sábado, novembro 30, 2024

Foco

"Na Medicina o foco é o doente. Tudo o que não for para o doente, pode ser outra coisa qualquer, mas não é Medicina?"

A expressão não é minha. Foi retirada das palavras de um colega, na última reunião nacional da AMCP. Mas fez-me reflectir sobre alguns dos motivos pelos quais tomei uma das decisões mais disruptivas da minha vida recente. Deixar o conforto e qualidade de vida que tinha nos últimos anos, para reassumir o que eu julgo ser um espírito de missão maior, que se estava a desvanecer na minha profissão, naquela que assumi como minha vida para os outros.
O que é a Medicina senão uma entrega e serviço ao outro, ao doente que nos procura, num momento de maior sofrimento, ao pedir ajuda. E a atitude não deve ser de superioridade, de domínio sobre o doente e a doença, mas de humildade e empatia para que em conjunto se possa providenciar o melhor tratamento e cura, objectivo final, nem sempre fácil de atingir.

E nos últimos anos, via-me num enredo de discursos vãos e enganadores de foco no doente, como se de um pleonasmo se tratasse, como daquelas vezes em que a nossa voz interior nos quer convencer que estamos a fazer o correcto, mas temos perfeita noção que não, ainda que recorrentemente tentemos convencermo-nos que sim. Seria como se na porta de um talho estivesse escrito, o nosso foco é a sua carne. Que mais poderia ser?

Mas o que é então o foco no doente?
Quando verdadeiramente nos centramos no doente, no que ele tem para nos dizer, as suas preocupações a suas tão profundas angústias na doença, e nós com sentido de entrega nos dispomos a ouvir atentamente, podemos dispensar tantas vezes o que é supérfluo e acessório. Sem necessidade de entrar em processos dispendiosos, prolongados e por vezes dolorosos de obtenção de respostas, quando era na escuta atenta do doente, na obtenção dessa história própria que se encontravam as respostas às dúvidas originais.
Mas tornou-se mais fácil, ignorar a pessoa, cerrar os ouvidos, fechar os olhos e perder o sentido de tacto, e pedir ad initio um sem números de exames e procedimentos na tentativa de um método mais simplificado de obtenção de soluções, nem sempre em benefício do doente.


"...fá-lo-ei só para a utilidade dos doentes, abstendo-me de todo o mal voluntário e de toda voluntária maleficência e de qualquer outra acção corruptora..."
in Juramento de Hipócrates

Silêncio que fala

Todos temos momentos na nossa vida em que ficamos totalmente desarmados, impotentes e não sabemos como falar ou agir. Em que é no silêncio das nossas palavras interiores que tentamos encontrar as respostas.

Nos últimos dias tenho estado no olho de uma tempestade, daquelas que fazem abanar os mais fortes alicerces da casa em que habitamos, nós próprios. Um turbilhão de pensamentos e discussões interiores, entre o ser seguro que pensava ser e o animal aparente irracional em que agora me vejo a mutar. E anseio por essa bonança que vem depois dos dias piores, para que na serenidade e afastado de qualquer sentimento mais impulsivo possa fazer juízo entre o que é realidade ou fruto da imaginação.

"- Fogo... tens noção do que me apetecia?

- Consigo facilmente imaginar."

Será que consigo mesmo imaginar? Não será porventura só o desejo que me domina? Como se dentro de mim houvesse esse sacana filho da puta, que se aproveita da fragilidade humana, das inseguranças e incertezas e que faz despertar um incerto sentimento de paixão, que mais não é que um frio sentimento de estar, sentir e viver, nessa forma estuporosa de existência.

Como seria bom que tudo fosse mais fácil falar. Que conseguíssemos calar o silêncio e falar abertamente e sem rodeios, sem querer ferir ou magoar.

No silêncio falei. Falei, como sempre, com quem está e sempre esteve a meu lado. Das minhas inseguranças e incertezas. Dessas que julguei tantas vezes já ter ultrapassado, no homem mais maduro em que pensei me ter tornado e que agora, se perdeu, nessa loucura de vida. Falei com a certeza que é em ti que encontro a minha felicidade, que vai além dos desgostos amargosos da vida, dos devaneios tempestuosos que nos arrasam e em que vemos necessidade de nos reconstruir.


