terça-feira, abril 28, 2026

Sem vírgulas

Não sei o que esperas. Porque não fazes um pouco de esforço para que aconteça. Seria o tempo perfeito, que com tempo te poderia dar. Mesmo não sendo o momento para se viver numa plenitude, alimentaria a vontade de estar contigo.

A vida, por vezes, desenha uma estrada de desencontros, onde um lado estende a mão e o outro aperfeiçoa a arte da esquiva. Questiono-me, no silêncio do que só é escrito, o que realmente esperas enquanto observas, de longe, o esforço de quem tenta fazer o destino acontecer.
Sou, por natureza e condenação, um overthinker. Analiso cada silêncio, cada passo atrás, cada via de fuga que engenhosamente constróis para impedir o contacto físico. Parece haver um receio latente de que a realidade confirme o que as palavras professam desejar. Dizes que queres, mas o teu corpo executa uma movimentação programada para a ausência, um bailado de sombras que evita o toque.
Talvez o medo seja o de descobrir que o desejo, uma vez realizado, perde o mistério. Ou talvez seja apenas o conforto da distância. Perante a ausência, vejo-me obrigado a domesticar a minha própria obscuridade. Talvez seja necessário um controlo de todas estas pulsões, um freio nos desejos sombrios de te ter e de estar dentro de ti.
Chegou o momento em que a ética do afeto exige rigor. Aprendi que insistir no erro é prolongar a agonia da incerteza. Por isso, decidi que é o momento de evitar usar vírgulas em histórias e pessoas onde a vida já ditou pontos finais. É o instante de lucidez, de assumir a consciência plena e, finalmente, refutar o imoral animalesco que me consome sem nada construir.
Se a entrega não é mútua, que o silêncio seja, então, a minha última palavra.
Entre as vírgulas do teu desejo dito e a tua fuga programada, escolho o silêncio do ponto final.

Sem comentários: