domingo, março 29, 2026

Reconstruir

A confiança ao longo da vida sofre mutações que alteram recorrentemente o rumo que escolhemos.

A vida de um relacionamento, seja pessoal ou laboral, assume-se como essa metáfora de uma caneca partida para ilustrar uma verdade profunda. A reparação não é a mesma que a restauração ao estado original. As cicatrizes permanecem, alterando a estrutura e a função daquilo que foi quebrado.
Num relacionamento de casal, a confiança é a base invisível de qualquer ligação. Quando se quebra, seja por uma traição, uma mentira ou negligência, o colar das peças exige um esforço emocional hercúleo. Mesmo que haja perdão, surge a hipervigilância. Onde antes havia entrega cega, passa a existir uma análise cautelosa. Onde o diálogo e a verdade, mesmo a dolorosa, devem prevalecer. O relacionamento pode, nalguns casos, tornar-se mais resiliente porque sobreviveu à crise, mas perde aquela leveza e inocência inicial que nunca volta a ser a mesma.
Assim, a vida de uma relação passa por essas duas fases, ainda que em muitos casais se quebre, destruíndo-se quando "a caneca" se parte.

No primeiro momento, uma paixão intensa, mas ao mesmo tempo leve, quase distraída, como quem encontra um lugar bonito que domina os nossos pensamentos e sentimentos. Aquela que se detém nos pequenos detalhes, de um sorriso, do jeito único de ser, onde o mundo parece abrandar, nessa serenidade agitada que nos arrebata por completo. Num silêncio ruidoso, mas confortável, que nos preenche sem pedir licença. Um amor que quebra as nossas reservas, rompe as defesas, sem planos, como quem mergulha sem medir a profundidade.

Mas quando a confiança se quebra, e se tem força em se reconstruir a relação, surge essa segunda paixão, que de leve nada tem. Se na primeira há o encanto, na segunda a escolha. Quando já se conhece o risco, se sente o peso do eco da ausência do outro dentro de nós, desse caos que deixa nos nossos dias e tomamos noção do que podemos perder, onde o caminho do corpo já não nos guarda segredos, mas continuamos a nos perder no da alma.
Amar, passa a ser uma escolha diária, de cada momento em querer permanecer, sabendo tudo, sentindo tudo, temendo tudo, transformando-se nessa forma mais honesta e verdadeira de entrega.
Se na primeira paixão é sobre o outro, na segunda é sobre nós e a decisão, que apesar de todos os contratempos, mesmo assim, vale a pena ficar e lutar, voltar a colar as peças partidas.

A mensagem não é pessimista, mas realista. Uma caneca colada ainda pode segurar café, mas as linhas da quebra lembram-nos sempre de onde fomos frágeis. O segredo não é esperar que tudo volte a ser como era, mas aprender a valorizar a nova forma do objeto, que agora carrega uma história de superação.

sexta-feira, março 27, 2026

Emancipação

O que torna tantas mulheres dependentes? O que faz que se gere o receio de independência, que as impede de viverem uma liberdade plena?

Frequentemente, focamo-nos na dependência da conta bancária, nessa conhecida "dependência económica" que prende muitas mulheres, mas esquecemo-nos da dependência da autonomia quotidiana. Chamemos-lhe de "dependência funcional".

É uma forma subtil, mas poderosa, de imobilismo. Quando um dos membros do casal centraliza a gestão prática da vida, seja a burocracia, a manutenção da casa ou a resolução de problemas técnicos, cria-se uma dinâmica de procuração. A mulher pode ter o seu próprio salário, mas se não sabe onde se desliga a água em caso de fuga ou como gerir os seguros da família, permanece numa posição de vulnerabilidade de uma quase infantilização.

Esta dependência nasce, muitas vezes, de uma divisão de tarefas baseada em estereótipos de género ou simplesmente na "lei do menor esforço", de quem faz melhor, acaba por fazer sempre. O problema é que o "saber fazer" é um músculo, que se não o exercitamos, atrofia.

A emancipação aqui não é sobre fazer tudo sozinha, mas sobre saber que consegue fazer.

Para quebrar este ciclo, a mulher pode adotar estratégias de retoma de controlo, como identificar as áreas nebulosas e em vez de apenas dividir, recorrer a processos de aprendizagem, seja auto, ou naturalmente adquirir o know-how, observando, pedindo para aprender.

A emancipação funcional exige que a mulher deixe de ser apenas a executora de algumas tarefas para se tornar co-gestora da logística doméstica.

Muitas vezes, a dependência mantém-se por medo de falhar ou de fazer pior que o companheiro. A emancipação passa por aceitar que aprender a resolver problemas implica, inicialmente, alguma ineficiência.

A verdadeira autonomia é a liberdade de saber que, perante uma ausência ou uma rutura, o mundo não pára porque se sabe exatamente onde estão as chaves de todas as portas da vida.

Todo este processo traz consigo novas aprendizagens, descobertas pessoais de recursos que se desconheciam.

A carga mental é o motor invisível que mantém a "dependência funcional" a funcionar. Enquanto a tarefa é o ato físico (ir ao Lidl), a carga mental é o planeamento, a antecipação e a gestão (perceber que o leite está a acabar, fazer a lista, planear a rota e garantir que há dinheiro para pagar).

No contexto da mulher, esta carga é frequentemente uma herança cultural pesada. Mesmo quando há uma divisão de tarefas, a mulher tende a manter o cargo de "gestora de projeto", enquanto o homem assume o papel de "ajudante".

Esta gestão invisível gera um cansaço que não se cura a dormir, mas sim a desligar. A dependência funcional alimenta-se disto.

A verdadeira autonomia funcional só acontece quando a mulher deixa de ser o "sistema operativo" da casa e passa a ser uma utilizadora com os mesmos privilégios e responsabilidades que o companheiro.

Emancipa-te. Liberta-te da "dependência funcional".

quinta-feira, março 26, 2026

Escudo

Muitas vezes, cruzamo-nos com alguém que emana uma paz inabalável. É uma serenidade exterior que parece tão natural, quase etérea, mas que raramente conta a história toda. O que vemos, num rosto liso, num sorriso calmo e uma pele que parece imune ao tempo é, na verdade, um escudo de proteção. É uma armadura forjada no fogo de batalhas que ninguém mais viu, uma barreira necessária para preservar o que resta de um mundo interior vasto, complexo e, por vezes, fragmentado. Torna-se difícil de imaginar sequer, os escombros de onde essa paz foi erguida. O rosto transforma-se nesta máscara de resiliência, escondendo as cicatrizes que o espírito carrega.

