A confiança ao longo da vida sofre mutações que alteram recorrentemente o rumo que escolhemos.
A vida de um relacionamento, seja pessoal ou laboral, assume-se como essa metáfora de uma caneca partida para ilustrar uma verdade profunda. A reparação não é a mesma que a restauração ao estado original. As cicatrizes permanecem, alterando a estrutura e a função daquilo que foi quebrado.Num relacionamento de casal, a confiança é a base invisível de qualquer ligação. Quando se quebra, seja por uma traição, uma mentira ou negligência, o colar das peças exige um esforço emocional hercúleo. Mesmo que haja perdão, surge a hipervigilância. Onde antes havia entrega cega, passa a existir uma análise cautelosa. Onde o diálogo e a verdade, mesmo a dolorosa, devem prevalecer. O relacionamento pode, nalguns casos, tornar-se mais resiliente porque sobreviveu à crise, mas perde aquela leveza e inocência inicial que nunca volta a ser a mesma.
Assim, a vida de uma relação passa por essas duas fases, ainda que em muitos casais se quebre, destruíndo-se quando "a caneca" se parte.
No primeiro momento, uma paixão intensa, mas ao mesmo tempo leve, quase distraída, como quem encontra um lugar bonito que domina os nossos pensamentos e sentimentos. Aquela que se detém-se nos pequenos detalhes, de um sorriso, do jeito único de ser, onde o mundo parece abrandar, nessa serenidade agitada que nos arrebata por completo. Num silêncio ruidoso, mas confortável, que nos preenche sem pedir licença. Um amor que quebra as nossas reservas, rompe as defesas, sem planos, como quem mergulha sem medir a profundidade.
Mas quando a confiança se quebra, e se tem força em se reconstruir a relação, surge essa segunda paixão, que de leve nada tem. Se na primeira há o encanto, na segunda a escolha. Quando já se conhece o risco, se sente o peso do eco da ausência do outro dentro de nós, desse caos que deixa nos nossos dias e tomamos noção do que podemos perder, onde o caminho do corpo já não nos guarda segredos, mas continuamos a perdermo-nos no da alma.
Amar, passa a ser uma escolha diária, de cada momento em querer permanecer, sabendo tudo, sentindo tudo, temendo tudo, transformando-se nessa forma mais honesta e verdadeira de entrega.
Se na primeira paixão é sobre o outro, na segunda é sobre nós e a decisão, que apesar de todos os contratempos, mesmo assim, vale a pena ficar e lutar, voltar a colar as peças partidas.
A mensagem não é pessimista, mas realista. Uma caneca colada ainda pode segurar café, mas as linhas da quebra lembram-nos sempre de onde fomos frágeis. O segredo não é esperar que tudo volte a ser como era, mas aprender a valorizar a nova forma do objeto, que agora carrega uma história de superação.

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