Toda a vida procurei encontrar o meu caminho para a felicidade. Na minha infância tive a sorte de ter nascido no mesmo dia do meu melhor amigo, o meu irmão gémeo e quando comecei a ter noção do mundo que me rodeava, desenvolveram-se dentro de mim as questões da metafísica que na adolescência dominam a nossa existência e sobre as quais tantas vezes conversava.
Foi nesta altura do meu crescimento que convivi com alguns colegas de escola, seminaristas de uma ordem de Combonianos, e um deles, com quem conversava muito sobre a existência de Deus e da sua criação, ofertou-me uma espécie de cruz que vim a saber designar-se de Tau.
Comecei a usá-lo diariamente, a par de um crucifixo em prata oferecido pelos meus padrinhos, ainda em criança muito pequena, junto com a inicial do meu nome. Havia algo de místico, que imaginava superior, que me protegia e amparava e que me mantinha nessa felicidade inocente quase infantil.
E foi durante a adolescência que tive um desses momentos modificadores de vida. Um dia por tédio ou aborrecimento e com total desconhecimento do que viria a significar esta atitude, subi a enorme escadaria da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis no dia da efeméride deste Santo, e senti um calor enorme interior, ao ouvir as palavras que iriam regular a minha vida a partir de então... "Mais vale dar do que receber, amar que ser amado" e percebi que o Tau era o símbolo desta forma de cristianismo. Se já sentia a força da sua protecção, agora encontrava a força da sua direcção.
E usei-o sempre, todos os dias sem excepção, num envelhecer conjunto da madeira e da carne.
Quando conheci a mulher que viria a ser minha esposa e pela força que sentia vir de um pedaço simbólico, decidi oferecer-lhe o Tau, para que passasse a ser protecção e graça no seu dia a dia. Não como amuleto ou talismã, mas como uma presença viva de um Cristo simples, humilde e de entrega feliz na vida.
E assim foi durante anos, até que em 2022, o meu mundo espiritual ruiu e fez desabar toda a estrutura que construíra. Ficava em ruínas a ideia de felicidade que sempre me alimentou, dessa ingenuidade virginal que me guiava. O Tau também tinha desaparecido do peito e das nossas vidas, como um simbolismo desse abandono do poder de uma espiritualidade superior a cada um de nós e que dava força a uma união.
Também eu mudei. Tive que mudar para me adaptar a uma nova realidade, mas não para melhor. Fiquei mais ligado ao que era da carne e menos ao que era do espírito e com essa mudança veio o sentimento de uma desilusão própria. E sei que desiludi. Do outrora simples e humilde Sebastião da Graça pouco resta, dominado pelo sem vergonha e magoado Rodrigo Pais.
Tentei procurar respostas na solidão, perceber onde se encontrava o caminho na escuridão, tentei ver a pequena luz que sabia que não se extinguira, mas que brilhava com uma força menor, tão pequena que passava quase despercebida. Até perceber que a resposta já se encontrava em mim... "Mais vale dar do que receber, amar que ser amado".
Amar é viver para o outro, dar-mo-nos naquilo em que somos melhores, sem esperar moeda de troca ou retorno e com este sentimento recuperei um pouco da felicidade que pensava perdida ou esquecida. Ser o que sempre tentei ser, a melhor pessoa possível e fazer depender apenas de mim, a procura dessa felicidade na entrega simples, humilde e genuína.
Do Tau original, não sei paradeiro. Ficou perdido no passado, como prova de que não é uma peça que tem valor, mas o seu significado, a impressão da sua força que fica marcada na nossa alma e coração.
E há uns dias voltei a usar um Tau, que mais tarde adquiri, para me fazer recordar diariamente que só sou verdadeiramente feliz se me entregar verdadeiramente ao próximo, sem esperar recompensa ou gratidão, mas para sentir que a minha vida tem um propósito e um fim.
"Pregue o Evangelho em todo o tempo. Se necessário, use palavras."
São Francisco de Assis
E como tenho falhado... nos pensamentos, nos actos, nas palavras e nas omissões.
Tenho que assumir de novo o controlo.

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