No entanto, se pararmos de olhar apenas para a superfície e buscarmos na profundidade dos olhos, o ruído do mundo silencia-se. É aí, nesse vislumbre íntimo e fugaz, que conseguimos ler nas entrelinhas e ver mais além. Ignorando o barulho parasita das palavras e das aparências, percebemos o peso das lutas atuais e a coragem necessária para continuar a caminhar com tal leveza.
Por isso, é vital reconhecermos quando o nosso próprio escudo se torna pesado demais. É preciso saber parar. Respirar bem fundo até que o ar chegue aos recantos mais esquecidos do nosso ser. É no abraço silencioso e na grandeza da natureza, onde nada é julgado e tudo simplesmente É, que encontramos o refúgio necessário. Só ali, entre a terra e o céu, é que o corpo e o espírito conseguem finalmente se desarmar e reencontrar a paz autêntica que lhes permite seguir em frente. É nos pequenos detalhes da natureza que encontramos os pormenores mais lindos e que nos dão serenidade e alimentam a esperança de dias mais calmos, de batalhas ganhas e de reencontro de uma harmonia entre o ser e o estar.
Respire... Tudo passa


terça-feira, março 24, 2026

Florir

Caminhar pela vida e não ver o que nos rodeia, é como ter uma personalidade autista, em que não se enxerga além do que é superficial ou imediato. E hoje vi o esplendor da força que a Primavera tem e de toda a sua renovação.


Ao olhar para uma árvore no auge do inverno é, muitas vezes, contemplar uma "natureza morta". Os ramos estão despidos, a casca parece endurecida pelo frio e não há um único sinal de verde que denuncie a pulsação da seiva. No entanto, é precisamente nesse estado de aparente dormência que reside o milagre do renascimento.

A vida, tal como a árvore do pensamento, expande-se em direções que nem sempre controlamos. Os ramos são as nossas escolhas, as encruzilhadas que nos afastam de quem fomos ou de quem planeámos ser. Por vezes, esses caminhos levam-nos a invernos rigorosos, períodos de perda, de silêncio ou de um vazio que parece definitivo. Nesses momentos, sentimo-nos como esses galhos secos, estáticos, desprovidos de energia e expostos à intempérie.

Contudo, a natureza ensina-nos que a ausência de folhagem não é ausência de vida. Debaixo da superfície, nas raízes que se aprofundam na terra escura, a vida está a organizar-se. O renascer não é um evento súbito, mas o resultado de uma resistência longa e silenciosa.

Quando a "primavera da vida" finalmente chega, ela não traz apenas flores, traz a confirmação de que sobrevivemos. O milagre não está apenas no florir, mas na capacidade de a árvore voltar a ganhar energia depois de ter sido posta à prova pelo gelo. Cada nova folha é um triunfo sobre o inverno passado.

Assim, o que anteriormente se via como "natureza morta" na jornada de cada um, é, na verdade, um ciclo de repouso necessário. As encruzilhadas e os ramos distantes fazem parte da mesma raiz e, tal como a árvore, a nossa essência guarda a promessa de que, por mais longo que seja o inverno, a vida encontrará sempre o caminho de volta para a luz, florindo com uma força que só quem conheceu o frio consegue ter.


Se os ramos são os caminhos visíveis e as flores são o sucesso do renascimento, as raízes são a nossa verdade invisível. Elas representam tudo o que nos sustenta quando o exterior, esse inverno rigoroso do mundo actual, nos tenta derrubar.

Enquanto os ramos se distraem com o céu e o vento, as raízes ocupam-se com a profundidade do ser interior.

Quanto mais alto uma árvore tenta chegar, mais profundo ela precisa de mergulhar na terra. Na vida, as nossas raízes são os nossos valores e princípios. Quando as tempestades das "encruzilhadas" chegam, não é a flexibilidade dos ramos que impede a queda, mas a firmeza do que está enterrado. Raízes profundas significam que, mesmo que os ramos quebrem, o núcleo permanece intacto.

A raiz trabalha no escuro, longe dos aplausos da primavera e extrai vida da terra, muitas vezes transformando a matéria morta em energia. Isto simboliza a nossa capacidade de resiliência, a habilidade de pegar nas dores do passado e transformá-las na sabedoria que alimenta o nosso crescimento futuro.

Na natureza, as raízes de diferentes árvores entrelaçam-se, criando uma rede de suporte. As nossas raízes são também a nossa ancestralidade e afetos. Mesmo quando um ramo se sente sozinho numa encruzilhada distante, ele ainda é alimentado pela base comum, em comunhão por aquela essência que nos liga à nossa origem comum e a quem nos ama.

Portanto, a natureza morta que vemos no inverno é um disfarce. Por baixo do solo, as raízes estão mais ativas do que nunca, segurando a promessa de que a árvore não é apenas o que se vê, mas sim a força silenciosa que a impede de desistir da terra.


Mesmo que hoje me possa sentir como um galho seco sob o gelo, não posso esquecer-me que o inverno não é um fim, mas o tempo em que as raízes ganham a força necessária para sustentar a beleza do florir que uma próxima primavera vai revelar.

Por mais longo e rigoroso que seja o Inverno, a Primavera sempre chega.

segunda-feira, março 23, 2026

Devo-te... Respeito

Acordei de novo contigo a preencher-me de vida. Nestes sonhos em que a tua imagem me deixa sem fôlego e num palpitar que me dá uma ânsia de viver intensamente cada momento contigo.

Mas quando a euforia descontrolada esmorece e surgem aqueles momentos em que a razão toma conta de mim, apercebo-me do ridículo que sou, no depravado e decrépito em que me tornei. Sinto essa fuga da dopamina que me dominava, para surgir um estado de "depressão", como se fosse um ser psicótico com os delírios de ver existência no que não é real. É a própria vida a retrair-se, a impedir-nos de concretizar uma certa impossibilidade.

Parte de mim, tem a certeza do bom que seria estar contigo, ser contigo, mas numa certeza de que o universo o torna impossível.

Talvez seja melhor assim, agora e neste momento. 

Não seria total. Seria só um pedaço mais animal de mim que teria para oferecer, de uma posse e desejo predatório e não amor completo. Seria faltar a um princípio maior, o do respeito. Por ti, pela mulher magnífica que sinto, que sei que és. Seria roubar-te a dignidade que mereces.

Não consigo, não deixar de romantizar qualquer tipo de união, mesmo que seja só física. Não é de mim. Envolvo-me por completo, porque há em ti muito mais, que me rouba a razão, que me faz sentir-te no íntimo do coração.

