sexta-feira, junho 05, 2026

Força do hábito

Estar sempre disponível acaba com o valor da presença e com o tempo, há distâncias que se criam com pessoas demasiado presentes.

Olho para ela e pergunto-me em que momento a descoberta deu lugar ao hábito. Sabemo-nos de cor, conheço o ritmo da sua respiração antes de adormecer, o tom de voz com que reclama dos dias longos, o modo como pousa a chávena de café e há um sossego imenso nisso. Mas esse sossego, às vezes, assemelha-se ao silêncio de uma casa onde já nada muda.

O fascínio vive daquilo que não se consegue prever. Lembro-me do início, daquela penumbra onde cada palavra dela era um mistério por desvendar, um segredo que me exigia atenção e cuidado e perceber que o encanto não nasce do que o outro esconde por maldade, mas da distância natural que se esconde entre duas almas. Era essa distância que me mantinha desperto, numa urgência clara no desconhecido, no desejo, que afinal não quer controlo, quer a busca.

Hoje, a repetição dos dias baniu o inesperado e tornámo-nos reféns de um convívio sem tréguas. E é aí que a verdade se impõe, despida e nítida. Estar sempre disponível acaba com o valor da presençaQuando o acesso é total, o encanto da revelação desaparece, se o outro está sempre ali, deixamos de notar a sua chegada.

A minha presença tornou-se para ela algo garantido, essencial, sim, mas invisível. E a presença dela, para mim, corre o mesmo risco de se tornar apenas um elemento do quotidiano. O excesso de convivência desgasta o valor do olhar e para que o afeto permaneça vivo, é preciso dar espaço à saudade. O amor duradouro enfraquece quando perde a capacidade de surpreender, a menos que saiba valorizar o momento do reencontro. E só há reencontro para quem se permite, por vezes, afastar.

Quero ser surpreendido todos os dias por ti

Sem comentários: