O que torna tantas mulheres dependentes? O que faz que se gere o receio de independência, que as impede de viverem uma liberdade plena?
Frequentemente, focamo-nos na dependência da conta bancária, nessa conhecida "dependência económica" que prende muitas mulheres, mas esquecemo-nos da dependência da autonomia quotidiana. Chamemos-lhe de "dependência funcional".
É uma forma subtil, mas poderosa, de imobilismo. Quando um dos membros do casal centraliza a gestão prática da vida, seja a burocracia, a manutenção da casa ou a resolução de problemas técnicos, cria-se uma dinâmica de procuração. A mulher pode ter o seu próprio salário, mas se não sabe onde se desliga a água em caso de fuga ou como gerir os seguros da família, permanece numa posição de vulnerabilidade de uma quase infantilização.
Esta dependência nasce, muitas vezes, de uma divisão de tarefas baseada em estereótipos de género ou simplesmente na "lei do menor esforço", de quem faz melhor, acaba por fazer sempre. O problema é que o "saber fazer" é um músculo, que se não o exercitamos, atrofia.
A emancipação aqui não é sobre fazer tudo sozinha, mas sobre saber que consegue fazer.
Para quebrar este ciclo, a mulher pode adotar estratégias de retoma de controlo, como identificar as áreas nebulosas e em vez de apenas dividir, recorrer a processos de aprendizagem, seja auto, ou naturalmente adquirir o know-how, observando, pedindo para aprender.
A emancipação funcional exige que a mulher deixe de ser apenas a executora de algumas tarefas para se tornar co-gestora da logística doméstica.
Muitas vezes, a dependência mantém-se por medo de falhar ou de fazer pior que o companheiro. A emancipação passa por aceitar que aprender a resolver problemas implica, inicialmente, alguma ineficiência.
A verdadeira autonomia é a liberdade de saber que, perante uma ausência ou uma rutura, o mundo não pára porque se sabe exatamente onde estão as chaves de todas as portas da vida.
Todo este processo traz consigo novas aprendizagens, descobertas pessoais de recursos que se desconheciam.
A carga mental é o motor invisível que mantém a "dependência funcional" a funcionar. Enquanto a tarefa é o ato físico (ir ao Lidl), a carga mental é o planeamento, a antecipação e a gestão (perceber que o leite está a acabar, fazer a lista, planear a rota e garantir que há dinheiro para pagar).
No contexto da mulher, esta carga é frequentemente uma herança cultural pesada. Mesmo quando há uma divisão de tarefas, a mulher tende a manter o cargo de "gestora de projeto", enquanto o homem assume o papel de "ajudante".
Esta gestão invisível gera um cansaço que não se cura a dormir, mas sim a desligar. A dependência funcional alimenta-se disto.
A verdadeira autonomia funcional só acontece quando a mulher deixa de ser o "sistema operativo" da casa e passa a ser uma utilizadora com os mesmos privilégios e responsabilidades que o companheiro.

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