Essa indignidade de não ter mais para te oferecer no presente, senão o corpo, ainda que com carinho e muita afeição. E quando há inocentes na equação, que merecem estabilidade para poderem crescer felizes tanto em sabedoria como em graça. Num equilíbrio frágil de uma família que não pode deixar escapar uma imagem de desunião e destruir por completo o ideal pelo qual se lutou tanto.

Seria tão melhor, que me rejeitasses, que me dissesses PÁRA, que me fizesses calar dos longos discursos sentimentais que por tão longos se tornam de uma superficialidade ignóbil.

E por tudo isto só consigo pensar, em contínuo, na palavra desculpa. Por tentar não só conquistar-te o corpo pelo desejo, mas também a mente, pela escrita, pelas palavras que correm nos dedos e nos lábios sem freio, sem filtros de uma consciência perturbada.

Saberíamos no que nos estaríamos a meter, ao permitir que a vida em comum fluísse em nós. E por isso não nos podemos permitir a vivê-lo abertamente, ou de todo. Não agora, talvez nunca. Seja por nos sentirmos mais distantes emocionalmente de quem connosco partilha a vida, nessa solidão de uma companhia que parece tantas vezes só servir para fazer gestão de uma casa, de uma família. Mas não seria justo transformar-te numa muleta emocional. Mereces muito mais do que isso. Muito mais do que ouvir as lamentações que tomaram posse de mim.

Chego a sentir-me nauseado pelo escremento de homem em que me tornei. Num ser nojento que vulgariza a exposição sexual e que se transformou num porco, com a ideia vil e mesquinha de tentar deixar-te excitada pelo fraco exemplo de homem que agora sou.

Quero recuperar o "cavalheirismo" que penso teres conhecido em mim, nem que para isso me remeta ao silêncio, abandonando o teu espaço, deixando-te nessa serenidade na qual habitavas e que eu tanto apreciava.

"Logo vais perceber que tudo o que viveste foi uma preparação para viveres a melhor fase da tua vida... Confia. Confia."
Desconhecido

domingo, março 22, 2026

Sozinho em casa

Mais uns dias totalmente só. Pai e mãe de três crianças que vivem numa feliz ilusão de um casal unido para manter aparências.

Este é o peso invisível de quem sustenta uma casa sozinho, enquanto o outro se ausenta, não apenas fisicamente, mas sobretudo emocionalmente.

Viver para nutrir a felicidade ilusória de três crianças é um ato de amor profundo, mas também um sacrifício que corrói. De um lado, o dever moral de preservar a estabilidade dos filhos, protegendo-os da rutura. Do outro, o conflito interior, da desonestidade de tudo isto e se não seria mais correto uma separação de facto.

Até que ponto o silêncio de quem gere contas, refeições e rotinas, sem qualquer reconhecimento, é resiliência ou apenas a aceitação de uma solidão a dois?

Quando nem a presença física resta, o casamento deixa de ser uma parceria vivida com amor, para se tornar uma gestão de ausências. Continuar significa manter a paz dos filhos à custa da própria anulação. Sair significa enfrentar o desconhecido, mas também reivindicar o direito de não ser apenas um cuidador invisível numa casa onde o outro escolheu não estar.

A vida assim torna-se amarga de viver. Valerá a pena sustentar um cenário de família unida se a base desse cenário é o esgotamento solitário de um dos lados?

"Desinteresse não se explica, mas sente-se em cada gesto"

sábado, março 21, 2026

Sonhei contigo

Rever-te, rever o passado não muito distante, que nos últimos dias criaram um grande impacto emocional em mim, deu azo para que nos meus sonhos aparecesses como essa recordação bonita do que ainda não foi vivido.

Ao te ver, foi como se os ponteiros do relógio deixassem de contar, nesse momento estático temporal onde dois olhares se fitam numa conexão profunda. Sem palavras, ou cumprimentos, abraçamo-nos, numa união de duas almas em uma só, como se ali se dissipasse, naquele momento, toda a tormenta que em nós existe.

E sem licença ou desculpas os nossos lábios encontraram-se num sopro de vida intensa, que libertou a paixão reprimida pela distância física. Perdemos as amarras das nossas vidas e do passado, para intensamente viver esse presente de duas pessoas individuais que partilham o mesmo leito, num momento que se prolonga tranquilamente.

E tudo se desenvolveu, tão naturalmente, como se soubéssemos onde estar ou o que fazer para dar prazer um ao outro, como se estivesses dentro dos meus pensamentos e eu nos teus.

Explorei delicadamente cada pedaço teu, com os meus sentidos mais sensíveis, o toque dos dedos e dos lábios, sentir-te arrepiada, sem qualquer palavra. Ouvir esse gemido leve, mas irresistível que me faz ficar tenso, de uma dureza semelhante ao aço, este não frio e desconfortável, mas quente, húmido e cheio de vontade de viver dentro de ti. Mas que ainda não o permito libertar-se em ti. Antes detenho-me perante ti, no meio das tuas coxas, como se elas me apertassem, para não me deixar escapar e com a sensibilidade da minha língua faço amor com a tua erecção. Acaricio-te gentilmente, para arrancar de ti uma violenta mas deliciosa reacção, louca e descontrolada, que te faz vir na minha boca e saborear na plenitude o que de ti escorre. E num momento súbito, entrar profundamente em ti, nesse ímpeto entre gritos e choro de um prazer que se prolonga num tempo que não mais passa.

Sentir o teu calor, o teu suor, o teu respirar ofegante, o teu palpitar síncrono com o meu, num viver intenso que dá prazer e tesão. Penetrar-te tão fundo e tão duro, que sentias cada pedaço de mim dentro de ti. Sentires o meu peso em ti, que te conforta. E quando já não controlo o desejo em mim, sou eu que agora expludo. Também gemo, mas levemente, num controlo descontrolado de quem vê vida sair de mim, mas que me renova e reaviva.

E ficamos. Aninhados um no outro, com palavras ditas como em segredo ao ouvido, ao coração um do outro, de que aquele momento fica intemporal em nós. Uma união carnal, que se transforma numa união também espiritual.

Sentir que o que aconteceu em sonhos, pode ser essa realidade impossível que poderá nunca chegar, mas que nutre em mim essa vontade insaciável de ti, de te manter em mim, como uma dolorosa lembrança do que ainda não aconteceu.

