Voltei a viver uma vida ordinária, como quem diz comum. Uma gestão corrente do dia a dia. Sem grande agitação, sem grande emoção. Só o fazer de forma repetitiva e recorrente sempre as mesmas tarefas.
É como ter a sensação de "andar em círculos" numa rotina que parece um apagamento da nossa identidade. É o peso do comum, onde os dias se fundem numa sequência de tarefas que parecem não acrescentar nada ao mundo.
No entanto, também sinto uma estranha beleza silenciosa e uma resistência enorme nessa gestão corrente.
Num mundo lá fora que parece cada vez mais indiferente aos verdadeiros problemas das pessoas, o ato de manter uma casa de pé, de garantir que as crianças têm o que precisam, mesmo entre conflitos, e de sustentar a estrutura do dia a dia, talvez seja na verdade, um ato de presença absoluta.
Talvez o impacto não se meça em grandes eventos modificadores ou transformadores do mundo que nos rodeia, mas na micro-influência. O conflito com os filhos é, no fundo, o trabalho invisível de educar e impor limites. A repetição de tarefas é o que cria a segurança e a base para que outros e nós mesmos, possamos existir. O fazer nada de fenomenal é muitas vezes o que impede que o nosso próprio mundo desabe.
Quiçá esta vida comum não seja uma total ausência de significado. Que seja o palco onde a vida real acontece enquanto esperamos pelo extraordinário. Fazer a diferença pode ser, simplesmente, ser o porto seguro de uma família num dia comum ou mais agitado, mesmo que esse porto seguro esteja exausto e a deambular por inércia, a viver uma vida normal de acordar, trabalhar, cozinhar, dormir...
Allen Saunders

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