No sossego retemperador do meu leito, onde o tempo parece prender a respiração, sou eu quem sente com o peito esse canto carregado de simbologia. Ao ouvir a "Bonita" com a voz grave de Pedro Barroso, não escuto apenas uma canção, sinto a minha própria carne e alma transformadas num manifesto de um romantismo doloroso, que a pressa do mundo insiste em esmagar.
Eu não olho para o passado de uma pertença que nunca foi minha, mas vivo intensamente a tua ausência, nessa melancolia sagrada da forma como a tua beleza me ecoa no pensamento e em que cada sílaba do teu nome é um altar que ergo a ti. Para mim, as notas que saem das cordas de uma guitarra, não são música, mas sim o vento frio que agita as cortinas do meu quarto vazio, onde o teu perfume teima em não morrer. É a minha dor de existir num mundo que não te pode conter.
Sinto em mim o lirismo absoluto dos poetas antigos. A tua presença, o efeito avassalador que tens sobre a minha condição de homem, é uma força da natureza. Se fosse como um deles, diria, com todas as letras que só eles, na sua profícua forma de expressar o sentimento humano e da miserável existência de um amor impossível, que foste a tempestade que me arrastou a razão e me deixou o coração em ruínas vivas, que não te sei amar com moderação e que te amo com a fúria dos mares revoltados e, ao mesmo tempo, com a fragilidade de uma folha de outono que cai.
A voz de Barroso rasga o véu do meu quotidiano e arrasta-me para o abismo daquilo que sinto por ti. Uma forma de existência que prefere a agonia da eterna saudade à anestesia do esquecimento. Viver sob o teu feitiço é aceitar caminhar para sempre pelo crepúsculo.
Quando a música cessa, fico a sós com o meu desalento, percebendo que a maior beleza reside na coragem de chorar por ti. O teu efeito em mim é esta cicatriz aberta, um monumento eterno à dor mais bela da minha vida, a de ter sido homem o suficiente para te desejar até se extinguir o mundo.

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