Quantas vezes sentimos que caminhamos sozinhos, peregrinos de um deserto próprio, avançando sob o peso de passos que mais ninguém ampara. É uma solidão que não se mede apenas pela ausência de quem deveria ser suporte, mas pela penúria de afetos, pela escassez de um abrigo onde a alma possa pousar e de sentir simplesmente contemplada, nessa forma necessária de aconchego. Sentimo-nos desguarnecidos nas trincheiras da existência, vulneráveis aos flagelos visíveis e invisíveis do mundo, seja na crueza do trabalho ou na intimidade violada do lar, onde a dor muitas vezes não nasce do golpe ou acção violenta, mas do silêncio cúmplice daqueles que se omitem.
Sobre os nossos ombros, parece desabar o veredito do mundo, a urgência de decidir, o fardo de executar e, no mais amargo dos cenários, a hercúlea tarefa de retificar os caminhos tortuosos que os outros traçaram.
Habitamos um tempo estranho, um teatro de sombras onde o aplauso é direcionado ao artifício e à máscara. A ribalta social alimenta-se de quimeras, gerando uma ilusão coletiva que hipnotiza as multidões, enquanto a nudez da honestidade e a pureza da palavra sincera são recebidas como afronta, recebendo em troca o escárnio e a hostilidade. Neste cenário de espelhos disformes, preservar a integridade torna-se um ato de resistência quase heroico. É ela que resguarda a nossa essência mais profunda, aquela capaz de tecer gestos desinteressados de generosidade, sem a premissa do ganho ou a vaidade do reconhecimento. São atos que, pela sua desconcertante simplicidade, operam prodígios onde a razão antevia o insucesso.
E talvez a Fé resida precisamente nesse vislumbre, a capacidade de contemplar a colheita do impossível antes mesmo de lançar a semente à terra. Como se o pulsar solitário de um único ser contivesse em si o sopro primordial capaz de reconfigurar todo o universo.
Não se ensina ninguém a ter respeito por nós. A forma como o outro te trata diz mais sobre ele do que sobre ti.

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