsivo possa fazer juízo entre o que é realidade ou fruto da imaginação.
"- Fogo... tens noção do que me apetecia?
- Consigo facilmente imaginar."
Será que consigo mesmo imaginar? Não será porventura só o desejo que me domina? Como se dentro de mim houvesse esse sacana filho da puta, que se aproveita da fragilidade humana, das inseguranças e incertezas e que faz despertar um incerto sentimento de paixão, que mais não é que um frio sentimento de estar, sentir e viver, nessa forma estuporosa de existência.
Como seria bom que tudo fosse mais fácil falar. Que conseguíssemos calar o silêncio e falar abertamente e sem rodeios, sem querer ferir ou magoar.
No silêncio falei. Falei, como sempre, com quem está e sempre esteve a meu lado. Das minhas inseguranças e incertezas. Dessas que julguei tantas vezes já ter ultrapassado, no homem mais maduro em que pensei me ter tornado e que agora, se perdeu, nessa loucura de vida. Falei com a certeza que é em ti que encontro a minha felicidade, que vai além dos desgostos amargosos da vida, dos devaneios tempestuosos que nos arrasam e em que vemos necessidade de nos reconstruir.
sexta-feira, novembro 29, 2024
Thanksgiving
No momento em que se celebra nos Estados Unidos o dia de Acção de Graças, sempre na 4ª Quinta-feira do mês de Novembro, em que se recorda o agradecimento do ano de colheitas por parte dos peregrinos (daí a black friday de descontos nas colheitas!), eis chegado o momento de eu próprio dar graças.
Eu que me sinto um verdadeiro peregrino neste Mundo de constante procura do meu lugar, de uma verdade dificilmente alcançável, venho agradecer a colheita de boas experiências dos últimos 8 anos.
Como alguém muito recentemente dizia, é um ciclo que se completa, de bons e outros menos bons momentos, mas com uma felicidade e prazer de ver obra realizada e de orgulho por ter sido parte desta que senti tantas vezes minha família. E como é bom recordar as pessoas que fizeram parte destes bons momentos, que levamos connosco nessa estranha forma de nos sentirmos bem por nos partilharmos.
Sobre o futuro mais ou menos longínquo nada sei. Mas sinto-me optimista com a decisão que assumi e acredito veemente que a vida nos leva para onde temos que ir e estar a cada momento. Seja fado, destino ou desígnio, será sempre reconfortante saber que as pessoas que fizeram parte de nós, irão ficar bem, por se terem uns aos outros, sem perda da sua muito própria individualidade e que irei guardar para mim, nesse lugar especial, no coração.
quinta-feira, novembro 28, 2024
Presença silenciosa
As batalhas são minhas, o fardo é meu. Não me tentes consertar. Não carregues a minha dor por mim, nem afastes as sombras que me envolvem.
quarta-feira, novembro 27, 2024
Pandora
Com um impulso a abri...
Como fui capaz de o fazer? Tal como na mitologia grega, quando se lida com o fogo de Prometeu, eis que vem Pandora, a que tudo tira, abrir a sua caixa e espalhar no Mundo o desconhecido, que tantas vezes se pode transformar em desgraça.
O senhor seguro de tudo, confiante na sua capacidade de controlo, que aparentava uma enorme dignidade, cedeu. Abriu a porta de um caminho até aqui desconhecido e nebuloso que agora tem receio de trilhar.
"Honestly, what will become of me?
Don't like reality, it's way too clear to me
But really, life is dandy
We are what we don't see, miss everything daydreaming
...e perdi a perfeição.
terça-feira, novembro 26, 2024
Aceitação
Várias vezes abordei o tema dos cuidados paliativos. É uma área onde tenho muito a palmilhar. E são os doentes que mais nos ensinam, sobre a doença e sobretudo sobre a vida.
Eis o caso do João. O João é um Homem, à qual a vida parecia desde o início ser madrasta, não fosse o João ter uma paralisia cerebral que o debilitou muito desde nascença. De tal maneira que este Homem, parece um pequeno menino e facilmente caímos no desleixo de o tratar como tal. Mas de menino não tem nada. O João, mesmo com as suas limitações inerentes à doença, conseguiu, de certo com enorme luta, licenciar-se, ter um trabalho e com um esforço titânico, vingar na vida. Sempre com o apoio incondicional e sempre presente da mãe.
