A vida é um continuum de aprendizagem. Um "só sei que nada sei", constante. E é junto dos mais novos, que tantas vezes recebemos dos ensinamentos mais profundos que nos fazem mudar, na maioria das vezes, de atitudes.
Somos feitos de duas "matérias" distintas, que no entanto têm traços comuns entre si. Essa que é a que os outros vêem de nós, baseada nos traços que vamos deixando, mas sobretudo criada pela expectativa do que podemos ser. E a outra que é a visão que nós próprios temos de nós. Esta que, se calhar, ninguém chega mesmo a conhecer, ou só mesmo essas raras pessoas que olhando-nos nos olhos, conseguem perceber o nosso verdadeiro eu, esse íntimo de uma obscuridade luminosa do qual somos feitos.
Por isso é importante estarmos receptivos a ser tolerantes, empáticos perante os outros, pois não sabemos do sofrimento, da angústia, das desilusões pelas quais passaram, que os moldaram em introvertidos, por vezes até desagradáveis, ou nessa estranha forma de ser tão expansiva que esconde.
É nesta batalha entre o eu próprio e o eu social, que nos encontramos. Nessa necessidade de frenar impulsos, que em muito revelariam os nossos desejos mais profundos, por vezes tão obscenos que chocariam os mais incautos. Vive-se preso a limites auto impostos, a valores em que se acredita serem importantes, para não destruir por completo as raízes nas quais fomos criados e educados.
Falo de novo de amores e desamores... num momento em que pensava estar "curado" dessa doença que alimenta, mas também destrói. Numa altura em que tinha de novo assumido a certeza de que "tudo está escrito", de que nada aconteceu por acaso. Que a determinado momento das nossas vidas dissemos SIM a quem nos estava destinado para a vida. E, ainda acredito. Não fosse esse desejo que nos deixa toldados e nos consome a razão e que se torna num pecado saboroso de luxuria e sensação calorosa.
Há, sem dúvidas, pessoas muito especiais, fantásticas, de uma presença e espiritualidade única que nos deixam completamente sem norte. Pelo seu jeito, pela sua forma e sobretudo pelo seu conteúdo.
Mas, não podemos ter a ambição de sermos "donos" de tudo o que é bom. A cada um de nós um pedaço, sem necessidade de ao querer tudo, tudo perder. E a forma mais digna de mostrar afecto, torna-se então, nessa liberdade que nos traz felicidade. Felicidade que tem que ser uma conquista diária, trabalhada arduamente, mesmo que para isso se tenha que abdicar de muito, que ao outro parecendo pouco, é tanto.
Sonhava hoje, sobre esses princípios de relacionamento. Da paixão que vem das qualidades que observamos no outro e do amor, que fica das imperfeições que compreendemos e aceitamos. Que assumimos diariamente como desafios, numa tolerância, num respeito mútuo, em que vemos partilhar e mudar o nosso eu íntimo ao outro, como se os dois fossemos um. Não há perda de identidade no processo. Há uma mudança natural, assumindo-se essa atitude de resiliência que nos faz ficar, superar adversidades e sair mais forte da experiência.
Não sou um Dr do amor. Nunca fui. E disto, apesar dos anos passarem, pareço perceber cada vez menos. Aprendizagem feita, com as alegrias e com as tristezas que em todas as histórias nos fazem perceber do difícil que é viver em paz, sereno, alienado ao que nos rodeia. Como seria bom viver nessa escuridão da solidão, nesse viciante desejo de não sofrer por se partilhar, mas com a sensação de que o isolamento total não nos teria trazido dos momentos mais felizes e luminosos da nossa vida, ainda que alguns deles tenham sido tão efémeros, mas de uma intensidade, capazes de nos transformar. Momentos capazes de transformar segundos, dias, anos em algo único, aos quais voltaríamos, sem hesitar.
Shakespeare

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