És o meu porto de abrigo

sexta-feira, novembro 29, 2024

Thanksgiving

No momento em que se celebra nos Estados Unidos o dia de Acção de Graças, sempre na 4ª Quinta-feira do mês de Novembro, em que se recorda o agradecimento do ano de colheitas por parte dos peregrinos (daí a black friday de descontos nas colheitas!), eis chegado o momento de eu próprio dar graças.


Eu que me sinto um verdadeiro peregrino neste Mundo de constante procura do meu lugar, de uma verdade dificilmente alcançável, venho agradecer a colheita de boas experiências dos últimos 8 anos.

Como alguém muito recentemente dizia, é um ciclo que se completa, de bons e outros menos bons momentos, mas com uma felicidade e prazer de ver obra realizada e de orgulho por ter sido parte desta que senti tantas vezes minha família. E como é bom recordar as pessoas que fizeram parte destes bons momentos, que levamos connosco nessa estranha forma de nos sentirmos bem por nos partilharmos. 

Sobre o futuro mais ou menos longínquo nada sei. Mas sinto-me optimista com a decisão que assumi e acredito veemente que a vida nos leva para onde temos que ir e estar a cada momento. Seja fado, destino ou desígnio, será sempre reconfortante saber que as pessoas que fizeram parte de nós, irão ficar bem, por se terem uns aos outros, sem perda da sua muito própria individualidade e que irei guardar para mim, nesse lugar especial, no coração.


quinta-feira, novembro 28, 2024

Presença silenciosa


As batalhas são minhas, o fardo é meu. Não me tentes consertar. Não carregues a minha dor por mim, nem afastes as sombras que me envolvem. 
Apenas fica a meu lado, enquanto enfrento a tempestade que há em mim. Sê a mão firme que posso segurar quando sentir que estou a perder. A tua presença faz-me sentir que sou digno de amar, mesmo que em pedaços. Não precisas de ser a minha salvadora, mas tão só companheira.

Quando a noite parecer infinita, segura a minha mão até que o amanhecer chegue, para que com a tua luz me lembre da força que resta em mim. O teu suporte silencioso é a maior dádiva que me podias dar.
Não é o amor que me salva, mas é o amor que me fortalece. É ele que me ajuda a lembrar quem verdadeiramente sou, mesmo quando tudo em mim parece esquecido.

E seu eu perder nessa vida que nos esmaga, sei que estarás aqui comigo, não para me salvar, mas para seguir a meu lado, até que reencontre o caminho de volta.


"Sê essa presença silenciosa, um toque que fala mais do que palavras."

quarta-feira, novembro 27, 2024

Pandora

Com um impulso a abri... 


Como fui capaz de o fazer? Tal como na mitologia grega, quando se lida com o fogo de Prometeu, eis que vem Pandora, a que tudo tira, abrir a sua caixa e espalhar no Mundo o desconhecido, que tantas vezes se pode transformar em desgraça.

O senhor seguro de tudo, confiante na sua capacidade de controlo, que aparentava uma enorme dignidade, cedeu. Abriu a porta de um caminho até aqui desconhecido e nebuloso que agora tem receio de trilhar.


"Honestly, what will become of me?

Don't like reality, it's way too clear to me

But really, life is dandy

We are what we don't see, miss everything daydreaming

Flames to dust, lovers to friends
Why do all good things come to an end?"


...e perdi a perfeição.

terça-feira, novembro 26, 2024

Aceitação

Várias vezes abordei o tema dos cuidados paliativos. É uma área onde tenho muito a palmilhar. E são os doentes que mais nos ensinam, sobre a doença e sobretudo sobre a vida.

Eis o caso do João. O João é um Homem, à qual a vida parecia desde o início ser madrasta, não fosse o João ter uma paralisia cerebral que o debilitou muito desde nascença. De tal maneira que este Homem, parece um pequeno menino e facilmente caímos no desleixo de o tratar como tal. Mas de menino não tem nada. O João, mesmo com as suas limitações inerentes à doença, conseguiu, de certo com enorme luta, licenciar-se, ter um trabalho e com um esforço titânico, vingar na vida. Sempre com o apoio incondicional e sempre presente da mãe

Só por tudo isto, já seria uma vida digna de ser imortalizada. No entanto o João tinha muito mais para nos ensinar, a nós que pequenas insignificâncias nos parecem tantas vezes impossíveis de ultrapassar e que por isso ficamos com tantos lutos por resolver.