"Não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram."
Fernando Pessoa

sexta-feira, março 20, 2026

Quando ao Corpo a Alma se retira

Faz pouco mais de um ano que fechei a porta a oito anos de uma vida. Não foi apenas uma demissão, foi o encerramento de um ciclo onde o "eu" e o "nós" se fundiram numa construção que ia muito além de paredes e contratos. Durante quase uma década, vi e ajudei a erguer o que chamávamos de casa. Vi uma equipa que, perante a adversidade, se tornava rocha, coesa, íntegra, inabalável. Ali, o suor não era apenas esforço físico, era o cimento de um sonho partilhado que sentíamos como família, ao ponto de ali encontrar algumas, poucas, pessoas que senti minhas e que ainda hoje recordo com saudade e carinho.

Dizem que as instituições são feitas de pessoas, mas a verdade é que elas são feitas de entrega. E eu entreguei muito de mim, ao ponto de, ao sair, sentir que perdi muito do que fui. Por isso, dói recordar como esse refúgio se transfigurou, aos poucos, num terreno tóxico, onde o oxigénio da camaradagem foi substituído pelo peso da desconfiança.

Recentemente, chegaram-me ecos do que esse lugar se tornou. Dizem-me que hoje é um espaço impessoal, sem vida, sem aquele brilho nos olhos de quem ali entra. Ao ouvir isto, ocorreu-me uma imagem forte. A de um corpo físico que permanece de pé, mas cuja alma espiritual partiu.

A palavra "desanimado" significa, na sua génese, "sem anima", sem alma. É estranho e melancólico pensar que a minha saída, e talvez a de outros que ali colocaram o coração, tenha sido o símbolo desse abandono, desse desânimo. Como se, ao retirarmos a nossa essência e os nossos valores, tivéssemos levado connosco o sopro vital que mantinha aquela estrutura viva.

Hoje compreendo que as casas não são as paredes, mas o espírito de quem as habita. Quando a toxicidade expulsa a integridade, o que sobra é apenas uma carcaça mecânica, funcional mas vazia. Saí para salvar a minha própria alma, mas não deixa de haver um luto em saber que o corpo que ajudei a criar agora apenas deambula, sem rumo e sem o calor que um dia o fez ser um lar.

Às vezes, é preciso deixar um corpo para trás para que a alma possa, noutro lugar, voltar a respirar.

Força e resiliência a quem ainda acredita em recuperar o espírito de um corpo inanimado.

quinta-feira, março 19, 2026

Dia do pai

Tenho-me questionado que tipo de pai sou?

Diz-se que ser pai é ser pelo exemplo. Mas o exemplo não nasce da perfeição. Nasce da presença. Muitas vezes, perdemo-nos no ruído das expectativas sociais, tentando ser o "pilar inabalável" ou o "guia infalível", e esquecemo-nos de questionar o que realmente ressoa no olhar dos nossos filhos.

Ao mergulhar nessa disputa mental sobre o que define uma parentalidade responsável, surge uma revelação desarmante: talvez o segredo para ser um bom pai seja a coragem de abraçar o que historicamente rotulámos como ser mãe.

Ser pai é, afinal, ter a sensibilidade de baixar a guarda. É perceber que a autoridade de pouco serve se não for acompanhada pela disponibilidade emocional. Para ser esse exemplo que os filhos quererão seguir, descobrimos que precisamos daquela atenção minuciosa às inquietudes invisíveis, do coração que escuta o que não foi dito e das mãos que, em vez de apenas apontarem caminhos, se entrelaçam para construir laços.

Ser um "pai razoável" pode ser apenas cumprir um papel. Mas ser um pai que se permite ser "uma razoável mãe" é escolher a via do afeto, da presença constante e da vulnerabilidade. É entender que os laços mais sólidos da vida não são feitos de cimento, mas de tempo, de escuta e de uma ternura que não teme ser revelada. No final do dia, o melhor exemplo que podemos deixar é o de alguém que soube amar com a totalidade do seu ser.

Ser pai com coração de mãe

quarta-feira, março 18, 2026

Até amanhã

As despedidas são momentos que sujeitam a alma e o corpo para um sofrimento difícil de suportar e compreender. 

Como se resistissemos à necessidade de dizer "até amanhã", tentando prolongar num eterno o "hoje e agora".

Esta expressão de despedida, carrega o peso doce e, ao mesmo tempo, cruel da finitude. Quando dizemos "até amanhã", estamos a aceitar passivamente a passagem do tempo, mas o coração, por vezes, recusa-se a aceitar esse afastamento.

Desejar que o "hoje" seja eterno é a prova máxima de que o momento presente deixou de ser apenas tempo e passou a ser sentimento marcado na profundidade da alma. É aquele estado de suspensão onde o mundo lá fora deixa de existir, onde o ruído se cala, e a única realidade que importa é a presença do outro. O amanhã, embora prometa um reencontro, é uma interrupção, é o regresso à rotina, ao relógio e à distância necessária para que a vida continue.

A melancolia da resposta "não queria que fosse amanhã" revela o medo de que, ao fechar os olhos hoje, a magia se dissolva, o momento se apague na distância do passado. Existe o receio de que o amanhã traga uma luz diferente, menos dourada, ou que a urgência daquele instante se perca. Querer que o hoje continue é o desejo humano e impossível de eternizar a felicidade antes que ela se torne memória.

É um paradoxo do afeto. Para haver um "até amanhã", temos de deixar o "hoje" morrer. E, às vezes, o agora é bom demais para o deixarmos partir.

Preocupados com o amanhã, esquecemos de viver o aqui e agora...

domingo, março 15, 2026

A vida basta

Muitas vezes, passamos o tempo a olhar para o horizonte, obcecados em decifrar o "porquê" de estarmos onde estamos e tantas vezes de estarmos com quem estamos. Projetamos um sentido grandioso para o destino final, criado em sonhos e expectativas irreais, como se a vida fosse um enigma que precisa de uma solução lógica para ter valor. No entanto, a maior lição que a existência nos oferece é a sua própria fluidez. A vida basta-se a si mesma.

O erro reside na tentativa de domesticar o imprevisto através do significado. Quando nos preocupamos excessivamente em atribuir um sentido aos caminhos que se nos atravessam, sejam eles áridos ou floridos, perdemos a textura do agora. Os caminhos, na sua maioria, são frutos do acaso, da circunstância e do caos do mundo, nem sempre têm uma lição planeada ou um propósito oculto à nossa espera. Interrogamo-nos sobre o que nos é deixado vislumbrar, mas que parece impossível de alcançar. A verdadeira mestria de viver não está em justificar a estrada, mas na qualidade do passo. O sentido não reside no solo que pisamos, mas na intenção, na consciência e na entrega com que caminhamos. É o ritmo que imprimimos à marcha, a leveza ou a firmeza da nossa pegada, que define quem verdadeiramente somos.

