quarta-feira, abril 22, 2026

Consentimento

Nos últimos dias tem-se falado muito sobre consentimento.

No domínio do encontro, onde dois corpos se buscam e duas vontades se cruzam, a palavra é a bússola que impede o naufrágio. Com o debate gerado, temos aprendido a dar nome às sombras e a iluminar os silêncios que, durante séculos, foram erroneamente interpretados como permissão. O consentimento não é uma névoa, é a arquitetura da dignidade humana.

Um "sim" é uma aurora. É o momento em que a vontade se torna transparente, sem arestas ou recuos, como a lucidez de água límpida. É o encontro pleno.
Contudo, é no território dos "nins", essa zona cinzenta de hesitação, de silêncios pesados ou de sorrisos contidos, que a ética se põe à prova. O "nim" não é um convite à insistência, é, na sua essência mais prudente, um "não" que ainda não encontrou fôlego para ser dito ou que espera ser respeitado pela intuição do outro.
Aceitar um "não", seja ele proferido com a dureza do metal ou com a fragilidade de um sussurro, é o maior ato de elegância e humanidade que um indivíduo pode exercer. Recuar perante o limite alheio não é uma derrota do desejo, mas uma vitória do caráter. É saber que o outro não é um território a ser conquistado, mas um universo soberano cuja fronteira termina onde começa a sua vontade.
Quem desrespeita o limite, quem ignora a pausa ou força a passagem, não busca o prazer, mas o domínio. Violar o "não" é estilhaçar o espelho da liberdade alheia.
A verdadeira serenidade reside na capacidade de, ao encontrar a porta fechada, saber retirar-se com a mesma integridade com que se aproximou. Porque, no banquete dos afetos, só é legítimo o que é partilhado em liberdade absoluta. Tudo o resto é apenas o eco vazio de uma solidão que se impõe.
E impor, não faz parte do que sou.
Um Sim é claro... tudo o resto é um Não.

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