Aos 30 anos, o João, já malfadado desde o primeiro dia da sua vida, foi diagnosticado com uma neoplasia maligna do pulmão. Dessas tão graves que ao momento do diagnóstico se encontrava disseminada e que colocava sobre si um mau prognóstico a curto prazo.

E mesmo nesta doença terrível, o João na sua magnificência, arranjou mais um motivo de nos dar uma lição. No seio de uma família, já em certo sofrimento constante, em que esta notícia deve ter caído como o sentimento de uma desgraça sobre outra e que dificilmente se consegue entender tamanho infortúnio, o João mostrou de início uma enorme serenidade, uma aceitação do que aí viria. 

E pergunto-me, eu que, não percebo nada de vida ou morte, que não tenho esta clarividência de aceitar o que parece devastador e transformar em momento enriquecedor, como pode alguém permanecer tão tranquilo com uma situação destas?

Será uma forma de altruísmo, uma forma de agradecimento à mãe? Não estou louco ou insensível. Ora vejamos. Estando a mãe a caminhar paulatinamente para uma idade mais avançada e com o desígnio da lei natural da vida, em que morrem primeiro os mais velhos, como seria a angústia desta mãe em deixar ao abandono, o seu companheiro filho de uma vida? Não que agora não sofra pela perda eminente. Mas a caridade com que o João "decidiu" partir primeiro, e de forma tão serena, aceitando o destino, torna-o ainda mais especial em ser recordado. Recordado não com a sua doença, mas pela vida que deu aos que o conheceram e partilharam a sua história. Pela forma como aceita os poucos dias que lhe restam e na certeza que ao partir ficará livre de todas as amarras que toda a vida o aprisionaram a um corpo inerte e que finalmente ganhará força para caminhar e voar, para sempre vigilante sobre esta família e mãe que tanto o acarinhou.


A felicidade é a aceitação corajosa da vida. 

(Erich Fromm) 



segunda-feira, novembro 25, 2024

Caravela

 Quem está aí? Qual das múltiplas personalidades está hoje aqui a falar, para o mundo desconhecido de leitores, ou quem sabe, só para mim mesmo?

Nos últimos dias, reencontrei-me de novo aqui. Neste cantinho onde no passado de forma mais assídua vinha expurgar o que sentia, os muitos sonhos, desejos e pensamentos que me dominavam. Pois durante parte da minha vida, não tinha ninguém com quem me partilhar.

E o que me tem feito bem. Os sorrisos que já me arranquei, ao me reler, tantas vezes sem conseguir identificar-me. Quem escreveu isto? Já nem me recordava de tantas baboseiras com que me exprimia!


Mas também me esclareceu sobre o que é a vida, sobretudo aquela que partilhamos com os outros. A vida aparenta ser igual ao Mundo, ao globo terrestre, que de redondo ser, e se continuarmos a caminhar o suficiente, retornaremos ao mesmo local. Tal como caravela de Magalhães que ao dar a volta ao Mundo regressa às suas origens.

Assim parece ser comigo. Consigo identificar tanto do que no passado era e aspirava ser, com o que actualmente sinto em mim. As ânsias de loucura amorosa que me dominam, numa fácil transferência de palavras para um novo ser, como se no passado tivesse conseguido vislumbrar tão claramente o hoje futuro.

Sinto-me tão confuso. Que sentimento é este que, na agora certeza, já o vivi antes e que certamente já fez sofrer no passado e certamente irá fazer sofrer no presente e futuro.

Afaste-se de mim, quem não quer ficar dependente de um louco e os seus devaneios, tal explorador que rumava a locais desconhecidos na incerteza de poder não voltar. Que salte da caravela a tempo, para não arriscar afundar nessa tempestade que certamente irá fazer gorar a viagem começada e que ainda com esperança tem um final incerto.


A vida é um círc(ul)o.