Durante anos, vivi no centro de uma tempestade que eu próprio alimentava. A minha mente era um mar revolto, açoitado por ventos, angústia e dúvidas perpétuas. Procurava respostas como quem procura um náufrago na noite escura, gritando contra as ondas, agitando as águas com desespero, mergulhando cegamente num turbilhão que eu mesmo criava. Quanto mais forçava o olhar através da espuma e das correntes, mais a verdade se diluía. Tudo era ruído, distorção e cansaço.
Um dia decidi sentar-me à margem de mim mesmo. Fechei os olhos e recusei-me a lutar. No início, a turbulência ainda insistia, trazendo à superfície detritos de pensamentos inacabados e medos antigos. Mas permaneci imóvel. Respirei o silêncio. Lentamente, o vento interior começou a amainar e as ondas perderam força. A agitação deu lugar a uma quietude quase esquecida.
Quando voltei a olhar para dentro, a metamorfose tinha acontecido. A água, antes turva e violenta, transformara-se num espelho perfeito e cristalino. Sem esforço, sem preces e sem fúria, as respostas que tanto perseguia emergiram do fundo, nítidas e intactas. Percebi, finalmente, que a clareza nunca esteve no destino que eu procurava, mas sim na coragem de deixar o meu próprio mar acalmar.

1 comentário:
Ao refletir sobre esta mudança, lembrei-me dos momentos de "mind fullness" que pratico de vez em quando (agora raramente) e que tentei descrever em palavras:
Encontre uma posição confortável. Feche os olhos. Deixe o corpo assentar no espaço onde se encontra agora.
Respire fundo... e solte o ar devagar.
Foque-se num ponto escuro. Totalmente escuro, onde nenhuma luz entra. Deixe-se dominar por essa escuridão, pelo vazio do nada.
Se surgirem imagens, recentre-se na negrura e deixe-a crescer. Elimine todos os pensamentos.
Assim que se conseguir focar na obscuridade total, permaneça 5 segundos.
Respire fundo... e solte o ar devagar.
Agora imagine, uma paisagem que considere perfeita. Uma floresta com o seu verde imenso, uma praia num por do sol de cores vibrantes, ou a superfície de um lago cristalino.
Sinta o cenário tranquilo. Não tente interagir, apenas observe.
Respire fundo... e solte o ar devagar.
Repita suavemente a inspiração e expiração. Sinta o ar a entrar e a sair, como se em cada ciclo, purificasse a mente.
O ruído do mundo exterior vai-se dissipando, dando lugar a um silêncio acolhedor. Sinta os seus ombros relaxarem. Sinta o peito abrir-se.
Respire fundo... e solte o ar devagar.
A sua mente torna-se, pouco a pouco, mais límpida, mais transparente.
Sem esforço, sem pressa e sem fúria, as respostas que procura começam a emergir. Elas surgem nítidas, intactas, sob a forma de uma intuição, de uma palavra ou de uma sensação de paz. A clareza já está aqui. Sempre esteve. Só precisava que acalmasse.
Respire fundo... e solte o ar devagar.
Guarde essa sensação de nitidez no seu peito.
Quando se sentir preparada, comece a mexer os dedos das mãos, os dedos dos pés e, ao seu próprio ritmo, abra os olhos.
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