Viver com foco no passo liberta-nos da tirania do destino, como se perdesse-mos a beleza do presente, ao imaginar o futuro. Se o caminho for difícil, o sentido está na nossa resiliência em atravessá-lo. Se for belo, o sentido está na nossa capacidade de o apreciar. Ao deixarmos de procurar um "porquê" para tudo o que nos acontece, passamos a ser os autores do "como" reagimos.

No fim, a vida não é uma pergunta à espera de resposta, mas um movimento que ganha propósito na própria ação de caminhar.

O caminho é, frequentemente, mudo, indiferente às nossas preces e expectativas, onde nem sempre teremos as respostas às nossas intermináveis dúvidas e questões. Como se o silêncio assombrasse o nosso passo. E por vezes é necessário ter a capacidade de perceber, que ao caminhar por estradas ruidosas, onde o próprio passo se torna inaudível, talvez seja o momento de mudar de rumo.
Questiono-me se o silêncio é por si só uma resposta

sexta-feira, março 13, 2026

Dignidade em fim de vida

Ser médico é mais do que uma profissão terminantemente técnica, em que é necessário, muitas vezes, um equilíbrio dessa linha ténue entre a biologia e a biografia, sobretudo ao cuidar de idosos com múltiplas patologias.

Num cenário de doença crónica avançada, o hospital, lares de idosos ou unidade de cuidados continuados, deixam de ser apenas lugares de cura ou convalescença, para se tornarem num espaço de definição de prioridades humanas.
A luta ética surge quando a medicina técnica, capaz de prolongar o funcionamento dos órgãos, entra em conflito com a dignidade da pessoa humana. O dilema não é sobre desistir, mas sobre reconhecer o momento em que a intervenção agressiva deixa de ser um benefício e passa a ser uma obstinação terapêutica, uma agressão à dignidade e ao direito a uma boa morte.
Quando a cura já não é o objetivo clínico, o "sucesso" médico deve ser redefinido. Como costumo dizer nestes casos, a morte não é um insucesso. O sucesso passa a ser o controlo rigoroso dos sintomas, o alívio da dispneia e a preservação da lucidez e do conforto.
Cada decisão, seja iniciar um antibiótico, colocar uma sonda nasogástrica ou uma hospitalização, deve ser filtrada pela pergunta: "Isto acrescenta vida aos dias ou apenas dias a uma vida em sofrimento?"
Tantas são as vezes em que o doente já não pode decidir e a família, ausente ou abstinente na tomada de decisão, faz recair sobre o médico, com toda a carga de responsabilidade, a tarefa de mediar a angústia da família, da equipa alargada de prestação dos cuidados, ajudando-os a passar do "façam tudo para o manter vivo" para o "façam tudo para que ele não sofra". É um processo de luto antecipado onde a comunicação é o fármaco mais importante.
Decidir não reanimar, limitar cuidados mais ou menos invasivos ou ter atitudes mais conservadoras, não é uma omissão de auxílio, mas sim um ato de respeito pela finitude. É aceitar que a morte é um processo natural e não uma falha técnica.
Cuidar de quem envelhece exige a coragem de saber quando recuar na técnica para avançar na humanidade. É um exercício diário de humildade perante a vulnerabilidade alheia e a nossa própria impotência.

Comunicar à equipa de forma clara os princípios de dignidade humana e os objectivos dos cuidados, é garantir que todos compreendem que limitar não significa abandonar. Fazer entender que decisão tomada, não é fruto de uma escolha subjetiva, mas consequência do prognóstico clínico, da falta de reversibilidade da doença, da futilidade terapêutica nas situações de falência multiorgânica ou ausência de resposta a tratamentos, sobretudo no corpo tão excessivamente massacrado do idoso, onde qualquer forma de intervenção mais agressiva causaria apenas dano desnecessário e prolongamento do sofrimento, sem benefício na qualidade de vida.
E por isso é peremptório que a tomada de decisão seja partilhada com a equipa multidisciplinar (enfermeiros, auxiliares, direcção técnica). Sobretudo por aqueles, que passam mais tempo à cabeceira do doente e que detetam sinais precoces de sofrimento ou desejos expressos pelo doente que podem validar a decisão de limitar cuidados.
Decisão partilhada que passa pela comunicação e diálogo em equipa, em pequenos momentos, para alinhar objetivos, garantindo que todos transmitem a mesma informação à família, evitando mensagens contraditórias que geram desconfiança. Momentos onde se pode redefinir o plano de cuidados, abordando não no que não vai ser feito ou realizado, mas com foco no que será reforçado para garantir a dignidade do doente, como o controlo de sintomas centrados no conforto. Acções que podem ser realizadas de forma autónoma, criando-se, se necessário, protocolos bem definidos, seja para lidar com dor, dispneia e sofrimento. Deixar claro que foco agora é a paz e não a luta.
É fundamental perceber que numa equipa, cada um tem a sua visão, resultado de crenças e experiências pessoais. E reconhecer que a limitação de cuidados pode gerar sentimentos de impotência ou falha moral em alguns profissionais, tentando estar receptivo, sem julgamento ou sentimento de culpa, às dúvidas ou angústias sobre a decisão tomada, de forma a manter um controlo emocional de decisões que poderiam levar-nos a um esgotamento pessoal, de culpa ou responsabilização ou no seu antípoda de sensação sobre-humana de tomada de decisão divina, mantendo a fundamental humildade de reconhecer a cada momento o melhor para cada doente.
Tenho em mim um cemitério enorme de doentes.
De decisões sobre vida ou morte.

quinta-feira, março 12, 2026

(Re)conheSER

E num olhar, num encontro frio e inesperado, ficaste a conhecer um pouco mais de mim, dos dilemas diários e do confronto entre a moral e o imoral que me domina.

Todos temos um caminho percorrido, que conhecemos como "a nossa história", que não é feita apenas de vitórias, de conquistas e momentos felizes, mas de uma trama complexa onde cada fio tem o seu propósito. Onde as desilusões e os momentos de maior luta e tristeza, nos trazem aprendizagem e oportunidades de mudança e crescimento.
E é nestes momentos de maior provação, que devemos gratidão pelas pessoas e pelos desafios que a vida e o destino nos dá.
Muitas vezes, olhamos para os obstáculos como pausas indesejadas, mas são eles que testam a nossa resiliência. As pessoas que cruzam o nosso caminho, as que ficam e as que partem, funcionam como espelhos, que revelam partes de nós que, no isolamento do conforto, permaneceriam ocultas. A gratidão aqui não é um cliché, é a aceitação de que cada encontro e cada perda foram lições necessárias.

