Há já longos anos, descobri em mim um talento natural para a arte da cozinha. Há dias, e também noites, em que desperto com a urgência de moldar algo inteiramente novo entre os tacho e panelas. Algo que eleve o palato a experiências sensoriais distantes dos sabores triviais do quotidiano.
Naturalmente, a realidade nem sempre acompanha a imaginação. Há dias em que a criação surge com o sabor de um manjar divino, embora embrulhada numa estética rude e artesanal. Noutros momentos, o prato exibe a beleza de uma autêntica obra de arte, mas esconde um paladar áspero e inacabado. Tudo isto nasce do desejo puro de esculpir pequenos grandes momentos à mesa.
Na ânsia de partilhar este legado e numa tentiva de me aliviar as tarefas, já dei por mim a orientar pequenos ateliês gastronómicos para as crianças da casa.
No fim de cada jornada, contudo, resta-me sempre uma dúvida subtil, se as palavras de elogio e o incentivo deste meu pequeno júri são o reflexo de uma admiração honesta, ou apenas um pretexto astuto para que eu continue entregue ao terno dever de preparar as refeições diárias da família.
Como diria o Chef Guestau, "Qualquer um pode cozinhar"
Crítico culinário, em o filme Ratatouille

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