Há um cansaço silencioso que move os astros, uma fadiga feita de distância e de uma insistência antiga. No imensidão negra do cosmos, a Lua desenha a mesma curva há milénios, presa a um centro que nunca alcança, mas do qual jamais se liberta. Ela orbita a Terra com a fidelidade cega dos perdidamente apaixonados, gastando a sua luz reflectida num chão que mal repara na sua dança. A Lua não se cansa de insistir na proximidade.
A Terra, porém, carrega o peso desse olhar constante como um fardo invisível. Entediada da sombra que a persegue, exausta da maré que a puxa e do eterno retorno da mesma companheira, a Terra desvia os olhos. Não há nela espaço para a Lua. O seu peito de rocha e oceano arde por outra coisa. Cansada da Lua, a Terra corre desesperadamente atrás do Sol. Procura a luz que a queima, a gravidade que a governa de longe, o centro dourado que dita os seus dias mas que nunca se deixará tocar. É uma fuga concêntrica, uma perseguição eterna onde quem é amado ignora, e quem ama definha na busca do intangível.Este bailado celeste é o espelho mais nítido da nossa própria insatisfação. Vivemos enredados na mesma geometria trágica dos afectos. Há sempre alguém que nos gravita, que nos oferece a constância dos dias, o conforto do abraço que já conhecemos de cor, a presença segura que se tornou paisagem. E nós, injustos e míopes na nossa humanidade, cansamo-nos dessa proximidade sem mistério. Olhamos para quem está connosco e vemos apenas o hábito, a rotina que apaga o brilho.
De olhos postos no horizonte, preferimos a vertigem do que está longe. Desperdiçamos a vida a orbitar sóis particulares, pessoas, sonhos ou passados que se esquivam de nós, que nos mantêm à distância exacta de uma miragem. Queremos o que incendeia, o que é difícil, o que se posiciona além das nossas forças. Alimentamo-nos da melancolia de não conseguir alcançar, como se o valor do amor estivesse na impossibilidade de o possuir.
Procuramos o Sol que nos ignora enquanto pisamos, distraídos, o solo da Lua que nos guarda. Condenamo-nos a uma eterna saudade do que não temos, incapazes de ver que a beleza mais rara não está na luz que nos cega ao longe, mas na paciência de quem aceita partilhar connosco a mesma escuridão.

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