É um ciclo de (Re)conheSER.
Conhecer o nosso ser interior e profundo, surge como um ideal de evolução, que não se limita a uma aquisição de novas competências, mas sim um regresso à nossa essência. Cada recomeço é uma oportunidade de retirar as camadas que já não nos servem e de nos aproximarmos de quem realmente somos. Não estamos apenas a conhecer o mundo, estamos a aprender a ser de forma mais autêntica através das experiências.
A jornada não termina no autoconhecimento. O verdadeiro crescimento manifesta-se na capacidade de transformar o que aprendemos em serviço. Ao continuarmos a aprender e a crescer, tornamo-nos mais aptos a contribuir para o todo. É um ciclo contínuo: recebemos da vida através dos desafios e devolvemos ao mundo através da nossa evolução e entrega.
E continuamos, um passo de cada vez, honrando o passado para construir um presente com mais significado.
Acredito que o tempo, por si só, nos levará à cura. Cura o que decidimos olhar com verdade, aceitar o que ficou reservado para cada um de nós. 
Crescer não é fazer mais, é SER mais, mais autênticos, mais inteiros, mais livres, mais em paz.

segunda-feira, março 09, 2026

Dá-me um abraço

Sob o pálido luar da existência, o abraço não é um simples gesto, mas um enlace sagrado, uma comunhão onde a matéria se submete ao império do espírito. É o instante sublime em que dois seres, exaustos das tormentas do mundo, se recolhem num santuário de carne e osso, onde as batidas do coração ditam o ritmo de uma melodia que só as almas podem ouvir, em que dois batimentos cardíacos se alinham sem precisarem de dizer uma única palavra. É muito mais do que um gesto físico. É o ponto onde a anatomia se funde com o invisível, transformando-se numa verdadeira ponte entre dois corpos e duas almas.

Nesse encaixe, o mundo lá fora silencia. Quando os braços se fecham, cria-se um casulo de segurança onde a paz e a tranquilidade deixam de ser conceitos abstratos para se tornarem sensações táteis. Ocorre uma transfusão de vitalidade. Onde antes reinava o desânimo, o toque restaura. Onde havia sombras, o calor do outro acende uma centelha que recarrega o ser por inteiro. É a paz que chega como uma brisa suave após a tempestade, uma serenidade que suspende o tempo e permite que o amor, em toda a sua melancólica beleza, floresça no silêncio de dois corpos que se fundem. Nessa troca silenciosa, o cansaço de um é absorvido pela força do outro, e o amor flui como uma corrente elétrica que restaura o espírito. 

É um "estou aqui" que reverbera no peito, capaz de desarmar as defesas mais rígidas e suavizar as dores mais agudas.

Num abraço sincero, as almas despem-se de máscaras e o que resta é a essência, a ligação pura, o calor humano e a certeza de que, naquele instante, somos um porto seguro para alguém, onde a alma, finalmente, se reconhece em outra e descobre que não está sozinha nesta vasta e tempestuosa jornada.

Queria morar num abraço teu

terça-feira, março 03, 2026

Inseguro

As palavras ganham eco, nesse imenso vazio que é a minha mente. Ideias redundantes, que não me abandonam e me deixam sequestro de estados de overthinking, do qual não me consigo emancipar.

Porque sou tão inseguro? Porque no meio de alguma ideia de extroversão, me sinto logo de seguida inapropriado, desadequado, que me destrói? Não é uma ideia recente. Já aqui expus em tempos a minha visão da dismorfia que me acompanha. E voltei a sentir essa sensação de subjugação.


Porque fui abandonado, não há muito tempo? Ainda ontem me dizias como era o marido perfeito, um exemplo de pai. Dedicado, organizado, que te libertava de tantos afazeres, como nunca imaginaste que seria possível. E talvez, tenha sido tudo isto que te fez deixar de me desejar. Correndo o risco de parecer algo misógino, talvez esta vertente muito feminina em mim, de gestão familiar, de deixar tudo organizado, de ter brio e ser aprimorado nos afazeres domésticos, a rondar o exageradamente romântico nas palavras e nas acções, te fez ver-me mais como uma companheira de casa e menos como um amante ardente, que te dá prazer à carne.

E me fez, como tantas vezes nesse passado esquecido, sentir-me ignorado pelos imensos defeitos que tenho, que me deixam incapaz de me olhar com uma paixão própria e que me fazem assumir essa atitude de autocrítica, mais complacente do que a complacência de quem olha e em silêncio diz tudo.

Como seria bom alcançar esse estado de eudaimonia, objectivo inalcançável, mas propósito final.


"Perdoar é o reflexo de se amar o suficiente para seguir em frente."

segunda-feira, março 02, 2026

Duas caras

 A vida é um continuum de aprendizagem. Um "só sei que nada sei", constante. E é junto dos mais novos, que tantas vezes recebemos dos ensinamentos mais profundos que nos fazem mudar, na maioria das vezes, de atitudes.


Somos feitos de duas "matérias" distintas, que no entanto têm traços comuns entre si. Essa que é a que os outros vêem de nós, baseada nos traços que vamos deixando, mas sobretudo criada pela expectativa do que podemos ser. E a outra que é a visão que nós próprios temos de nós. Esta que, se calhar, ninguém chega mesmo a conhecer, ou só mesmo essas raras pessoas que olhando-nos nos olhos, conseguem perceber o nosso verdadeiro eu, esse íntimo de uma obscuridade luminosa do qual somos feitos.

Por isso é importante estarmos receptivos a ser tolerantes, empáticos perante os outros, pois não sabemos do sofrimento, da angústia, das desilusões pelas quais passaram, que os moldaram em introvertidos, por vezes até desagradáveis, ou nessa estranha forma de ser tão expansiva que esconde.


É nesta batalha entre o eu próprio e o eu social, que nos encontramos. Nessa necessidade de frenar impulsos, que em muito revelariam os nossos desejos mais profundos, por vezes tão obscenos que chocariam os mais incautos. Vive-se preso a limites auto impostos, a valores em que se acredita serem importantes, para não destruir por completo as raízes nas quais fomos criados e educados.


Falo de novo de amores e desamores... num momento em que pensava estar "curado" dessa doença que alimenta, mas também destrói. Numa altura em que tinha de novo assumido a certeza de que "tudo está escrito", de que nada aconteceu por acaso. Que a determinado momento das nossas vidas dissemos SIM a quem nos estava destinado para a vida. E, ainda acredito. Não fosse esse desejo que nos deixa toldados e nos consome a razão e que se torna num pecado saboroso de luxuria e sensação calorosa.

