quinta-feira, maio 28, 2026

Peregrino na solidão

Quantas vezes sentimos que caminhamos sozinhos, peregrinos de um deserto próprio, avançando sob o peso de passos que mais ninguém ampara. É uma solidão que não se mede apenas pela ausência de quem deveria ser suporte, mas pela penúria de afetos, pela escassez de um abrigo onde a alma possa pousar e de sentir simplesmente contemplada, nessa forma necessária de aconchego. Sentimo-nos desguarnecidos nas trincheiras da existência, vulneráveis aos flagelos visíveis e invisíveis do mundo, seja na crueza do trabalho ou na intimidade violada do lar, onde a dor muitas vezes não nasce do golpe ou acção violenta, mas do silêncio cúmplice daqueles que se omitem.

Sobre os nossos ombros, parece desabar o veredito do mundo, a urgência de decidir, o fardo de executar e, no mais amargo dos cenários, a hercúlea tarefa de retificar os caminhos tortuosos que os outros traçaram.
Habitamos um tempo estranho, um teatro de sombras onde o aplauso é direcionado ao artifício e à máscara. A ribalta social alimenta-se de quimeras, gerando uma ilusão coletiva que hipnotiza as multidões, enquanto a nudez da honestidade e a pureza da palavra sincera são recebidas como afronta, recebendo em troca o escárnio e a hostilidade. Neste cenário de espelhos disformes, preservar a integridade torna-se um ato de resistência quase heroico. É ela que resguarda a nossa essência mais profunda, aquela capaz de tecer gestos desinteressados de generosidade, sem a premissa do ganho ou a vaidade do reconhecimento. São atos que, pela sua desconcertante simplicidade, operam prodígios onde a razão antevia o insucesso.

E talvez a Fé resida precisamente nesse vislumbre, a capacidade de contemplar a colheita do impossível antes mesmo de lançar a semente à terra. Como se o pulsar solitário de um único ser contivesse em si o sopro primordial capaz de reconfigurar todo o universo.
Não se ensina ninguém a ter respeito por nós. A forma como o outro te trata diz mais sobre ele do que sobre ti.

terça-feira, maio 26, 2026

Preguiça

Têm sido recorrentes os dias em que sinto uma vontade enorme de não fazer nada. Nada. Ficar só num estado vegetativo, a contemplar o vazio de pensamento. Talvez seja pelo cansaço acumulado. Pelas noites recorrentes de sono pouco profundo, de um constante sobressalto que não me deixa desligar totalmente da consciência e do estado de alerta.

No entanto, é mesmo nos momentos de maior exaustão, que numa luta inconsciente, se liga e liberta o modo automático de trabalho, alimentado pelos traços obsessivos de ver tudo organizado. É quando, mesmo num estado de quase esgotamento físico e emocional, lido com as tarefas domésticas, de cozinha, de acompanhamento escolar e de um sem número de pequenas situações que me consomem ainda mais. E não há sonecas que me valem para tamanha empreitada. É como se o meu dia normal tivesse essas 36h diárias e ali cabe, metodicamente, tudo o que fazer.

Pergunto-me de onde vem essa estranha energia, que no idealizado pela mente só me empurra para o leito do descanso tranquilo, mas que na realidade, me arranca do estado amorfo e me obriga a ser útil, prático e eficaz.
Digo em jeito de graça, que na morte terei tempo para o descanso, mas de facto, sinto-me a morrer lentamente no interior, com perdas de memória, actos falhados e uma certa desinibição pré-frontal que não era de mim.
Um dia... descansarei

Metamorfose

Durante anos, vivi no centro de uma tempestade que eu próprio alimentava. A minha mente era um mar revolto, açoitado por ventos, angústia e dúvidas perpétuas. Procurava respostas como quem procura um náufrago na noite escura, gritando contra as ondas, agitando as águas com desespero, mergulhando cegamente num turbilhão que eu mesmo criava. Quanto mais forçava o olhar através da espuma e das correntes, mais a verdade se diluía. Tudo era ruído, distorção e cansaço.


