terça-feira, agosto 18, 2026

Caminho da vida

Ando em círculos sobre o mesmo pedaço de chão, não por falta de pernas, mas por excesso de caminhos. Olho para o horizonte e vejo duas estradas que se cruzam no centro do meu peito. Uma exige a segurança do cais, a outra clama pela tempestade do mar alto. E eu, suspenso no limiar da escolha, permaneço imóvel.

Uma mente dividida não me leva a lado nenhum, é uma verdade nua, sussurrada pelo vento que passa por mim sem nunca me mover. Ver as duas direções é o mesmo que estar acorrentado ao chão, num pensamento que se bifurca e que cancela o próprio passo. Cada metade de mim puxa com a mesma força para lados opostos, e o resultado dessa física cruel do somatório de todas as forças é a imobilidade absoluta.

Sob o pretexto de procurar a decisão "perfeita", a mente sabota a ação, acumula dados, pesa prós e contras até à exaustão e desenha cenários hipotéticos no futuro. O excesso de planeamento sem execução é apenas uma forma sofisticada de procrastinação de uma mente dividida que consome a energia que deveria ser usada para caminhar, gastando-a na eterna hesitação do ponto de partida.

Para ir a algum lado, é preciso a coragem de perder algo. Escolher um caminho implica, necessariamente, a dor de abandonar o outro. E é o que torna tudo tão penoso, porque o ser humano tem uma aversão natural à perda, queremos o ganho da nova escolha sem abrir mão do conforto da situação actual. Mas o progresso exige uma portagem, a renúncia do que é confortável.

Enquanto não pacificar esta guerra interna, serei apenas um espetador do meu próprio destino, assistindo ao tempo passar enquanto coleciono começos que nunca viraram caminhos, mantendo a crença de que posso manter todas as portas abertas. Quem tenta caminhar por duas estradas ao mesmo tempo acaba por cair numa armadilha e acabará por se rasgar ao meio. A maturidade emocional começa quando aceitamos que decidir é podar os ramos de alternativas para permitir que uma árvore cresça.

A partida não exige certezas absolutas, exige apenas uma vontade inteira. A clareza não precede a ação, é um subproduto da própria ação, num descobrir se a estrada é a correta só depois de darmos os primeiros passos, pois o movimento transforma a paisagem e revela novos horizontes que a imobilidade esconde.

Para unificar uma mente dividida temos de escolher um objectivo principal, eliminando tudo o que seja secundário e transitório. Temos de abandonar o perfecionismo, ao perceber que uma decisão razoável executada hoje é infinitamente superior a uma decisão perfeita que nunca sai do papel. Temos que aceitar o erro como inevitável, e ao o identificar recalcular a rota, pois o erro ensina e o impasse estagna.

Assumir o controlo dos passos que se dão pelo caminho, significa liderança pessoal, onde a mente se alinha num único propósito, a energia fragmentada transforma-se num feixe de luz focado que ilumina e é capaz de romper qualquer bloqueio, para nos levar, finalmente, ao lugar certo.

Cada caminho novo, encerra um capítulo passado.

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