domingo, fevereiro 22, 2026

30 dinheiros

Não me é muito habitual que um sonho me marque tanto.

Em criança, era-me recorrente sonhar com queda de um terceiro andar onde vivia, e como se de um looping se tratasse, subia de novo as escadas para voltar a saltar. Sem dano, sem consequências. Só o salto. Nunca tentei perceber o porquê deste sonho, mas ainda hoje me recordo dos seus pormenores.

Esta noite, num pequeno intervalo de descanso, de mais uma noite de trabalho, voltei a ter um sonho que me despertou e que ainda agora, de olhos bem abertos, me atormenta.
No meio de uma confusão de sentimentos, que me pareciam bastante reais, de uma experiência de flirt a uma figura feminina, eis que vejo uma figura de aspecto tenebroso, que me coloca uma moeda de prata na mão.
A moeda pesava na palma da minha mão. Um disco de prata fria que parecia sugar o calor da pele. O brilho não era lunar ou puro. Tinha um reflexo baço, como se guardasse dentro de si o fumo de um abismo. Diante de mim, a figura desvaneceu-se nas sombras, mas o seu sorriso permaneceu gravado no ar, como um sorriso de quem conhece o preço exato da integridade humana.
Era o pagamento. O metal reluzente era o selo de uma traição que ainda ecoa na minha consciência. Ao fechar os dedos sobre a prata, senti o magnetismo do pecado, a promessa de poder, o conforto da recompensa, o sussurro sedutor de que "todos têm um preço". Era a tentação personificada, um convite para abandonar a luz e abraçar a conveniência das trevas.

No entanto, no centro do meu peito, sinto um nó apertado. O dilema de uma chama que me queima o espírito. De um lado, a prata oferece a ilusão de um caminho fácil. Do outro, a retidão exige o sacrifício desse brilho maldito.
Sinto em mim, a encruzilhada do limiar entre o homem que eu era e a sombra que o demónio quer que eu me torne. A moeda não é apenas dinheiro, mas o peso da minha própria alma em julgamento.
Em todo o caso, sonho ou mensagem, mais vale não brincar com o fogo, do inferno.

"...prostrou-se com o rosto em terra e orou: "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres"."
Mateus 26:39

1 comentário:

Sebastião da Graça; Rodrigo Pais disse...

Curiosamente do Evangelho de hoje:
"Evangelho segundo São Mateus 4,1-11

1 Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo.
2 Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.
3 O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães».
4 Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: "Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus"».
5 Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do Templo
6 e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: "Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra"».
7 Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: "Não tentarás o Senhor, teu Deus"».
8 De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória
9 e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».
10 Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: "Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto"».
11 Então o Diabo deixou-O, e aproximaram-se os Anjos e serviram-no."