Tenho-me encontrado recorrentemente a ser terapeuta de uma psicóloga com quem trabalho, tal pregador de missa a padre, que com palavras motivacionais, tenta dar propósito a objectivos profissionais pouco claros e que vejo terem impacto num bem-estar pessoal. Perante o desespero em lágrimas de uma insatisfação profissional e com ideação que a determinado momento me parecia de um vazio de vida, vi-me obrigado a intervir, com receio de algum desfecho mais dramático.
E têm-me saído expressões, recursos e ferramentas que desconhecia ter, em estados que não têm muito de diferente do lema popular: "faz o que digo, não o que faço".
Num momento de fim de um "retiro" programado em família (marido e filha), para retemperar energias, escrevi o seguinte:
"Estimada R...,
Escrevo no limiar de um silêncio que está a terminar. Nuns dias de paz, que espero terem sido de resgate de energia para os dias em que a luta se voltará a instalar.
Sei que os seus dias se converteram numa engrenagem impiedosa, onde o trabalho e a existência pesam como chumbo sobre os ombros. Evoco, contudo, a sua memória para que, no meio do ruído, seja a quietude destes momentos de descanso e serenidade, lugar nascente de toda a sua força. É nesse reduto intocado que deve colher a energia para os dias de combate.
Não me refiro, bem sabe, a uma contenda erguida sobre a violência flagrante ou no desgaste surdo da mente. Falo antes de uma revolução íntima, guiada pela lucidez do discernimento. Que no epicentro da agitação diária, quando o mundo exterior conspirar para o seu desalento, saiba desacelerar o passo e descobrir aí os trilhos da autocompreensão e da empatia profunda, num olhar generoso que perdoa as suas próprias falhas e decifra o enigma do outro.
Permita-se a que uma claridade discreta guie os seus passos na penumbra. A felicidade que persegue não se extinguiu, permanece apenas resguardada, invisível mas soberana, à espera que a resgate do quotidiano.
Mantenha o olhar fixo no horizonte dos seus propósitos e objectivos. No tabuleiro de xadrez do destino e da vida, a dor é efêmera, pois basta o triunfo de uma batalha, para apagar de uma só vez, a memória de todas as derrotas passadas.
Que a paz seja o seu escudo, refúgio e alento."

1 comentário:
Recordo-a e vejo esse peso invisível que se acumula nos ombros antes de a voz quebrar o silêncio da mesa familiar. A transição não começa no dia em que o ciclo se fecha, começou no instante em que o corpo aceita que a permanência se tornou uma forma de violência lenta. Escrever uma carta de demissão, planear uma conversa inevitável com os pais, olhar para o espelho de um casamento que se transformou num campo de batalha silencioso, tudo isto são frentes de uma mesma guerra. Uma guerra onde a sobrevivência depende, paradoxalmente, de aprender a render-se ao próprio destino.
O primeiro conselho que a alma pede num momento assim é o da reconciliação com a desilusão alheia. Está encriptado no seio da mulher carregar o mito de que é responsável pela saúde, pela paz ou pelo humor daqueles que as rodeiam. Quando a mãe insinua que a dor do pai é fruto das escolhas da filha, ela não está a falar de amor, está a usar a culpa como uma corda invisível para travar o movimento. Suportar o "muito que ela terá para dizer" exige um escudo poético de ouvir as palavras sem as deixar entrar no sangue. A reação dos outros pertence aos outros e a urgência da ruptura pertence a quem precisa de respirar. O sofrimento do passado dos pais não é um guião obrigatório para o futuro dos filhos. Ouvir que "passou pelo mesmo e tem de aguentar" é apenas o eco de uma geração que aprendeu a normalizar a violência das palavras ou dos actos, mas a herança da dor não é uma dívida que se tenha de pagar com a própria vida.
O segundo conselho reside na gestão sábia das próprias forças. Há uma maturidade imensa em admitir que não se pode lutar em todas as frentes ao mesmo tempo. Reconhecer o ambiente tóxico do casamento e, ainda assim, decidir adiar essa batalha porque o foco está em fechar a porta profissional é pura estratégia existencial. A ansiedade e a angústia que precedem a segunda-feira não são sinais de fraqueza, são a energia da crisálida a romper o casulo. Ninguém vence uma guerra nuclear interna se tentar desarmar todas as bombas no mesmo segundo, há que escolher qual o território a libertar primeiro. Deixar o casamento na penumbra temporária do "gerir mais tarde" não é cobardia, é autopreservação.
Por fim, o conselho mais profundo toca o mistério de um abraço à própria sombra. A mente que pensa "demasiado", a mente que reconhece os recantos escuros e as sombras que a maioria prefere ignorar, é uma mente que já não se contenta com as superfícies fáceis da vida. Identificar-se com o "perverso e perturbador" é apenas o nome que o mundo dá à lucidez que recusa a hipocrisia. Quando alguém entra no comboio da nossa vida e nos ajuda a olhar para essa sombra, o que essa presença faz não é impor-se, mas sim devolver-nos o espelho. A transição de vida exige que se deixe de ceder o lugar aos outros para se ocupar, finalmente, o assento principal do próprio destino. A jornada que começa com uma carta numa segunda-feira é, na verdade, o início do longo caminho de regresso à casa que é o próprio ser.
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