Basta ver-te por breves momentos e a minha mente fica nesse turbilhão de pensamentos, do conflito entre a contenção e a entrega, entre o claustro do silêncio e o palco da palavra nua.
Ontem fiquei a pensar nessa máscara de virtude que coloco, de uma moralidade cinzenta na contenção, uma espécie de santidade artificial que visto como um casaco pesado em dias de inverno.
Durante anos, recolher-me numa introversão exagerada foi o meu escudo, o silêncio não era apenas ausência de som, era um tribunal privado onde cada desejo, antes de se fazer carne ou palavra, era julgado, condenado e sepultado na masmorra da timidez. Essa reclusão do eu tinha o seu próprio conforto de quem nada expõe, nada arrisca ver profanado. E durante tanto tempo sentia que a introversão levada ao extremo me asfixiava, me transformava a mente num cemitério de impulsos vivos, onde a aparência social servia de lápide a uma identidade que reclama o direito de respirar.
E agora, sinto que a ruptura da barreira de contenção surge com a força devastadora de uma represa que cede. A exposição excessiva neste súbito atrevimento que rasga as linhas da escrita, quase que assume os contornos de uma heresia. Será tamanha desinibição o prenúncio de um surto ou os primeiros sintomas de uma demência frontotemporal? O medo de perder o controlo, de ver o juízo libertar-se das amarras daquilo que é socialmente aceitável, expor o desejo, confessar a nudez do corpo que se procura na solidão e partilhar o clímax nascido de uma "ilusão deliciosa" é um ato de profanação do sagrado espaço íntimo. Torna-se um pecado de excesso, onde o exibicionismo ameaça transformar a catarse em vulgaridade.
A moral fixa-se, portanto, nesta encruzilhada da alma. Se a introversão exagerada nos desumaniza pela repressão, transformando-nos em espectadores apáticos da nossa própria existência, a exposição sem filtros ameaça dissolver as fronteiras do pudor, deixando-nos vulneráveis ao escrutínio e ao julgamento alheio. A masturbação mental e física na solidão, quando transposta para palavras oferecidas ao "leitor assíduo", deixa de ser um segredo interior pacificador para se tornar numa provocação pública, num convite a um voyeurismo partilhado.
Talvez a verdadeira moralidade não resida na escolha de um dos extremos, mas na coragem de conseguir habitar na tensão entre ambos. Escrever em linhas tortas é, afinal, o preço que se paga para resgatar a verdade do meu ser, algures entre o silêncio que me protege e o grito que me liberta.
Vivo entre a máscara da virtude e a vertigem de um abismo.

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