segunda-feira, setembro 28, 2026

Elogios

Recorrentemente ouço pessoas a elogiar a forma de ser e estar dos meus filhos, sobretudo do mais velho. Um jovem, que reconheço ter uma personalidade gentil e de elevado sentido de compromisso pelas causas que abraça.

É um sentimento estranho vê-lo a ser gabado e costumo dizer em jeito de gracejo, que desconheço a filiação genética de tais atributos, que ao pai não sairá de certo.

E como resposta, hoje ouvi uma expressão que me desarmou.


"Quando a raíz é forte, a árvore só pode dar bons frutos".


De facto a semente cai à terra sem manual de instruções, e o jardineiro, na sua humilde ignorância, passa os dias a questionar se o solo que oferece é suficiente. Olho para as minhas próprias imperfeições, as arestas por limar, as falhas de que sinto culpa e, por um mecanismo de defesa, sacudo de mim a possibilidade de ser parte do milagre.

Mas o mundo assiste, atento, ao crescimento da árvore. Vê o jovem que se ergue com a gentileza desenhada nos gestos e o compromisso firme gravado em si.

E quando o mundo o elogia, o coração estranha, porque a proximidade esconde o sagrado, o quotidiano cega-me para a beleza da obra que ajudei a erguer.

É preciso o olhar alheio, condensado numa frase, para desarmar as defesas do sangue. A raiz não é apenas a genética, é a presença constante e disponível, o exemplo invisível, o afeto dado nos dias cinzentos e a firmeza nos momentos de tempestade. O fruto não nasce bom por mero acaso ou capricho do vento, é o resultado silencioso de uma seiva que corre subterrânea, alimentada por um amor que, mesmo sem saber, soube ser fundação.


Olhar para o meu filho é aceitar a árvore que dá bons frutos, porque a raíz, desde o primeiro dia, sustentou o mundo para que ele pudesse florescer.

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