domingo, agosto 30, 2026

Resistência

O fim do dia de ontem, acabou por se transformar numa dessas agradáveis surpresas, que por inesperadas enchem de brilho, cor e som a vida.

Depois das devidas sonecas de uma saída de urgência e a pedido insistente das crianças, lá fomos, mais uma vez, à feira de São Mateus. Entre jantar bifanas e cachorros, as tão habituais voltinhas nas diversões, onde se deixa uma renda, e farturas, esse bocado de massa de farinha coberto de uma tonelada de açúcar e canela, ficámos para assistir ao concerto dos Resistência.

E deixaram-nos amarrados até ao final, num momento musical que mostra que a música portuguesa, com autores e músicos que resistem às tendências actuais de auto tone e remasterizações e só com voz e acústica se consegue recriar e dignificar clássicos. Estes artistas de idade de impor respeito e de um corpo a exigir pausa, mas de uma mente resistente ao envelhecimento, fizeram-me recordar o que um espectáculo musical deve ser, envolvente, animador e de elevação.

A música e as letras, têm essa capacidade de transmitir mensagens, que pelo seu impacto visual e auditivo, conseguem transformar o dia pacato e banal, num dia fantástico e preenchido.

Talvez seja só um dos demais sinais de que estou mesmo a ficar velho, mas também eu resisto a esse fado.

Para os cépticos desta ideia, tentei criar uma rapsódia com ideias chave das músicas, que criam esse impacto mental e de motivação no interior de cada um de nós. Vamos lá a esta reflexão dentro da reflexão, desta vez com alguma apropriação de ideias (os créditos aos devidos autores)...


Caminhamos pela vida como quem atravessa uma praça cheia de desconhecidos, carregando dores secretas e a estranha certeza de que o nosso fado é único. No entanto, se pararmos por um instante e erguermos os olhos, percebemos a grande ilusão da solidão. Não sou um caso isolado, não sou o único a olhar o céu, a ver os sonhos partirem, à espera que algo aconteça. Todos nós partilhamos a mesma calçada invisível, a deserdar as nossas próprias frustrações, a despejar a raiva, a viver as emoções, a desejar o que não se teve, agarrado às tentações. É o ciclo humano, a eterna teimosia em ouvir vozes alheias, tropeçando nos mesmos erros de sempre, a ouvir os conselhos dos outros e sempre a cair nos buracos, a desejar agarrar o que não se tem.

Mas o movimento é o único antídoto contra o mofo do tempo. E eu não quero estar parado, fico velho. Vou marchar até ao fim, isolado nesta marcha solitária, com esse preço alto em escolher o próprio rumo, em recusar as amarras que a sociedade nos tenta impor a cada esquina. Quando decidimos não vestir nenhuma farda espiritual ou ideológica, o mundo estranha em ser desalinhado. Por tudo o que sempre lutei em ser sincero, por tanto que arrisquei, ainda espero. Avançamos sob o julgamento dos outros, mas com a cabeça erguida, cientes de que ninguém sabe para onde vamos, ninguém manda em quem somos.

Essa liberdade de ser autêntico exige uma resistência diária, uma recusa em ser propriedade de bandeiras, linhagens ou dogmas. Mais do que a um país, que a uma família ou geração, mais do que a um passado, que a uma história ou tradição, tu pertences a ti, não és de ninguém. Mais do que a um patrão, a uma rotina ou profissão, mais do que a um partido, que a uma equipa ou religião, tu pertences a ti, não és de ninguém.

Essa soberania da alma é o verdadeiro ponto de partida. Só quando nos resgatamos a nós mesmos é que conseguimos vislumbrar o horizonte com clareza. Sei que tudo parece ser um sonho que não pertence a mais ninguém. Mas esse destino luminoso, não se compra nem se herda, constrói-se no âmago da mente, se souberes acreditar que sonhar é só viver e viver, imaginar. A imaginação é o rascunho da realidade, que nos dá forças para enfrentar as tempestades temporárias, com a certeza de que quando as nuvens partirem, o céu azul ficará, e quando as trevas abrirem, vais ver, o Sol brilhará. 

Por isso, não cedas à inércia. Vais conquistar um lugar, um lugar ao Sol sempre teu. A jornada é tua e de mais ninguém, exigindo cada gota do teu esforço diário. Não pares de lutar, agarra o dia ao nascer. Há uma batalha a travar que só tu podes vencer. 

Resiste. Só tu podes vencer!

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