Disseram-me, com a leveza de quem observa de fora, que tenho capacidade de organização, já outrora, em outros locais, reconhecida. Elogiam-me a destreza de não estender gestos ou o tempo além do estritamente necessário. Mas nesta profissão que escolhi, ou melhor, que me escolheu, a precisão do relógio é uma faca de dois gumes. Olho para as mãos que pedem ajuda, para a quantidade de doentes, para os rostos que esperam por mim, e a dúvida instala-se, fria. Na medicina, onde começa e acaba o necessário?
Se o necessário for apenas o que dita a cura biológica, o corte cirúrgico preciso ou a dosagem exata de um fármaco, então a organização é a minha maior virtude. Seria o mecânico perfeito de uma engrenagem viva. Mas o corpo humano não é uma máquina isolada, vem sempre acompanhado de uma biografia, de um medo primordial, de um silêncio que grita por socorro.
Propõem-me que faça o essencial, que corte o supérfluo. E aceito a premissa, pelo que eu entendo como supérfluo e acessório. O supérfluo é, por definição, tudo o que não acrescenta valor, o que não faz o outro ficar melhor, o que não cura nem pacifica a dor. É o ruído burocrático, o exame redundante, a pressão de um sistema cego. Tudo isto, a organização deve purgar.
Mas há um perigo latente em confundir pressa com eficácia. Aquilo que o cronograma institucional rotula como "excesso", como os dois minutos a mais para escutar o luto de quem fica, o toque no ombro de quem recebe um diagnóstico definitivo, a explicação repetida na linguagem de quem não entende de ciência, mas entende de dor, não é supérfluo. Se esses minutos acalmam o acelerado batimento cardíaco da angústia, eles curam. E se curam, tornam-se sagradamente necessários.
Não quero que a minha capacidade de organização seja uma armadura que me afaste da cabeceira do doente. Quero que ela seja a ferramenta que me liberta do que é estéril, para que me sobre tempo para o que é humano. Não estender além do necessário deve significar, afinal, não perder um único segundo com o que não alivia o sofrimento. Porque, no final do dia, a única contabilidade que importa na nossa profissão é a da dignidade que fomos capazes de devolver a quem sofre. E...

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