Passaram 16 anos desde a morte de Saramago. Pessoalmente não é um autor que me diga muito, pela sua forma muito confusa de escrever, nesse jeito de virar o português do avesso e revelar de forma absurda o que ele esconde, tornando-o profundo.
José Saramago é, por si só, um labirinto sintático desafiante, uma floresta densa onde a pontuação tradicional se dissolve e as palavras parecem tropeçar umas nas outras.
No entanto alvíssaras sejam dadas a algumas citações que marcaram e marcam, e que são de uma profundidade complexa que revela muito do ser de cada um.
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
"É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós."
"Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo."
"Se tens coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne e sangra todo o dia."
De facto, entrar na essência humana exige reconhecer que carregamos no peito um mistério sem dicionário, uma força silenciosa e sem pronúncia que define a nossa verdadeira identidade. Para decifrar este enigma interior e alcançar a plenitude dessa essência, somos obrigados a romper com o casulo do ego e a distanciarmo-nos das nossas próprias certezas, se tivermos coragem. Esta jornada de autodescoberta e emancipação não suporta a ansiedade dos passos precipitados nem a inércia dos dias vazios, exigindo de cada um de nós o equilíbrio perfeito de quem caminha com firmeza na urgência da vida. É neste percurso, feito de avanços e recuos no tempo, que a nossa vulnerabilidade se manifesta e se torna o nosso maior triunfo, uma sensibilidade exposta que recusa a rigidez de coração daqueles que se decidiram endurecer perante o mundo, mas que como o meu, se fizeram de carne, vivo, autêntico e profundamente humano que sangra todo o dia.Saramago... um escritor que me tocou de forma muito improvável.
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