Um dia decidi sentar-me à margem de mim mesmo. Fechei os olhos e recusei-me a lutar. No início, a turbulência ainda insistia, trazendo à superfície detritos de pensamentos inacabados e medos antigos. Mas permaneci imóvel. Respirei o silêncio. Lentamente, o vento interior começou a amainar e as ondas perderam força. A agitação deu lugar a uma quietude quase esquecida.
Quando voltei a olhar para dentro, a metamorfose tinha acontecido. A água, antes turva e violenta, transformara-se num espelho perfeito e cristalino. Sem esforço, sem preces e sem fúria, as respostas que tanto perseguia emergiram do fundo, nítidas e intactas. Percebi, finalmente, que a clareza nunca esteve no destino que eu procurava, mas sim na coragem de deixar o meu próprio mar acalmar.
A verdade vê-se nas águas calmas e cristalinas

segunda-feira, maio 25, 2026

Homo erectus

Há uma nova definição para o conceito retirado da história do desenvolvimento humano.

O macho, ao ver o corpo nú da fêmea desta espécie humanóide, viu a necessidade de se levantar do chão e ficar com as mãos livres para agarrar os peitos sedentos, as ancas cheias, ficando erecto, dessa consistência pétrea, trabalhada a partir da carne.

Assim me vejo a andar continuamente, erecto pelo desejo de apertar com força para junto de mim o corpo ansioso de toque, de abraço, de ser acarinhado nas mais profundas entranhas do ser. De passar as mãos, em toda a sua liberdade pela pele suave e explorar gentilmente o prazer de uma mulher, nessa mistura entre erecção e toque, que a transporta para uma dimensão orgásmica.



domingo, maio 24, 2026

Relacionamentos gravitacionais

Há um cansaço silencioso que move os astros, uma fadiga feita de distância e de uma insistência antiga. No imensidão negra do cosmos, a Lua desenha a mesma curva há milénios, presa a um centro que nunca alcança, mas do qual jamais se liberta. Ela orbita a Terra com a fidelidade cega dos perdidamente apaixonados, gastando a sua luz reflectida num chão que mal repara na sua dança. A Lua não se cansa de insistir na proximidade.

A Terra, porém, carrega o peso desse olhar constante como um fardo invisível. Entediada da sombra que a persegue, exausta da maré que a puxa e do eterno retorno da mesma companheira, a Terra desvia os olhos. Não há nela espaço para a Lua. O seu peito de rocha e oceano arde por outra coisa. Cansada da Lua, a Terra corre desesperadamente atrás do Sol. Procura a luz que a queima, a gravidade que a governa de longe, o centro dourado que dita os seus dias mas que nunca se deixará tocar. É uma fuga concêntrica, uma perseguição eterna onde quem é amado ignora, e quem ama definha na busca do intangível.

Este bailado celeste é o espelho mais nítido da nossa própria insatisfação. Vivemos enredados na mesma geometria trágica dos afectos. Há sempre alguém que nos gravita, que nos oferece a constância dos dias, o conforto do abraço que já conhecemos de cor, a presença segura que se tornou paisagem. E nós, injustos e míopes na nossa humanidade, cansamo-nos dessa proximidade sem mistério. Olhamos para quem está connosco e vemos apenas o hábito, a rotina que apaga o brilho.
De olhos postos no horizonte, preferimos a vertigem do que está longe. Desperdiçamos a vida a orbitar sóis particulares, pessoas, sonhos ou passados que se esquivam de nós, que nos mantêm à distância exacta de uma miragem. Queremos o que incendeia, o que é difícil, o que se posiciona além das nossas forças. Alimentamo-nos da melancolia de não conseguir alcançar, como se o valor do amor estivesse na impossibilidade de o possuir.
Procuramos o Sol que nos ignora enquanto pisamos, distraídos, o solo da Lua que nos guarda. Condenamo-nos a uma eterna saudade do que não temos, incapazes de ver que a beleza mais rara não está na luz que nos cega ao longe, mas na paciência de quem aceita partilhar connosco a mesma escuridão.
O amor não se mede na intensidade da luz mas na proximidade do abraço diário

sábado, maio 23, 2026

Como um rio

Que sejamos como um rio, que corre incansavelmente e que derruba barreiras, pacientemente, pela força do tempo.