Há, sem dúvidas, pessoas muito especiais, fantásticas, de uma presença e espiritualidade única que nos deixam completamente sem norte. Pelo seu jeito, pela sua forma e sobretudo pelo seu conteúdo.

Mas, não podemos ter a ambição de sermos "donos" de tudo o que é bom. A cada um de nós um pedaço, sem necessidade de ao querer tudo, tudo perder. E a forma mais digna de mostrar afecto, torna-se então, nessa liberdade que nos traz felicidade. Felicidade que tem que ser uma conquista diária, trabalhada arduamente, mesmo que para isso se tenha que abdicar de muito, que ao outro parecendo pouco, é tanto.

Sonhava hoje, sobre esses princípios de relacionamento. Da paixão que vem das qualidades que observamos no outro e do amor, que fica das imperfeições que compreendemos e aceitamos. Que assumimos diariamente como desafios, numa tolerância, num respeito mútuo, em que vemos partilhar e mudar o nosso eu íntimo ao outro, como se os dois fossemos um. Não há perda de identidade no processo. Há uma mudança natural, assumindo-se essa atitude de resiliência que nos faz ficar, superar adversidades e sair mais forte da experiência.


Não sou um Dr do amor. Nunca fui. E disto, apesar dos anos passarem, pareço perceber cada vez menos. Aprendizagem feita, com as alegrias e com as tristezas que em todas as histórias nos fazem perceber do difícil que é viver em paz, sereno, alienado ao que nos rodeia. Como seria bom viver nessa escuridão da solidão, nesse viciante desejo de não sofrer por se partilhar, mas com a sensação de que o isolamento total não nos teria trazido dos momentos mais felizes e luminosos da nossa vida, ainda que alguns deles tenham sido tão efémeros, mas de uma intensidade, capazes de nos transformar. Momentos capazes de transformar segundos, dias, anos em algo único, aos quais voltaríamos, sem hesitar.


"Sofremos muito com o pouco que nos falta e desfrutamos pouco do muito que temos".

Shakespeare

domingo, fevereiro 22, 2026

30 dinheiros

Não me é muito habitual que um sonho me marque tanto.

Em criança, era-me recorrente sonhar com queda de um terceiro andar onde vivia, e como se de um looping se tratasse, subia de novo as escadas para voltar a saltar. Sem dano, sem consequências. Só o salto. Nunca tentei perceber o porquê deste sonho, mas ainda hoje me recordo dos seus pormenores.

Esta noite, num pequeno intervalo de descanso, de mais uma noite de trabalho, voltei a ter um sonho que me despertou e que ainda agora, de olhos bem abertos, me atormenta.
No meio de uma confusão de sentimentos, que me pareciam bastante reais, de uma experiência de flirt a uma figura feminina, eis que vejo uma figura de aspecto tenebroso, que me coloca uma moeda de prata na mão.
A moeda pesava na palma da minha mão. Um disco de prata fria que parecia sugar o calor da pele. O brilho não era lunar ou puro. Tinha um reflexo baço, como se guardasse dentro de si o fumo de um abismo. Diante de mim, a figura desvaneceu-se nas sombras, mas o seu sorriso permaneceu gravado no ar, como um sorriso de quem conhece o preço exato da integridade humana.
Era o pagamento. O metal reluzente era o selo de uma traição que ainda ecoa na minha consciência. Ao fechar os dedos sobre a prata, senti o magnetismo do pecado, a promessa de poder, o conforto da recompensa, o sussurro sedutor de que "todos têm um preço". Era a tentação personificada, um convite para abandonar a luz e abraçar a conveniência das trevas.

No entanto, no centro do meu peito, sinto um nó apertado. O dilema de uma chama que me queima o espírito. De um lado, a prata oferece a ilusão de um caminho fácil. Do outro, a retidão exige o sacrifício desse brilho maldito.
Sinto em mim, a encruzilhada do limiar entre o homem que eu era e a sombra que o demónio quer que eu me torne. A moeda não é apenas dinheiro, mas o peso da minha própria alma em julgamento.
Em todo o caso, sonho ou mensagem, mais vale não brincar com o fogo, do inferno.

"...prostrou-se com o rosto em terra e orou: "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres"."
Mateus 26:39

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Politicamente (In)Correcto

Encontramo-nos em tempos de vida social, onde impera o politicamente correcto. Onde qualquer palavra ou gesto ofende.
Aqui vai algo encontrado algures e copiado.
Ainda que possa passar uma imagem preconceituosa de mim. Mas torna-se viciosamente irritante, tanta correcção.


"Antigamete na escola e na vida

Havia os ... ‘burros’ ... ‘gordos’ ... ‘caixa de óculos’ ... ‘sem sal’ ... ‘pretos’ ... ‘chineses’ ... ‘indianos’ ... ‘artolas’ ... ‘maricas’ ... etc.

Os ‘burros’ chumbavam! 

Não se tornavam doutores como hoje em dia.

Mas a fasquia era definida pelo marrão da turma!

Não era nivelada por baixo como agora. 

Somos todos iguais ... diz-se!!

Antes não parecia que fossemos!

Mas o ‘gordo’ também tinha notas brutais e ninguém sabia como! 

Talvez porque não jogasse à bola!

O ‘caixa de óculos’ tinha um sentido de humor inigualável mas não fazia corridas pois tinha medo de cair!

O ‘preto’ jogava à bola como ninguém e fazia umas fintas inimagináveis! Tinha um físico fora do comum!

O ‘chinês’ tinha vindo de outra escola, sabia à brava inglês, e tinha histórias que não lembravam a ninguém.

Cada um tinha um «defeito», até uma alcunha!

Mas tinha ou lutava por ter também outras qualidades.

Hoje não...!!

Dizem que somos todos iguais. 

Agora, tudo ou é bullying ... ou racismo ... ou xenofobia ... ou opressão ... ou assédio ... ou violência ... ou o caralho...! 

Antigamente, quando se era mesmo racista, levava-se um "chapadão" na tromba e aprendia-se logo que o ‘preto’ era como todos os outros, um de nós!

Apenas tinha cor diferente. 

E não era bullying! Era ‘aprendizagem on job’. 

Aprender assim era duro pois dói e não se esquece mais.

E às vezes em casa com os pais também se ‘aprendia’.

O menino ou menina ‘sem sal’ passava despercebido(a) e sentia-se sozinho(a). 

Ter uma alcunha diferente era fixe. 

A diferença era vista com bons olhos.

E aprendia-se uma coisa importante, rirmos de nós próprios. 

E não "chorarmos" porque alguém nos chamou isto ou aquilo. 

Assumia-se a gordura ... o ‘esquelético’ ... a ‘caixa de óculos’... e tudo o mais que viesse.