Só por tudo isto, já seria uma vida digna de ser imortalizada. No entanto o João tinha muito mais para nos ensinar, a nós que pequenas insignificâncias nos parecem tantas vezes impossíveis de ultrapassar e que por isso ficamos com tantos lutos por resolver.
Aos 30 anos, o João, já malfadado desde o primeiro dia da sua vida, foi diagnosticado com uma neoplasia maligna do pulmão. Dessas tão graves que ao momento do diagnóstico se encontrava disseminada e que colocava sobre si um mau prognóstico a curto prazo.
E mesmo nesta doença terrível, o João na sua magnificência, arranjou mais um motivo de nos dar uma lição. No seio de uma família, já em certo sofrimento constante, em que esta notícia deve ter caído como o sentimento de uma desgraça sobre outra e que dificilmente se consegue entender tamanho infortúnio, o João mostrou de início uma enorme serenidade, uma aceitação do que aí viria.
E pergunto-me, eu que, não percebo nada de vida ou morte, que não tenho esta clarividência de aceitar o que parece devastador e transformar em momento enriquecedor, como pode alguém permanecer tão tranquilo com uma situação destas?
Será uma forma de altruísmo, uma forma de agradecimento à mãe? Não estou louco ou insensível. Ora vejamos. Estando a mãe a caminhar paulatinamente para uma idade mais avançada e com o desígnio da lei natural da vida, em que morrem primeiro os mais velhos, como seria a angústia desta mãe em deixar ao abandono, o seu companheiro filho de uma vida? Não que agora não sofra pela perda eminente. Mas a caridade com que o João "decidiu" partir primeiro, e de forma tão serena, aceitando o destino, torna-o ainda mais especial em ser recordado. Recordado não com a sua doença, mas pela vida que deu aos que o conheceram e partilharam a sua história. Pela forma como aceita os poucos dias que lhe restam e na certeza que ao partir ficará livre de todas as amarras que toda a vida o aprisionaram a um corpo inerte e que finalmente ganhará força para caminhar e voar, para sempre vigilante sobre esta família e mãe que tanto o acarinhou.
(Erich Fromm)
segunda-feira, novembro 25, 2024
Caravela
Quem está aí? Qual das múltiplas personalidades está hoje aqui a falar, para o mundo desconhecido de leitores, ou quem sabe, só para mim mesmo?
Nos últimos dias, reencontrei-me de novo aqui. Neste cantinho onde no passado de forma mais assídua vinha expurgar o que sentia, os muitos sonhos, desejos e pensamentos que me dominavam. Pois durante parte da minha vida, não tinha ninguém com quem me partilhar.
E o que me tem feito bem. Os sorrisos que já me arranquei, ao me reler, tantas vezes sem conseguir identificar-me. Quem escreveu isto? Já nem me recordava de tantas baboseiras com que me exprimia!
Mas também me esclareceu sobre o que é a vida, sobretudo aquela que partilhamos com os outros. A vida aparenta ser igual ao Mundo, ao globo terrestre, que de redondo ser, e se continuarmos a caminhar o suficiente, retornaremos ao mesmo local. Tal como caravela de Magalhães que ao dar a volta ao Mundo regressa às suas origens.
Assim parece ser comigo. Consigo identificar tanto do que no passado era e aspirava ser, com o que actualmente sinto em mim. As ânsias de loucura amorosa que me dominam, numa fácil transferência de palavras para um novo ser, como se no passado tivesse conseguido vislumbrar tão claramente o hoje futuro.
Sinto-me tão confuso. Que sentimento é este que, na agora certeza, já o vivi antes e que certamente já fez sofrer no passado e certamente irá fazer sofrer no presente e futuro.
Afaste-se de mim, quem não quer ficar dependente de um louco e os seus devaneios, tal explorador que rumava a locais desconhecidos na incerteza de poder não voltar. Que salte da caravela a tempo, para não arriscar afundar nessa tempestade que certamente irá fazer gorar a viagem começada e que ainda com esperança tem um final incerto.