Como a água flui sem cessar, contornando ou desgastando os obstáculos que se atravessam no seu caminho, também a vida de cada um exige uma postura de resiliência silenciosa, onde a pressa do acontecer no imediato, dá lugar à persistência do ver a mudança transformadora paciente. Não é a violência do impacto instantâneo que molda a realidade, mas sim a insistência do agir contínuo ao longo dos anos, capaz de esculpir vales profundos nas dificuldades de montanhas e serras outrora monumentais. Seguir este curso de água límpida e transparente, significa aceitar o ritmo natural do tempo, compreendendo que as mudanças mais claras e significativas ocorrem de forma progressiva e muitas vezes invisíveis a curto prazo e que irão desaguar nessa imensidão que é o mar de oportunidades sem fim.

Ao adotarmos a sabedoria do rio, reconhecemos que cada pequeno esforço diário se acumula até romper as barreiras mais rígidas, guiando-nos com confiança e serenidade em direção à imensidão do nosso próprio destino.

"Água mole em pedra dura tanto bate até que fura"
ditado popular

sexta-feira, maio 22, 2026

Redoma que anestesia

Hoje a propósito de uma doente, que após ter sido sujeita a um aperto demasiado intenso, aquando um abraço que deveria ser de aconchego e conforto, ter ficado com dor nas costelas flutuantes, vi-me a transportar para o domínio da (des)construção da personalidade, essa dor que fica após o carinho que se dá em demasia.

O afeto que abriga em demasia pode, sem querer, sufocar o espaço onde a pessoa, como ser indivual, precisa de respirar e expandir.
O excesso de zelo no que se dá, ou recebe do outro, assemelha-se a uma redoma de vidro, que protege do vento, mas impede o voo. Quando o carinho se torna absoluto e constante, ele magoa. Não pela dor do impacto, mas pela subtil anestesia que provoca nos nossos sentidos. O conforto absoluto amacia as arestas da nossa determinação e adormece as aptidões que guardamos em estado latente. Na ausência de atrito, a engrenagem do crescimento pessoal simplesmente paralisa.
O verdadeiro motor da evolução humana raramente se encontra na calmaria. O que nos faz verdadeiramente crescer e lapidar o nosso potencial, é, porventura, o choque frio da desilusão e a aridez da falta de suporte emocional nas guerras interiores que lutamos. Quando o solo firme do amparo desaparece, o ser humano é obrigado a reinventar-se. É nesse processo de adaptação contínua que o mundo interior se reorganiza. A dor do desengano quebra as velhas estruturas e força o nascimento de uma nova força, mais resiliente e autêntica.
Esta perspetiva não anula a importância do amor. O afeto e o suporte diários continuam a ser o alimento essencial para a nossa integridade psicológica. No entanto, o carinho deve funcionar como um porto de abrigo, nunca como uma prisão dourada. Para que o desenvolvimento pessoal aconteça, é indispensável a existência de uma liberdade rebelde e saudável.
É este espírito de contestação e autonomia que permite a autodeterminação pessoal e individual. Sem o direito a falhar sozinho, a discordar e a enfrentar o vazio da própria solidão, não há azo à maturidade. O crescimento interior exige essa dose de audácia, a coragem de largar as mãos que nos seguram para descobrir que, afinal, sempre soubemos caminhar.
Já agora... vale a pena pensar nisto.