Mas quando não se estava bem, quando não se gostava da alcunha, fazia-se uma coisa importante. Mudava-se, lutava-se por acabar com ela.

Não se culpava os outros nem a sociedade. 

Não se faziam ‘queixinhas’!

E falhava-se ... Muitas vezes! 

Mas cada vez que se falhava ficava-se mais forte.

E sabíamos que era assim. Que havia uns que conseguiam, outros ficavam para trás, que havia quem vencia e quem falhava.

Agora não. Todos somos iguais.

Todos somos bons ... todos merecemos ... todos temos as mesmas oportunidades ... todos devemos até ganhar o mesmo ... todos somos vítimas ... todos somos oprimidos ... e todos somos parvos … porque aceitamos este ambiente do ‘politicamente correcto’ sem dizer nada… e até devemos dizer que somos ‘normais’.


Segundo o novo paradigma social, devem ter muito cuidado comigo, porque:

- Sou velho ou quase... tenho mais de 45 anos... e quando chegar à reforma, se chegar a tê-la, o que vai fazer de mim um tolo... improdutivo... que gasta estupidamente os recursos do Estado;

- Nasci branco, o que me torna racista;

- Não voto na esquerda radical, o que me torna fascista;

- Sou hetero, o que me torna um homofóbico;

- Possuo casa própria, o que me torna um proprietário rico (ou talvez mesmo um latifundiário);

- Gosto de comer borrego... o que me torna um abusador de animais;

- Sou cristão e, embora pouco praticante, sou um infiel aos olhos de milhões de muçulmanos;

- Não concordo com tudo o que o Governo faz, o que me torna um reaccionário;

- Gosto de ver mulheres bonitas bem vestidas (ou despidas), ou super decotadas, o que me torna um tipo capaz de assediar;

- Valorizo a minha identidade portuguesa e a minha cultura europeia e ocidental, o que me torna um xenófobo;

- Gostaria de viver em segurança e ver os infractores na prisão, o que me torna um desrespeitador dos direitos "fundamentais" protegidos;

- Conduzo um carro a diesel, o que me torna um poluidor, contribuindo para o aumento de CO2;

Apesar de estes defeitos todos, acho que ainda sou feliz… era mais antes… mas mesmo assim... considero-me um ‘gajo normal’!!"

Ser sociedade é saber reconhecer as diferenças e conviver com elas, não eliminá-las

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Potencial

Não sei em que acreditas. Às vezes também não sei em que acredito.
Mas, quantas vezes temos essa sensação, de que tudo acontece na altura e no momento certo.

Não há qualquer novidade aqui. No início tudo parece extremamente romântico. Uma crescente ânsia em estar, em ser memória constante nos pensamentos de outra pessoa.
Depois retorna o normal e rotineiro. 
Por isso é necessário renovar, reinventar, num contínuo diálogo sobre qual a nossa vontade maior.
Diálogo e Verdade. Sem medos ou pudores.

Sou para ti uma lembrança, uma recordação de que tens valor. De que mereces ser feliz, apreciada, amada, querida pelo que és interiormente. 
Ter a noção de que é um privilégio ter-te ao lado. Ter e ser pertença de alguém com a qual se construíu uma vida em conjunto, que deve reconhecer o que és, como és, o potencial enorme que tens.
É lembrar-te sempre do amor que deves ter por ti em primeiro lugar, para o que o possas partilhar sem medida com os teus. 

Serei só isso. Um catalisador do reconhecimento que deves rever em ti.
Uma face alegre, que faz do humor um escudo e uma arma, para fazer sorrir, rir à gargalhada que seja, para que nesse momento esqueças o que a vida pode trazer de menos bom e enfrentares o futuro com optimismo.


"Posso nunca vir a sentir o teu toque, mas continuarei a beijar-te nos meus sonhos mais secretos"

terça-feira, fevereiro 17, 2026

Até onde nos permitiríamos ir?

São tantas as perguntas, tantas as dúvidas que surgem na minha mente... talvez seja por esse motivo. A mente, mente... inventa constantemente cenários impossíveis, inverosímeis, pouco realistas.

Até onde nos permitiríamos ir? Até onde poderia ir, uma qualquer loucura, onde nos entregássemos mutuamente ao desejo, a essa luxúria, esquecendo quase por completo a vida que nos rodeia. Seria possível?

Mas a insegurança e a cautela, diz-me que é tudo fruto da minha cabeça, nessa ilusão quase psicótica em que pareço viver permanentemente. E pelo dever de respeito, a ti, que tens uma vida própria, uma família a que ainda pertences. E pelo respeito aos meus, inocentes crianças, que ignoram o estado miserável em que vivo em união. Negligenciado em afeto e atenção, em modo automático de dona de casa, gestor de finanças e taxista.

...a vida fosse diferente?

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Crise de meia-idade

Deixara (de novo) de expor aqui as minhas inquietudes. Tinha retomado o diálogo mútuo que elimina a necessidade de me auto confrontar com questões interiores que me atormentam, que criam angústia e dilema. Mas o silêncio em que a vida de casal, que tantas vezes se sobrepõe ao ruído do dia-a-dia, fizeram-me regressar ao cantinho, confuso e confabulante do meu eu.


Tenho refletido sobre a meia-idade onde, sem qualquer dúvida me encontro. Esse período de transição, que nos confronta com a finitude da vida, o envelhecimento físico e psicológico, com a necessidade de reavaliação e revalidação constante profissional e dos relacionamentos, tal como uma nova adolescência, só que na vida adulta.

E se de todas as mudanças, que causam, por um lado, insatisfação, tristeza, arrependimento, por outro, comportamentos joviais, expansivos, é o narcisismo que gera essa luta ética e moral interior que confunde e baralha.

Essa vontade estranha de nos sentirmos aceites, bajulados, apreciados, mesmo a nível físico, como se lutássemos contra o efeito irreversível do tempo no rosto e no corpo. Como sentíssemos a vontade de seduzir e nos sentirmos seduzidos, recusando ficar de parte, ao lado de uma vida efemeramente alegre.

E surge o conflito, com os valores de correção, respeito, lealdade e até dignidade própria que acaba por se perder nessa tentativa do constante "look at me".

E é nessa metanoia, que deve imperar o controlo de emoções, que parecem, em relação a valores e motivos maiores, banais, superficiais e fugazes.

Não pode haver felicidade, se com o nosso comportamento estamos a privar a felicidade de outros. A liberdade que julgamos ter em nós de mudar, não pode criar dor nas pessoas que são alvo de um qualquer devaneio pessoal de sedução, bem-estar ou aceitação.